Se você frequenta academias ou acompanha o mundo do fisiculturismo, já ouviu falar da Trembolona. Frequentemente tratada como o "Santo Graal" para ganhos secos e densos, ela carrega uma fama obscura. Recentemente, figuras icônicas do cenário nacional, como Léo Stronda e Renato Cariani, emitiram alertas severos sobre esta substância.
Mas o que a ciência diz? Surpreendentemente, os estudos mais profundos confirmam o que a prática revelou: a trembolona é uma das drogas mais perigosas para o cérebro humano.
1. "Não é feita para humanos": A Origem Veterinária
Léo Stronda foi enfático em seu relato: a trembolona "foi erradicada da humanidade" e o que existe hoje é de origem animal ou "underground" (mercado negro). Ele está correto.
A 17β-Trembolona é um esteroide anabolizante sintético originalmente desenvolvido e aprovado para uso veterinário, especificamente para aumentar a massa muscular e o apetite em gado antes do abate. Diferente da testosterona, que possui uso clínico em humanos, a trembolona não é aprovada para uso humano, e a maior parte do que circula em academias é desviada da pecuária (como o Finaplix) ou fabricada em laboratórios clandestinos sem controle sanitário.
2. O Cérebro em Colapso: "Você perde a razão"
O ponto mais assustador do relato de Stronda é sobre a saúde mental. Ele descreve uma irritabilidade extrema, depressão, síndrome do pânico e pensamentos suicidas, afirmando que a droga "destrói neurônios" e faz você "perder a razão".
A ciência confirma essa neurotoxicidade com dados alarmantes:
Morte Neuronal: Estudos in vitro e em animais mostram que a trembolona é tóxica para os neurônios, reduzindo a viabilidade celular e induzindo apoptose (morte celular) de forma mais agressiva que a testosterona ou o stanozolol.
Neurodegeneração: A trembolona interfere no desenvolvimento dos neurônios (crescimento de neuritos) e afeta a função mitocondrial, sugerindo um potencial para causar doenças neurodegenerativas a longo prazo, como Alzheimer precoce.
Alterações Estruturais no Cérebro: O uso crônico de esteroides em doses suprafisiológicas está ligado ao aumento da amígdala (região ligada à agressividade e medo) e à atrofia do córtex pré-frontal (região responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisão).
Basicamente, a droga pode remodelar seu cérebro para torná-lo mais agressivo e menos capaz de controlar essa agressividade.
3. A Química da "Roid Rage" e Depressão
Renato Cariani e Léo Stronda discutem como a droga "zoa a cabeça". Bioquimicamente, a trembolona altera os sistemas de neurotransmissores fundamentais:
Dopamina e Serotonina: O uso prolongado altera a sinalização de dopamina (recompensa) e serotonina (humor), o que pode levar a quadros de anedonia (incapacidade de sentir prazer) e depressão profunda, especialmente durante a abstinência.
Agressividade: A famosa "roid rage" (fúria de esteroide) não é mito. A trembolona atua no hipotálamo e na amígdala, aumentando a reatividade a ameaças e comportamentos violentos.
4. O Mito do "Secar" e a Tosse da Morte
Muitos buscam a trembolona porque ela "seca". De fato, ela não se converte em estrogênio (não aromatiza), o que evita a retenção de líquido comum em outros esteroides. No entanto, Léo Stronda alerta que não existe "hormônio para secar", todos são anabólicos.
Além disso, os usuários enfrentam a infame "Tosse de Trembo" (Tren Cough). Trata-se de uma crise de tosse violenta e sensação de morte logo após a injeção. A ciência explica que isso ocorre quando pequenas quantidades de óleo entram na corrente sanguínea, viajando para os pulmões e desencadeando uma reação inflamatória via prostaglandinas e bradicinina, causando constrição bronquial aguda.
5. O Paradigma Profissional vs. Amador
Renato Cariani traz um contexto crucial: 90% dos atletas de fisiculturismo utilizam, mas de forma estratégica.
Uso Agudo vs. Crônico: O atleta profissional experiente usa a trembolona apenas nas últimas 4 a 8 semanas antes de uma competição, pois sabe que o uso prolongado é insustentável para a saúde mental.
O Erro do Amador: O perigo reside no amador que usa a droga por meses a fio ("blast and cruise"), ignorando que ela suprime severamente o eixo hormonal (HPT), podendo causar infertilidade e dependência química e psicológica.
6. O "Esteroide Vampiro"
Um dado curioso e assustador da pesquisa ambiental: a trembolona é tão resiliente que seus metabólitos excretados podem se regenerar na ausência de luz. Cientistas a apelidaram de "esteroide vampiro", pois ela se degrada na luz, mas se reconstrói no escuro, contaminando a água e afetando o sistema endócrino da vida selvagem. Se ela resiste assim no ambiente, imagine o impacto cumulativo no seu organismo.
Conclusão
A trembolona oferece uma troca faustiana: um físico estético a curto prazo em troca de sua saúde mental e neurológica a longo prazo. Como resumiu Léo Stronda: "Não tomem. A trembolona faz você perder a razão".
Se você não é um atleta profissional prestes a subir no palco do Mr. Olympia, o risco de danos cerebrais permanentes, agressividade descontrolada e depressão severa não vale o resultado estético.
Isenção de responsabilidade: Este artigo tem fins informativos e baseia-se em relatos e pesquisas científicas. O uso de esteroides anabolizantes sem prescrição médica é ilegal e perigoso.
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