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Cláudio Chamini

Colaborador
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  1. Respondendo à pergunta do título, seis ovos por dia está certo para a maioria das pessoas saudáveis, e vale corrigir a recomendação de descartar as gemas, que era o consenso da época e não é mais. Sobre a gema, existe um estudo que resolveu bem essa dúvida. Comparando ovo inteiro com clara de ovo, com a mesma quantidade de proteína, o ovo inteiro produziu resposta de síntese proteica maior depois do treino. Ou seja, a gema não é apenas inofensiva, ela parece contribuir. A explicação provável envolve a gordura, as vitaminas e outros compostos presentes ali, e não apenas a proteína. E vale lembrar o que se joga fora ao descartar a gema. Praticamente toda a vitamina A, D, E, K, o ferro, o zinco, o folato, a colina e a luteína do ovo estão nela. A clara é basicamente proteína e água. Sobre o colesterol, que era o motivo original do medo. O colesterol da dieta tem efeito modesto sobre o colesterol do sangue na maior parte das pessoas, porque o fígado ajusta a própria produção conforme a ingestão. Por isso as recomendações que limitavam colesterol alimentar a um número fixo por dia foram abandonadas. Existem exceções individuais, ou seja, pessoas que respondem mais à ingestão, e quem tem colesterol alto, diabetes ou doença cardiovascular deve acompanhar com exame e conversar com o médico em vez de seguir uma regra geral. O jeito de saber é simples, ou seja, dosar o perfil lipídico antes e alguns meses depois de aumentar o consumo. Sobre a orientação de nunca comer ovo cru, ela está certa e por dois motivos além da salmonela, que já é razão suficiente. O primeiro é que a proteína crua é bem menos aproveitada, com absorção em torno da metade da do ovo cozido, porque o calor desnatura a proteína e facilita a ação das enzimas digestivas. O segundo é a avidina, presente na clara crua, que se liga à biotina e impede a absorção dela, e que é inativada pelo cozimento. Ou seja, ovo cru entrega menos proteína e ainda atrapalha uma vitamina. Uma observação prática sobre a pergunta de horário. Não existe hora certa para o ovo. O que a literatura sugere é distribuir a proteína ao longo do dia, em torno de vinte a quarenta gramas por refeição, em três a cinco refeições. Seis ovos dão cerca de trinta e seis gramas de proteína no total, então concentrar todos em uma refeição só aproveita menos do que dividir. E, para calibrar a expectativa, seis ovos somam algo em torno de quatrocentas e cinquenta calorias e trinta e seis gramas de proteína. É um bom alimento, é barato e é prático, mas está longe de dar conta sozinho da proteína de quem treina. Alguém com setenta quilos precisa de algo entre cento e doze e cento e quarenta gramas de proteína por dia, ou seja, o ovo entra como parte, e o @pedrolopes665 acertou ao dizer que não é só com ovo que se cresce e ao encaminhar para a alimentação do dia inteiro.
  2.    Cláudio Chamini reacted to uma postagem em um tópico: Comer 6 ovos por dia tá certo?
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  5. Esse tópico merece uma resposta cuidadosa, porque é um dos poucos casos em que a recomendação padrão do fórum não se aplica, e porque o conselho mais tranquilizador que ele recebeu aqui é justamente o que eu não seguiria. A nefropatia por IgA é a glomerulonefrite primária mais comum, e o quadro descrito é o clássico dela, ou seja, sangue na urina aparecendo junto com infecção de garganta. O curso é muito variável. Boa parte das pessoas segue com função renal estável por décadas, e por isso o médico disse que não havia gravidade nem necessidade de tratamento naquele momento. Mas uma parcela evolui para perda progressiva de função ao longo de anos, e é por isso que existe acompanhamento. Ou seja, a doença é leve hoje, e não é uma doença resolvida. Isso muda a leitura de duas afirmações feitas aqui. A primeira é a de que o médico seria exagerado e que médicos odeiam suplemento. Nesse caso específico, a orientação dele tem base. Ingestão elevada de proteína aumenta a filtração glomerular, ou seja, faz o rim trabalhar em regime mais alto, e em rim com glomérulo já doente essa é uma preocupação legítima. Restrição não é a mesma coisa que proibição, e o ponto prático é que a quantidade de proteína dele deveria ser definida pelo nefrologista, e não pela nutricionista esportiva sozinha nem pelo fórum. A segunda é a de que a creatina não alteraria nada. Aqui é preciso ser honesto sobre o que se sabe. Em pessoas com rins saudáveis, a creatina não causa lesão renal, e isso está bem estabelecido. O problema é que ela praticamente não foi estudada em quem já tem doença glomerular, e ausência de estudo não é evidência de segurança. Existe ainda uma complicação prática que ninguém mencionou e que é decisiva no caso dele. A creatina eleva a creatinina do sangue, que é justamente o exame usado para acompanhar a função renal. Ou seja, tomar creatina embaralha o principal parâmetro de monitoramento de uma doença que só é controlada por monitoramento. Só por isso já não vale a pena. Sobre a sugestão de trocar por vasodilatadores à base de arginina, ela não resolve nada. O efeito deles sobre hipertrofia é pequeno ou inexistente, o custo é alto, e a suposição de que não teriam relação com o rim é apenas suposição. Agora a parte boa, e ela é maior do que parece. Nada disso impede que ele ganhe massa. O @ninga deu a resposta certa. Quem ganha músculo é superávit calórico, treino com progressão de carga e sono, e nenhum desses depende de suplemento. Proteína dentro do limite que o nefrologista definir, distribuída ao longo do dia, com o restante das calorias vindo de carboidrato e gordura de boa qualidade, sustenta ganho de massa perfeitamente bem. O que ele precisa evitar é a estratégia comum de empurrar proteína para muito acima do necessário, que não traz ganho adicional nem em quem tem rim saudável. Três cuidados que valem mais que qualquer suplemento no caso dele. Evitar anti inflamatórios, que é o item mais importante e o mais fácil de esquecer, porque quem treina toma por dor com frequência e essa classe de remédio é reconhecidamente lesiva ao rim. Controlar a pressão arterial, que é o principal fator modificável na progressão da doença. E manter o exame de proteína na urina em dia, porque proteinúria é o marcador que mais prediz evolução, e o acompanhamento pode precisar ser mais frequente do que a cada dois anos se ele passar a treinar pesado e mudar a alimentação. E vale conversar abertamente com o nefrologista sobre o objetivo. Contar que treina, que quer ganhar massa e perguntar qual é o teto de proteína e se cabe creatina no caso dele é bem melhor do que decidir por conta própria. Médico que sabe o que o paciente quer costuma encontrar um meio termo. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  6.    Cláudio Chamini reacted to uma postagem em um tópico: Nefropatia Por Iga X Suplementação
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  13. A pergunta original era direta, ou seja, se o metilfenidato atrapalha o ganho de massa, e vale respondê la separando o que se sabe do que se supõe. Sobre efeito direto no músculo, não há. Metilfenidato não é anabólico nem catabólico, não age no receptor androgênico e não interfere na síntese proteica. Ou seja, ele não tira nem acrescenta massa por ação própria. Os efeitos relevantes são indiretos, e são três. O primeiro, e é o mais importante, é a redução do apetite, que o @Danieldofdb mencionou corretamente. É um efeito comum e frequentemente subestimado. Quem está tentando ganhar massa precisa de superávit calórico, e um remédio que reduz a fome torna isso mais difícil. Esse é o ponto real de atenção para quem quer crescer. A solução prática é planejar as refeições por horário e não por vontade de comer, concentrar comida no período em que o efeito está menor, ou seja, geralmente no fim da tarde e à noite, e usar alimentos calóricos e de volume pequeno, como azeite, pasta de amendoim, aveia, leite integral e shakes. Quem fizer isso não perde nada em ganho de massa. O segundo é o efeito no sono. O estimulante pode atrasar o adormecer e reduzir a qualidade do sono quando tomado tarde, e sono ruim prejudica recuperação, força e apetite. Ajustar o horário da última dose com o médico costuma resolver. O terceiro é cardiovascular. Metilfenidato eleva frequência cardíaca em repouso, tipicamente algo em torno de cinco a dez batimentos, e eleva também a pressão arterial. Estudos em população geral mostram um aumento pequeno de eventos cardiovasculares em usuários, e as sociedades médicas não consideram isso motivo para contraindicar exercício em quem não tem doença cardíaca prévia. Ainda assim, é motivo para três cuidados. Quem tem hipertensão, arritmia ou cardiopatia precisa que o médico saiba dos dois lados, ou seja, do remédio e do treino intenso. Não vale somar metilfenidato com pré treino cheio de cafeína ou com termogênico, porque os efeitos se somam. E como estimulantes tendem a mascarar o cansaço e reduzir a percepção de sede, vale prestar atenção à hidratação, principalmente em treino longo e em ambiente quente. Um ponto que merece ser dito com clareza. O quadro que motivou a pergunta era de alguém com transtorno de déficit de atenção que havia interrompido o tratamento e estava pensando em retomar. Nesse caso, tratar é o certo, e o benefício em qualidade de vida, estudo e trabalho é bem maior do que qualquer ajuste de dieta que o remédio exija. E, como observaram aqui, um treino mais focado tende a ser um treino melhor executado. O ajuste é na comida, não no tratamento. Um alerta sobre o uso sem indicação, que é o caminho que esse tipo de tópico costuma tomar. Metilfenidato é medicamento de controle especial e não é recurso de treino nem termogênico. Em quem não tem o transtorno, o ganho de foco é modesto e o risco de dependência, ansiedade e insônia é real. E vale dizer que o efeito de supressão do apetite não é uma forma segura de emagrecer. Uma última observação sobre o aniracetam citado no fim do tópico. Ele não é aprovado como medicamento no Brasil, é vendido por sites sem controle de qualidade, não tem evidência consistente de benefício cognitivo em pessoas saudáveis e não substitui tratamento de déficit de atenção. Trocar um medicamento com prescrição e acompanhamento por um produto comprado na internet é uma troca ruim, mesmo quando a experiência pessoal com o primeiro tenha sido desagradável. Efeito adverso de metilfenidato, incluindo irritabilidade, é motivo para conversar com o médico sobre dose ou sobre outra medicação, e existem alternativas. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  14. As perguntas feitas no início do tópico, sobre quais exercícios são proibidos e quais são indicados, ficaram sem resposta objetiva, e o @zagolee fez muito bem em apontar a contradição do texto colado. Ele lista hereditariedade, gravidez, obesidade, tabagismo, alterações hormonais e sedentarismo como causas principais, e ao mesmo tempo afirma que a verdadeira causa seria a prática incorreta de exercício. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo. A informação correta é a primeira. Varize é doença da parede da veia e das válvulas que existem dentro dela, e a genética é de longe o fator mais importante. Depois vêm gravidez, idade, obesidade, tempo em pé parado e fatores hormonais. Musculação não está nessa lista como causa. Na verdade, o efeito predominante do treino é o contrário. A panturrilha funciona como uma bomba, e a contração muscular é o que empurra o sangue venoso de volta para o coração, contra a gravidade. Fortalecer perna e panturrilha melhora esse retorno, reduz inchaço no fim do dia e alivia sintomas de quem já tem insuficiência venosa. Ou seja, quem tem varize deveria treinar, e não evitar treinar. Existe, porém, um ponto real de cuidado, e ele foi tocado no texto ainda que de forma confusa. É a manobra de Valsalva, ou seja, prender a respiração e fazer força com o abdome contraído durante o esforço. Isso eleva bastante a pressão dentro do abdome e do tórax e cria um represamento transitório no sistema venoso das pernas. Em quem já tem válvulas doentes, o esforço máximo repetido com respiração presa é o que gera desconforto e sensação de peso. Aqui é preciso ser honesto com a informação. Não existe demonstração de que treino de força cause varizes em quem não tem predisposição, e a manobra de Valsalva, feita corretamente, é justamente o que protege a coluna em cargas altas. Ou seja, ela não é para ser abolida, é para ser dosada. Traduzindo em recomendação prática para quem tem varizes. O que vale manter. Treino de pernas completo, com agachamento, leg press, avanço e principalmente panturrilha, que é a bomba principal. Caminhada, bicicleta e natação. Elevar as pernas no fim do dia. O que vale ajustar. Evitar tentativas de carga máxima com apneia prolongada, ou seja, aquelas séries de uma a três repetições em que se prende o ar por vários segundos. Trabalhar mais em séries de oito a quinze repetições, soltando o ar na parte de subida do movimento. Evitar ficar muito tempo em pé e parado entre as séries, caminhando um pouco no intervalo. E encerrar o treino de pernas com panturrilha e alguns minutos de caminhada leve, que ajuda a drenar. O que costuma ajudar mais do que qualquer ajuste de treino. Meia de compressão graduada, prescrita por médico com a pressão adequada, usada durante o dia e no treino por quem tem sintoma. Isso tem efeito real e é subutilizado. Controle de peso e parar de fumar entram na mesma lista. E vale dizer o que muda o encaminhamento. Varize com dor persistente, inchaço que não melhora com repouso, alteração da cor da pele no tornozelo, coceira ou ferida que não cicatriza precisa de angiologista, porque nesse ponto o assunto deixa de ser estético. Perna inchada de um lado só, com dor na panturrilha, calor e vermelhidão, é situação de urgência e merece avaliação imediata para descartar trombose. E quem for operar deve conversar sobre o retorno ao treino, que costuma ser progressivo e rápido. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  15. Esse tópico é de dois mil e cinco e a dúvida dele foi resolvida por completo desde então, então vale deixar a resposta registrada, porque a pergunta continua sendo feita. O horário da creatina não importa muito. O que importa é a constância. A razão é o mecanismo. A creatina não age no momento em que é ingerida, como um estimulante. Ela é estocada dentro da fibra muscular, na forma de fosfocreatina, e o efeito depende de o músculo estar saturado. Essa saturação leva dias a algumas semanas para se estabelecer com uso diário, e uma vez estabelecida ela se mantém enquanto houver ingestão regular. Ou seja, o que decide o resultado é tomar todos os dias, incluindo os dias sem treino, e não a que horas. Isso desmonta os três raciocínios que aparecem no tópico, e todos eles eram razoáveis para a época. A ideia de que tomar antes do treino não serviria porque ela seria usada durante o movimento em vez de estocada não procede. Não existe competição entre usar e estocar. O que é ingerido em um dia repõe o estoque, e o que é usado no treino vem do estoque que já estava lá, formado nos dias anteriores. A ideia de que tomar depois do treino faria o corpo queimar em vez de estocar também não. Creatina não é queimada como combustível, e o que se perde é a excreção diária, que é fixa e independe do horário. E a ideia de que a noite seria o melhor horário por causa da liberação de insulina e da recuperação durante o sono é engenhosa, mas não se traduz em resultado medido. A insulina de fato ajuda o transporte da creatina para dentro da célula, e é por isso que tomar junto com uma refeição que tenha carboidrato e proteína é uma escolha marginalmente melhor do que tomar em jejum. Só que esse é um ganho pequeno, e ele nada tem a ver com o horário ser noturno. Se for para escolher, a recomendação prática é simples. Tome junto de uma refeição, no horário que você tiver mais chance de não esquecer. Estudos que compararam tomar antes ou depois do treino encontram diferenças pequenas e inconsistentes, com uma leve preferência pelo período próximo ao treino em alguns trabalhos. Nada disso se compara em importância a simplesmente não pular dias. Uma correção importante sobre a rotina descrita por um dos participantes, de tomar apenas quatro vezes por semana, nos dias de treino, para o pote render mais. Isso é justamente o que impede a saturação. Nos dias sem creatina o estoque cai, e a pessoa passa meses sem nunca atingir o nível que produz o efeito. Se o objetivo é economizar, é melhor comprar menos vezes por ano do que tomar de forma intermitente, porque a versão intermitente não funciona. Sobre a dose, três a cinco gramas por dia resolvem para a maioria. A fase de saturação com vinte gramas por dia por cinco a sete dias apenas antecipa em algumas semanas o mesmo resultado, e é a que mais causa desconforto digestivo. E sobre a forma, a monoidratada continua sendo a mais estudada e a mais barata, e nenhuma das versões mais caras demonstrou superioridade sobre ela.
  16.    fisiculturismo reacted to uma postagem em um tópico: Creatina engorda? Aumentam as gorduras da barriga?
  17. A pergunta do título tem resposta clara, e ela vale a pena porque essa dúvida continua fazendo gente boa abandonar o suplemento com melhor evidência que existe. Creatina não engorda no sentido de aumentar gordura corporal. Ela não é convertida em gordura e não tem via metabólica para isso. Revisões dedicadas a desfazer equívocos sobre creatina concluem que ela não aumenta a massa de gordura, e alguns trabalhos apontam até redução de gordura quando ela é usada junto com treino de força, provavelmente por permitir mais volume de trabalho. O que ela faz e explica o aumento de peso na balança. A creatina é estocada dentro da fibra muscular e traz água junto, ou seja, o aumento de água é intracelular, dentro do músculo. Isso é diferente de retenção subcutânea, que é a água entre a pele e o músculo e é a que dá aspecto inchado. Estudos de curta duração, feitos nos primeiros dias com doses de saturação altas, mostraram aumento de água corporal, mas trabalhos de cinco a dez semanas não encontram aumento da água corporal total. Ou seja, o efeito de retenção é inicial e passageiro. Então, sobre o relato que abriu o tópico, de gordura aumentando na barriga e nos flancos. Isso não é a creatina. E a resposta está na própria discussão, quando um dos participantes diz que ganhou peso, que a barriga continua sendo o problema e que está fazendo dieta hipercalórica comendo mais do que gasta. É exatamente isso que aumenta gordura. Creatina não muda balanço calórico. Uma correção pontual em algo que aparece aqui e virou lenda. Não existe queima da creatina se tomada em uma hora errada, e não existe janela em que ela seja desperdiçada. O que importa é a saturação muscular, que se atinge com uso diário e constante. Três a cinco gramas por dia, todos os dias, inclusive nos dias sem treino, resolve. Fase de saturação com vinte gramas por dia por uma semana apenas acelera o processo e é a que mais causa desconforto digestivo e sensação de inchaço. Sobre a pergunta a respeito de pedra nos rins, que foi feita aqui e ficou sem resposta, vale registrar. Não há evidência de que creatina cause pedra ou lesão renal em pessoas com rins saudáveis, mesmo em uso prolongado, e isso já foi examinado em vários estudos. Existe um detalhe importante de interpretação de exames. A creatina eleva a creatinina no sangue, que é o marcador usado para estimar função renal, e isso pode fazer o exame parecer alterado sem que haja doença. Quem usa creatina deve avisar o médico antes de fazer o exame, para evitar investigação desnecessária. Quem já tem doença renal deve conversar com nefrologista antes de usar. E sobre a afirmação de ganho de quatro a sete quilos de massa muscular em uma ou duas semanas, que aparece no texto colado no tópico, vale corrigir com franqueza. Isso não acontece. O ganho rápido dos primeiros dias é água dentro do músculo, e costuma ser de um a dois quilos. O ganho de massa muscular de fato vem depois, ao longo de meses, e é resultado do treino que a creatina ajuda a sustentar, sendo tipicamente da ordem de um a dois quilos a mais do que se conseguiria sem ela ao longo de semanas de treino. Continua valendo muito a pena, mas pelo motivo certo.
  18. Vale responder a pergunta do título com o que a literatura mostra, porque a resposta é bem menos animadora do que a fama do produto sugere, e existe um caminho melhor para o que o @o_igor queria. Começando pelo que o nome promete. Glucosamina e condroitina não recuperam cartilagem. Elas são componentes da matriz cartilaginosa, e daí nasceu a ideia intuitiva de que tomá las forneceria matéria prima para reconstruir a articulação. Isso não se confirma. A cartilagem articular do adulto praticamente não se regenera, tem pouquíssima vascularização e não recebe esses compostos de forma dirigida por serem ingeridos. Sobre alívio de dor, que é o desfecho realmente estudado. O grande ensaio patrocinado pelos institutos de saúde americanos, feito com pacientes com artrose de joelho, comparou glucosamina, condroitina, a combinação das duas e placebo, e não encontrou redução de dor no grupo geral. Uma análise exploratória sugeriu benefício em quem tinha dor moderada a intensa, mas isso é achado de subgrupo e não firma conclusão. Metanálises maiores encontram diferenças em torno de meio centímetro em uma escala de dor de dez centímetros, ou seja, abaixo do que se considera clinicamente perceptível pelo paciente. Ou seja, respondendo diretamente. Não vale a pena de forma preventiva. E aqui está o ponto central que o tópico não abordou. Todos esses estudos foram feitos em pessoas com artrose, que é uma doença já instalada. Não existe estudo mostrando que tomar isso previna lesão em quem treina e tem articulação saudável. Usar preventivamente é extrapolação, e é cara. Sobre a segurança, ela é boa. Efeito adverso é raro e geralmente digestivo. Vale só atenção para quem usa anticoagulante, porque a condroitina tem estrutura semelhante à heparina, e para quem tem alergia a frutos do mar, já que boa parte da glucosamina é derivada de casca de crustáceo. Sobre o metilsulfonilmetano, que apareceu na discussão sobre concentração, a evidência é ainda mais escassa que a dos outros dois. Agora o que realmente responde ao problema dele, que era joelho e ombro frágeis em fase de aumento de carga. Tendão e ligamento respondem a carga, e não a suplemento. Trabalho específico com carga progressiva na região frágil é o que aumenta a capacidade de suportar tensão, e nesse quesito o @ninga acertou ao falar em trabalho leve, localizado e constante. No ombro, isso significa manguito rotador e estabilizadores da escápula como parte fixa do treino. No joelho, significa trabalho de posterior de coxa e de panturrilha e amplitude bem controlada. O segundo ponto é a velocidade de progressão. Lesão em fase de ganho rápido de força, que o @ippo mencionou corretamente, acontece porque a força muscular sobe mais rápido do que a capacidade do tendão, que se adapta mais devagar. A solução é aumentar carga em incrementos menores e manter algumas semanas de consolidação, e não tomar cápsula. Uma correção sobre a parte final do comentário a respeito de inflamação. Ela não é um processo exagerado que lesa mais do que ajuda. Ela é a fase inicial e necessária do reparo, e abafá la com anti inflamatório de forma rotineira atrapalha a adaptação ao treino e a cicatrização do tendão. Gelo e anti inflamatório fazem sentido para conforto em quadro agudo, por poucos dias, e não como estratégia permanente. E vale saber que dor de tendão que dura mais de algumas semanas costuma não ter inflamação relevante, e sim degeneração do colágeno, que se trata com carga progressiva e não com remédio. Sobre o que teria evidência melhor para articulação em quem treina, a resposta honesta é curta. Colágeno hidrolisado com vitamina C antes do treino tem alguns dados favoráveis para dor articular e tendão, ainda que modestos. Creatina e cafeína têm evidência sólida para desempenho, mas não para articulação. E o resto do mercado de suporte articular vive muito mais de plausibilidade do que de resultado medido. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  19. O @Rogério Diaz e o @Arnaldo Santos. estão certos quanto ao produto, e vale explicar o motivo biológico, porque isso serve para qualquer método de aumento de estatura, e eles reaparecem com nomes novos a cada poucos anos. O osso longo cresce em uma região específica, a placa epifisária, que é uma faixa de cartilagem perto das extremidades. Enquanto ela está aberta, o osso ganha comprimento. Com o fim da puberdade, sob ação dos hormônios sexuais, essa cartilagem se ossifica e a placa fecha. A partir daí não existe mais o tecido responsável por alongar o osso. Isso costuma ocorrer por volta dos dezesseis aos dezoito anos em mulheres e dos dezoito aos vinte e um em homens, com variação individual. Por isso a pergunta original, sobre resultado depois dos dezenove anos, tem uma resposta bastante provável, ainda que ela dependa do caso. Se as placas já fecharam, nenhum exercício, alongamento, aparelho de inversão, suplemento ou programa vai aumentar a altura. Não é questão de método bom ou ruim, é questão de não haver mais o tecido que cresce. E isso é verificável de forma objetiva, com uma radiografia de mão e punho para idade óssea, que mostra se ainda resta cartilagem de crescimento. Vale explicar de onde vem a impressão de que esses métodos funcionam, porque ela tem uma base real e é justamente o que sustenta a venda. A coluna perde algo próximo de um a dois centímetros ao longo do dia, porque os discos intervertebrais se comprimem sob o peso do corpo. Dormir, deitar e fazer descompressão devolvem essa altura. Ou seja, quem mede à noite, começa o programa e mede de manhã, encontra um ganho real de medição que não é crescimento nenhum. É o mesmo motivo pelo qual astronautas ficam mais altos em ambiente sem gravidade e voltam ao normal ao retornar. Existe uma parte legítima nesse assunto, e vale nomear. Melhorar a postura pode revelar altura que estava sendo perdida por cifose acentuada e por encurtamentos, e isso é mensurável, ainda que modesto. Trabalho de extensão torácica, fortalecimento das costas e menos tempo curvado sobre a tela produzem esse efeito. É honesto e é diferente de prometer crescimento ósseo. E existe uma situação em que aumento de estatura é possível, para que ninguém confunda. Adolescente com placa aberta e com deficiência real de hormônio do crescimento, diagnosticada por endocrinologista, tem indicação de tratamento. Isso é medicina, é caro, exige acompanhamento e não tem nada a ver com método vendido pela internet. Usar hormônio do crescimento por conta própria em adulto com placa fechada não aumenta um milímetro de estatura e produz efeitos indesejados, incluindo crescimento de extremidades, resistência à insulina e retenção. Para quem lê isso preocupado com a própria altura, uma última observação. O que mais influencia a altura final é genética, com contribuição importante de nutrição adequada e sono durante a infância e a adolescência. Quem já passou dessa fase resolve mais com treino e com composição corporal, porque proporção e postura mudam a impressão de estatura bem mais do que qualquer número na fita. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  20. Esse é um dos medos mais antigos da musculação e ele já foi respondido pela literatura. Vale deixar a resposta escrita, porque o tópico continua sendo encontrado por adolescente preocupado e por pai preocupado. Treino de força bem orientado não interrompe o crescimento. A Academia Americana de Pediatria afirma que programas de treinamento resistido bem elaborados não têm efeito negativo aparente sobre o crescimento em estatura nem sobre a placa de crescimento em crianças e adolescentes, e revisões posteriores chegam à mesma conclusão. Não existe estudo mostrando que levantar peso com supervisão reduza a altura final. De onde veio o medo. Da preocupação legítima com lesão da placa epifisária, que é a região de cartilagem onde o osso cresce. Fratura ali existe, mas os dados mostram que ela é bem mais frequente em esportes de contato e em quedas do que em treino de força supervisionado. E o mecanismo de lesão descrito é impacto ou carga máxima com técnica ruim, não treino regular com progressão. Ou seja, o professor está mais próximo do correto do que a nutricionista nessa questão específica. Vale dizer, com respeito à profissional, que essa recomendação era o consenso de décadas atrás e mudou com os dados que apareceram depois. Agora a parte útil, que é o que realmente merece cuidado nessa idade. O @Everton Santos deu a resposta certa e ela ficou sem ser entendida. Quando ele fala em intensidade, ele quer dizer o quanto aquele peso é difícil para aquela pessoa, e não o número em quilos. Oito quilos na rosca pode ser leve para um e limite para outro. Por isso a orientação de não passar de cinco quilos no bíceps não faz sentido como regra, e o próprio adolescente percebeu isso sozinho ao dizer que não poderia ficar em cinco quilos para sempre. Progressão de carga é parte do treino, inclusive na adolescência. O que deve ser evitado nessa fase é bem definido e é outra coisa. Tentativa de carga máxima, ou seja, ver quanto se levanta em uma repetição. Levantamento olímpico com técnica não consolidada. Treino sem supervisão. E, principalmente, execução ruim sob carga alta, que é o que de fato machuca em qualquer idade. Séries na faixa de oito a quinze repetições, com técnica boa e progressão gradual, são seguras e recomendadas. Sobre a preocupação com a altura em si, vale separar o que depende do treino e o que não depende. A altura final é determinada principalmente pela genética, e a estimativa que ele recebeu, entre um metro e setenta e um metro e setenta e três, é compatível com a altura dos pais. O que realmente pode prejudicar o crescimento não é a academia, é comer pouco. Adolescente em fase de estirão que treina e não come o suficiente compromete crescimento e maturação, e isso sim está documentado. Ou seja, o cuidado com a nutricionista deveria estar voltado a garantir calorias e proteína suficientes, e não a limitar o peso da rosca. Duas recomendações práticas para quem está nessa situação. Sono é a variável mais subestimada, porque o hormônio do crescimento é liberado principalmente durante o sono profundo, e adolescente dormindo mal está atrapalhando muito mais o próprio crescimento do que qualquer barra. E acompanhamento de rotina com pediatra ou endocrinologista, com curva de crescimento e, se houver dúvida, idade óssea por radiografia de mão e punho, resolve a ansiedade de forma objetiva, mostrando quanto ainda resta de crescimento. Por fim, uma observação que vale mais que o resto. Ele disse que estava pensando em parar de treinar por causa desse medo, sendo que treinar é o que ele mais gosta de fazer. Seria uma escolha ruim baseada em uma informação incorreta. Treino de força na adolescência, com supervisão, melhora força, densidade óssea, desempenho esportivo e reduz risco de lesão. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  21. Vale voltar a esse tópico com o que aconteceu depois, porque esse estudo foi o começo de uma discussão que hoje está bem resolvida, e o título dele merece um ajuste. O que o estudo mediu foi síntese proteica muscular nas horas seguintes ao exercício. É um marcador agudo, e a lição mais importante dos anos seguintes foi justamente que ele prevê mal o resultado final. Muita coisa eleva síntese proteica sem produzir músculo ao longo de meses, e por isso a pergunta certa passou a ser feita de outro jeito, ou seja, comparando ganho de massa medido depois de semanas de treino. E o resultado dessa comparação é o seguinte. Quando o número de séries é o mesmo e as séries são levadas próximo da falha, o ganho de massa é semelhante em faixas de repetição bem diferentes, de algo em torno de seis até vinte ou trinta repetições. Ou seja, a hipertrofia é bastante tolerante à carga escolhida. Já a força não é. Ganho de força é claramente maior com cargas altas, porque força depende também de aprendizado específico daquele peso. Isso significa que o título do tópico precisa de correção. Não é que carga moderada com alto volume seja mais anabólica. É que carga alta e carga moderada produzem hipertrofia parecida, desde que a série seja levada perto da falha, e que a carga alta continua sendo superior para força. E aqui está a chave que a @Lipstick e o @Reinaldo.Gomes identificaram corretamente na época. Com carga leve, a proximidade da falha deixa de ser opcional. Uma série de vinte repetições parando na décima quinta deixa muito estímulo na mesa, enquanto uma série pesada de seis repetições parando na quinta já está bem perto do limite. Ou seja, quanto mais leve a carga, mais perto da falha é preciso chegar para o estímulo se equivaler. Duas observações práticas que decorrem disso. A primeira é que treinar tudo com carga leve até a falha tem um custo. A fadiga acumulada é alta, a sessão fica longa e desagradável, e a recuperação entre sessões piora. Por isso o arranjo que costuma funcionar melhor é usar carga alta nos exercícios grandes, com a série encerrada com uma ou duas repetições de reserva, e deixar as faixas mais altas de repetição para os isolados e as máquinas, onde chegar à falha é seguro e barato em termos de recuperação. A segunda é a resposta prática à dúvida do @PauloEgídio e do @carloscomp sobre falha e frequência. Não é preciso levar tudo à falha em toda sessão. Treinar cada grupo duas vezes por semana com a maioria das séries perto da falha, mas não na falha, rende mais do que uma sessão semanal de destruição, porque permite manter carga alta em todas as sessões. E a estratégia que o @carloscomp descreveu, com um dia pesado e outro mais leve com mais repetições para o mesmo grupo, é uma solução legítima e bem alinhada com o que se sabe hoje. Uma última nota sobre o método do estudo, que ajuda a ler artigos parecidos. Ele usou extensão de pernas em pessoas destreinadas, com biópsia poucas horas depois. Isso responde à pergunta sobre o que acontece no músculo naquele momento, e não à pergunta sobre o que acontece com o físico em seis meses. Quando as duas perguntas foram feitas separadamente, as respostas divergiram, e é por isso que estudo de sinalização aguda deve ser lido com cuidado antes de virar regra de treino.
  22. A pergunta ficou sem uma resposta fechada, e hoje ela tem. Vale ir direto ao que decide a comparação. Quando o número total de séries por músculo na semana é o mesmo, o ganho de massa é praticamente igual entre corpo inteiro e divisão por grupos. Ou seja, a divisão não é o que faz crescer. O que faz crescer é o volume semanal de séries próximas da falha, com carga subindo ao longo do tempo. Existe, porém, uma diferença que aparece de forma consistente. Distribuir o mesmo volume em pelo menos duas sessões por músculo na semana rende mais do que concentrar tudo em uma. E é aqui que o corpo inteiro leva vantagem sobre a divisão clássica de um grupo por dia, que ainda é a mais comum nas academias. Quem treina três vezes por semana em corpo inteiro atinge cada grupo três vezes. Quem treina cinco vezes com um grupo por dia atinge cada grupo uma vez. Vantagens reais do corpo inteiro, além da frequência. Ele tolera falta. Perder um treino em uma semana de três sessões custa pouco, porque os outros dois ainda cobrem o corpo todo, e o @carloscomp identificou isso com precisão. Ele exige menos dias por semana, o que resolve a vida de quem tem rotina apertada, e foi exatamente o motivo pelo qual o @Everton Santos pensou em adotá lo. E ele concentra o treino nos exercícios grandes, que é onde a progressão de carga é mais mensurável. Desvantagens reais. A sessão fica longa se o número de exercícios crescer, e a fadiga do começo compromete o fim, ou seja, o que vem por último recebe sempre o pior da pessoa. Existe pouco espaço para trabalho específico de ponto fraco, o que o @carloscomp também apontou corretamente. E a recuperação entre sessões precisa ser respeitada, porque a mesma musculatura é solicitada de novo em quarenta e oito horas. Sobre a estrutura que ele montou, com terra na segunda, paralelas na quarta e agachamento na sexta, o raciocínio é bom e vale reforçar o porquê. Rodar o exercício principal entre as sessões evita que a lombar receba carga alta duas vezes por semana e garante que cada padrão de movimento seja executado quando a pessoa ainda está descansada. Essa é exatamente a forma correta de fazer corpo inteiro funcionar. Vale corrigir um ponto, e é o único erro relevante do tópico. A ideia de que o corpo inteiro seria superior por gerar mais estímulo hormonal, por causa dos exercícios grandes, não se sustenta. As elevações de testosterona e de hormônio do crescimento no pós treino são transitórias, ficam bem abaixo do que qualquer uso farmacológico produz, e estudos que compararam diretamente a resposta hormonal aguda com o ganho de massa não encontraram relação. O agachamento e o terra são valiosos por carregarem muita massa muscular com carga alta e por permitirem progressão clara, e não por hormônio nenhum. Sobre levar tudo à falha em corpo inteiro, que apareceu na descrição da rotina, vale um cuidado. Com a mesma musculatura sendo treinada três vezes por semana, encerrar todas as séries na falha compromete a sessão seguinte. Corpo inteiro funciona melhor com a maioria das séries encerradas uma ou duas repetições antes da falha, deixando a falha para a última série de isolados. É contraintuitivo, mas é o que permite manter a carga alta nas três sessões. Resumindo em recomendação. Quem treina duas ou três vezes por semana deveria fazer corpo inteiro. Quem treina quatro vezes se resolve bem com superiores e inferiores alternados. Quem treina cinco ou seis vezes se resolve com empurrar, puxar e pernas repetido duas vezes. Em todos os casos, cada grupo recebe pelo menos duas sessões semanais, que é o que realmente importa. A divisão de um grupo por dia só faz sentido para quem tem volume alto por sessão e já é bastante avançado.
  23. O texto tem mérito e envelheceu bem em uma parte e mal em outra, e vale separar as duas, porque o tópico continua sendo consultado por quem quer testar o método. A parte que envelheceu bem é a observação de abertura, de que métodos revolucionários costumam ser recombinações de coisas conhecidas há décadas. Isso vale integralmente para o FST sete, que é, na prática, um bloco final de sete séries de um exercício isolado com pausa muito curta. A parte que não se sustenta é justamente a premissa que dá nome ao método, ou seja, alongar a fáscia por meio do pump para dar espaço ao músculo crescer. A fáscia é um tecido conjuntivo bastante resistente, e a pressão gerada pelo acúmulo de sangue e água durante uma série está muito abaixo do necessário para deformá la de forma permanente. Não existe demonstração de que o inchaço temporário do treino alongue a fáscia nem de que a fáscia esteja limitando o crescimento de quem treina. Ou seja, o mecanismo anunciado é o ponto fraco. Isso não significa que o método não funcione, e é aqui que vale ser justo. Ele funciona pelo que tem de trivial, ou seja, ele acrescenta volume de trabalho ao final da sessão para um músculo específico. Volume é uma das variáveis mais associadas à hipertrofia, então acrescentar sete séries dirigidas a um ponto fraco produz efeito. Existe ainda a hipótese do inchaço celular, que é a ideia de que a entrada de água na fibra funcione como sinal anabólico, e ela é plausível, mas continua sendo hipótese e não explica sozinha resultado nenhum. E existe um custo que o texto não menciona. O intervalo de trinta a quarenta e cinco segundos entre as séries é curto demais para manter carga. Quando se compara diretamente intervalo curto e intervalo longo em treino de hipertrofia, o intervalo maior produz mais ganho de massa e de força, porque o volume de carga levantada se mantém. Ou seja, o bloco de sete séries entrega estímulo, mas entrega um estímulo de baixa carga, e por isso ele faz sentido como complemento no fim da sessão, depois do trabalho pesado, e não como substituto dele. Respondendo à dúvida do @lelooo, que não foi respondida por completo. Não precisa ser um grupo muscular por dia. A resposta do @Locemar está certa quanto à mecânica, ou seja, faz se o bloco final de cada grupo treinado. Vale só acrescentar dois cuidados. Aplicar o método em dois ou três grupos na mesma sessão gera fadiga acumulada alta e sessão muito longa, então o uso mais inteligente é escolher um ponto fraco por sessão. E o bloco deve vir depois dos exercícios de carga, nunca antes, sob pena de comprometer o que realmente sustenta o crescimento. Duas observações de segurança que faltaram. Sete séries com pausa curta em exercícios com articulação exposta, como crucifixo com amplitude máxima, extensão de tríceps acima da cabeça e cadeira extensora, é volume articular alto, e é onde aparece dor de cotovelo e de ombro em quem adota o método por meses seguidos. Escolher máquinas e cabos para o bloco final reduz esse risco. E vale um comentário sobre uma previsão do texto, porque ela é útil como lição. Em dois mil e oito se dizia que em poucos anos teríamos SARMs com todos os benefícios e nenhum efeito colateral. Quase duas décadas depois, nenhum SARM foi aprovado para uso humano em lugar nenhum, e o que se acumulou foi relato de toxicidade hepática, alteração de colesterol e supressão do eixo hormonal, além de análises mostrando que boa parte dos produtos vendidos com esse nome não contém o que promete. Ou seja, a promessa de anabolismo sem consequência continua sendo promessa, e vale lembrar disso sempre que ela reaparecer com nome novo.
  24. O @Locemar apontou em dois mil e sete o que faltava no artigo, e o @fisiculturismo repetiu a mesma cobrança doze anos depois. A conclusão sobre hipertrofia não existia na época, porque o estudo certo ainda não tinha sido feito. Hoje existe, e vale registrar aqui, porque fecha o tópico. O trabalho traduzido mediu volume, ou seja, quantas repetições se consegue completar em quatro séries com uma mesma carga. Ele mostrou que cinco minutos de pausa permitem mais repetições que dois, e dois mais que um. Isso é intuitivo e continua valendo. A pergunta que ficou no ar era se esse volume maior se converteria em mais músculo, e não em apenas mais repetições. A resposta veio em um estudo que comparou homens treinados fazendo o mesmo programa com um minuto ou três minutos de intervalo, durante oito semanas. O grupo de três minutos teve mais ganho de massa muscular e mais ganho de força. Ou seja, o volume adicional se converteu em resultado, e o intervalo curto, que era a moda do fisiculturismo por causa da ideia de estresse metabólico e de pico de hormônio, saiu perdendo. A explicação é simples. Com intervalo curto, a carga da segunda série em diante despenca, ou a série termina bem antes por falta de fôlego. Menos peso levantado com boa qualidade significa menos estímulo, e a fadiga cardiorrespiratória passa a limitar antes da fadiga do músculo que se quer treinar. Traduzindo em recomendação prática. De um minuto e meio a três minutos é a faixa razoável para hipertrofia, usando o tempo maior nos exercícios grandes, como agachamento, supino, terra e desenvolvimento, e o tempo menor nos isolados e nas máquinas, onde a recuperação é local e mais rápida. Para treino voltado a força máxima, com poucas repetições e carga alta, três a cinco minutos. E não existe motivo para cronometrar isolados leves, em que dois minutos seriam desperdício de tempo. Existe uma exceção legítima ao intervalo longo, e é boa de conhecer. Quem tem tempo curto pode usar séries alternadas entre grupos que não competem entre si, por exemplo peito e costas, ou quadríceps e posterior. Enquanto um descansa, o outro trabalha, e o intervalo efetivo de cada músculo continua longo mesmo com a sessão mais curta. Sobre a observação do @Dr. Fernando Britto Barboza a respeito de individualidade biológica, ela é justa e continua valendo, mas com um ajuste. A individualidade define o ajuste fino, não a direção. O intervalo ótimo de cada pessoa varia dentro daquela faixa, e o critério prático para encontrá lo é simples. Descanse o suficiente para que a série seguinte fique próxima da anterior em repetições. Se a segunda série cai muito, o intervalo está curto. Isso vale mais que qualquer cronômetro. E vale desfazer o motivo que fez o intervalo curto virar dogma. A ideia era que pausas curtas elevariam hormônio de crescimento e testosterona no pós treino, e que isso geraria mais músculo. As elevações existem, mas são transitórias e não se correlacionam com hipertrofia. Esse é um dos casos mais claros em que um mecanismo plausível não se confirmou quando o desfecho foi medido diretamente.
  25. Vale atualizar esse tópico com números, porque hoje existe medida para quase tudo o que foi discutido aqui de forma qualitativa, e alguns dos prazos temidos são bem mais generosos do que se imaginava. Começando pela pergunta que mais aflige quem para. Quanto tempo até perder. Força se mantém por mais tempo do que se pensa. Nas primeiras uma a duas semanas praticamente não há queda mensurável em quem já era treinado. Perdas consistentes de força e potência aparecem a partir de umas quatro semanas de parada completa. Massa muscular começa a reduzir de forma mensurável por volta da segunda semana, e a perda se acumula ao longo dos meses. Em estudos com parada longa, doze semanas já produzem perda importante de força, e vinte e quatro semanas sem treino apagaram boa parte do ganho de tamanho obtido em doze semanas de treino. Ou seja, viagem de duas semanas não custa nada, e um mês parado custa pouco. O que dói mesmo é a parada de meses. Um ponto que ninguém mencionou e que muda a estratégia de quem está prestes a parar. Não é preciso manter o volume de treino para manter a massa. Manter exige muito menos do que construir. Uma a duas sessões por semana, com carga próxima da habitual e volume bem reduzido, preservam praticamente tudo. Ou seja, quem entra em uma fase corrida de trabalho não precisa escolher entre a rotina completa e parar. Duas sessões curtas por semana resolvem o problema quase inteiro. Sobre o que o @Dr. Fernando Britto Barboza citou, a respeito de um artigo que negaria a hipertrofia miofibrilar e diria que o resto seria só água, vale corrigir com o que se sabe hoje. A hipertrofia miofibrilar existe, é medida por biópsia e por imagem, e é o que sustenta o aumento de força. O que é verdadeiro naquela observação é uma parte menor do fenômeno. Uma fração do que se vê no espelho é glicogênio e a água ligada a ele dentro da fibra, e isso some rápido quando se para de treinar. Como é a parte que desaparece primeiro, ela dá a impressão de perda catastrófica nas primeiras semanas. Só que ela também volta rápido, em poucas semanas de treino e comida, e é justamente por isso que quem retorna parece recuperar o formato em um mês. Sobre a memória muscular que o @Locemar mencionou, ela é real no resultado prático, ou seja, quem já treinou recupera bem mais rápido do que levou para conquistar. O mecanismo ainda é debatido. A hipótese dos núcleos que permanecem na fibra tem estudos a favor e estudos contra, e ganharam força as explicações epigenética e neural, sendo esta última a mais subestimada, porque o aprendizado do movimento e o recrutamento das fibras se perdem muito devagar. E sobre a melhor forma de retorno, que era a pergunta central do tópico, o erro mais comum é justamente decorrente disso. Como a força volta rápido, a pessoa retoma perto da carga antiga em poucas semanas. Só que tendão e ligamento se readaptam mais devagar do que o músculo, e é aí que aparecem as lesões de quem volta. Um retorno sensato começa com algo em torno de metade da carga anterior, duas ou três sessões de corpo inteiro por semana, poucas séries por exercício, e sobe rápido a partir da terceira semana. A dor tardia intensa dos primeiros treinos é normal e não é indicador de qualidade, então não vale persegui la. Uma última observação sobre a parte que o tópico tratou com mais cuidado, que é a cabeça. Vale dizer explicitamente que perda por destreino é reversível e que o tempo de recuperação é uma fração do tempo original. Quem passou por lesão, doença ou uma fase difícil da vida costuma se comparar com a própria melhor versão e se punir por isso, e essa comparação é o que faz muita gente não voltar. O relevante é o quanto se está progredindo agora, e não a distância até o ponto onde se parou.
  26. Tem um problema de nomenclatura nesse tópico que muda completamente a resposta, e ele passou batido. Hydra não é SARM. É uma combinação de esteroides orais alquilados, os chamados pró hormonais, e isso é outra categoria de risco. Olhando o rótulo, o produto reúne quatro substâncias. Dimetazina, metilestembolona, um derivado metilado do etiocolenolol e o composto conhecido no meio como Max LMG, que é um progestagênio. As três primeiras são esteroides metilados na posição dezessete, exatamente a modificação que permite tomar por via oral e exatamente a que gera hepatotoxicidade. Ou seja, não é um estimulante de produção própria, e não é um SARM. É um empilhamento de quatro androgênios orais em uma cápsula só. Isso importa porque a autora do tópico disse a coisa mais importante logo no começo. Ela não quis repetir a oxandrolona por receio de virilização. E o produto que ela está considerando é bem mais virilizante que a oxandrolona, não menos. Dimetazina e metilestembolona são androgênios potentes, com histórico de uso em homens em doses altas, e não têm sequer a margem que a oxandrolona tem em mulheres. Trocar oxandrolona por esse produto por medo de virilização é caminhar na direção contrária do objetivo. O componente progestagênico merece uma nota à parte, porque quase ninguém comenta. Em mulher, um progestagênio potente mexe com o ciclo menstrual, pode causar amenorreia e atrapalha a leitura de qualquer exame hormonal feito depois. E ele é fortemente supressivo do eixo, ou seja, o efeito não termina quando a cápsula acaba. Sobre a pergunta de custo e benefício, a resposta honesta é que não existe estudo controlado com esses compostos, muito menos em mulheres. O que existe é rótulo de fabricante e relato de internet. O @Locemar acertou ao dizer que não há relato confiável e que o efeito não corresponde à propaganda. Já a resposta seguinte, de que valeria a pena com dieta caprichada, é a que eu discordo frontalmente, e o motivo está na própria mensagem. Ela mesma diz que uma dieta insana em trinta dias já faria ganhar peso e que a comida vai custar mais que o produto. Se a comida é o que produz o resultado e é onde falta ajuste, então o produto está resolvendo um problema que não é o problema. E vale dizer que terapia pós ciclo em mulher não funciona como em homem, então usar sem saber o que fazer depois é assumir um risco sem plano de saída. Sobre o objetivo em si, uma mulher de um metro e sessenta e três com cinquenta e sete quilos que quer ganhar massa tem um caminho bem definido e ele não passa por hormônio. Superávit calórico pequeno e constante, proteína em torno de um vírgula seis a dois gramas por quilo, ou seja, algo entre noventa e cento e quinze gramas por dia, treino de força com progressão de carga registrada e paciência de meses. Quem parou um ano e voltou há poucos meses ainda está na fase em que o corpo responde muito bem sem nenhuma droga, e desperdiçar essa janela com pró hormonal é queimar o período de melhor resposta natural da vida dela. Sobre a menção a perfil ectomorfo, é bom saber que essa classificação não tem validade preditiva. Ela não determina resposta ao treino nem à dieta. O que determina é quanto se come e quanto a carga sobe. Se ainda assim alguém decidir usar, o mínimo é exame de função hepática antes e durante, porque o composto é oral metilado, e parada imediata diante de qualquer sinal de virilização, principalmente alteração de voz e aumento de clitóris, que são os efeitos com maior tendência a permanecer. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.

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