Um corpo definido pode esconder pressão alta, arritmia, aterosclerose, uso de estimulantes, desidratação, hipoglicemia e anos de exposição a anabolizantes. A aparência mostra composição corporal. Não revela a integridade do coração, das artérias nem a procedência das substâncias usadas para manter o shape.
Em Why Are Fitness Influencers DYING?, o cirurgião ortopédico Chris Raynor examina as mortes de Larissa Borges, aos 33 anos, e Jo Lindner, aos 30. Os dois casos não permitem uma causa única. Larissa sofreu duas paradas cardíacas e teve insuficiência cardíaca registrada na necropsia. Jo morreu após um aneurisma, mas o local exato, o mecanismo e a cadeia causal não foram divulgados em documentação médica pública. A análise responsável começa separando o que foi confirmado do que continua sendo hipótese.
Este conteúdo é informativo. Os esquemas hormonais abaixo reproduzem relatos públicos para análise de risco e não são recomendação de uso.
Larissa Borges: duas paradas cardíacas em oito dias
Larissa passou mal em Gramado em 20 de agosto de 2023. Sofreu uma parada cardíaca, permaneceu hospitalizada em coma por mais de uma semana e teve uma segunda parada em 28 de agosto, quando morreu aos 33 anos.
A primeira cobertura do caso registrou o relato do namorado de que o casal havia consumido álcool e drogas em uma festa. Isso era uma linha de investigação, não um resultado toxicológico. Em junho de 2024, a Polícia Civil informou que a necropsia apontou insuficiência cardíaca. A análise toxicológica não detectou as substâncias pesquisadas. O álcool não pôde ser avaliado porque a amostra foi colhida oito dias depois do primeiro mal-estar, após internação, tempo suficiente para o etanol ser metabolizado e eliminado.
Portanto, quatro afirmações precisam permanecer separadas:
Informação | Grau de confirmação |
|---|---|
Primeira parada em 20 de agosto e segunda em 28 de agosto | Confirmado pelas informações policiais e hospitalares divulgadas |
Insuficiência cardíaca na necropsia | Confirmado pela delegada responsável pelo caso |
Consumo de álcool e drogas antes do mal-estar | Relato do namorado usado na investigação |
Uma droga específica causou a morte | Não demonstrado pelo toxicológico divulgado |
Parada cardíaca descreve o momento em que o coração deixa de bombear sangue de maneira efetiva. Ela não identifica sozinha a origem do problema. Arritmia ventricular, infarto, intoxicação, alteração eletrolítica, doença estrutural e outras condições podem terminar no mesmo desfecho. Sem prontuário completo, laudo integral e cadeia clínica, escolher uma única explicação é ultrapassar a evidência disponível.
Jo Lindner: dor no pescoço antes do aneurisma
Jo Lindner, conhecido como Joesthetics, morreu em junho de 2023. Segundo sua companheira, ele reclamou de dor no pescoço durante aproximadamente três dias antes do evento fatal. A família informou aneurisma, mas não há laudo público que identifique com segurança se era cerebral, vertebral, carotídeo, aórtico ou de outro território.
Aneurisma é uma dilatação anormal de uma artéria. O perigo depende do local, do tamanho, da formação de trombo, da dissecção e da possibilidade de ruptura. Quando um vaso se rompe, pode haver hemorragia rápida, queda de pressão, interrupção do fluxo ao cérebro e morte. Quando não rompe, um coágulo formado no aneurisma também pode obstruir a circulação.
Dor persistente e incomum no pescoço, sobretudo quando acompanhada de cefaleia súbita intensa, alteração visual, fraqueza em um lado do corpo, fala enrolada, desmaio ou perda de coordenação, exige atendimento de emergência. O sintoma isolado é comum e na maioria das vezes não significa aneurisma. O que muda a urgência é a intensidade, o início abrupto, a persistência e a associação com sinais neurológicos.
Os esquemas que Jo relatou ter usado
Jo falava publicamente sobre anabolizantes e defendia a menor dose capaz de produzir resultado. A própria história, porém, incluía exposições muito diferentes entre si. Em entrevista a Bradley Martyn, ele descreveu o que chamou de ciclo mais extremo:
propionato de testosterona: 100 mg por dia
trembolona: 100 mg por dia
duração: seis semanas
Isso equivale a 700 mg semanais de propionato de testosterona mais 700 mg semanais de trembolona, totalizando 1.400 mg por semana entre os dois compostos. Ele começou aquela preparação com 105 kg e terminou com cerca de 102 kg, relatando perda de gordura sem precisar acrescentar cardio. Também afirmou já ter usado até 750 mg de testosterona e nunca ter ultrapassado aproximadamente 600 a 700 mg de outro composto isolado.
Para uma competição mais recente, contou um esquema semanal bem menor:
testosterona: 250 mg por semana
trembolona: 75 mg por semana
Primobolan: 100 mg por semana
Ele ainda comparou iniciantes que aplicavam 2 mL de testosterona por semana com pessoas que obteriam resposta usando 0,5 mL. Volume não é dose. Sem a concentração em mg/mL do produto, não é possível converter esses dois volumes em miligramas nem comparar a exposição real.
Nenhum desses números prova que um composto específico causou o aneurisma. Eles demonstram uma exposição androgênica acumulada que não pode ser apagada da análise. Estudos em usuários de longo prazo associam anabolizantes a pior função ventricular, maior carga de placa coronariana, perfil lipídico desfavorável e maior incidência de eventos cardiovasculares.
Insulina: 5 UI antes do treino e episódios de hipoglicemia
Jo também relatou ter experimentado hormônio do crescimento e insulina. O exemplo concreto foi 5 UI de insulina antes do treino, acompanhado de bebida açucarada. Quando fazia séries a mais e esquecia de ingerir carboidrato durante a sessão, descrevia suor intenso, fraqueza e a necessidade de consumir muito açúcar para reverter a hipoglicemia. Ele próprio classificou a prática como perigosa e mencionou episódios em que sentiu ter chegado perto de uma emergência.
A hipoglicemia pode começar com tremor, suor, fome, palpitação, confusão e fraqueza. Em casos graves, evolui para convulsão, coma e morte. O risco é agudo e não depende de aparecer em exame semanas depois. Usar esse relato como protocolo seria inverter a lição que ele deixou.
Desidratação, diuréticos e a pressão de ficar seco
O físico extremamente seco de Jo não era apenas característica genética. Ele explicou que, em preparação, reduzia sal, aumentava água, depois cortava a ingestão de líquidos e ainda acrescentava diurético. Descreveu momentos em que eliminava tanto sódio e água que mal conseguia caminhar.
Essa sequência pode alterar volume sanguíneo e eletrólitos como sódio, potássio e magnésio. Coração e sistema nervoso dependem desses íons para condução elétrica. Desidratação intensa, estimulantes, treino, anabolizantes e diuréticos não formam riscos independentes. Uma prática pode estreitar a margem de segurança da outra.
A pressão comercial piora o quadro. Manter baixo percentual de gordura o ano inteiro, produzir conteúdo diariamente e parecer sempre pronto para uma sessão de fotos pode transformar recuperação em obstáculo. A exigência visual incentiva o atleta a treinar cansado, esconder fases menos secas e normalizar recursos que não aparecem na imagem final.
Anabolizantes deixam marcas mensuráveis no coração e nas artérias
Em 2017, Baggish e colaboradores compararam 86 usuários experientes de anabolizantes com 54 homens que treinavam força sem usar. A fração de ejeção média do ventrículo esquerdo foi de 52% nos usuários e 63% nos não usuários. Entre quem estava usando no momento da avaliação, a média foi de 49%. O volume de placa coronariana também foi maior e aumentou em associação com o tempo acumulado de exposição.
Uma coorte dinamarquesa acompanhou 1.189 usuários e 59.450 controles durante aproximadamente 11 anos. A mortalidade foi 2,81 vezes maior entre os usuários. Foram registradas 33 mortes no grupo exposto, 16 naturais e 17 não naturais. Entre as causas naturais, doença cardiovascular e câncer apareceram com maior frequência.
Outra análise da mesma população encontrou associações com infarto, arritmia, tromboembolismo, insuficiência cardíaca e cardiomiopatia. Isso não reconstrói a morte de Jo nem de Larissa. Mostra por que um histórico de uso não pode ser descartado apenas porque a pessoa era jovem, forte e aparentemente saudável.
O produto clandestino acrescenta um risco que o rótulo não mostra
Jo vivia na Tailândia e relatava acesso a diferentes compostos. A hipótese de contaminação de anabolizantes aparece na análise, mas não existe laudo público do produto que ele utilizava nem exame que ligue metal pesado a um frasco específico.
O risco geral de falsificação, contudo, é real. Uma revisão de 19 estudos reuniu 5.413 amostras de anabolizantes do mercado clandestino. Em média, 36% foram classificadas como falsificadas e 37% como subpadronizadas. Os produtos podiam conter outra substância, concentração diferente, ingrediente ausente ou componentes não declarados.
Esses percentuais variaram muito entre países e fontes de apreensão. Eles não autorizam afirmar que o produto de Jo estava contaminado. Autorizam uma conclusão mais limitada: aparência da caixa, confiança no vendedor e experiência anterior não comprovam identidade, concentração ou esterilidade.
Vacina, plasmaférese e metais pesados: o que não foi provado
Jo contou ter recebido quatro doses de vacina contra a covid-19 e ter realizado duas sessões de plasmaférese em um intervalo de seis meses após ouvir que havia partículas em seu sangue. O relato muda durante a conversa. Uma formação branca inicialmente tratada como possível coágulo foi considerada ar por outro profissional. Depois surgiu a afirmação de partículas escuras e metais pesados, mas nenhum resultado com concentração, método, unidade ou valor de referência foi apresentado.
VITT, a trombose com trombocitopenia associada a determinadas vacinas, possui critérios diagnósticos. É preciso reunir vacinação entre 4 e 42 dias antes dos sintomas, trombose documentada, plaquetas abaixo de 150 bilhões por litro, D-dímero muito elevado e teste PF4 ELISA positivo. Uma fotografia de sangue, um ponto branco no tubo ou D-dímero isolado não confirma a síndrome.
Miocardite após vacina de mRNA é um evento raro, observado principalmente em adolescentes e adultos jovens do sexo masculino, com maior frequência até sete dias após a segunda dose. Miocardite e aneurisma são doenças diferentes. Também não há documentação pública ligando temporal e clinicamente a vacinação de Jo ao aneurisma que o matou.
Plasmaférese é tratamento real para condições selecionadas. Isso não valida automaticamente o diagnóstico que motivou um procedimento particular. Sem prontuário, contagem de plaquetas, imagem da trombose, PF4 ELISA e toxicologia de metais, atribuir causalidade seria especulação.
Rippling muscle disease não é “cãibra no coração”
Jo havia recebido diagnóstico de rippling muscle disease, uma doença rara de hiperexcitabilidade do músculo esquelético. Ela pode produzir ondas visíveis, rigidez e contrações provocadas por toque ou alongamento. Formas hereditárias estão associadas a variantes em genes como CAV3 e CAVIN1.
O coração também é músculo, mas não é músculo esquelético. Ele possui células, controle elétrico e metabolismo próprios. Jo temia que uma contração semelhante ocorresse no coração. A literatura não permite transformar essa preocupação pessoal em explicação para o aneurisma. Uma revisão recente descreve amplo espectro clínico da doença, mas não estabelece aneurisma como consequência típica.
O que estes casos ensinam sem inventar uma autópsia
Shape não mede saúde interna. Baixo percentual de gordura e grande volume muscular não mostram pressão, ritmo, placa arterial ou função ventricular.
Parada cardíaca é desfecho, não diagnóstico causal. É preciso descobrir o mecanismo que interrompeu a circulação.
Relato não substitui laudo. Doses confessadas, sintomas e histórico ajudam a formular hipóteses, mas não identificam sozinhos a causa da morte.
Exposição acumulada importa. Um ciclo antigo continua relevante quando a literatura relaciona anos de uso a placa coronariana e disfunção cardíaca.
Polifarmácia reduz a margem de segurança. Anabolizantes, insulina, diuréticos, estimulantes, álcool e drogas recreativas podem atuar em mecanismos diferentes e se agravar mutuamente.
Sintoma novo precisa vencer a agenda. Dor incomum no pescoço, dor no peito, desmaio, falta de ar, palpitação com mal-estar ou sinal neurológico exigem avaliação imediata.
Conclusão
Larissa Borges morreu após duas paradas cardíacas. A necropsia apontou insuficiência cardíaca, mas a toxicologia divulgada não confirmou uma droga específica. Jo Lindner morreu após um aneurisma e havia relatado dor no pescoço, uso prolongado de anabolizantes, um ciclo de 700 mg semanais de propionato mais 700 mg de trembolona, insulina pré-treino, diuréticos e desidratação. Ainda assim, não existe documentação pública suficiente para declarar qual fator causou seu aneurisma.
A lição não é escolher um culpado conveniente. É abandonar a crença de que juventude, músculos e definição protegem contra dano silencioso. Quanto mais extremo o físico e maior a pilha de substâncias, mais importante se torna avaliar o que não aparece no espelho.
FAQ
Larissa Borges morreu por overdose?
Não há confirmação pública de overdose. A necropsia indicou insuficiência cardíaca. O toxicológico não detectou as substâncias pesquisadas, e o álcool não pôde ser medido oito dias após o primeiro evento.
Jo Lindner morreu por causa de anabolizantes?
A família informou aneurisma, e Jo tinha histórico público de uso. Anabolizantes possuem riscos cardiovasculares mensuráveis, mas não há laudo público capaz de atribuir o aneurisma a um composto ou dose específica.
Qual foi o ciclo mais extremo relatado por Jo?
Ele descreveu 100 mg diários de propionato de testosterona e 100 mg diários de trembolona durante seis semanas. Isso corresponde a 700 mg por semana de cada composto. O relato não é recomendação.
Jo usou insulina?
Sim. Ele relatou 5 UI antes do treino e episódios de hipoglicemia quando aumentava a sessão e esquecia o carboidrato durante o exercício. O próprio Jo considerava a prática perigosa.
A doença do músculo rippling causa aneurisma?
Não há evidência de que aneurisma seja consequência típica da doença. Ela afeta principalmente a excitabilidade do músculo esquelético. A preocupação de Jo com o coração era pessoal e não comprova uma ligação causal.
Fazer exames torna o uso de anabolizantes seguro?
Não. Exames podem identificar alterações e orientar tratamento, mas não eliminam exposição acumulada, interações, falsificação, contaminação nem eventos agudos como hipoglicemia e arritmia.
Referências
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