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Glutamina: o aminoácido anticatabólico

Matheus Uba Chupel
  • , 7973 visualizações

A Glutamina é o aminoácido livre mais presente no corpo humano, representando a maior parte do total de aminoácidos livre presentes no plasma. Atualmente é um dos suplementos nutricionais mais utilizados por atletas de musculação, principalmente por ser natural e auxiliar na promoção do crescimento muscular em vários mecanismos.

Vamos analisar então como é o funcionamento deste poderosíssimo aminoácido.

A Glutamina

A Glutamina é um aminoácido não essencial, ou seja, o organismo está apto a sintetizá-lo a partir do ácido glutâmico, valina e isoleucina. Todavia, mesmo estando presente no organismo, muitos autores ainda sugerem sua suplementação, principalmente aos atletas envolvidos em treinamentos de alta intensidade e/ou duração.

Este aminoácido atua como precursor de síntese de nucleotídeos como o ATP (adenosina trifosfato), purinas, pirimidinas e outros aminoácidos (Bulus, 1989). Um dos principais sítios de síntese e liberação para corrente sanguínea de glutamina é o tecido muscular. No caso de trauma, queimaduras, estresse e atividade física intensa (estados catabólicos) e na acidose, o tecido muscular é capaz de aumentar a taxa de síntese e liberação de glutamina para a corrente sanguínea, a fim de suprir a necessidade de outros tecidos.

Contudo, todas essas alterações parecem ser insuficientes para manter os níveis plasmáticos de glutamina, o que sugere-nos sobre a importância de suplementação com este aminoácido.

A glutamina é extremamente necessária para a proliferação de células intestinais, absorção de fluídos e eletrólitos, bem como é essencial na regulação do balanço nitrogenado em estados normais e patológicos (Palanch, 2000).

Isso demonstra inclusive a sua importância na absorção de outros aminoácidos que, em consonância com o treinamento, facilitam a promoção da hipertrofia muscular.

A Suplementação com Glutamina

Primeiramente, a suplementação com glutamina fundamenta-se principalmente no aumento da síntese protéica (efeito anabólico) e/ou redução da proteólise (efeito anticatabólico). Isso ocorre porque este aminoácido é substrato para gliconeogênese (o que preserva outras proteínas) além de servir como combustível do sistema imunológico, evitando a imunossupressão após o exercício físico intenso (Kreider, 1999).

E ainda mais, a glutamina participa ativamente da ressíntese de glicogênio e da síntese de neurotransmissores, e ainda diminui a acidose metabólica (Welbourne, 1998).

Durante anos se pensou que a glutamina era responsável pelo estado anabólico. Mas atualmente sabemos que ela age à esse estado de maneira indireta, promovendo o crescimento através da hidratação provocada nas células musculares.

A quantidade de água nas células do corpo muda rapidamente, passando de um estado plenamente hidratado para um estado de desidratação. É comprovado que a quantidade de água dentro da célula altera o seu metabolismo, em especial a síntese protéica. Assim sendo, foi demonstrado que níveis mais elevados de glutamina hidratam o músculo esquelético, aumentando o volume celular, diminuindo ainda a degradação de proteínas (Antonio & Street, 1999).

Ainda mais, quando aumenta a presença de água dentro da célula muscular, ocorre um estímulo à síntese de proteínas e glicogênio. Nesta situação, a glutamina facilita a entrada de outros aminoácidos na célula (juntamente com a entrada de sódio), o que induz à absorção de água, configurando um estado anabólico. De maneira contrária, se uma célula fica desidratada, ela encolhe e imediatamente inicia um estado catabólico, que degrada as proteínas vitais do músculo.

Quanto ao melhor horário para a ingestão, várias pesquisas comprovaram que o pico máximo de concentração de glutamina plasmática ocorre cerca de 30 minutos após a suplementação.

Além disso, Welbourne e colaboradores (1998) estudaram outros efeitos fisiológicos conseqüentes da suplementação com glutamina, e os resultados encontrados foram no mínimo fascinantes!

Este pesquisador verificou que após a ingestão de glutamina, a concentração plasmática de hormônio do crescimento (gH) aumentava, o que indica-nos mais um fator em que esse aminoácido auxilia para a o crescimento muscular.

Esses dados vem de encontro com estudos que reforçam a importância da suplementação deste aminoácido em atletas, confirmando que esta suplementação com glutamina promove o crescimento muscular.

Na pesquisa de Colker (2000), foram encontrados excelentes resultados na melhoria/manutenção da composição corporal e na performance de exercícios resistidos, em atletas de musculação suplementados com glutamina, proteína e aminoácidos de cadeia ramificada durante um período de 10 semanas.

Vale lembrar que não foram relatados efeitos adversos significativos da suplementação com glutamina. Ao mesmo tempo, nem todas as pesquisas confirmaram melhorias no desempenho de maneira satisfatória o que, em parte, deve-se muito à alguns fatores como: relação dose/resposta; nível de treinamento; hábitos nutricionais; peso corporal; fatores genéticos da amostra; dentre outros.

Quanto a dosagem mais aceita, alguns estudos verificaram melhoria da performance com a administração de 5 a 25 miligramas de glutamina/dia.

Concluindo

Por possuir efeito anticatabólico, principalmente por se um composto anticortisol, a glutamina é muito utilizada como suplemento em períodos de intenso treinamento ou, até mesmo, no tratamento da síndrome do overtraining. Para o auxílio à hipertrofia o trabalho da glutamina é primordial, sendo que age inclusive no processo de ressíntese do glicogênio muscular, promovendo a recuperação.

É importante mencionar que estão sendo feitos, atualmente, estudos que envolvem a suplementação oral com glutamina e a relação direta com a alteração hormonal normal e a resposta ao treinamento. Dessa forma, no futuro, teremos mais conclusões a respeito dos efeitos desde aminoácido.


Referências Bibliográficas

- Bulus, N. Physiologic Importance of Glutamine. Metabolism. 1989; 38:1-5
- Palanch, A. C. Metabolismo da glutamina no intestino, In: CURI, R. Glutamina: metabolismo e aplicações clínicas e no esporte. RJ, Sprint, 2000, p.85-96
- Kreider, R. B. Dietary supplements and the promotion of muscle growth with resistance exercise. Sports Med. 1999; 27:97-110.
- McArdle W. Katch F. Katch V. Fundamentos de Fisiologia do Exercício. Guanabara Koogan. Rio de Janeiro, 2002
- Welbourne, T. et al. An oral glutamine load enhances renal acid secretion and function. American Journal of Clinical Nutrition. 1998; 67:660-663
- Forti, F. Cancelliero, K. Guirro, R. Silva, C. Efeitos da Glutamina e da Estimulação Elétrica sobre o Perfil metabólico de Músculos Desnervados. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte. São Paulo, v.18 – nº3, p273-81, 2004.
- Antonio, J. Street, C. Glutamine: a potentially useful supplement for athletes. Canadian Journal App Physiology. 1999; 24:1-14.
- Colker, C. M. et al. Effects of supplemental protein on body composition and muscular strength in healthy athletic male adults. Cur Therapeutic Research. 2000; 61:19-28


Comentários

Comentários Destacados

Em 11 de agosto de 2013 at 02:52, Guest Anderson disse:

Ouvi falar que a glutamina é muito boa para aumentar a imunidade, é verdade?

É verdade, existe senso comum nesse sentido. E há pesquisas científicas:

Citar

A glutamina é o aminoácido livre mais abundante no plasma e no tecido muscular. Nutricionalmente é classificada como um aminoácido não essencial, uma vez que pode ser sintetizada pelo organismo a partir de outros aminoácidos. A glutamina está envolvida em diferentes funções, tais como a proliferação e desenvolvimento de células, o balanço acidobásico, o transporte da amônia entre os tecidos, a doação de esqueletos de carbono para a gliconeogênese, a participação no sistema antioxidante e outras. Por meio de técnicas de biologia molecular, estudos demonstram que a glutamina pode também influenciar diversas vias de sinalização celular, em especial a expressão de proteínas de choque térmico (HSPs). As HSPs contribuem para a manutenção da homeostasia da célula na presença de agentes estressores, tais como as espécies reativas de oxigênio (ERO). Em situações de elevado catabolismo muscular, como após exercícios físicos intensos e prolongados, a concentração de glutamina pode tornar-se reduzida. A menor disponibilidade desse aminoácido pode diminuir a resistência da célula a lesões, levando a processos de apoptose celular. Por essas razões, a suplementação com L-glutamina, tanto na forma livre, quanto como dipeptídeo, tem sido investigada. Alguns aspectos bioquímicos, metabólicos e mecanismos moleculares da glutamina, bem como os efeitos de sua suplementação, são abordados no presente trabalho.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-86922009000600015

 

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3 horas atrás, fisiculturismo disse:

a glutamina, assim como a cretina, é um suplemento alimentar que se consagrou como um dos melhores para a hipertrofia.

Um dos essenciais.Ótima para imunidade.

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    • Por finoboy
      Srs. ! Por favor me ajudem numa duvida.

      Estou treinando pela manhã e após o treino tomo café da manha e em seguida 1 dose de Whey(designer whey) + 4 colheres de malto sem sabor.

      Depois disso eu almoço, tomo café da tarde e janto normalmente. Antes de dormir tomo mais 1 dose de Whey.


      Voces acham interessante eu tambem tomar algum tipo de aminoacido liquido antes e logo em seguida do treino , ou nao precisa por causa do whey ja possuir os aminoacidos necessarios ?



      Obrigado !!!

      abs,
    • Por mjpx70
      Pessoal, estou montando um pack. Resolvi colocar glutamina, mas qual marca usar?
      a da iron tek é boa?
    • Por ravsk
      Fala galera!
      Existia um tópico aqui no fórum sobre isso a muito tempo atrás. Porém nenhuma das pessoas que fizeram o produto postaram os resultados. Será que vale a pena mesmo fazer esse composto?
      Enviei um email pedindo o orçamento para um Lab aqui do RJ e essa foi a resposta:
      Bom Dia,
      Segue abaixo o orçamento solicitado:
      1 – 60 cap R$ 20,00
      Agradecemos o contato,
      Bioderm.
      Sendo que a fórmula que pedi consistia em: 40mg de magnésio, 240mg de glutamina e 120mg de glicina.
      Essa fórmula foi retirada desse site aqui que produz o medicamento: https://www.fitobrasilis.com.br/index.php/magnesio-glicil-glutamina.html
      Segue abaixo os estudos e apresentações,
      [Composição: O Magnesium Glycyl Glutamine é fonte de magnésio , composta por uma molécula de glicina e outra de glutamina, a fim de oferecer, de forma sinérgica, importantes nutrientes envolvidos na resposta imunológica, estresse físico e mental, síntese protéica e ganho de massa muscular, entre outros.
      Utilização: O Magnesium Glycyl Glutamine é usado na baixa resistência imunológica, em pacientes pós-cirúrgicos ou em tratamento quimioterápico, pacientes queimados ou septicemia, na produção de energia, no ganho de massa muscular, na hipoglicemia e compulsão por doces ou álcool, e na terapia antioxidante.
      A dose sugerida varia de 40 a 200 mg de Mg/dia.
      Absorção: Foi realizado um estudo onde cada participante consumiu por completo uma solução preparada com 400 mg de magnésio glicil glutamina quelato (40 mg magnésio, 240 mg glutamina e 120 mg glicina).
      Apresentação
      O Magnesium Glycyl Glutamine é um composto de magnésio quelado a uma molécula de glicina e outra de glutamina, a fim de oferecer, de forma sinérgica, importantes nutrientes envolvidos na resposta imunológica, estresse físico e mental, síntese protéica e ganho de massa muscular, entre outros.
      Indicações
      Baixa resistência imunológica;
      Pacientes pós-cirúrgicos ou em tratamento quimioterápico,
      Pacientes queimados;
      Septicemia;
      Produção de energia;
      Ganho de massa muscular;
      Hipoglicemia e compulsão por doces ou álcool;
      Terapia antioxidante.
      Descrições dos Componentes
      Magnésio
      O magnésio tem importante papel na conversão de carboidratos, proteínas e gorduras em energia, na síntese de proteínas para o material genético; na remoção de substâncias tóxicas, como a amônia; no relaxamento muscular; na transmissão nervosa e na prevenção de doenças cardíacas e arritmias. É um elemento vital à atividade de numerosas enzimas (mais de 400), principalmente as fosfatases e as relacionadas à produção de ATP (Moura, 1997)
      A atividade física, seja qual for a sua natureza, aumenta a necessidade de energia. A energia para a contração muscular provém da hidrólise de ATP, onde o magnésio participa diretamente. Há três sistemas energéticos que se sobrepõe e que se apoiam mutuamente para fornecer ATP:
      - Sistema imediato;
      - Sistema Não oxidativo (glicolítico) ;
      - Sistema Oxidativo.
      São inúmeras as vias bioquímicas e os sistemas energéticos dependentes de magnésio. Diversos estudos demonstram a influência positiva do magnésio para a produção de energia (Brilla, 1995).
      Glutamina
      A glutamina é o aminoácido mais abundante do organismo. É sintetizada de acordo com as necessidades corporais, a partir do ácido glutâmico, valina e isoleucina ( Bill Philip, 1997). Por essa razão, é considerada um aminoácido não essencial, o que negligencia a sua importância qualitativa e quantitativa.
      Considerando todas as funções desempenhadas pela glutamina nos diferentes tecidos e células, alguns autores chamam a atenção para a sua classificação como aminoácido não essencial. Os relatos atuais discutem a possibilidade de classificá-la como “nutriente condicionalmente essencial”, por torna-se necessária na dieta em muitos estados patológicos ou com necessidades aumentadas, onde sua utilização excede a capacidade de síntese muscular e hepática. O fornecimento adicional de glutamina em estados catabólicos e suas conseqüentes
      etapas de recuperação, poderá ser essencial para otimizar a função fisiológica (Anderson, 1998).
      Funções Relacionadas
      Pode-se afirmar que o magnésio desempenha papéis antagônicos ao cálcio: aqueles que o cálcio estimula, o magnésio inibe (Druta-de-oliveria, 1998). O cálcio promove a contração muscular e o magnésio o relaxamento, por essa razão sua deficiência provoca contrações involuntárias, tremores, cãimbras, arritmias cardíacas, etc.
      O magnésio é importante na função cerebral (Poenaru, 1997). Sua ação é notoriamente fundamental na transmissão de impulsos nervosos e como cofator da enzima glutamina-sintetase, convertendo glutamato em glutamina e detoxificando amônia durante o processo (Fraser, 1999).
      A síntese de glutamina protege o organismo, o cérebro em particular, da toxicidade da amônia. No cérebro, a glutamina também é substrato para a produção de neurotransmissores excitatórios e inibitórios (Glutamato e GABA, respectivamente, além de ser importante fonte de energia para o sistema nervoso ( Miller, 1999). É a principal fonte de energia de várias células do sistema imune, incluindo macrófagos e células T. Exercícios de alta intensidade, infecções virais e bacterianas, stress e traumas em geral, causam sua depleção. A glutamina é um substrato de glutationa, um dos principais antioxidantes, e ajuda a melhorar a resposta imunológica. Células do sistema imunológico, assim como os enterócitos, utilizam a glutamina como substrato energético preferencial. A suplementação, na forma de dipeptídeo estável ( glicil- glutamina), preserva a barreira epitelial e a morfologia intestinal ( Vande Hulst, 1993, 1997).
      Como doador de carbono, a glutamina é um combustível para o músculo, ajudando a repor o glicogênio. No entanto, existe ainda uma função mais importante, doar nitrogêmio e, dessa maneira, participar da síntese protéica e restaurar o músculo de pequenos traumas que ocorrem com a prática de exercício. Assim, a glutamina é considerada um dos suplementos favoritos de body builders.
      A utilização de glutamina auxilia a recuperação de pacientes pós cirúrgicos e queimados, aumentando a velocidade de cicatrização de ferimentos e melhorando o tratamento geral.
      A fim de comprovar os benefícios do magnésio associado a glutamina, foram realizados dois estudos em atletas praticantes de musculação. No primeiro, cada participante consumiu por completo uma solução preparada com 400 mg de magnésio glicil glutamina quelato (40 mg magnésio, 240 mg glutamina e 120 mg glicina).
      A figura 1 mostra as variações médias dos níveis plasmáticos de glutamina no ínicio, 30, 60 e 90 minutos após a administração de magnésio glicil glutamina quelato.
      Fonte: Ashmead, 2002.
      Em outro estudo, foi possível demonstrar que o uso do composto Magnesium Glycyl Glutamine é mais efetio para o ganho de massa comparado-se com esteróide, e sem efeitos colaterais (figura 2).
      Figura 2. Elevaçào média da massa magra no período de 56 dias nos indivíduos que consumiram 400 mg de magnésio glicil glutamina ou 2 mg de testosterona.
    • Por CARLÃO ZU1338434324
      Altos níveis de glutamina no músculo e de outros “volumizadores’’ (que provoca aumento) de célula, como Taurina, podem levar ao metabolismo da proteína e à ‘’volumização’’ da célula. A ‘’volumização’’ da célula é um processo pelo qual as moléculas de água são atraídas (puxadas) para dentro de célula do músculo, ajudando-a a ter o aspecto de “cheia’’ ou mais “bombeada” e desse modo criar as condições necessárias para o crescimento do músculo.

      sENDO QUE A GLUTAMINA ´´PUXA`` A AGUA PARA DENTRO DA CELULA, SEMELHANTE A CREATINA NÃO PODEREI TOMAR TERMOGENICO TAMBEM COM A GLUTAMINA???
    • Por diogodm
      Galera,
      Dei uma pesquisada antes e nao encontrei esta matéria aqui no fórum, achei bastante interessante o resultado da pesquisa, que comprova que a Creatina dá um banho na Glutamina. Leiam com atenção ai e tirem suas conclusões.
      Abraços.
      Fonte: http://cev.org.br/biblioteca/efeito-exercicio-resistido-associado-suplementacao-creatina-glutamina-potencia-anaerobica
      Glutamina não aumenta os músculos
      Estudo da Faculdade de Educação Física da UnB comprova que o acréscimo da proteína na dieta não auxilia no ganho de
      massa magra durante musculação
      A suplementação alimentar associada à musculação é a saída utilizada por muitos atletas e praticantes de atividades físicas para obter ganho de massa muscular e força. Complexos a base de proteína são alguns dos preferidos pelos marombeiros de plantão. Uma dessas substâncias, a glutamina, tem sido amplamente difundida nas academias de todo o país e até utilizada sem qualquer orientação. Porém, quem optou por esse suplemento com intenção de aumentar os músculos jogou seu dinheiro no lixo.
      Segundo estudo desenvolvido pela fisiologista do exercício Keila Elizabeth Fontana, da Faculdade de Educação Física (FEF) da Universidade de Brasília (UnB), a glutamina não tem qualquer ação sobre a hipertrofia muscular de quem pratica musculação. O estudo, divulgado em agosto de 2003, testou um programa de exercícios com pesos associados à suplementação com glutamina e outra proteína também bastante utilizada em musculação, a creatina.
      Segundo Keila, apesar de a glutamina não ser apropriada para o ganho de massa e força, tem aplicação relevante em trabalhos de grande desgaste físico. “Ela melhora as condições imunológicas, o que é importante para quem explora o máximo do corpo”, reforça a pesquisadora. Quando o exercício é intenso, pode haver o chamado supertreinamento, que leva ao estresse físico e deixa a pessoa vulnerável a infecções. “Então, impedir a queda da imunidade permite ir mais longe com os treinos”, argumenta.
      DUPLO CEGO – O treinamento de 32 homens entre 18 e 30 anos foi acompanhado por oito semanas. Eles se exercitaram uma hora e meia por dia, quatro vezes por semana, divididos em três grupos: dois de 11 pessoas e um de 10. Os integrantes de um desses tomaram glutamina; os de outro, creatina; e os do terceiro grupo receberam placebo. Tanto voluntários quanto pesquisadores não sabiam quem tomava o quê, em uma técnica conhecida como duplo cego. No período de testes, a alimentação dos avaliados foi controlada para evitar resultados diferentes em função da nutrição. Atividades físicas paralelas também foram monitoradas para que qualquer impacto sobre a musculatura fosse exclusivamente motivado pelos exercícios do programa.
      Todos ingeriram doses diárias de suplemento ou placebo 30 minutos após o treino. Na primeira semana, foi dada uma dose de impacto, de 0,3 grama para cada quilo de peso da pessoa. Durante as sete semanas seguintes, a quantidade diária foi dez vezes menor, de 0,03 grama, na chamada dose de manutenção. Para se ter uma idéia, uma colher de chá rasa equivale, mais ou menos, a 5 gramas. Os compostos, em pó, eram misturados a sucos ou qualquer outra bebida doce, já que o açúcar auxilia na absorção da proteína.
      Entre os voluntários acompanhados, apenas um dos que tomaram creatina não teve gripes ou resfriados no período de treinamento. No grupo do placebo, 11 ficaram gripados, ou seja, todos os voluntários. Já daqueles que tomaram a glutamina, apenas três tiveram algum tipo de infecção. O estudo de Keila identificou essa propriedade da glutamina em musculação, mas a característica já havia sido descrita para atividades aeróbicas intensas, como a maratona.
      Keila pretendia saber se a suplementação resultava em aumento de massa corporal magra superior ao verificado sem a ingestão de suplementos. Os perímetros de braço e perna, a quantidade de gordura, força, potência anaeróbica, capacidade aeróbica e condições metabólicas foram outros parâmetros comparados à pratica do exercício sem suplementação.
      MAIOR E MAIS FORTE - Os resultados mostraram que aqueles que ingeriram creatina ganharam mais que o dobro de massa magra em relação aos que tomaram placebo ou glutamina. O grupo da creatina teve, em média, 3,3% de ganho sobre sua massa anterior ao início dos exercícios, enquanto os da glutamina e placebo registraram 1,5%. No quesito força, quem tomou creatina verificou aumento em torno de 50% superior aos demais. O grupo da creatina, após dois meses de treinamentos, conseguiu elevar cargas 12% mais pesadas com os braços e 34% com as pernas. Os outros grupos aumentaram a carga máxima suportada em 7% para braço e 20% para perna.
      Esses números foram verificados em homens. Mas acredita-se que as mulheres tenham resultados similares. “Mulheres que usam creatina provavelmente também ganham massa magra. Para a glutamina as conclusões devem ser as mesmas: não haverá hipertrofia”, diz Keila. Não se pode afirmar, porém, que a proporção de hipertrofia se mantenha a mesma, já que questões hormonais tornam as malhadoras menos suscetíveis ao aumento de massa. “O fato de as mulheres terem mais dificuldade para ganhar massa faz da creatina uma opção interessante”, confirma.
      A professora afirma que diversas casas especializadas em suplementação esportiva indicam e vendem a glutamina para ganho de massa muscular. “Glutamina não funciona para hipertrofia, é um grande engodo”, alerta. Além de apresentar resultados de aumento dos músculos, o suplemento é, em média, três vezes mais caro do que a creatina.
      Até a conclusão do estudo, não havia no país um trabalho sobre a associação da glutamina a exercícios de musculação. “É preciso ter cuidado: não se pode tomar nada só porque alguém disse que funciona. A orientação de um nutricionista e de um profissional de educação física é indispensável”, afirma Keila. O conselho é valido não só para evitar perder dinheiro. Ingerir proteína em excesso, seja creatina, glutamina ou qualquer outra, sobrecarrega o fígado e o rim, o que pode acarretar problemas de saúde.
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