A internet transformou treino em espetáculo: método secreto, hormônio como atalho, exercício milagroso para glúteo, choque elétrico prometendo resultado e suplemento com cara de solução científica. O problema é que boa parte disso não nasce de ciência aplicada à prática; nasce de marketing, viés, autoridade falsa e gente tentando vender uma resposta simples para um corpo que é complexo.
No material "EBE Talks - Os mitos da "ciência" do Exercício", Guilherme Weiss Freccia recebe Paulo Gentil para desmontar algumas dessas ideias. A conversa é longa, mas o fio condutor é claro: ciência não é enfeite para validar opinião de academia. Ela serve para reduzir incerteza, melhorar decisão e impedir que a prática vire um laboratório de achismo com o corpo dos outros.
O mito por trás de todos os outros
Antes dos mitos específicos, existe um problema maior: a falsa autoridade. A área do exercício ficou cheia de gente que fala com convicção, tem corpo chamativo, usa jaleco, mostra gráfico, cita estudo pela metade ou transforma experiência pessoal em regra universal.
Isso confunde o público porque a aparência de conhecimento pode ser mais sedutora do que o conhecimento. Um físico impressionante não prova competência em fisiologia. Um consultório não torna uma prescrição automaticamente segura. Um estudo isolado não apaga anatomia, biomecânica e décadas de evidência acumulada.
A boa prática não ignora a ciência, mas também não se resume a repetir artigo. Ela combina evidência, raciocínio fisiológico, contexto, segurança e necessidade da pessoa. Quando essa ordem se inverte, nasce o terreno perfeito para os mitos.
Mito 1: testosterona é sinônimo de desempenho esportivo
A primeira confusão é tratar testosterona como botão mágico de performance. A explicação central é mais cuidadosa: testosterona pode influenciar massa muscular, recuperação e algumas variáveis fisiológicas, mas desempenho esportivo é multifatorial.
Em esportes reais, o resultado depende de técnica, tomada de decisão, economia de movimento, estratégia, potência específica, coordenação, leitura de jogo e capacidade de repetir ações sob fadiga. Em algumas situações extremas, suprimir totalmente testosterona pode prejudicar; em doses suprafisiológicas, pode haver vantagem em determinados contextos. Mas isso não autoriza dizer que mais testosterona sempre significa melhor desempenho.
O exemplo dos Enhanced Games entra justamente nessa lógica. A promessa implícita era que liberar doping produziria uma revolução de marcas. Só que droga sozinha não substitui qualidade técnica, ciência do treino e especificidade esportiva.
Há ainda outro ponto pouco lembrado: hormônios também podem afetar cognição e comportamento. Em modalidades que exigem controle de impulsividade e decisão fina, agressividade e disposição para risco podem atrapalhar tanto quanto ajudar. Por isso, transformar testosterona em sinônimo de vitória é uma simplificação grosseira.
Mito 2: "bomba" prescrita por médico é tranquila
O segundo mito é ainda mais perigoso: a ideia de que uma droga vira segura porque saiu de um consultório. O ponto não é negar a existência de reposição hormonal legítima. O ponto é separar tratamento de deficiência real de prescrição estética travestida de medicina.
A avaliação séria não começa por "minha testosterona está baixa no papel". Começa por clínica, sintomas, contexto, sono, composição corporal, alimentação, medicamentos, doenças e repetição adequada de exames. A testosterona é variável, sofre influência de horário, sono, peso corporal e estado geral. Um número isolado não deveria virar passaporte para hormônio.
Quando existe uma deficiência verdadeira, o raciocínio médico é risco versus benefício: a reposição também tem risco, mas pode ser menos arriscada do que deixar o quadro sem tratamento. Fora desse cenário, a lógica muda. A prescrição pode apenas legitimar o início de um uso que a pessoa talvez não consiga controlar depois.
A literatura sobre dependência de esteroides anabolizantes reforça esse alerta: uma parcela relevante dos usuários desenvolve padrão de uso persistente apesar de prejuízos físicos, sociais e psicológicos. O problema não é só "tomar e acompanhar exame". É entrar em uma dinâmica em que a decisão já começa a ficar enviesada pela própria droga, pela imagem corporal e pelo ambiente que recompensa o risco.
Mito 3: exames de rotina conseguem controlar todos os riscos
Outro argumento comum é: "se fizer exame direitinho, está tudo sob controle". A resposta do conteúdo é dura: não está.
Exames ajudam, mas não enxergam tudo. Nem todo jovem usuário fará investigação cardíaca avançada. Nem todo tumor inicial será rastreado por check-up comum. Nem toda alteração neurológica, cognitiva ou vascular aparecerá cedo. Nem todo dano do eixo hormonal será previsível. E existem pessoas que, após exposição, podem ter dificuldade importante para recuperar produção natural.
A segurança prometida por check-up de rotina é parcial. Ela mede aquilo que foi procurado, no momento em que foi procurado, com a sensibilidade daquele método. Isso não transforma uma prática arriscada em prática segura.
No caso de fisiculturistas jovens, o conteúdo usa a morte de Gabriel Ganley como gancho para mostrar que o problema raramente é uma substância isolada. O ambiente pode envolver esteroides, diuréticos, insulina, estimulantes, betabloqueadores, desidratação, jejum, overtraining e decisões extremas. Quando várias intervenções se somam, a frase "foi só tal coisa" perde força. O meio inteiro passa a ser parte do risco.
Mito 4: método X muda o formato do músculo
O quarto mito aparece em mil versões: "esse exercício pega a parte de baixo do bíceps", "essa variação modela a parte alta do glúteo", "esse ângulo muda o desenho do músculo". A crítica central é fisiológica.
O músculo não muda de formato porque alguém inventou uma variação com polegar para fora, pé virado ou cabo em ângulo exótico. O formato muscular depende muito de genética, inserções, comprimento de segmentos, distribuição de tecido e resposta individual. Pode existir hipertrofia não uniforme em alguns contextos, mas isso não equivale a esculpir uma estética específica como se o exercício fosse ferramenta de edição de imagem.
Esse mito nasce quando alguém com genética favorável transforma o próprio corpo em propaganda do método. A pessoa vê o físico do influenciador e pensa que falta copiar aquele detalhe. Mas o detalhe pode ser irrelevante. O resultado pode vir de genética, anos de treino, drogas, dieta, iluminação, edição e seleção de imagem.
A frase prática é simples: método é caminho, não destino mágico. O desfecho continua dependendo de tensão, esforço, volume, frequência, amplitude, recuperação e consistência.
Mito 5: sentir mais significa hipertrofiar mais
"Eu senti pegar" é uma das métricas mais superestimadas da musculação. Sensação pode ajudar a perceber execução, mas não prova hipertrofia superior. Dor, queimação, pump e fadiga localizada são experiências sensoriais, não medidores diretos de crescimento muscular.
Um exercício pode gerar muita sensação por posição encurtada, compressão, fadiga metabólica ou desconforto. Isso não significa que ele produziu mais estímulo útil do que uma execução menos chamativa e mais eficiente.
A confusão fica ainda maior quando a pessoa tenta validar tudo pela prática individual. "Comigo funciona" pode significar muitas coisas: melhora técnica, efeito placebo, variação normal, treino mais consistente, uso de drogas, mudança de dieta ou simples interpretação enviesada. A prática importa, mas precisa ser organizada por critérios melhores do que sensação.
Mito 6: a prática vale mais que a ciência
Esse é o mito que alimenta todos os outros. A prática é indispensável, mas prática sem filtro vira repetição de erro. Ciência também não é autoridade absoluta de um artigo isolado. O valor está no método: testar hipóteses, reduzir vieses, comparar grupos, medir melhor, aceitar incerteza e mudar de opinião quando a evidência aponta outra direção.
Quando alguém diz que "a ciência não sabe de nada", muitas vezes está apenas protegendo uma crença, um produto ou uma identidade. E quando alguém usa um estudo ruim para provar qualquer coisa, também está traindo a ciência.
Um exemplo didático da conversa é o saco de feijão: se existe uma população com 70% de feijões brancos e 30% pretos, pegar apenas dois grãos pode produzir uma conclusão absurda. Amostra pequena, coleta enviesada e avaliador interessado no resultado distorcem a verdade. O mesmo vale para estudos de treinamento com poucos participantes, medidas frágeis e conflito comercial.
A mensagem não é "acredite em qualquer artigo". É o contrário: aprenda a desconfiar direito.
Mito 7: eletroestimulação é melhor que treino de força
A eletroestimulação é vendida como atalho: pouco tempo, muito resultado, gasto calórico absurdo e contrações supostamente superiores. A crítica começa por uma pergunta básica: se a pessoa consegue se mover normalmente enquanto recebe o estímulo, esse estímulo externo não está dominando a contração.
O músculo contrai por impulsos elétricos vindos do sistema nervoso. Um aparelho também pode gerar impulso elétrico, mas isso não significa que ele substitua a coordenação voluntária, a progressão de carga, a técnica, a estabilização e a adaptação produzida pelo treino. Se o estímulo é baixo, tende a ser fraco. Se é alto demais, pode gerar dano importante.
Há relatos e revisões discutindo rabdomiólise e efeitos adversos associados à eletroestimulação de corpo inteiro. Isso não significa que ela nunca tenha uso. Em reabilitação, pessoas com lesões neurológicas, acamados ou situações específicas, pode haver aplicação clínica. Mas vender isso como superior ao treino de força para jovens ativos é outra história.
A recomendação prática do conteúdo é direta: se a pessoa consegue se movimentar, movimento bem prescrito tende a ser a melhor ferramenta.
Mito 8: elevação pélvica é superior ao agachamento para glúteos
A discussão sobre elevação pélvica é um dos blocos mais fortes. O problema não é dizer que o exercício é inútil. O problema é vender a elevação pélvica como solução superior, quase obrigatória, para hipertrofia de glúteos.
A crítica começa pela origem comercial da promessa: criar um problema, vender uma máquina, criar uma autoridade de nicho e usar medidas frágeis para sustentar a narrativa. Um dos pontos discutidos é o uso inadequado da eletromiografia como se ativação elétrica fosse sinônimo de crescimento. Eletromiografia pode mostrar atividade elétrica, mas não mede hipertrofia.
Também entra a questão da posição do músculo. A elevação pélvica enfatiza muito a posição encurtada do glúteo. Já existe base fisiológica forte para desconfiar de promessas exageradas quando se tenta vender a posição encurtada como superior para crescimento, especialmente diante de evidências favorecendo ou igualando estímulos em posições mais alongadas em vários músculos.
O estudo de agachamento versus elevação pélvica em mulheres treinadas, com participação de Gentil, comparou programas de resistência e não encontrou a superioridade vendida pela narrativa comercial. A conclusão editorial é equilibrada: elevação pélvica pode ter lugar, especialmente quando a pessoa não consegue agachar ou precisa de alternativa. Mas não deve virar religião do glúteo.
Mito 9: Mounjaro emagrece, então treino de força não precisa
Os incretinomiméticos mudaram o jogo do emagrecimento. Semaglutida, tirzepatida e drogas semelhantes reduzem fome, alteram esvaziamento gástrico, saciedade e palatabilidade. O resultado pode ser perda de peso expressiva. O mito é achar que isso elimina a necessidade de treino de força.
O raciocínio apresentado é fisiológico: quando a pessoa come muito pouco, o corpo precisa alocar energia. Coração, cérebro, rins e funções vitais têm prioridade. Construir e manter músculo custa energia. Em um estado de escassez, o organismo tende a reduzir investimento em tecido muscular e outras estruturas.
Por isso, o profissional de exercício não deveria tratar uma pessoa usando esse tipo de medicamento como alguém que precisa "gastar mais" a qualquer custo. Colocar jejum, horas de aeróbio e treino destrutivo em alguém com baixa ingestão pode piorar o problema. A missão é preservar função, massa muscular, metabolismo e capacidade de treino.
O treino de força entra como sinal biológico: "este músculo ainda é necessário". A dose precisa ser ajustada à realidade da pessoa, porque alguém com baixa disponibilidade energética não tolera a mesma carga de treino de alguém alimentado e recuperado.
Mito 10: peptídeos, NAD, sol nas bolas, água com sal, BCAA e colágeno resolvem tudo
No fim da conversa aparece a prateleira dos modismos: peptídeos, NAD, sol nas bolas, água com sal, jejum vendido como cura universal, cúrcuma, BCAA, colágeno, pré-treinos estranhos e até hormônio usado como pré-treino. A lista muda com a moda, mas o mecanismo de venda é parecido.
O público recebe uma promessa extraordinária com explicação fisiológica rasa. Muitas vezes, quem vende sabe que a pessoa não tem formação para perguntar o básico: qual é o mecanismo? Qual dose? Qual desfecho? Qual população? Qual risco? Qual evidência em humanos? O efeito é clinicamente relevante ou só estatisticamente bonito? Existe conflito comercial?
O exemplo do colágeno ajuda: proteína ingerida é digerida em fragmentos; não volta magicamente ao local desejado reconstruída como tecido novo. O exemplo da água com sal é ainda mais óbvio: beber sal não corrige hérnia de disco por mecanismo plausível. O mesmo vale para promessas hormonais com sol em região íntima ou suplementos vendidos como tecnologia anti-idade sem sustentação proporcional.
A saída não é decorar todas as mentiras. É desenvolver filtro para rir da promessa antes de comprar.
Mito 11: quem critica é que precisa provar tudo
Uma inversão comum é jogar o ônus da prova em quem duvida. Alguém lança uma afirmação absurda, vende produto, ganha seguidores e, quando é contestado, exige que os críticos provem detalhadamente que aquilo não funciona.
A lógica correta é outra: quem faz a alegação extraordinária deve apresentar evidência proporcional. Se alguém diz que determinado peptídeo cura doença, que sol nas bolas aumenta testosterona de forma relevante, que água com sal trata hérnia ou que um método muda o formato do músculo, essa pessoa precisa provar. Não basta frase bonita, gráfico solto, jaleco, número de seguidores ou "ausência de evidência não é evidência de ausência" usado pela metade.
Esse filtro é essencial para profissionais. Quem trabalha com exercício não pode terceirizar o senso crítico para marombeiro famoso, médico vendedor, influencer hormonizado ou fabricante de aparelho.
O que sobra quando a fumaça baixa
Depois de desmontar os mitos, a mensagem é menos glamourosa e muito mais útil: faça o básico com competência. Controle carga, intervalo, volume, intensidade, frequência, seleção de exercícios, recuperação e progressão. Entenda fisiologia. Respeite o contexto da pessoa. Use evidência para decidir, não para enfeitar uma opinião pronta.
Isso não dá o mesmo engajamento de uma promessa milagrosa. Mas é o que constrói resultado sustentável e reduz dano.
Conclusão
Os mitos da "ciência" do exercício não são apenas bobagens inocentes. Alguns fazem a pessoa perder tempo e dinheiro. Outros colocam saúde, carreira e vida em risco. A raiz é sempre parecida: simplificar demais, vender demais, testar de menos e ignorar o que já se sabe sobre corpo humano.
Treino sério não precisa de mística. Precisa de raciocínio. Testosterona não substitui desempenho. Prescrição médica não apaga risco. Exame não enxerga tudo. Método não muda genética. Sensação não prova hipertrofia. E ciência de verdade não é inimiga da prática; é justamente o que impede a prática de virar charlatanismo com halteres.
FAQ
Testosterona sempre melhora desempenho esportivo?
Não. Ela pode influenciar algumas variáveis, mas desempenho depende de técnica, estratégia, coordenação, especificidade e tomada de decisão. Em muitos esportes, mais hormônio não resolve o problema central.
Reposição de testosterona prescrita por médico é sempre segura?
Não. Quando existe deficiência real, pode haver indicação médica com avaliação de risco e benefício. Fora disso, prescrição não transforma uso estético ou suprafisiológico em prática segura.
Eletroestimulação substitui musculação?
Para pessoas saudáveis e ativas, não deve ser vendida como substituta superior ao treino de força. Pode ter usos clínicos específicos, mas também há relatos de efeitos adversos quando mal aplicada.
Elevação pélvica é inútil?
Não. Ela pode ser útil em contextos específicos. O erro é vendê-la como exercício superior e obrigatório para glúteos, especialmente quando a pessoa pode treinar movimentos complexos com boa técnica.
Quem usa Mounjaro precisa treinar força?
Sim, com prescrição ajustada. A perda de peso intensa pode vir acompanhada de perda de massa magra, e o treino de força ajuda a preservar função muscular e metabolismo.
Como identificar modismo fitness?
Desconfie de promessa extraordinária sem mecanismo plausível, sem estudos fortes em humanos, com conflito comercial evidente e sustentada apenas por autoridade, corpo bonito ou depoimentos.
Referências
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