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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Anabolizantes e redes sociais: quando o físico parece pouco

O feed muda sua referência de físico. Entenda a pressão dos influenciadores, a pressa por resultados e o que os estudos mediram entre jovens.

Você treina há dois ou três anos, ganha músculo e começa a gostar do resultado. Bastam alguns minutos olhando físicos cada vez maiores no celular para tudo parecer pouco. A relação entre anabolizantes e redes sociais passa por essa mudança de referência: o corpo melhora, mas a comparação empurra a meta para mais longe.

Greg Doucette analisa essa pressão em “Investigating The Gen Z Steroid Epidemic”. Seu argumento é que acompanhar influenciadores todos os dias pode transformar um físico excepcional em obrigação. A evidência recente ajuda a entender essa influência, mas exige separar três coisas: aparecer mais no feed, querer usar e realmente começar a usar.

Por que um físico forte começa a parecer pequeno

A referência já foi He-Man, Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro e Rambo no cinema. O desejo de ser grande e forte vinha de personagens vistos de vez em quando. Agora, a mesma comparação acompanha refeições, intervalos de trabalho e o caminho para a academia.

É a chamada “inflação de físicos”: o corpo que parecia grande passa a parecer comum quando a referência fica maior. Imagine que todas as pessoas que você acompanha apareçam com cerca de 9 kg de músculo a mais. Essa é a comparação hipotética usada para explicar por que o próprio progresso pode perder valor aos seus olhos.

O anabolizante aparece então como uma maneira de encurtar a distância. São substâncias relacionadas à testosterona, usadas indevidamente para aumentar músculo e desempenho. Esse efeito ajuda a explicar o apelo, enquanto os riscos à fertilidade, ao fígado e ao coração ficam fora da fotografia. A matéria sobre por que homens jovens usam esteroides aprofunda essa decisão.

O influenciador que parece seu amigo

Acompanhar alguém preparando comida, treinando e explicando seus pensamentos cria uma sensação de proximidade. Sam Sulek é o exemplo central dessa rotina: o interesse vai além do tamanho dos braços e inclui o jeito de falar e de viver. Até escolhas como leite com chocolate, pizza e hambúrguer entram na história que o seguidor acompanha.

A comparação ilustrativa é um filme de duas horas por ano contra cerca de 40 minutos de contato por dia. No segundo caso, pode parecer que você conhece a pessoa. Esse vínculo de mão única é chamado de relação parassocial: você acompanha a intimidade de alguém que provavelmente nem sabe quem você é.

A velha ideia de que os cinco amigos mais próximos influenciam seu comportamento ganha uma versão digital: quais são os cinco perfis que mais ocupam sua atenção? Quando todos tratam um físico extremo como normal, você passa a avaliar seu treino pela vida deles. O critério deixa de ser quanto melhorou e vira quanto falta para se parecer com outra pessoa.

O que a ciência mediu sobre redes sociais e anabolizantes

Um estudo de 2026 publicado no periódico Body Image analisou 1.515 rapazes e homens do Canadá e dos Estados Unidos que nunca haviam usado anabolizantes. Mais tempo nas redes, mais contato com publicações sobre corpos musculosos e mais comparação corporal estavam associados a maior intenção de usar essas drogas.

A pesquisa mediu vontade de usar, não quantos começaram depois. Os pesquisadores observaram as pessoas, sem testar o efeito de mudar suas redes. Parte da associação pode vir de quem já se interessa por músculos procurar esses perfis. Para avaliar sua própria rotina, observe tanto o tempo de tela quanto o tipo de publicação que você consome.

Contar que usa resolve a influência?

Esconder o uso pode fazer o seguidor atribuir um resultado inteiro à dieta, ao treino ou ao suplemento anunciado. Por outro lado, revelar o uso também pode normalizá-lo. Alex Eubank aparece como exemplo desse dilema ao anunciar testosterona sob o nome de TRT, sigla para terapia de reposição de testosterona.

O efeito sobre o seguidor pode ser este: se uma pessoa já admirada acha que precisa de mais músculo, meu corpo também deve estar insuficiente. A transparência fica mais útil quando inclui dificuldades para parar e consequências, em vez de mostrar só a transformação.

Querer em um ano o que levou oito

Togi relata olhar para o físico de Lex Little, construído ao longo de oito anos, e rejeitar a espera: queria algo semelhante em um ano. A pressa importa tanto quanto saber se o modelo usa hormônios. Até um resultado natural pode estimular a busca de drogas quando o prazo do seguidor vira uma exigência.

A transformação atribuída a Togi inclui a alegação de quase 9,1 kg de músculo em 80 dias. Ela chega sem medição de composição corporal que permita confirmar o ganho como músculo. O que se vende ao público é uma transformação rápida, seguida da expectativa de ganhar atenção e seguidores mostrando o próprio uso.

Os Tren Twins ilustram outra forma de banalização: incorporar o nome de uma droga à própria identidade e tratar efeitos adversos como piada. Para quem assiste, a repetição pode fazer o risco parecer parte normal do caminho. Rir de uma consequência também pode esconder o peso que ela terá fora da tela.

Quando a comparação vira vigorexia

Vigorexia é o nome popular da dismorfia muscular: a preocupação persistente de ser pequeno ou pouco musculoso pode dominar a vida, mesmo em alguém forte. O sinal que merece atenção é o sofrimento e o prejuízo na rotina, não apenas gostar de treinar.

Uma revisão publicada no fascículo de janeiro de 2026 do European Eating Disorders Review reuniu 22 estudos sobre redes sociais, preocupação obsessiva com alimentação e dismorfia muscular. Só cinco tratavam desta última. Os resultados apontam uma associação, mas eram principalmente pesquisas que fotografam um momento, sem acompanhar a evolução das pessoas.

Deixar de participar de situações sociais por vergonha do corpo, checar a aparência repetidamente e organizar a vida de forma rígida em torno de treino e dieta são exemplos que merecem atenção quando trazem sofrimento ou prejuízo. Uma revisão clínica publicada em 2026 no The Lancet Child & Adolescent Health orienta avaliar esse impacto. O diagnóstico depende de avaliação individual.

Por que pode ser difícil parar depois do primeiro ciclo

Rich Piana descreveu a sensação de ficar preso ao crescimento do próprio corpo e ao aumento da força. Larry Wheels chegou a chamar o retorno ao uso de recaída. Esses relatos ajudam a entender o medo de perder tamanho e identidade depois que o resultado passa a organizar a vida.

A dependência envolve perder o controle e continuar usando apesar dos prejuízos. Ao interromper, podem surgir cansaço, queda de libido, dificuldade para dormir e depressão. Se você já usa e falha ao tentar parar, procure atendimento médico e de saúde mental para avaliar o uso e os sintomas. Os sinais estão detalhados em anabolizante vicia?.

SARMs e peptídeos também entram na busca de atalhos

A busca estética pode juntar duas metas: ganhar músculo e ficar cada vez mais seco. É nesse ambiente que aparecem SARMs, substâncias que imitam parte da ação da testosterona, além de peptídeos e medicamentos para emagrecer. Há relatos de pessoas já magras buscando esses produtos para acompanhar a definição que veem nas redes.

A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, alerta que influenciadores promovem SARMs a adolescentes e jovens como um caminho fácil para ganhar músculo. Esses produtos carecem de aprovação da agência e estão associados a danos no fígado, problemas cardiovasculares, disfunção sexual e infertilidade. O rótulo “apenas para pesquisa” acompanha produtos vendidos indevidamente para consumo humano.

“Peptídeo” descreve um tipo de molécula e abrange substâncias muito diferentes. A FDA também alerta para versões não aprovadas de medicamentos para emagrecer, com problemas de qualidade e erros de dose. A retatrutida, investigada para emagrecimento, segue sem aprovação pela agência. Uma loja bem apresentada ou um influenciador famoso oferecem pouca informação para avaliar a indicação e a qualidade do produto.

Existe uma epidemia comprovada entre jovens?

A visibilidade nas redes merece atenção, mas os levantamentos precisam medir uso real. Em maio de 2026, a Universidade de Michigan divulgou uma análise dos dados do Monitoring the Future entre 2001 e 2024. O uso de anabolizantes relatado por estudantes americanos havia caído em relação a duas décadas antes e tampouco aumentara nos cinco anos mais recentes analisados.

Esses resultados descrevem estudantes dos Estados Unidos e esteroides anabolizantes. A hipótese de substituição por SARMs ou outros produtos precisa ser testada separadamente. Para afirmar um recorde de uso de todas essas drogas, seria necessário medir cada grupo de substâncias ao longo do tempo, em populações comparáveis.

O risco ao coração precisa de dados, além dos casos famosos

Uma pesquisa dinamarquesa publicada em 2025 acompanhou 1.189 homens identificados por uso de anabolizantes em academias e os comparou com 59.450 homens da população geral. O acompanhamento durou, em média, cerca de 11 anos. A análise ajustada encontrou risco de infarto três vezes maior e de doença do músculo cardíaco quase nove vezes maior entre usuários.

Essas são comparações relativas entre grupos, e outras diferenças entre eles podem participar dos resultados. O estudo ajuda a dimensionar o risco, sem atribuir a morte ou a internação de um atleta a uma causa que seu prontuário não confirmou. Para quem começa muito jovem, a discussão também envolve a perspectiva de muitos anos de exposição, abordada em esteroides na adolescência.

O que muda no Brasil quando o uso vira publicidade

No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição médica de esteroides androgênicos e anabolizantes para estética, ganho de massa muscular estético e melhora do desempenho esportivo. O tratamento de doenças com indicação médica continua previsto. Chamar um uso estético de TRT, por si só, deixa sem resposta se existe uma deficiência que justifique reposição.

A Câmara dos Deputados divulgou, em agosto de 2026, o Projeto de Lei 3120/26, que propõe regras para publicidade e alertas sobre riscos. Trata-se de uma proposta legislativa. As obrigações propostas dependem da aprovação do projeto e de sua transformação em lei.

Antes de decidir, olhe para a sua vida fora do feed

Faça três perguntas: estou buscando um resultado que desejo ou tentando alcançar alguém que acompanho? Estou disposto a treinar por anos ou só aceito uma transformação imediata? Se o corpo melhorou, por que minha avaliação sobre ele piorou? Elas retomam o problema central: a meta pode mudar toda vez que aparece alguém maior.

Escolher com mais cuidado os perfis que você acompanha e observar como se sente depois de consumi-los é uma forma de examinar essa influência. O estudo de 2026 sugere atenção ao conteúdo e às comparações, além do tempo conectado. Ainda falta saber se mudar o feed reduz o início do uso de drogas.

Conclusão

Os desejos de quem tem 16 anos podem mudar aos 18. Antes de organizar a vida em torno de um físico, imagine o que sua versão de daqui a 20 anos gostaria que você fizesse agora. Sono, alimentação, cardio e relações pessoais também fazem parte dessa resposta. A comparação com outra pessoa sempre encontra um corpo maior. Sua decisão precisa considerar a vida que você quer preservar, além do resultado que deseja mostrar.

Perguntas frequentes

O que é vigorexia e quais são os sinais?

É uma preocupação excessiva com a ideia de ser pouco musculoso. Evitar encontros por vergonha do corpo e passar muito tempo checando a aparência são exemplos de sinais quando prejudicam a vida. A avaliação considera o sofrimento e o impacto na rotina.

Anabolizantes fazem mal mesmo em quem treina?

O uso indevido pode causar danos importantes. Uma pesquisa dinamarquesa encontrou maior incidência de problemas cardiovasculares entre usuários, ao acompanhar os grupos por cerca de 11 anos. Estar musculoso diz pouco sobre como está o coração.

Anabolizantes podem causar infertilidade?

Sim, o uso indevido pode afetar a fertilidade e reduzir o tamanho dos testículos. Ter força, músculos ou desejo sexual preservado é insuficiente para avaliar a capacidade reprodutiva.

Peptídeos vendidos na internet são seguros?

A segurança depende da substância, da procedência e da indicação. A FDA alerta para medicamentos não aprovados vendidos pela internet e para problemas de qualidade de versões manipuladas. Um rótulo de pesquisa não atesta segurança para uso humano.

O que o CFM determina sobre anabolizantes para estética?

A Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição médica para estética, ganho de massa muscular estético e melhora de desempenho esportivo. A norma preserva a indicação para tratar doenças quando os benefícios superam os riscos. Ela trata da conduta médica.

Quem usa anabolizantes além dos atletas?

Pessoas que buscam mudar a aparência também usam, além dos atletas. O estudo sobre redes avaliou rapazes e homens sem uso prévio, e mediu intenção de começar. Ele não estima o uso no Brasil.

Referências

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  2. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. CFM divulga nota para esclarecimento sobre a proibição da prescrição de esteroides e anabolizantes. CFM. [S. l.], 27 abr. 2023. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/noticias/cfm-divulga-nota-para-esclarecimento-sobre-a-proibicao-da-prescricao-de-esteroides-e-anabolizante. Acesso em: 19 out. 2026.
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