As canetas reduziram o peso médio em proporções que antes pertenciam quase exclusivamente à cirurgia bariátrica. Isso não significa que qualquer pessoa com dois quilos a perder deva usá-las, nem que uma dose maior seja sempre melhor. A pergunta correta começa pela indicação clínica e termina na capacidade de preservar músculo e sustentar o resultado.
Em "Episódio 07: Utilização de medicamentos no processo de emagrecimento", do Saúde & Hipertrofia Podcast, o médico Thiago Viana organiza essa decisão em torno do perfil do paciente, da intensidade da fome, dos efeitos adversos e da composição corporal. A comparação dos ensaios confirma uma diferença grande entre liraglutida, semaglutida e tirzepatida, mas também corrige exageros comuns sobre perda localizada de gordura e percentuais acima dos realmente observados.
Esta matéria é informativa e não substitui avaliação médica. As doses abaixo pertencem a ensaios clínicos e não constituem prescrição individual.
A indicação começa em IMC 30 ou em IMC 27 com comorbidade
No Brasil, a indicação aprovada para controle crônico do peso segue dois pontos de entrada em adultos:
IMC igual ou superior a 30 kg/m²
IMC igual ou superior a 27 kg/m² quando existe pelo menos uma condição associada ao peso, como hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2
Isso não transforma o IMC em diagnóstico completo. Circunferência da cintura, composição corporal, histórico de tentativas, medicamentos em uso, sintomas, transtornos alimentares e risco cardiometabólico também importam. O critério serve para impedir que uma terapia de doença crônica vire resposta automática para refinamento estético de 2 ou 3 kg.
Desde 23 de junho de 2025, agonistas de GLP-1 como semaglutida, liraglutida e tirzepatida só podem ser vendidos no Brasil com retenção da receita. A prescrição é emitida em duas vias e vale por até 90 dias.
Liraglutida, semaglutida e tirzepatida: resultados sem inflar números
Os estudos não podem ser comparados como se fossem uma disputa perfeita. Eles usaram moléculas, doses, populações e desenhos distintos. Ainda assim, mostram a ordem de grandeza que sustentou a mudança no tratamento da obesidade.
Estudo | Tratamento estudado | Duração | Perda média de peso |
|---|---|---|---|
SCALE Obesity and Prediabetes | liraglutida 3 mg todos os dias | 56 semanas | 8,0% |
STEP 1 | semaglutida 2,4 mg uma vez por semana | 68 semanas | 14,9% |
SURMOUNT-1 | tirzepatida 5 mg uma vez por semana | 72 semanas | 15,0% |
SURMOUNT-1 | tirzepatida 10 mg uma vez por semana | 72 semanas | 19,5% |
SURMOUNT-1 | tirzepatida 15 mg uma vez por semana | 72 semanas | 20,9% |
No SCALE, o placebo associado a dieta e exercício perdeu em média 2,6%. No STEP 1, o placebo perdeu 2,4%. No SURMOUNT-1, o placebo perdeu 3,1%. Portanto, os resultados não vieram apenas da injeção, e a diferença correta considera a intervenção de estilo de vida aplicada também ao grupo de controle.
A tirzepatida de 15 mg não produziu perda média de 25% no SURMOUNT-1. O valor foi 20,9%. Alguns participantes perderam 20% ou mais, mas isso não converte a média do grupo em 25%.
Retatrutida ainda não é tratamento aprovado
A retatrutida age nos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon. Em um ensaio de fase 2, a dose de 12 mg por semana produziu perda média de 24,2% em 48 semanas. Não foram 30%, e o resultado não autoriza uso fora de pesquisa.
Em 2026, a molécula continua em desenvolvimento clínico e sem registro da Anvisa. Produto vendido na internet com esse nome não equivale ao medicamento de um ensaio controlado. Faltam aprovação, cadeia regular, garantia de concentração e farmacovigilância de uso comercial.
O remédio reduz ingestão, não escolhe sozinho de onde o peso sairá
Agonistas de GLP-1 aumentam saciedade, reduzem ingestão de alimentos e retardam o esvaziamento gástrico. A tirzepatida também atua no receptor de GIP. O déficit energético continua sendo o elo entre menor ingestão e perda de peso.
A comparação entre densidades calóricas ajuda a entender o problema: um lanche, batata e refrigerante podem concentrar calorias semelhantes às de várias refeições com 100 g de arroz e 100 g de carne. O volume visual de comida não revela a energia total. Quem troca uma combinação muito densa por refeições com proteína, vegetais e alimentos menos densos consegue comer mais volume dentro do mesmo orçamento energético.
Não há demonstração de que, a cada 5 kg perdidos com tirzepatida, 4 kg saiam especificamente da barriga. Essa distribuição foi uma analogia clínica, não resultado do SURMOUNT-1. A tirzepatida reduz peso e gordura visceral, mas não funciona como redução localizada programável.
Fome fisiológica, fome hedônica e o paciente que belisca
Três padrões práticos mudam a decisão clínica:
A pessoa que sente grande fome fisiológica e come porções volumosas
A pessoa que não come muito volume, mas escolhe alimentos de alta densidade calórica
A pessoa que belisca continuamente e quase nunca percebe uma refeição grande
O terceiro perfil apareceu com o exemplo de quem bebe refrigerante repetidamente ao longo do dia. Topiramato pode reduzir apetite e alterar percepção de sabor em alguns pacientes, mas seu uso para perda de peso isoladamente é fora da bula e pode causar lentificação cognitiva, dificuldade de memória, parestesias e outros efeitos. Não é uma solução inocente para "perder a vontade de Coca-Cola".
O padrão gatilho, rotina e recompensa também oferece uma intervenção concreta. Estresse, prova, TPM ou sexta-feira à noite podem funcionar como gatilhos. O gatilho nem sempre desaparece, mas a rotina pode mudar. Retirar doces da vista, levar a roupa de treino ao trabalho e planejar uma refeição antes do horário de maior fome reduzem decisões tomadas no impulso.
Escalonar a dose não significa perseguir a dose máxima
Os grandes ensaios usaram escalonamento para melhorar tolerabilidade. No STEP 1, a semaglutida levou 16 semanas para chegar ao alvo de 2,4 mg. No SURMOUNT-1, a tirzepatida teve 20 semanas de escalonamento.
Esses cronogramas descrevem estudos e não servem como receita individual. O princípio útil é outro: começar baixo, observar resposta e tolerância e não elevar automaticamente porque a náusea diminuiu ou porque outra pessoa usa mais. Ausência de efeito adverso não significa ausência de ação.
A dose também não deve suprimir a alimentação a ponto de impedir ingestão de proteína, carboidrato e micronutrientes. Apatia, fraqueza, incapacidade de treinar, vômitos persistentes e ingestão quase nula não são sinais de que o tratamento está "funcionando bem".
A balança pode cair enquanto o músculo vai junto
Na subanálise de composição corporal do SURMOUNT-1, a tirzepatida reduziu em média 33,9% da massa gorda e 10,9% da massa magra em 72 semanas. Aproximadamente 75% do peso perdido correspondeu a gordura e 25% a massa magra.
Massa magra não é sinônimo perfeito de músculo, porque inclui água e outros tecidos. Mesmo assim, a proporção mostra por que a balança sozinha é insuficiente. Perder 8 kg não responde quanto veio de gordura, tecido magro ou água.
Treino resistido, proteína adequada, déficit que permita adesão e acompanhamento da força ajudam a preservar tecido funcional. A alegação de que jejum intermitente protege mais músculo do que uma restrição calórica equivalente não pode ser tratada como regra. Quando energia e proteína são comparáveis, o horário alimentar não substitui treinamento e dieta bem montada.
Parar sem plano favorece reganho
Na extensão do STEP 1, um subgrupo acompanhado por mais um ano após interromper semaglutida 2,4 mg recuperou aproximadamente dois terços do peso que havia perdido. Variáveis cardiometabólicas também caminharam de volta em direção aos valores iniciais.
Isso não prova que toda pessoa precise usar a mesma medicação para sempre. Prova que obesidade é crônica e que retirar o agente que controlava fome e ingestão sem construir manutenção deixa um vazio previsível.
A imagem da "ponte estreita" resume o ajuste: apetite baixo demais dificulta comer e treinar. Retirada abrupta pode trazer fome e peso de volta. O plano precisa definir como alimentação, treino, sono, comportamento e acompanhamento serão sustentados quando a dose mudar.
Efeitos adversos e sinais que não devem ser normalizados
Náusea, vômito, diarreia, constipação, refluxo e desconforto abdominal estão entre os eventos mais frequentes. No SURMOUNT-1, os eventos gastrointestinais ocorreram principalmente durante o escalonamento e foram em sua maioria leves ou moderados. Ainda assim, 4,3% a 7,1% interromperam tirzepatida por eventos adversos, conforme a dose, contra 2,6% no placebo.
No Brasil, a Anvisa cita riscos como pancreatite, desidratação, insuficiência renal aguda, eventos de vesícula, hipersensibilidade e reações no local da aplicação. Dor abdominal intensa e persistente, vômitos repetidos, sinais de desidratação ou vários dias sem evacuar acompanhados de dor e distensão exigem avaliação médica.
Comparar a própria resposta com a de um amigo é pouco útil. Dois extremos relatados no consultório foram: 13 kg em 26 dias e 4 kg em três meses. São relatos individuais, não metas. Perda excepcionalmente rápida pode representar desidratação, ingestão insuficiente e perda de massa magra, não superioridade do tratamento.
O que levar para a consulta
Uma avaliação útil precisa ir além de pedir a caneta da moda. Vale chegar com:
peso, altura e circunferência da cintura
doenças associadas ao peso e medicamentos em uso
histórico de pancreatite, doença da vesícula e sintomas gastrointestinais
padrão de fome, beliscos, compulsão e horários de maior ingestão
rotina de treino, força e ingestão de proteína
tratamentos anteriores, resposta e motivos de interrupção
plano de acompanhamento e manutenção
O medicamento pode facilitar o déficit. Ele não monta a dieta, não treina, não corrige gatilhos e não escolhe preservar músculo. O resultado depende de integrar essas partes antes que a balança esconda um processo mal conduzido.
Conclusão
Liraglutida, semaglutida e tirzepatida mudaram o tratamento da obesidade, com perdas médias de 8,0%, 14,9% e até 20,9% nos ensaios centrais. A indicação, porém, continua clínica: IMC igual ou superior a 30, ou igual ou superior a 27 com comorbidade relacionada ao peso.
O melhor tratamento não é o que zera a fome nem o que produz o maior número em poucas semanas. É aquele que reduz risco, preserva capacidade de comer e treinar, controla efeitos adversos e chega à manutenção com mais saúde e força.
FAQ
Quem tem indicação para usar caneta para emagrecer?
Em adultos, produtos aprovados para controle do peso usam como referência IMC igual ou superior a 30 kg/m², ou IMC igual ou superior a 27 kg/m² com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso. Avaliação médica individual continua necessária.
Quanto se perde com semaglutida 2,4 mg?
No STEP 1, a perda média foi de 14,9% em 68 semanas, contra 2,4% com placebo. Os dois grupos receberam intervenção de estilo de vida.
Quanto se perde com tirzepatida?
No SURMOUNT-1, as perdas médias em 72 semanas foram 15,0% com 5 mg, 19,5% com 10 mg e 20,9% com 15 mg por semana. Esses dados não são uma prescrição.
Tirzepatida queima gordura da barriga primeiro?
Ela reduz gordura visceral, mas não há regra clínica de que 4 em cada 5 kg perdidos saiam da barriga. A distribuição depende da composição corporal e não pode ser escolhida como redução localizada.
É preciso chegar à dose máxima?
Não. A dose deve ser escalonada e individualizada pelo prescritor. A meta é obter benefício com tolerabilidade, não alcançar automaticamente o maior número da caneta.
O peso volta depois de parar?
Pode voltar. Na extensão do STEP 1, participantes recuperaram em média cerca de dois terços do peso perdido um ano após interromper semaglutida. A retirada precisa de plano de manutenção.
Referências
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