Pela primeira vez em anos, a taxa de obesidade medida pela Gallup nos Estados Unidos recuou de forma estatisticamente relevante. A queda de 39,9% em 2022 para 37,0% em 2025 equivale a aproximadamente 7,6 milhões de adultos a menos na faixa de obesidade. O avanço das canetas emagrecedoras coincide com essa mudança, mas a pesquisa não prova que os medicamentos sejam sua única causa.
Em “Canetas emagrecedoras: como Mounjaro e Wegovy estão transformando o mundo”, a BBC News Brasil mostra que o efeito já ultrapassa a balança. Semaglutida e tirzepatida alteraram o tratamento da obesidade, o padrão de consumo, o tamanho das porções, a indústria de alimentos e até a estratégia de restaurantes. A transformação vem acompanhada de preço alto, efeitos adversos, reganho após a interrupção e uma pergunta ainda sem resposta: o que ocorre depois de 20, 30 ou 40 anos de uso?
Por que emagrecer e manter o peso é tão difícil
O organismo humano foi moldado em um ambiente de escassez. Economizar energia, aumentar a fome depois da perda de peso e recuperar reservas ajudava na sobrevivência. No ambiente atual, com alimentos muito calóricos disponíveis a qualquer hora e pouco esforço físico necessário para obtê-los, esses mecanismos favorecem o ganho e o reganho de peso.
A Organização Mundial da Saúde estima que 43% dos adultos viviam com sobrepeso em 2022 e 16% com obesidade. A obesidade é uma doença crônica e recidivante, associada a diabetes tipo 2, doença cardiovascular, alguns tipos de câncer, problemas respiratórios e outras complicações. Dieta, atividade física e sono continuam fundamentais, mas pessoas com obesidade mais grave frequentemente enfrentam adaptações biológicas que tornam a manutenção da perda muito mais difícil.
O que as canetas fazem no cérebro, no estômago e na glicose
O GLP-1 é um hormônio produzido no intestino depois das refeições. Ele participa do controle da glicose, aumenta a saciedade e retarda o esvaziamento do estômago. A semaglutida imita sua ação e alcança receptores em regiões cerebrais ligadas à fome, como o hipotálamo.
A tirzepatida atua em dois receptores, GIP e GLP-1. Essa diferença ajuda a explicar por que ela produziu perda média maior nos principais ensaios de obesidade. Os dois medicamentos são aplicados por via subcutânea uma vez por semana.
Wegovy e Ozempic contêm semaglutida, mas não são apresentações intercambiáveis por conta própria. Wegovy foi desenvolvido e registrado para controle crônico do peso. Ozempic nasceu com indicação para diabetes tipo 2 e usa esquemas de dose próprios. Mounjaro contém tirzepatida e, no Brasil, recebeu indicação para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso acompanhado de comorbidade.
Wegovy perdeu 14,9% e tirzepatida chegou a 20,9% em média
Os percentuais de propaganda e manchete costumam destacar os melhores resultados. Os ensaios principais permitem uma leitura mais precisa:
| Ensaio | Participantes e duração | Tratamento | Mudança média no peso |
|---|---|---|---|
| STEP 1 | 1.961 adultos, 68 semanas | Semaglutida 2,4 mg por semana | -14,9%, contra -2,4% com placebo |
| SURMOUNT-1 | 2.539 adultos, 72 semanas | Tirzepatida 5 mg por semana | -15,0%, contra -3,1% com placebo |
| SURMOUNT-1 | Mesmo ensaio | Tirzepatida 10 mg por semana | -19,5% |
| SURMOUNT-1 | Mesmo ensaio | Tirzepatida 15 mg por semana | -20,9% |
No STEP 1, a análise de quem permaneceu no tratamento como planejado chegou a 16,9% com semaglutida. Isso ajuda a entender a afirmação de perda “de até 17%”. No SURMOUNT-1, 56,7% dos participantes que receberam 15 mg de tirzepatida perderam pelo menos 20% do peso, mas a média do grupo foi 20,9%, não 26%.
Os números não são promessa individual. Os ensaios incluíram seleção de participantes, escalonamento de dose e intervenção de estilo de vida. Diabetes, tolerância gastrointestinal, adesão, dose alcançada e interrupções mudam o resultado.
Quem entra na indicação aprovada no Brasil
A indicação da Anvisa para controle de peso não se resume a quem deseja secar alguns quilos. Wegovy e Mounjaro entram como adjuvantes de dieta de baixa caloria e aumento da atividade física para adultos com:
- IMC igual ou superior a 30 kg/m²
- IMC entre 27 e 29,9 kg/m² acompanhado de pelo menos uma condição relacionada ao peso, como hipertensão, dislipidemia, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2
Desde junho de 2025, agonistas de GLP-1 vendidos no Brasil exigem retenção da receita. A regra procura reduzir automedicação, falsificação, uso puramente estético e eventos adversos sem acompanhamento.
Parar costuma trazer parte importante do peso de volta
O tratamento não corrige permanentemente todos os mecanismos que aumentam a fome. Na extensão do STEP 1, 327 participantes foram acompanhados por mais um ano depois da retirada da semaglutida e da intervenção estruturada de estilo de vida. O grupo havia perdido 17,3% do peso em 68 semanas. Até a semana 120, recuperou 11,6 pontos percentuais, cerca de dois terços do que havia perdido.
Uma revisão sistemática de 2026 reuniu 37 estudos e 9.199 adultos. Depois da suspensão de medicamentos para controle de peso, o reganho estimado foi de 0,4 kg por mês. A projeção indicou retorno ao peso inicial em aproximadamente 1,7 ano. O reganho foi 0,3 kg por mês mais rápido do que após programas comportamentais, embora os estudos tenham reunido medicamentos diferentes e pouco acompanhamento dos fármacos mais novos.
Esses resultados não significam que toda pessoa precise usar a mesma dose para sempre. Significam que interromper sem plano de manutenção costuma reabrir a fome e reduzir a saciedade que estavam sendo farmacologicamente controladas. A decisão sobre manutenção, redução, troca ou suspensão precisa considerar resposta, efeitos adversos, custo e risco clínico.
De R$ 1.000 a R$ 3.000 por mês: a desigualdade entra na receita
A faixa apresentada pela BBC varia de aproximadamente R$ 1.000 a R$ 3.000 por mês, conforme produto e dose. Preços mudam com apresentação, farmácia e momento da compra, mas o impacto é evidente porque o tratamento é prolongado.
Quem mais sofre com obesidade também costuma enfrentar menor acesso a alimentação adequada, espaços para atividade física e acompanhamento multiprofissional. Quando apenas uma parcela consegue pagar, a inovação pode reduzir peso e risco cardiovascular para uns enquanto amplia a desigualdade para outros. A eventual incorporação ao SUS exige discutir custo por paciente, critérios de prioridade e capacidade de manter o tratamento.
Náusea e diarreia são comuns, pancreatite é alerta
Na bula do Wegovy, os eventos mais frequentes nos ensaios com adultos foram náusea em 44%, diarreia em 30% e vômito em 25%. Na tirzepatida, náusea, diarreia, vômito, constipação, dor abdominal e dispepsia aparecem entre as reações mais comuns. Parte dos sintomas surge ou piora durante o aumento da dose.
Pancreatite aguda, doença da vesícula, desidratação com lesão renal, reações alérgicas e hipoglicemia quando há combinação com determinados medicamentos para diabetes exigem atenção. Dor abdominal forte e persistente, especialmente quando irradia para as costas ou vem acompanhada de vômitos, justifica avaliação imediata.
Os ensaios atuais sustentam eficácia e segurança por alguns anos, mas não permitem descrever com a mesma confiança o que ocorrerá após quatro décadas de exposição. A ausência desse acompanhamento não prova que haverá um desastre, nem autoriza afirmar risco zero. É uma incerteza real que farmacovigilância e estudos de longo prazo precisam responder.
A compra no supermercado já começou a mudar
O efeito econômico aparece onde a fome encontra a oferta de comida. Relatórios citados pela BBC apontam menor interesse de usuários por salgadinhos, bolachas e outros produtos muito calóricos. A rede britânica Greggs percebeu maior procura por porções menores e opções com mais proteína e fibra.
Outras mudanças ainda precisam de tempo para serem confirmadas:
- menor consumo de bebidas alcoólicas entre usuários de semaglutida e tirzepatida
- maior procura por academias e por cirurgias para excesso de pele
- restaurantes de rodízio no Brasil oferecendo desconto a clientes que apresentam receita de Wegovy ou Mounjaro
- reformulação de produtos e porções pela indústria de alimentos
- expansão de roubos, falsificações e comércio ilegal diante da demanda
O colapso financeiro da WeightWatchers também entrou no debate sobre a mudança do mercado de emagrecimento. Não é possível atribuir a falência a uma única causa, mas medicamentos que reduzem diretamente a fome mudaram o valor percebido de programas tradicionais baseados apenas em acompanhamento e comportamento.
Revolução semelhante à pílula ou crise semelhante aos opioides?
A comparação com a pílula anticoncepcional representa o cenário otimista: um medicamento que não apenas trata um problema, mas reorganiza escolhas individuais, mercados e relações sociais. A comparação com a crise dos opioides representa o alerta: marketing agressivo, banalização de riscos e expansão do uso muito além de quem realmente se beneficia.
Nenhuma das analogias é uma previsão. As canetas já demonstraram benefícios clínicos sólidos e, no caso da semaglutida, redução de eventos cardiovasculares em pessoas com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade. Ao mesmo tempo, uso estético sem indicação, falsificação, automedicação e promessas de resultado permanente exigem vigilância.
Conclusão
Mounjaro e Wegovy abriram uma fase em que perdas médias próximas de 15% a 21% do peso deixaram de depender exclusivamente de cirurgia bariátrica. Esse avanço ajuda a explicar a redução recente da obesidade nos Estados Unidos, mas não prova causalidade isolada e não elimina dieta, exercício, sono e acompanhamento.
O preço mensal citado chega a R$ 3.000, náusea e diarreia são frequentes, e a retirada costuma devolver parte importante do peso. Ao mesmo tempo, supermercados, restaurantes, programas de emagrecimento e academias já reagem à mudança de apetite. A revolução é real, mas não cabe na frase “uma injeção resolve tudo”.
FAQ
Quanto peso o Wegovy faz perder?
No STEP 1, semaglutida 2,4 mg por semana produziu perda média de 14,9% em 68 semanas, contra 2,4% com placebo. Entre participantes que permaneceram no tratamento conforme planejado, a estimativa chegou a 16,9%.
Quanto peso o Mounjaro faz perder?
No SURMOUNT-1, a tirzepatida produziu perdas médias de 15,0%, 19,5% e 20,9% nas doses semanais de 5, 10 e 15 mg, respectivamente, em 72 semanas.
Ozempic e Wegovy são a mesma coisa?
Ambos contêm semaglutida, mas têm indicações, apresentações e esquemas de dose próprios. No Brasil, Wegovy é registrado para controle crônico do peso. Ozempic foi registrado para diabetes tipo 2.
O peso volta quando a pessoa para?
Frequentemente, sim. Na extensão do STEP 1, os participantes recuperaram cerca de dois terços da perda um ano após retirar a semaglutida. A magnitude varia e um plano de manutenção continua necessário.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns?
Náusea, diarreia, vômito, constipação e dor abdominal estão entre os mais relatados. Sintomas intensos, desidratação ou dor abdominal persistente precisam de avaliação.
Caneta emagrecedora substitui dieta e exercício?
Não. Os ensaios e as indicações aprovadas usam os medicamentos como complemento de dieta de baixa caloria e aumento da atividade física. O remédio facilita o controle da fome, mas não entrega sozinho proteína, fibra, condicionamento, força ou sono adequado.
Referências
- BBC NEWS BRASIL. Canetas emagrecedoras: como Mounjaro e Wegovy estão transformando o mundo. YouTube, 23 jul. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1-FJxXz2GWk. Acesso em: 16 ago. 2026.
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- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Wegovy (semaglutida). Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/wegovy-semaglutida. Acesso em: 16 ago. 2026.
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Mounjaro (tirzepatida): nova indicação. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/mounjaro-r-tirzepatida-nova-indicacao. Acesso em: 16 ago. 2026.
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Medicamentos agonistas GLP-1 só poderão ser vendidos com retenção da receita. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/canetas-emagrecedoras-so-poderao-ser-vendidas-com-retencao-de-receita. Acesso em: 16 ago. 2026.
- U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE. Wegovy: semaglutide injection, solution. DailyMed, 2026. Disponível em: https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=ee06186f-2aa3-4990-a760-757579d8f77b. Acesso em: 16 ago. 2026.
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