Um estudo com 10.259 adolescentes encontrou tentativa de suicídio em 30% dos que relataram uso de esteroides anabolizantes, contra 10% dos não usuários. Outro acompanhou registros de 545 homens flagrados em exames antidoping de academias e encontrou taxas posteriores maiores de tratamento com ansiolíticos, antipsicóticos e antidepressivos. Em fisiculturistas adultos, 7 de 25 usuários apresentaram ansiedade e outros 7, sintomas depressivos, enquanto nenhum dos 25 controles apresentou esses desfechos.
Esses números não provam que o anabolizante foi a única causa. Eles mostram por que saúde mental não pode continuar como nota de rodapé de um ciclo.
No vídeo "The Scary Truth About Steroids Nobody Talks About!", o cirurgião ortopédico Chris Raynor discute ansiedade, depressão, agressividade, retirada hormonal, drogas recreativas e trauma cerebral. A fonte não apresenta um protocolo com miligramas. A análise concreta depende das pesquisas publicadas, dos casos usados como exemplo e das limitações que precisam ser respeitadas.
As informações a seguir não oferecem ciclo, dose, TPC ou diagnóstico à distância. Ideias de autoagressão ou suicídio, agitação extrema, paranoia e perda de contato com a realidade exigem atendimento imediato.
O que a fonte realmente oferece
A abertura traz um depoimento no qual um homem diz que, durante o uso de doses altas, acordava com medo do restante do dia e pensava constantemente em violência. A substância, a quantidade, a duração e a identidade do autor da fala não são esclarecidas nesse trecho. Portanto, o depoimento ilustra sofrimento, mas não permite calcular uma relação entre dose e sintoma.
Raynor organiza o argumento em quatro etapas:
- testosterona participa de circuitos ligados a medo, recompensa, irritabilidade e tomada de decisão
- exposição suprafisiológica não é equivalente a reposição hormonal
- retirada após uso prolongado pode combinar testosterona baixa, ansiedade, depressão e perda de libido
- drogas recreativas, privação de sono, estresse e trauma cerebral podem se somar ao risco
A frase de que esteroides simplesmente "deixam alguém louco" é forte demais para a evidência. Os estudos mostram aumento de risco e associação em determinados grupos, não um destino inevitável para todo usuário.
Em 25 usuários, 7 tiveram ansiedade e 7 tiveram depressão
O estudo de Karagun e Altug, publicado em 2024, comparou 25 fisiculturistas homens que usavam anabolizantes com 25 fisiculturistas sem uso. As idades médias eram praticamente iguais: 31,2 e 31,3 anos.
O desenho informa detalhes concretos sobre o padrão de uso:
- todos os usuários combinavam mais de uma substância
- o tempo médio de exposição era de 2,44 anos
- os ciclos duravam, em média, 10,5 semanas, com faixa de 7 a 13 semanas
- a fase sem uso durava, em média, 8 semanas, com faixa de 6 a 14 semanas
- entre as substâncias relatadas estavam oxandrolona, trembolona, boldenona e ésteres de testosterona
- o artigo também lista clembuterol, que tecnicamente é um agonista beta-2, não um esteroide anabolizante
Nenhum participante tinha diagnóstico psiquiátrico ou uso prévio registrado de medicação psiquiátrica. Entre os 25 usuários, 7 apresentaram ansiedade leve, equivalente a 28%. Outros 7 apresentaram sintomas depressivos: 4 leves e 3 moderados. Entre os 25 controles, não houve caso de ansiedade ou depressão nas escalas aplicadas.
Os resultados são relevantes, mas não autorizam afirmar causalidade. O estudo foi transversal, teve amostra pequena, reuniu combinações diferentes de drogas e dependeu do relato dos participantes para duração e quantidade. Não havia avaliação psicológica feita antes do início dos ciclos. É possível que fatores prévios, imagem corporal, estilo de vida e outras substâncias também tenham contribuído.
O dado omitido mais grave: 30% relataram tentativa de suicídio
O estudo de Gestsdottir e colaboradores analisou 10.259 estudantes, com idade média de 17,3 anos. O uso de esteroides foi relatado por 1,6% da amostra, e 78% dos usuários eram homens.
O dado mais grave foi este:
- 30% dos usuários relataram tentativa de suicídio
- entre os não usuários, a proporção foi de 10%
- a diferença foi estatisticamente significativa, com p menor que 0,001
Usuários também relataram mais raiva, ansiedade e depressão, autoestima mais baixa, maior uso de medicamentos para saúde mental e mais abuso de outras substâncias.
O tamanho da diferença exige atenção, mas o desenho continua sendo observacional e baseado em questionário. Não sabemos se o uso precedeu a tentativa, se sofrimento mental aumentou a chance de usar anabolizantes ou se ambos foram influenciados por fatores como violência, imagem corporal, outras drogas e ambiente familiar. O resultado correto é associação forte, não prova de causa isolada.
Depois do flagrante: 545 usuários e 5.450 controles
O estudo dinamarquês de Windfeld-Mathiasen acompanhou registros nacionais de 545 homens que testaram positivo para anabolizantes em academias entre janeiro de 2006 e março de 2018. Cada usuário foi comparado com dez controles, totalizando 5.450 homens no grupo de referência.
Nos anos posteriores à sanção por doping, os usuários apresentaram:
- razão de risco de 2,34 para tratamento com ansiolíticos, intervalo de confiança de 1,62 a 3,38
- razão de risco de 2,69 para tratamento com antipsicóticos, intervalo de 1,99 a 3,63
- razão de risco de 1,65 para antidepressivos, intervalo de 1,28 a 2,13
Em linguagem direta, a taxa registrada de tratamento foi mais de duas vezes maior para ansiolíticos e antipsicóticos e 65% maior para antidepressivos. As associações permaneceram após ajuste por fatores socioeconômicos.
Existe uma nuance decisiva: o uso de antidepressivos já era maior vários anos antes do flagrante. Isso enfraquece uma narrativa simples de que o anabolizante criou sozinho o transtorno. Parte dos usuários pode ter iniciado o uso com sofrimento psíquico prévio, e o ciclo pode ter agravado um quadro existente.
Agressividade aumentou, mas o efeito médio foi pequeno
A meta-análise de Chegeni reuniu 12 ensaios randomizados, com 562 homens saudáveis. Após a exclusão de um resultado extremo, a administração de esteroides foi associada a um aumento pequeno na agressividade autorreferida: Hedges g de 0,171, com intervalo de confiança de 0,029 a 0,312.
O efeito apareceu no relato que os próprios participantes fizeram sobre si. Não foi reproduzido na agressividade observada por terceiros. Também não permaneceu demonstrado quando os autores restringiram a análise a doses acima de 500 mg ou a exposições mais longas, entre 3 dias e 14 semanas.
Isso desmonta duas caricaturas ao mesmo tempo. "Roid rage" não é invenção completa, porque houve um sinal médio mensurável. Mas também não é uma transformação automática e visível em todos os homens. Histórico de violência, personalidade, álcool, estimulantes, privação de sono, estresse, tipo de droga e vulnerabilidade psiquiátrica modificam o risco.
O momento de parar pode ser o mais vulnerável
Durante o uso, a testosterona externa reduz LH e FSH e suprime a produção testicular. Quando a exposição termina, a droga pode cair antes que o eixo hipotálamo-hipófise-testicular consiga recuperar a produção natural. O resultado pode combinar testosterona baixa, fadiga, perda de libido, disfunção erétil, ansiedade e depressão.
A revisão clínica de Bradley Anawalt estima prevalência mundial de uso de AAS entre 1% e 5% e reconhece uma síndrome de retirada com ansiedade e depressão. Em homens que usaram por menos de um ano, o eixo costuma se recuperar dentro de um ano após a interrupção. Uso mais longo, doses elevadas e infertilidade tornam o manejo mais complexo. A própria revisão ressalta que a evidência para tratar retirada é fraca. Isso não sustenta TPC improvisada com medicamentos comprados sem avaliação.
O estudo de Rasmussen mostra por que "é só parar" pode ser uma orientação insuficiente. Foram avaliados 37 usuários atuais, 33 ex-usuários e 30 controles. Os ex-usuários estavam sem anabolizantes havia, em média, 2,5 anos.
Mesmo depois desse intervalo:
- a testosterona total mediana foi de 14,4 nmol/L nos ex-usuários e 18,8 nmol/L nos controles
- 27,2% dos ex-usuários estavam abaixo do limite inferior de referência de 12,1 nmol/L, enquanto nenhum controle estava abaixo
- 24,2% apresentavam sintomas depressivos
- 27,3% apresentavam disfunção erétil
- 40,1% relatavam redução de libido
É um estudo transversal e não prova dano permanente em todos. Ainda assim, documenta que sintomas e alterações hormonais podem persistir por anos em uma parcela dos usuários.
TRT e ciclo não são a mesma intervenção
A explicação de Raynor acerta ao separar reposição de exposição suprafisiológica, mas simplifica quando sugere uma curva universal em que testosterona baixa causa depressão e testosterona alta produz o efeito oposto.
A diretriz da Endocrine Society exige sintomas compatíveis e testosterona consistentemente baixa para diagnosticar hipogonadismo. O objetivo terapêutico é restaurar níveis fisiológicos com acompanhamento, não perseguir força, volume muscular ou concentração acima da referência.
Uma meta-análise de 27 ensaios, com 1.890 homens, encontrou redução pequena de sintomas depressivos com testosterona comparada a placebo: Hedges g de 0,21. A chance de resposta, definida como redução de pelo menos 50% na escala de depressão, teve razão de chances de 2,30.
O resultado não transforma testosterona em antidepressivo de academia. Os ensaios eram heterogêneos, incluíam populações e doses diferentes, e a meta-regressão encontrou influência da dose. Tratamento de depressão e hipogonadismo exige diagnóstico. Aumentar testosterona por conta própria pode suprimir o eixo e criar justamente o cenário de retirada descrito acima.
Liver King e Jon Jones são exemplos, não experimentos
Raynor usa Liver King e Jon Jones para mostrar como hormônios, outras drogas, fama, pressão e comportamento de risco podem aparecer juntos.
No caso de Liver King, Raynor menciona gasto mensal de dezenas de milhares de dólares com anabolizantes e hormônio do crescimento, além de declarações públicas sobre psicodélicos. Esses elementos não permitem diagnosticar mania, psicose ou dependência à distância. Servem para ilustrar polifarmácia e exposição pública, não para provar que uma substância causou cada comportamento exibido nas redes.
No caso de Jon Jones, a análise reúne histórico de exames positivos, cocaína, ocorrências policiais e anos de treino de luta. Também lembra que um camp de MMA costuma durar aproximadamente 12 semanas e inclui impactos repetidos mesmo fora das lutas oficiais.
A hipótese de encefalopatia traumática crônica, ou CTE, não pode ser confirmada por vídeos, notícias ou comportamento público. No estudo de Stern, 36 homens com CTE confirmada após a morte foram avaliados por entrevistas retrospectivas com familiares. Em 22, a apresentação inicial envolveu alterações de comportamento ou humor. Em 11, começou com comprometimento cognitivo. Outros 3 estavam assintomáticos na morte.
Esse estudo mostra que CTE pode se apresentar com sintomas comportamentais, mas não autoriza diagnosticar Jon Jones nem atribuir seus atos a trauma cerebral. O próprio desenho de banco de cérebros tem forte seleção de casos e não informa a frequência da doença entre todos os atletas expostos.
O que não deve ser normalizado durante ou depois do ciclo
Não existe um exame isolado que preveja quem terá complicação psiquiátrica. O dado mais útil é mudança em relação ao padrão habitual da pessoa, especialmente quando coincide com aumento de dose, entrada de nova substância, privação de sono ou interrupção do ciclo.
Sinais que exigem avaliação profissional incluem:
- irritabilidade ou agressividade muito acima do padrão
- ansiedade intensa, pânico ou sensação constante de ameaça
- insônia persistente acompanhada de aceleração, impulsividade ou grandiosidade
- paranoia, alucinações ou perda de contato com a realidade
- depressão, apatia, isolamento e perda de interesse
- queda acentuada de libido e energia após interromper o uso
- retorno ao ciclo apenas para aliviar sofrimento da retirada
- pensamentos de autoagressão, suicídio ou violência contra outra pessoa
Em risco imediato, a pessoa não deve ficar sozinha nem dirigir. O SAMU atende pelo 192. O CVV oferece apoio emocional pelo 188, mas não substitui atendimento de emergência quando existe plano, meio disponível, tentativa em curso, psicose ou ameaça concreta.
O que os dados permitem concluir
Os dados deixam cinco conclusões concretas:
- a fonte não informa miligramas nem um protocolo que possa ser reconstruído
- sintomas psiquiátricos apareceram em 7 de 25 usuários no estudo com fisiculturistas, contra zero nos controles
- tentativa de suicídio foi relatada por 30% dos jovens usuários e 10% dos não usuários
- registros dinamarqueses mostraram razões de risco entre 1,65 e 2,69 para três classes de medicamentos psiquiátricos
- retirada hormonal pode deixar depressão, perda de libido, disfunção erétil e testosterona baixa por anos em parte dos ex-usuários
Nenhum desses dados permite diagnosticar uma celebridade, prever o destino de um indivíduo ou afirmar que todo uso causa violência. Juntos, porém, eles tornam indefensável tratar saúde mental como exagero ou fraqueza pessoal.
Conclusão
O risco mental dos esteroides não cabe na frase "anabolizante deixa agressivo". Durante o uso, podem aparecer ansiedade, irritabilidade, depressão e alteração de julgamento. Depois da interrupção, a supressão hormonal pode produzir outra fase de vulnerabilidade. Quando entram drogas recreativas, privação de sono, pressão estética ou trauma cerebral, separar uma causa única se torna impossível.
A conduta responsável é observar mudanças, perguntar sem julgamento sobre todas as substâncias, medir o eixo hormonal quando indicado e tratar sintomas psiquiátricos como sintomas médicos. Shape não protege ninguém de depressão, psicose, dependência ou suicídio.
FAQ
A fonte informa doses ou um ciclo específico?
Não. Ele fala em "doses altas", mas não identifica substância, miligramas, frequência ou duração. Os números apresentados vêm das pesquisas verificadas e estão claramente atribuídos.
Quantos usuários tiveram ansiedade ou depressão no estudo com fisiculturistas?
Entre 25 usuários, 7 apresentaram ansiedade leve e 7 apresentaram sintomas depressivos. No grupo de 25 fisiculturistas sem uso, nenhum apresentou esses desfechos nas escalas aplicadas.
Anabolizantes triplicaram as tentativas de suicídio no estudo com jovens?
A proporção observada foi de 30% entre usuários e 10% entre não usuários. Isso representa uma diferença de três vezes, mas o estudo observacional não prova que o anabolizante foi a única causa.
Todo usuário fica agressivo?
Não. A meta-análise encontrou aumento pequeno apenas na agressividade autorreferida e não reproduziu o efeito na avaliação por observadores nem no recorte de doses acima de 500 mg.
Quanto tempo o eixo hormonal leva para voltar?
Uma revisão informa que homens com menos de um ano de uso geralmente recuperam a função do eixo dentro de um ano. Isso não vale para todos, e uso prolongado pode produzir recuperação mais lenta ou incompleta.
O que fazer diante de pensamentos suicidas durante ou depois de um ciclo?
Procure atendimento imediatamente e não deixe a pessoa sozinha. Em emergência, ligue 192 ou vá a um pronto atendimento. O CVV atende pelo 188 para apoio emocional.
Referências
- RAYNOR, Chris. The Scary Truth About Steroids Nobody Talks About! | How Juicing Can Wreck Your Mind and Body. YouTube, 21 jul. 2025. Disponível em: https://youtu.be/xbiKtaVVMXs. Acesso em: 31 jul. 2026.
- KARAGUN, Baris; ALTUG, Selin. Anabolic-androgenic steroids are linked to depression and anxiety in male bodybuilders: the hidden psychogenic side of anabolic androgenic steroids. Annals of Medicine, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11005876/. Acesso em: 31 jul. 2026.
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