Chegar mais seco ao palco não significa chegar mais saudável. Quando a preparação reúne anabolizantes, estimulantes, diuréticos e restrição de água, a aparência pode melhorar enquanto a margem de segurança diminui. Em Bodybuilders Are Dying For NOTHING, Coach Kolton parte da morte do fisiculturista Mailson Araújo para questionar essa escalada e a normalização de sintomas graves em nome de uma competição. [1]
O alerta merece atenção, mas exige uma separação: os riscos dessas práticas podem ser discutidos com base científica. A causa da morte de uma pessoa não pode ser deduzida de suas fotos, de seu tamanho muscular ou da proximidade de um campeonato.
Mailson Araújo e a preparação interrompida
Horas depois de uma publicação de treino, Mailson Araújo morreu em Alagoinhas, na Bahia, em julho de 2026. A cobertura de VEJA e Metrópoles informou que ele tinha 35 anos. Ele conquistou o cartão profissional em 2023, no Arnold Classic South America, em São Paulo, e acumulava aproximadamente três anos na condição de atleta profissional. [2, 3]
A legenda da última postagem celebrava o processo e o prazer de vivê-lo a cada dia. A sequência entre essa publicação, a preparação para voltar a competir naquele fim de semana e a notícia da morte provocou comoção. [1] Segundo Metrópoles, a mãe, técnica de enfermagem, participou das tentativas de reanimação, assim como equipes de socorro. O atleta não sobreviveu. [3]
Nas reportagens consultadas, a causa da morte não havia sido divulgada. A informação de uma parada cardíaca descreve o evento final, mas não identifica, por si só, o que o desencadeou. Não há nessas fontes um laudo que permita atribuir o desfecho a um anabolizante, a um diurético ou a uma combinação específica. [2, 3]
Essa ausência impede reconstruir um suposto protocolo de Mailson e responsabilizar pessoas por decisões que não foram documentadas. Também impede tratar hipóteses de intoxicação ou alteração do potássio como diagnóstico do atleta. A discussão sobre preparação extrema precisa respeitar esse limite.
Quando o resultado estético incentiva a polifarmácia
A avaliação estética premia a aparência apresentada ao palco. Ela não mede a quantidade de substâncias necessária para construí-la, nem mostra ao público os efeitos acumulados sobre a saúde. O problema aparece quando qualquer melhora visual passa a justificar mais um medicamento.
Segundo Kolton, há preparações que reúnem 12 medicamentos e outras que chegam a 15 ou mais compostos usados simultaneamente. São exemplos de polifarmácia apresentados por ele, não uma contagem comprovada de substâncias usadas por Mailson nem uma estimativa da frequência dessa prática entre todos os competidores. [1]
Essa multiplicação muda a pergunta que o atleta precisa fazer. Não basta saber a finalidade isolada de cada produto. É necessário considerar como seus efeitos se combinam, quais condições de saúde aumentam o risco e o que acontece quando alimentação, hidratação e esforço físico também mudam.
A pressão pode atingir homens e mulheres. O retorno financeiro tampouco acompanha necessariamente o investimento: bronzeamento, maquiagem, academia e substâncias podem sair do próprio bolso, enquanto o resultado esportivo oferece uma medalha ou um troféu. Não existe um valor único de premiação aplicável a todo campeonato ou categoria.
Ganhar uma competição pode representar anos de dedicação, disciplina e reconhecimento. Esse valor pessoal não transforma uma deterioração da saúde em requisito aceitável de preparação. E receber dinheiro não torna uma combinação de drogas menos perigosa.
Clenbuterol, hormônios tireoidianos e cafeína
Entre os exemplos concretos de exposição, Kolton menciona clenbuterol acima de 200 mcg e medicamentos tireoidianos bem acima de 100 mcg, em protocolos que afirma ter analisado anteriormente. Ele não apresenta esses números como o esquema de Mailson. Também não esclarece a frequência de administração nem identifica qual hormônio tireoidiano corresponde ao segundo valor. [1]
Essas informações são exemplos de uso potencialmente perigoso, não uma prescrição, uma faixa segura ou um ponto a partir do qual o risco começaria. A ausência de frequência e de identificação do produto impede transformar os números em um protocolo completo. T3 e T4, por exemplo, não devem ser considerados equivalentes apenas porque a quantidade é expressa em microgramas.
As substâncias não pertencem à mesma classe
Clenbuterol é um agonista beta-2 adrenérgico. Seu uso indevido para emagrecimento e fisiculturismo foi associado, em uma série de casos atendidos por centros de toxicologia, a taquicardia, palpitações, tremores, dor no peito e redução do potássio no sangue. O estudo descreve eventos adversos, não uma dose que torne o uso estético seguro. [4]
Hormônios tireoidianos atuam por outro mecanismo. A bula de liotironina traz um alerta contra o uso para tratar obesidade ou promover emagrecimento. Doses excessivas podem produzir toxicidade grave ou ameaçar a vida, especialmente em associação com substâncias de ação simpaticomimética. Isso não autoriza concluir que o medicamento mencionado no exemplo era liotironina. [5]
Acrescentar cafeína e outros estimulantes também precisa entrar na avaliação. Uma substância estar presente em produtos comuns não permite ignorá-la ao revisar tudo o que foi ingerido. A combinação não deve ser avaliada apenas pelo quanto aumenta disposição ou facilita treinar com pouca energia.
Tremor em uma pose não identifica um protocolo
Um tremor durante uma pose pode ter diferentes explicações, incluindo o esforço de manter a contração muscular. Ele não permite identificar uma substância ou calcular uma dose. Expressões faciais em fotografias também não permitem concluir que alguém sabia estar em perigo e decidiu ignorar os sinais.
A pergunta útil para quem está vivo e se preparando é outra: surgiram palpitações, fraqueza acentuada, dificuldade para movimentar os membros e falta de ar? Sintomas assim merecem avaliação, em vez de serem reinterpretados como prova de disciplina ou consequência inevitável de estar com pouca gordura.
Diuréticos: tanto potássio alto quanto baixo podem ser perigosos
Na busca por definição, diuréticos são usados indevidamente para alterar a quantidade de água no organismo. Kolton descreve situações em que a exposição começa uma semana inteira ou mais antes da apresentação. Esse período é um exemplo criticado, não uma duração recomendada, e não foi demonstrado como parte da preparação de Mailson. [1]
Não existe, porém, um único efeito compartilhado por todos os diuréticos sobre o potássio. A diferença entre as classes é indispensável para entender o perigo.
Poupadores de potássio podem elevar sua concentração
A espironolactona é um exemplo de diurético poupador de potássio. Sua bula alerta para hiperpotassemia, também chamada de hipercalemia, que significa potássio elevado no sangue. O risco aumenta em determinadas situações, como comprometimento da função renal e associação com suplementos de potássio ou substitutos do sal que contenham esse mineral. [6]
Isso não significa que todo usuário desenvolverá potássio alto nem que seja possível prever o resultado apenas pela aparência física. Medicamentos, função renal e ingestão precisam ser avaliados em conjunto. Alterações importantes do potássio podem comprometer a atividade elétrica do coração.
Diuréticos de alça podem reduzir o potássio
Furosemida, um diurético de alça, pode aumentar a perda de potássio e provocar hipopotassemia, ou hipocalemia. Sua bula também alerta para desidratação, redução do volume circulante e desequilíbrios de eletrólitos com potencial de complicações graves. [7]
Portanto, a explicação de que diuréticos simplesmente fazem o potássio subir é incompleta. Tanto a concentração excessiva quanto a insuficiente podem ser perigosas. Associar produtos com efeitos diferentes não permite supor que um neutralizará o outro, nem cria uma estratégia caseira de segurança.
Contar minerais não substitui exames
Registrar sódio, potássio e água ingeridos não revela a concentração desses eletrólitos no sangue. Essa concentração depende também de distribuição entre os compartimentos do corpo, perdas, função renal e efeito dos medicamentos. Uma planilha alimentar não equivale a uma dosagem laboratorial. [6, 7]
Conhecer a alimentação ajuda a equipe de saúde a entender a exposição, mas não permite corrigir sintomas em casa com sal, água ou potássio. Na suspeita de alteração relevante, a avaliação pode envolver exames de sangue, função renal e eletrocardiograma. O tratamento depende do distúrbio identificado, não de um palpite baseado na definição muscular.
Cortar água uma semana antes não é um ajuste inofensivo
Outra prática criticada é cortar água uma semana antes da competição. A tentativa de controlar a aparência por restrições prolongadas ignora que o organismo regula continuamente água, sódio e circulação.
O sistema renina-angiotensina-aldosterona participa dessa regulação. Mudanças de ingestão e de volume circulante podem acionar respostas compensatórias, de modo que reduzir água não produz uma retirada simples e seletiva do líquido que o atleta gostaria de eliminar. A revisão de Escalante e colaboradores sobre a semana final de preparação descreve essas limitações e os riscos de manipulações agressivas. [8]
A própria musculatura contém água. Desidratar o corpo não garante preservar o volume muscular enquanto se elimina apenas água sob a pele. Quando restrição hídrica e diuréticos entram juntos, a preocupação ultrapassa a aparência e envolve a estabilidade circulatória e o equilíbrio de eletrólitos. [7, 8]
Anabolizantes e a soma de riscos para o coração
A combinação de substâncias pode afetar o coração por caminhos diferentes. Anabolizantes não são equivalentes a estimulantes, e ambos diferem de medicamentos que alteram a excreção de água e sais. A avaliação precisa considerar os efeitos de cada grupo e o estado de saúde de quem os utiliza.
Em um estudo com homens experientes em musculação, o uso prolongado de esteroides anabolizantes esteve associado a pior função cardíaca e maior carga de aterosclerose coronariana. O desenho observacional não permite reconstruir a causa de uma morte individual, mas mostra por que um físico musculoso não é um indicador suficiente de saúde cardiovascular. [9]
Uma investigação publicada em 2025 acompanhou registros de 20.286 fisiculturistas homens que participaram de competições da IFBB. Foram identificadas 121 mortes, das quais 46 foram classificadas como mortes súbitas cardíacas. Os profissionais apresentaram risco maior que os amadores dentro dessa população estudada. [10]
Os pesquisadores trabalharam com informações públicas e disponibilidade limitada de dados clínicos e de autópsia. Esses resultados não demonstram que todos os óbitos foram causados por esteroides, não representam todo praticante de musculação e não esclarecem o caso de Mailson. Eles sustentam a necessidade de investigar o risco cardiovascular no esporte, sem substituir a apuração de cada morte. [10]
Por que repetir um protocolo não garante segurança
A analogia do queijo suíço ajuda a entender esse acúmulo: imagine várias fatias com furos em posições diferentes. Cada camada representa uma barreira de proteção que pode falhar. Se os furos se alinham, o problema atravessa todas elas.
Na preparação, uma condição cardíaca, uma interação medicamentosa, uma alteração de eletrólitos e a demora para reconhecer sintomas podem se combinar. Ter atravessado competições anteriores sem uma emergência não demonstra que a próxima repetição será segura.
Essa analogia descreve um modelo geral de risco. Ela não reconstitui os acontecimentos que levaram à morte de Mailson nem comprova quais barreiras teriam falhado em seu caso.
Decisões concretas para não normalizar o perigo
Confiar em um treinador não elimina interações medicamentosas nem substitui uma avaliação médica. O acompanhamento esportivo pode organizar treino e preparação, mas decisões clínicas exigem profissionais habilitados e acesso às informações de saúde do atleta.
Perguntas que precisam ser respondidas antes de qualquer decisão
- O que está sendo usado? Informe à equipe de saúde todos os medicamentos, suplementos, estimulantes e produtos sem rótulo confiável. Inclua quantidade, frequência e mudanças recentes, sem esconder substâncias por receio de julgamento.
- Qual é a finalidade clínica? Diferencie tratamento de uma doença de uso para mudar a aparência. Um resultado estético não comprova que a exposição é necessária ou segura.
- Quais efeitos podem se somar? A revisão precisa abranger coração, pressão arterial, rins, hidratação e eletrólitos, conforme as substâncias e o quadro clínico.
- Quem acompanha alterações e sintomas? Uma orientação para continuar porque o campeonato está próximo não é resposta adequada a sinais de possível complicação.
- O que sustenta a orientação? Ter funcionado com outro atleta ou ter sido repetido em campeonatos anteriores não equivale a evidência de segurança.
Ler estudos e entender mecanismos pode melhorar essas perguntas. Não transforma, porém, o atleta em alguém capaz de prescrever combinações para si mesmo. Tampouco um exame normal isolado garante que mudanças posteriores no protocolo serão seguras.
Quando procurar atendimento imediatamente
Dor no peito, falta de ar importante, desmaio ou palpitações acompanhadas de mal-estar intenso exigem atendimento de urgência. No Brasil, acione o SAMU pelo 192. Não espere o campeonato passar nem tente compensar a situação adicionando outro medicamento. [11]
Fraqueza marcante ou dificuldade para movimentar os membros também precisa ser levada a sério, especialmente durante uso de diuréticos ou restrição de líquidos. Informe à equipe de atendimento tudo o que foi utilizado. Isso pode ser decisivo para a investigação.
Conclusão
A preparação se torna perigosa quando o espelho passa a orientar decisões que dependem de avaliação clínica. Empilhar substâncias, manipular água e eletrólitos e aceitar sintomas como parte obrigatória do processo são problemas concretos, mesmo sem ser possível atribuí-los a um atleta específico.
A morte de Mailson Araújo merece respeito e apuração. A ausência de uma causa divulgada impede um diagnóstico à distância, mas não impede discutir como reduzir exposições perigosas. A decisão mais segura é não recorrer a anabolizantes e diuréticos por conta própria para alcançar uma aparência de palco. Quem já utiliza essas substâncias deve procurar atendimento e relatar seu uso com franqueza. Medicamentos prescritos para uma doença não devem ser alterados sem orientação.
Este texto é informativo e não substitui avaliação individual por profissionais de saúde.
FAQ
Está confirmado que Mailson Araújo morreu por uso de anabolizantes?
Não nas fontes consultadas. As reportagens informaram a morte, mas não apresentaram uma causa estabelecida que permitisse atribuí-la a anabolizantes ou a outra substância. Fotos e proximidade de competição não substituem essa investigação.
Todo diurético aumenta o potássio?
Não. Poupadores de potássio, como a espironolactona, podem elevá-lo. Diuréticos de alça, como a furosemida, podem reduzi-lo. As duas alterações podem ser perigosas, e combinar medicamentos não permite prever uma compensação segura.
Clenbuterol é a mesma coisa que hormônio tireoidiano?
Não. Clenbuterol é um agonista beta-2 adrenérgico. Hormônios tireoidianos pertencem a outra classe. Ambos podem produzir efeitos graves quando usados indevidamente, mas não devem ser tratados como substâncias equivalentes.
Já ter feito uma preparação parecida significa que posso repeti-la?
Não. O estado de saúde, a função renal, as interações e as condições de hidratação podem mudar. A ausência de uma emergência anterior não valida a segurança de um protocolo.
Palpitações e falta de ar são normais na semana da competição?
Não devem ser normalizadas por causa da preparação. Se houver falta de ar importante, dor no peito, desmaio ou palpitações com mal-estar intenso, procure urgência e acione o SAMU pelo 192. Informe todas as substâncias utilizadas.
Referências
- COACH KOLTON. Bodybuilders Are Dying For NOTHING. YouTube, 2 ago. 2026. 1 vídeo (18 min 18 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aJFRma7SPvc. Acesso em: 6 set. 2026.
- MAZZOTTO, Camila. Fisiculturista baiano morre aos 35 anos de parada cardíaca; entidade alerta para riscos dos anabolizantes. VEJA, 14 jul. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/fisiculturista-baiano-morre-aos-35-anos-de-parada-cardiaca-entidade-alerta-para-riscos-dos-anabolizantes/. Acesso em: 6 set. 2026.
- SANTANA, Pedro. Quem era Mailson Araújo, fisiculturista baiano que faleceu aos 35 anos. Metrópoles, 14 jul. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/esportes/quem-era-mailson-araujo-fisiculturista-baiano-que-faleceu-aos-35-anos. Acesso em: 6 set. 2026.
- SPILLER, Henry A. et al. A descriptive study of adverse events from clenbuterol misuse and abuse for weight loss and bodybuilding. Substance Abuse, v. 34, n. 3, p. 306–312, 2013. DOI: 10.1080/08897077.2013.772083. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23844963/. Acesso em: 6 set. 2026.
- UNITED STATES. National Library of Medicine. Liothyronine sodium tablets: prescribing information. DailyMed, [s. d.]. Alerta sobre uso para obesidade e perda de peso. Disponível em: https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/lookup.cfm?setid=0b0f2db9-642d-d84f-b102-b43de34bbe75. Acesso em: 6 set. 2026.
- UNITED STATES. National Library of Medicine. Spironolactone tablets: prescribing information. DailyMed, [s. d.]. Advertências sobre hiperpotassemia, hipotensão e função renal. Disponível em: https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/lookup.cfm?setid=b72ca065-6396-41b9-a195-a8819688f471. Acesso em: 6 set. 2026.
- UNITED STATES. National Library of Medicine. Furosemide tablets: prescribing information. DailyMed, [s. d.]. Advertências sobre desidratação e desequilíbrios eletrolíticos. Disponível em: https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=9ec7808e-9201-4b8c-9790-d329320dc6c4. Acesso em: 6 set. 2026.
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- BRASIL. Ministério da Saúde. Dor torácica: sou paciente. Linhas de Cuidado, [s. d.]. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/dor-toracica/sou-paciente/. Acesso em: 6 set. 2026.
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