Tadalafila como pré-treino virou moda nas academias, com a promessa de mais pump e de um músculo que parece maior no espelho. Nos testes com atletas, a tadalafila tomada antes do exercício deixou o fôlego igual ao do placebo e baixou a pressão. O ganho de massa magra aparece só num estudo pequeno com pacientes, sem treino e sem grupo placebo, e sumiu quando eles pararam. Em junho de 2026, o Conselho Federal de Farmácia divulgou alerta da Anvisa e do Ministério da Saúde: o remédio não deve ser usado para isso.
A fama de anabólico tem origem na pesquisa: há uma linha de estudos, sobretudo de um grupo da Universidade de Roma Foro Italico, que testa a tadalafila no músculo, nos hormônios e no exercício. Em célula, os resultados são curiosos. Em gente que treina, os estudos são poucos, pequenos e decepcionantes para quem procura desempenho.
O que a tadalafila faz no corpo
A tadalafila, também vendida com o nome comercial Cialis®, é um inibidor da PDE5. Ela bloqueia uma enzima que desliga o sinal de relaxamento dos vasos sanguíneos. Com a enzima bloqueada, o sinal dura mais e o vaso fica aberto por mais tempo. No pênis, isso facilita a ereção, desde que haja estímulo sexual. O efeito sobre a ereção vai até 36 horas, e a meia-vida é de cerca de 17 horas e meia.
As indicações aprovadas são três: disfunção erétil, sintomas do aumento benigno da próstata e, com outra marca e outra dose, hipertensão pulmonar. Ganhar músculo, melhorar o treino ou ter pump estão fora delas. A venda exige receita.
O uso fora da indicação cresceu com a fama nas redes, inclusive depois de um participante do BBB24 contar que usava tadalafila na rotina de treino, e, pelos dados da Anvisa, as vendas saíram de 3,2 milhões de unidades em 2015 para 64,7 milhões em 2024.
Tadalafila dá pump? O que os testes no exercício mostraram
A ideia é simples: se o remédio abre os vasos, chegaria mais sangue e oxigênio ao músculo, com mais pump e mais rendimento. Nenhum estudo mediu o pump em si, nem testou musculação. Os testes de laboratório mediram o rendimento na bicicleta e o sangue:
- Fôlego: 14 atletas fizeram teste máximo na bicicleta depois de 20 mg de tadalafila ou de placebo, sem saber qual tinham tomado. O consumo máximo de oxigênio (VO2máx) e os pontos em que o esforço passa de confortável a pesado ficaram iguais. A pressão sistólica, o número de cima da medida, ficou mais baixa antes e depois do exercício. Para quem treina, nada a ganhar.
- Desempenho no ciclismo: em outro estudo do mesmo grupo, com 14 homens e 2 doses, a tadalafila diminuiu a subida do cortisol no esforço, sem mudar o desempenho.
- Lesão muscular: num estudo com 2 doses de 20 mg em 36 horas, a tadalafila sozinha, ainda em repouso, já subiu em 75% a enzima que vaza do músculo lesionado (CK) e em 41% um marcador de desgaste das células pelo oxigênio. Depois de um exercício exaustivo, esses marcadores ficaram mais altos que no placebo. Para quem treina, é sinal ruim.
O ganho mais claro com essa classe de remédio veio da sildenafila em altitude: 10 homens treinados respirando ar com pouco oxigênio, como a 3.874 metros, fizeram o contrarrelógio de 6 km 15% mais rápido em média, puxados por parte deles, enquanto ao nível do mar nada mudou.
Então de onde vem a sensação de pump? Para a Sociedade Brasileira de Urologia, é provavelmente a dilatação passageira dos vasos somada ao efeito placebo. A entidade contraindica o uso sem indicação médica.
Massa magra, insulina e hormônios: o que vem de estudos pequenos
O ganho de massa que dá fama à tadalafila vem de um estudo. Nele, 23 homens não obesos com disfunção erétil ou sintomas urinários leves tomaram 5 mg por dia durante 2 meses, comparados com 20 que tomavam 20 mg só antes do sexo. No uso diário, a massa magra do abdome subiu, medida por densitometria, e voltou ao valor inicial 2 meses depois de parar. Não havia placebo, e ninguém treinava.
O resto vem de células, de pacientes ou de doses únicas. Em 20 homens com disfunção erétil, 12 meses de tadalafila baixaram o estradiol de 19,9 para 16,6 ng/dL, só nos 14 magros, e a relação entre testosterona e estradiol subiu de 26,3 para 32,6, sem grupo de comparação. Em células de camundongo, subiram o receptor androgênico, a peça que a testosterona usa para agir, e a miogenina, proteína ligada à formação de fibra muscular. Numa dose única antes de um teste máximo, a testosterona da saliva subiu, mas o cortisol, hormônio do estresse, subiu mais, ao contrário do estudo de 2 doses. A sildenafila, remédio da mesma classe, aumentou a síntese de proteína muscular no laboratório. E o estudo mais recente, de 2026, com 16 adultos de 50 a 60 anos por 1 mês, não achou efeito da tadalafila no músculo.
A promessa de melhorar a insulina, o hormônio que põe o açúcar do sangue para dentro das células, também não se confirmou nos ensaios com placebo. Em 18 pessoas com diabetes tipo 2 e em 18 homens obesos, a sensibilidade à insulina ficou igual. Em diabéticos com disfunção erétil, a média do açúcar no sangue dos últimos meses (hemoglobina glicada) caiu só 0,14 ponto em 6 meses. Há estudos de uso por 6 e 12 meses, mas em pacientes. Em gente saudável que treina, o uso por semanas ou meses nunca foi testado.
Os riscos da tadalafila como pré-treino
Em pessoa saudável parada, 20 mg baixam a pressão em média 1,6 mmHg na máxima e 0,8 na mínima. O problema aparece quando outra coisa também derruba a pressão ao mesmo tempo. Nos testes com atletas, a pressão sistólica já ficou mais baixa antes e depois do exercício.
A bula lista:
- Nitratos: combinação proibida. Inclui remédios de angina e os poppers, os frascos de nitrito de amila usados em festa. Juntos, podem derrubar a pressão de forma grave. O alerta de 2026 inclui suplementos que contenham nitratos.
- Remédios de pressão, alfabloqueadores e álcool: somam o efeito. A bula fala em risco de pressão baixa com 5 doses de álcool ou mais.
- Efeitos comuns: dor de cabeça, má digestão, dor nas costas e nos músculos, nariz entupido e vermelhidão no rosto.
- Graves e raros: ereção que dura mais de 4 horas, que pede pronto-socorro, perda súbita de visão por falta de sangue no nervo do olho e perda súbita de audição.
No alerta de 2026, a Anvisa e o Ministério da Saúde citam hipotensão grave, risco de infarto e AVC em quem tem predisposição ainda sem diagnóstico, ereção prolongada e dependência psicológica: homens jovens que começam a usar para treinar e passam a acreditar que só funcionam na cama com o comprimido. Os órgãos lembram que a tadalafila não pode entrar na fórmula de suplemento, e que gomas e misturas vendidas com ela são irregulares.
Tadalafila com anabolizantes
Ninguém estudou a tadalafila junto com um ciclo. O que se tem são os dois riscos separados, no mesmo coração. Num estudo de observação, 1.189 homens flagrados uma vez no antidoping de academias da Dinamarca, sem dado de dose nem de tempo de uso, foram acompanhados por cerca de 11 anos. Comparados a 59.450 homens, tiveram 3 vezes mais infarto e 2,3 vezes mais arritmia. O que o ciclo faz com a pressão e com o sangue está em hematócrito e pressão nos esteroides.
Há também quem use a tadalafila para compensar a ereção que falha durante ou depois do ciclo. A tadalafila não mexe na testosterona e não trata a causa da falha. A relação entre os dois remédios está em tadalafila e testosterona: aumenta o hormônio? Pode tomar junto?.
No esporte com antidoping, a tadalafila e os outros inibidores da PDE5 ficaram fora da lista proibida da Agência Mundial Antidoping (WADA), segundo revisão de 2017. Os autores pedem estudos em situação real de competição antes de decidir.
Conclusão
A tadalafila pode, um dia, ter lugar no tratamento de perda muscular ou de problemas metabólicos, e há pesquisa séria nisso. Hoje, como pré-treino, os testes com atletas mostram fôlego igual, pressão mais baixa e marcadores de lesão muscular mais altos, e o ganho de massa vem de um estudo pequeno, sem placebo e sem treino, que sumiu ao parar. Quem tem disfunção erétil ou próstata aumentada tem indicação real e deve decidir a dose com um médico, inclusive sobre o uso com anabolizantes. Para a ereção, o treino também ajuda, como mostra exercício para disfunção erétil: qual funciona e quanto treinar.
Perguntas frequentes
Tadalafila como pré-treino funciona?
Para rendimento, não há prova. Os ensaios foram feitos na bicicleta, com atletas, e nenhum testou musculação. A sensação de pump, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, vem da dilatação passageira dos vasos e do efeito placebo.
Tadalafila ajuda a ganhar massa muscular?
Não há prova de que a tadalafila na musculação faça crescer. Nenhum estudo testou o remédio junto com treino de força. O dado mais recente, de 2026, não achou efeito no músculo depois de 1 mês de uso.
Posso usar tadalafila de 5 mg para treinar?
Nenhum estudo mostrou ganho no treino com 5 mg, nem com dose maior. O uso diário de 2,5 a 5 mg é aprovado para disfunção erétil e próstata aumentada, e a dose é decisão médica. Para treinar, não há dose estudada.
Pode tomar tadalafila junto com pré-treino?
Essa mistura nunca foi estudada. A bula pede cuidado com tudo o que também mexe na pressão, como álcool, remédios de pressão e alfabloqueadores, e proíbe nitratos, inclusive os poppers.
Existe pré-treino com tadalafila?
Não de forma legal. A tadalafila é remédio de receita e não pode entrar na fórmula de suplemento. Gomas e misturas vendidas com ela são irregulares, e a Anvisa tem fiscalizado esse mercado.
Mulher pode tomar tadalafila antes do treino?
A tadalafila não tem indicação para mulheres, segundo a bula, e não há estudo de desempenho em mulheres. Os riscos de pressão baixa e de interação valem do mesmo jeito.
Tadalafila antes do treino faz mal?
Pode fazer. Os efeitos mais comuns são dor de cabeça, má digestão e dor muscular. A pressão cai mais com álcool, remédios de pressão ou alfabloqueadores. Com anabolizantes, o coração já carrega o risco do ciclo.
Diabético pode tomar tadalafila?
Para disfunção erétil, sim, com receita. A bula tem estudo específico em diabéticos, com efeito comprovado e sem ajuste de dose. O diabetes está entre os fatores de risco da perda súbita de visão ligada a esses remédios.
Para que serve o comprimido "Tadala"?
"Tadala" é como muita gente chama a tadalafila. É remédio de receita para ereção e para a próstata aumentada, e não um suplemento.
Pode tomar tadalafila para jogar futebol?
Não há ganho medido para quem joga ao nível do mar. Os estudos foram de bicicleta, em laboratório, e nenhum testou futebol. Em competição, a tadalafila ficou fora da lista proibida da WADA, segundo revisão de 2017.
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