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  2.    Cláudio Chamini reacted to uma postagem em um tópico: Autoestima de volta!!!
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  12. Esse tópico tem quase um ano de dedicação da @vitoriamm e termina com uma despedida. E é pela última página que eu preciso começar, porque o que aconteceu ali é comum, tem explicação e merece uma resposta diferente da que ela recebeu. Em fevereiro, ela escreveu, com uma honestidade incomum: dieta 50 por cento, estou sofrendo muito depois das férias, não estou conseguindo manter, às vezes me dá uma doida e como sem parar tudo que vejo pela frente. E completou: eu sei que não sou uma criança mimada, sei que eu que mando em mim, mas estou me sentindo como antes de entrar no fórum, sem norte, mesmo sabendo a direção. A resposta que ela recebeu foi uma metáfora: que aquilo era como aluguel, e que quem não paga o aluguel corretamente já era, acumula gordura, incha e perde a forma bonita dos músculos. E que a escolha era dela. Duas semanas depois ela se despediu do fórum. Discordo dessa leitura em dois pontos, e nenhum deles é sobre boa intenção, que havia. O primeiro é sobre o que ela descreveu. Comer sem parar, em episódio, com a sensação de perder o controle, depois de meses de dieta rígida, não é falha de disciplina. É um padrão bem descrito, e a relação entre restrição rígida e episódio de descontrole é uma das mais estabelecidas nessa área. Quanto mais rígida a regra, maior a chance de o rompimento dela virar um episódio inteiro em vez de um deslize. Ou seja, ela não estava sem disciplina. Ela vinha executando com disciplina alta havia onze meses, e o episódio veio junto com férias, viagem e uma influenza que a derrubou. Isso é o cenário clássico, não a exceção. E, quando esse padrão se instala, o que funciona é diferente de mais controle. É uma abordagem mais flexível, com margem planejada em vez de proibição total, e, se os episódios se repetirem, é psicólogo com experiência em comportamento alimentar, junto com nutricionista. Isso não é fraqueza nem exagero, é o caminho eficiente. E vale para qualquer pessoa que se reconheça lendo isso. O segundo ponto é a metáfora do aluguel, e é onde eu discordo com mais convicção. Ela sugere que quem para de pagar perde tudo. Não é assim que o corpo funciona. Massa muscular não evapora em duas semanas. Existe inclusive um fenômeno bem descrito, a memória muscular, em que quem já construiu músculo recupera bem mais rápido do que construiu na primeira vez. Gordura também não volta instantaneamente: ela obedece ao mesmo balanço calórico de sempre, só que na outra direção, e leva tempo. O que acontece em duas semanas ruins é sobretudo água, glicogênio e conteúdo intestinal, que é exatamente o abdome estufado que ela relatou. Isso importa porque a metáfora do tudo ou nada é o principal motivo pelo qual as pessoas abandonam de vez. Quem acredita que perdeu tudo não volta a 70 por cento: some. Quem sabe que onze meses não se apagam em duas semanas volta na segunda-feira. E ela mesma tinha se desculpado, um mês antes, por uma atualização que chamou de desastrosa. Ela estava doente, de viagem, com a academia fechada. Não havia nada a se desculpar ali. Agora as coisas boas do tópico, e são muitas. A melhor delas é técnica e vale para o fórum inteiro. Ela ficou insegura porque o aplicativo de contagem dava um valor de carboidrato muito diferente do que estava prescrito. E recebeu a resposta certa: aplicativos como esses são alimentados por dados enviados pelos próprios usuários, ou seja, existem dezenas de versões do mesmo alimento, cada uma com um valor, e boa parte está errada. A referência é a tabela TACO, da Unicamp, para alimentos brasileiros, e a base do USDA. Ela foi conferir na TACO e o valor bateu com o que tinha sido prescrito. Isso resolve uma dúvida que aparece toda semana aqui. Duas regras práticas: prefira sempre a entrada verificada do aplicativo, aquela com o selo, e prefira registrar o alimento cru e por peso, porque as versões prontas e caseiras são as mais imprecisas. Quando algo parecer estranho, confira na TACO. Outra coisa boa é que ela relatou gases fortes com feijão e recebeu sugestão de fibra. Vale um ajuste prático, porque a solução mais eficaz é anterior: deixar o feijão de molho por algumas horas e descartar essa água antes de cozinhar remove boa parte dos oligossacarídeos responsáveis pelo gás, e cozinhar por mais tempo ajuda. E vale saber que o gás costuma diminuir sozinho com o consumo regular, porque a flora intestinal se adapta em algumas semanas. Já a fibra em pó, isolada, pode até aumentar o gás no começo. Ou seja, se o objetivo é continuar comendo feijão, e é uma ótima fonte de proteína e fibra, o caminho é o molho e a constância. E vale registrar que ela foi honesta em todas as atualizações, inclusive nas ruins, o que é raro e é o que torna esse tópico útil para quem lê. Duas observações sobre a estrutura do projeto, que ajudam a explicar o desfecho. A primeira é o volume de aeróbico prescrito no início: sete vezes por semana, com possibilidade de duas sessões por dia no fim de semana, para alguém que estava começando e que já dizia não conseguir manter uma dieta por uma semana. Isso é muito, e a chance de sustentar por um ano é baixa. Um protocolo que a pessoa consegue manter por dois anos entrega mais do que um que ela abandona no décimo primeiro mês. A segunda é sobre o treino de uma hora que ela pediu no fim, porque só tinha das 5h30 às 6h30 antes do trabalho. A resposta foi que o que faria diferença era a intensidade, sair acabada do treino. Ajusto isso. Para hipertrofia, o que conta é o número de séries difíceis por grupo muscular ao longo da semana, com progressão de carga. Sessão de 45 minutos entrega isso tranquilamente, desde que a escolha de exercícios seja eficiente: comece pelos compostos, use menos aparelhos diferentes e controle o descanso. Sair acabada não é o alvo, é às vezes o efeito colateral. E, no caso específico dela, havia um detalhe: os 15 minutos de HIIT estavam dentro daquela mesma janela de uma hora. Ou seja, o aeróbico estava comendo um quarto do único horário que ela tinha para treinar força, que era a parte que ela mais precisava naquele momento. Fecho com o que eu diria a ela. Ela chegou aqui dizendo que sofria com o próprio corpo e que nunca conseguia manter uma dieta por uma semana. Ficou onze meses. Aprendeu a pesar comida, a conferir tabela nutricional, a treinar, a se organizar, e ainda arrastou a mãe junto, que também mudou. Nada disso foi devolvido quando ela passou duas semanas ruins. Isso ficou com ela, e é o que ela leva mesmo tendo saído do fórum. E, se ela voltar algum dia, a única coisa que eu mudaria é a régua: o objetivo não precisa ser 100 por cento. Precisa ser um plano que ela consiga cumprir na semana em que a vida der errado, porque essa semana sempre vem. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  13. Hoje

  14. Esse tópico registra o episódio mais grave que eu encontrei lendo os relatos deste fórum, e ele merece ser lido com atenção por qualquer pessoa que aplique alguma coisa em si mesma. O @BorisBuilding relatou, em janeiro, que o ombro estava inchado. Uma semana depois, que a dor tinha aumentado e latejava. Passou por um médico que prescreveu apenas anti inflamatório. Uma semana depois, acordou com o deltoide muito inflamado, procurou atendimento de novo, e dessa vez foi encaminhado a um cirurgião: era um abscesso, que precisou ser drenado, com retirada de pus e colocação de dreno. Ele perdeu semanas de treino de superiores, ficou com ferida aberta, e escreveu depois que aquilo tinha estragado quase tudo na preparação. E ele fez a pergunta certa: sinceramente não entendi por que essa lesão evoluiu até chegar nessa situação. A explicação que circulou no tópico foi que ele bateu no local, inflamou e produziu pus. Preciso corrigir isso, porque a explicação errada leva à prevenção errada. Trauma não produz pus. Pus é infecção, ou seja, bactéria. Abscesso é uma coleção de material infectado que o corpo isolou, e por isso ele não resolve com anti inflamatório nem com compressa: precisa ser drenado, que foi exatamente o que aconteceu com ele. E, quando ele contou que já tinha feito aplicações no deltoide, a origem provável ficou clara. Abscesso em local de aplicação é uma das complicações mais conhecidas do uso injetável, e os fatores que a produzem são todos evitáveis: Reutilizar agulha, ou usar a mesma agulha para aspirar do frasco e para aplicar, porque ela perde o fio e leva partículas de borracha. Encostar na agulha ou apoiar ela em qualquer superfície antes de aplicar. Não limpar a pele e a tampa do frasco com álcool, ou não esperar secar antes de furar. Aplicar volume grande em músculo pequeno. O deltoide é justamente o menor dos locais usados e tolera pouco volume, tipicamente até um mililitro. Volume oleoso repetido ali tem mais chance de não dispersar bem e de formar coleção. Aplicar em local que já está dolorido ou endurecido de uma aplicação anterior. E produto sem garantia de esterilidade, que é uma variável que ninguém consegue controlar depois que a ampola está na mão. O que eu acrescentaria, e que é a parte prática mais importante para quem lê: inchaço com dor latejante e calor em local de aplicação não é inflamação para esperar passar. É infecção até prova em contrário, e o tempo entre o começo e o atendimento é o que decide se aquilo é resolvido com antibiótico ou se vira cirurgia. Os sinais que pedem atendimento no mesmo dia são: febre, vermelhidão que se espalha, área que fica quente e endurecida, dor que piora em vez de melhorar, e a sensação de que há líquido embaixo da pele. Não é caso de fórum, não é caso de compressa e não é caso de anti inflamatório sozinho, que foi justamente o que o primeiro médico prescreveu e que apenas adiou o diagnóstico. Vale registrar que a orientação que ele recebeu aqui, naquele momento, foi procurar um médico, com a observação honesta de que não dava para dizer nada sem examinar. Isso estava certo. O que faltou foi urgência: aquele quadro já não era um problema de treino havia duas semanas. E há uma ironia dolorosa nesse tópico. Logo no início, o @Locemar tinha apontado que a divisão de treino dele sobrecarregava o deltoide anterior em três treinos seguidos e não tinha nenhum exercício para o deltoide posterior. Era uma análise boa e correta de programação. O ombro dele acabou parando o projeto por um motivo completamente diferente, e que não tinha nada a ver com treino. Agora o segundo assunto do tópico, que rendeu uma boa resposta e merece ser completado. Quando apareceu espermograma na lista de exames, o @Mistakes perguntou por que aquilo estava ali, contando que tinha varicocele operada na infância e queria confirmar a própria fertilidade. O @BorisBuilding respondeu corretamente que uma parcela grande dos usuários fica azoospérmica e o restante oligospérmico. Vale desenvolver, porque é um dos poucos efeitos que se pode afirmar com segurança. Testosterona exógena suprime o eixo hipotálamo hipófise gônada, e é a queda de LH e FSH que interrompe a produção de espermatozoides dentro do testículo. Isso é tão consistente que foi a base dos estudos de contraceptivo hormonal masculino: o efeito é o esperado, não o acidente. A recuperação, na maioria, acontece depois de meses fora do uso, com casos que levam mais de um ano, e uma minoria não retorna completamente ao que era. Nandrolona está entre as moléculas com supressão mais persistente, e ele estava usando nandrolona. Daí saem duas consequências práticas. Para quem quer avaliar a própria fertilidade: espermograma colhido durante ou logo após um ciclo mede o efeito da droga, e não a capacidade basal da pessoa. Para valer como avaliação, precisa ser feito fora do uso e com tempo suficiente, e isso é conversa com urologista ou andrologista, que também é quem conduz as opções de recuperação quando ela não vem sozinha. E, no sentido oposto, o alerta que ninguém faz: ciclo não é método contraceptivo. A supressão é grande, mas não é completa nem confiável em todo mundo, e gravidez durante uso de esteroide já aconteceu muitas vezes. Quem depende disso está sem método. Agora três créditos que o tópico merece. O primeiro: quando ele listou protetor hepático entre os suplementos em uso, a resposta foi direta, que aquilo era bobeira. Está certo. Não existe evidência de que silimarina ou qualquer suplemento dito hepatoprotetor previna ou reverta lesão por oral 17 alfa alquilado, e ele estava usando oximetolona, que é dos mais pesados nesse quesito. O que informa é TGO, TGP e gama GT, e o que protege é dose menor e tempo menor. O segundo: quando ele propôs combinar nandrolona e trembolona, foi corretamente avisado de que somar dois compostos da mesma família progestogênica não é inteligente, porque a sinergia é pequena e o risco de incômodo mamário é maior. Isso é preciso, e é o mesmo mecanismo que explica por que inibidor de aromatase costuma falhar nesses casos: o incômodo não vem do estradiol. O terceiro: ele fez exames repetidos, por iniciativa própria, aproveitando o convênio enquanto tinha, e postou todos. Isso é o oposto do que acontece na maioria dos relatos daqui. Fecho com o que eu acho. Ele é um atleta que já subiu ao palco, trabalha na segurança pública durante o dia, faz faculdade à noite e mantém uma rotina que quase ninguém sustentaria. A parte dele está feita. Mas o evento que definiu o ano dele não foi dieta, treino nem dose. Foi uma aplicação no deltoide que terminou em centro cirúrgico. E, na conta de risco desse tipo de projeto, esse é o item que aparece menos nas discussões e que é o mais imediato de todos: não depende de anos de uso, não depende de exame, e pode acontecer na primeira vez. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  15. Esse é um dos relatos mais bem resolvidos que eu li nesta rodada, e vale dizer isso de saída, porque ele é raro pelo motivo certo. O @Clutch chegou com 68,7 kg, perguntando o que fazer, e recebeu a resposta que quase ninguém recebe: não há indicação de esteroide no seu caso, vamos ajustar dieta, cardio, treino e descanso. Essa orientação foi repetida em pelo menos quatro atualizações diferentes, inclusive quando ele já estava evoluindo e a tentação seria maior. Ele seguiu. E o resultado, quando se olha a série completa, é exatamente o que se espera de alguém fazendo o básico bem feito: 68,7 para 68,9, depois 69,75, 70,75, 70,90 e 72,30 kg, com o peitoral saindo de 88,5 para 93 cm e as fotos mudando visivelmente. São cerca de três quilos e meio em seis meses. Isso não parece muito escrito assim, e é justamente por isso que vale nomear: para alguém natural que já treinou antes, ganhar entre 250 e 500 gramas por mês, mantendo a maior parte disso como massa, é uma taxa boa. Quem promete mais que isso está prometendo água, gordura ou farmacologia. Ele mesmo escreveu, em dezembro, que queria acelerar um processo que já é lento. É lento mesmo, e a resposta que ele recebeu naquele momento foi a certa: arrancar o máximo do natural primeiro. Agora a correção técnica que eu preciso fazer, porque ela é específica, é útil para todo o fórum e passou como um detalhe. Ele fez uma bateria de exames e, quando perguntaram como tinha se preparado, respondeu: treinei perna um dia antes, e fiz jejum a partir das 22h para colher às 8h. A resposta que ele recebeu foi perfeito, tudo muito bem. O jejum estava certo. O treino de perna na véspera, não. Treino intenso, especialmente de membros inferiores, eleva de forma acentuada a creatino quinase, que é a enzima liberada pelo músculo. E, junto com ela, elevam se também TGO, ureia e creatinina, porque essas medidas não vêm só do fígado e do rim: parte vem do músculo. Isso importa muito mais do que parece, e por um motivo que aparece em vários tópicos daqui. É comum alguém colher exames depois de treinar pesado, ver TGO alterado e concluir que está com problema hepático, quando a origem é muscular. E é comum o contrário também: alguém em uso de oral 17 alfa alquilado atribuir ao treino uma alteração que é da droga. A regra prática que resolve os dois casos é a mesma: quando o exame incluir enzimas hepáticas, creatino quinase, ureia ou creatinina, evite treino intenso nas 48 a 72 horas anteriores à coleta. Custa nada e evita conclusão errada nas duas direções. No caso dele os exames vieram bons, o que é ótimo. Só vale saber que a leitura de alguns daqueles números estava carregada pelo treino da véspera. O segundo ponto é sobre a gastrite, e aqui há um crédito e uma lacuna. O crédito: ele foi ao gastroenterologista quando pediram, voltou e relatou. Isso é o que se deve fazer e quase ninguém faz. A lacuna: o retorno dele foi gastrite leve, orientação alimentar e nenhuma medicação. Isso é uma conduta possível e razoável. Mas há um exame que faz parte da investigação padrão de gastrite e que não aparece em nenhum momento do tópico, que é a pesquisa de Helicobacter pylori. Vale porque a bactéria é a causa mais comum de gastrite crônica, é bastante prevalente no Brasil, e tem tratamento definido, com antibiótico por tempo determinado. Ou seja, é uma das poucas causas de sintoma crônico que pode simplesmente acabar. Se isso não foi pesquisado, é a pergunta a levar no próximo retorno. E a orientação que ele recebeu do médico, de não ficar mais de quatro horas em jejum, virou piada no tópico, mas ela tem lógica: intervalos longos sem comer costumam piorar sintoma em quem tem gastrite. Isso conflita frontalmente com jejum intermitente e com treino em jejum, que são recomendados aqui o tempo todo. No caso dele, a orientação do médico ganha. Agora três notas menores. A primeira é sobre as medidas. Entre a primeira e a terceira atualização, o braço direito saiu de 34,5 para 34 cm e o esquerdo de 33,5 para 33 cm, enquanto o peitoral subiu quatro centímetros e meio. Braço não encolheu. Fita métrica tem erro de meio a um centímetro dependendo de onde exatamente ela é posicionada, de quanto é apertada e de quem mede. A regra é simples: diferença menor que um centímetro entre duas medidas é ruído, e não informação. O que vale é a tendência ao longo de várias medições, não a comparação entre duas. A segunda é a cintura, que subiu de 73 para 77 cm enquanto ele ganhava três quilos e meio. Isso é normal e não é problema. Quem ganha peso ganha alguma gordura junto, e a proporção depende da velocidade. Se a cintura subisse muito mais rápido que o resto, aí sim seria sinal de que o superávit está grande demais. No caso dele, a proporção está boa. A terceira é uma frase que apareceu no tópico e que eu comento sempre que vejo: que se a pessoa não passar mal no treino, nem volta no dia seguinte. Dor e mal estar não são a medida do treino. Dor muscular tardia é sinal de estímulo pouco habitual, e diminui à medida que a pessoa se adapta, justamente enquanto os ganhos continuam. O que prevê resultado é o que ele já estava fazendo: carga subindo ao longo das semanas com execução mantida. E, no caso específico dele, que tem gastrite, treinar até passar mal tem um custo extra que não vale a pena. Fecho com o que eu de fato acho desse relato. Ele perdeu o físico depois de uma dengue, ficou anos longe da musculação, voltou na pandemia e reconstruiu do zero, com atualizações no prazo, exames por iniciativa própria e uma consulta médica feita porque pediram. Ganhou três quilos e meio de forma limpa, natural, e recusou o atalho toda vez que ele apareceu. Se alguém quiser um exemplo, dentro deste fórum, de que o básico bem feito funciona, é esse tópico. E o mérito maior é que ele ainda estava natural na última atualização, seis meses depois, num lugar em que essa é a exceção. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  16. A @Ruthynha escreveu, no primeiro post, qual era o objetivo dela: ganho de massa e perda de gordura. E os números do relato foram estes: começou com 51,50 kg e chegou a 47,11 kg. Com 1,56 m, isso significa que o índice de massa corporal dela saiu de cerca de 21,2 para cerca de 19,4. Ou seja, quatro quilos e meio a menos, num projeto cujo objetivo declarado incluía ganhar massa. Não houve superávit calórico em nenhuma linha desse tópico, e sem superávit não existe ganho de massa relevante, com dieta impecável ou não. Isso não desmerece o trabalho dela, que foi impecável: 100 por cento de dieta, 100 por cento de hidratação, atualizações no prazo, treinando em casa, aos 24 anos. O resultado nas fotos é real. Só que ele é o resultado de outro objetivo. E aqui eu preciso discordar de algo, porque foi na mesma atualização. Ela escreveu, junto com o peso de 47,11 kg: não senti mais tanta diferença nas roupas, já estão todas folgadas, e os comentários são os de sempre, muito magra. A resposta que ela recebeu no tópico foi um meu ovo, seguido de risadas. Eu leria diferente. Não como alarme, porque 19,4 ainda está dentro da faixa normal e ela não relatou nenhum sintoma preocupante. Mas como informação, porque duas coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo: o objetivo dela era ganhar, e as pessoas em volta estavam notando que ela estava emagrecendo. As duas observações apontavam para o mesmo lugar. Em outro tópico daqui eu escrevi que o critério para levar uma crítica a sério não é o motivo de quem critica, e sim se a observação é verificável. Nesse caso ela é. O peso caiu, o objetivo era o contrário, e as roupas folgando confirmam. E existe um conjunto de sinais que vale a pena vigiar quando alguém jovem fica meses em déficit treinando todos os dias: menstruação que atrasa, fica escassa ou some, cansaço que não passa com descanso, sensação constante de frio, queda de cabelo e infecções repetidas. Ela relatou uma gripe que a fez faltar três dias de treino, o que sozinho não significa nada, mas entra na lista. Isso tem nome na medicina do esporte: baixa disponibilidade energética. E o motivo pelo qual eu insisto nela aos 24 anos é o osso: o pico de massa óssea se constrói até por volta dos 30, e o que não se constrói nessa janela não se recupera depois. Não dá sintoma, não aparece na fita e não aparece na foto. A boa notícia é que ela já tinha, sem saber, o melhor marcador disponível na mão. Ela avisava quando a menstruação vinha e reprogramava a atualização para dois dias depois do fim. Isso é excelente método, porque elimina a retenção da comparação. E é também o dado de saúde mais barato que existe: ciclo regular indica que o organismo está com energia suficiente. Ciclo que atrasa, fica escasso ou some indica que não está. Agora o que eu de fato mudaria no projeto, e é simples. Ela pediu massa. Massa exige comer acima do gasto e treinar com carga que progride. Nos últimos planos, a proteína dela ficou em torno de 70 g por dia, o que para 47 kg dá cerca de 1,5 g por quilo, e está razoável. O problema não era a proteína: era o total, e era a direção. Uma correção de rumo aqui é barata: manter o mesmo treino, acrescentar em torno de 250 a 300 kcal por dia, e conferir a balança depois de três semanas. Se o peso sobe devagar, é superávit. Se não sobe, não é. E ganhar 200 a 300 gramas por mês, em quem treina há pouco tempo, é uma taxa boa. Sobre o treino em casa, que virou tema. Ela ouviu, mais de uma vez e em letras maiúsculas, para ir para uma academia. A recomendação faz sentido pelo motivo certo, mas ele nunca foi dito: o que limita o treino em casa não é o lugar, é a carga disponível. Hipertrofia depende de sobrecarga progressiva, e chega um ponto em que o peso do corpo e o elástico não sobem mais. Ou seja, quem treina em casa e quer continuar progredindo precisa resolver a carga, com halteres ajustáveis, anilhas, elásticos de resistências diferentes ou até uma mochila com peso. Isso é mais importante que o endereço. Se a academia for viável, ótimo, resolve de uma vez. Se não for, o problema tem solução em casa, e vale dizer isso a quem lê e não pode pagar academia. Agora uma observação sobre método, e ela é técnica. Ela contou, com franqueza, que nunca tinha usado biquíni e que ficava constrangida de mostrar o corpo. E recebeu, ao longo de várias mensagens, o pedido de aparecer na próxima atualização com uma peça menor, para dar para avaliar. A necessidade técnica é real: foto padronizada com o mesmo enquadramento é o que torna a comparação honesta, e roupa larga esconde exatamente o que se quer acompanhar, que é linha de cintura, flanco, dorsal e glúteo. Mas a necessidade técnica é atendida por igual com top e short curto, desde que sejam sempre os mesmos, na mesma luz, na mesma parede e na mesma distância. O que faz a comparação funcionar é a constância da roupa, não o tamanho dela. Quem está sendo fotografada decide o resto, e isso não custa nada ao projeto. E vale dizer, porque é verdade: as duas coisas que mais melhoraram a avaliação dela ao longo do tópico foram a padronização da luz e a padronização da pose, e as duas foram apontadas corretamente. Fecho com o que eu acho. Ela chegou aqui com 24 anos, treinando em casa havia seis meses, sem exames, sem academia e sem experiência, e sustentou meses de dieta pesada sem falhar uma atualização. Isso é o ativo dela, e é o que vai continuar valendo daqui para frente. O que faltou não foi disciplina. Faltou alguém somar a coluna e dizer a ela, sem rodeio: você escreveu no primeiro post que queria ganhar massa, e o que aconteceu foi quatro quilos e meio a menos. Está bem executado, e está indo para o outro lado. E, na idade dela, corrigir isso não é vaidade. Construir músculo aos 24 é o investimento com melhor retorno que existe, porque é a década em que o osso e o músculo ainda estão sendo formados. Para quem quiser montar um treino com base na própria rotina e no equipamento disponível, o site tem um gerador de treino em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/treino/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  17. A @Vezinha escreveu uma frase, no meio do tópico, que resume o que eu tenho a acrescentar aqui. Ela disse: eu vejo que evoluí muito, ganhei definição, mas meu gosto pessoal é ter mais massa muscular. Ela estava certa nas duas partes, e a segunda nunca foi resolvida. Vale explicar por quê, porque a explicação é aritmética e é a mesma em quase todos os relatos femininos daqui. Ela saiu de 57 kg para 51 kg, com 1,55 m. Isso é uma perda real e o resultado nas fotos é evidente. Mas o que ela pediu, massa muscular, dependia de duas coisas que a dieta não entregava. A primeira é a proteína. Somando os planos que circularam no tópico, a proteína ficava em torno de 60 a 75 g por dia. Nas primeiras versões, com um ovo no café e 70 g de carne no almoço e no jantar, ficava ainda abaixo disso. Para 51 kg, isso dá algo entre 1,2 e 1,4 g por quilo. Para alguém em déficit calórico que quer preservar músculo, e mais ainda para quem quer ganhar, o alvo fica entre 1,6 e 2,2 g por quilo, ou seja, algo entre 85 e 110 g por dia no caso dela. E vale dizer que a proteína é justamente o macronutriente mais protetor durante o emagrecimento: ela é o que sustenta a massa magra enquanto a gordura sai, é o que mais sacia por caloria, e é o que menos custa em gordura corporal quando se erra a conta para cima. Ou seja, a correção mais barata do projeto inteiro era subir a carne de 70 para 120 ou 130 g nas duas refeições principais e acrescentar mais um ovo. Isso resolve, sozinho, boa parte da diferença entre definir e construir. A segunda é o superávit. Ganhar músculo em quantidade relevante exige comer acima do gasto, e não existe um único dia nesse tópico em que isso tenha acontecido. Ela executou com disciplina um protocolo de perda, e ele funcionou como protocolo de perda. De novo, isso não é crítica ao resultado, que foi bom, e ela gostou dele. É o registro que falta para quem lê hoje querendo o que ela pediu. Agora o assunto que ela levantou mais vezes que qualquer outro, e que merece uma resposta diferente da que recebeu. Ela contou, em pelo menos cinco atualizações, que estava recebendo comentários negativos. Que apareciam pessoas para deixá la de cabeça baixa, que diziam que ela ia sumir, que criticavam como o corpo dela estava ficando. E disse, com todas as letras, que às vezes ficava triste com isso. A resposta que ela recebeu, sempre, foi que era inveja. Às vezes é. Mas eu daria a ela um critério mais útil, porque ele funciona nos dois casos. O que importa não é o motivo de quem critica, que ela nunca vai saber. É se a observação é verificável. E, no caso dela, é. Ela tem 1,55 m e saiu de 57 kg para 51 kg. Isso significa que o índice de massa corporal dela foi de cerca de 23,7 para cerca de 21,2. Os dois valores estão dentro da faixa normal, e o segundo está no meio dela, longe de qualquer limite. Ou seja, quem estava sugerindo que ela estava se prejudicando não tinha número que sustentasse isso. Ela pode responder com um dado, o que é bem melhor do que responder com raiva ou engolir calada. E vale a recíproca, que é a parte honesta: se em algum momento o peso continuasse caindo, se a menstruação ficasse irregular ou sumisse, se aparecesse cansaço que não passa com descanso, sensação constante de frio, queda de cabelo ou infecções repetidas, aí a crítica passaria a ter conteúdo, independentemente da intenção de quem a fez. Esses são os sinais que valem a pena vigiar, e nenhum deles apareceu no relato dela. Um comentário sobre o que se cria em volta desse tipo de tópico. Ela ouviu, de forma repetida, que quem critica é invejoso e que só absorva o positivo. Isso conforta e às vezes é verdade, mas tem um custo: quem se acostuma a descartar toda crítica como inveja perde o acesso à crítica que era útil. O filtro melhor é o outro: dá para conferir? Se dá, confere. Se não dá, segue. Agora três notas rápidas. A primeira é sobre a genética, que apareceu quando alguém perguntou se aquele resultado era mesmo sem ergogênico e concluiu que ela tinha genética favorável. Ela pode ter. Mas o que mudou nas fotos foram três meses de comida pesada e treino feito, com laqueadura, trabalho e vida normal em volta. Atribuir isso a genética é justamente o que tira dela o crédito do que ela fez, e passa a mensagem errada para quem lê e acha que não tem a mesma sorte. A segunda é sobre a padronização das fotos. A orientação de deixar a luz bater no corpo, porque as fotos tinham sombra, é melhor do que parece. Sombra lateral cria definição que não existe e esconde mudança que existe. Mesma parede, mesma hora, mesma distância, mesma pose. É o que torna a comparação honesta, e ela passou a fazer isso. A terceira é sobre o período em que ela relatou não ter conseguido dar o melhor nos treinos e na dieta, depois que o cachorro dela morreu. Isso não precisa de justificativa. Luto derruba sono, apetite, disposição e vontade, e é esperado que o rendimento caia. Ela recebeu do fórum exatamente a resposta certa nesse momento, que foi acolhimento, e vale registrar que isso também é parte do que faz um projeto durar. Fecho com o que eu diria a ela hoje. Ela pediu massa muscular e não recebeu o protocolo para isso. E, aos 37 anos, esse pedido é ainda melhor do que ela imagina, porque construir músculo é o investimento com melhor retorno de longo prazo que existe para uma mulher: sustenta o metabolismo, protege o osso na década seguinte e é o que mantém a forma quando a dieta acaba. Ela já provou que consegue executar. O que falta agora não é disciplina, é comida. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento.
  18. O @Edu saiu de 104 kg para a casa dos 80 e sustentou isso por mais de dois anos de atualizações quinzenais, trabalhando em plantão, sem faltar aos prazos. O resultado é real e o método dele é bom: mediu cintura e abdome em toda atualização, fez exames de sangue repetidos, acompanhou glicemia e viu ela melhorar. Isso é mais do que a maioria faz. Por isso mesmo preciso discutir três orientações que ele recebeu e seguiu, porque duas delas viraram rotina permanente e uma envolve outras pessoas além dele. Começo pela que envolve outras pessoas: a doação de sangue. Foi sugerido a ele doar sangue para ajustar exames, e depois a orientação virou regra: doar a cada três meses, quatro vezes por ano. O raciocínio clínico por trás disso está certo. Testosterona exógena estimula a produção de glóbulos vermelhos, e a eritrocitose é um dos efeitos mais previsíveis e mais mensuráveis do uso. Sangue mais viscoso aumenta risco trombótico, e retirar volume resolve o número. O problema é o caminho escolhido, e ele tem dois lados. O lado clínico: quando a retirada de sangue é feita para tratar alguém, isso se chama sangria terapêutica, é um procedimento médico, com indicação, volume e frequência definidos por quem acompanha, e com o hemograma na mão antes e depois. Fazer isso por conta própria, em calendário fixo de três em três meses, independentemente do valor do hematócrito, é tratar sem medir. E doação repetida ao longo de anos depleta ferro, o que traz o problema oposto. O lado que me faz insistir: banco de sangue não é serviço de sangria. O sangue doado vai para um paciente. Por isso existe triagem, existe questionário e existe a autoexclusão, justamente para que quem não deveria doar não doe. Quem usa esteroides anabolizantes entra nos critérios de avaliação da triagem, e essa é uma conversa que se tem no banco de sangue, com honestidade, e não uma que se resolve marcando doação a cada trimestre. Se o hematócrito dele está alto, existem duas condutas corretas e as duas passam por médico: ajustar a dose, que é a causa, ou fazer sangria terapêutica prescrita. Doar sangue não é uma terceira opção, porque ela transfere para outra pessoa uma decisão que é dele. A segunda orientação é sobre a prolactina. Ele chegou com prolactina alta e recebeu, como resposta, ir atrás de cabergolina, com a observação de que um comprimido já daria uma boa mudada. Preciso discordar em três níveis. Primeiro, a causa. Ele estava em cruise, ou seja, em uso contínuo de testosterona. Prolactina elevada nesse contexto tem explicação provável dentro do próprio protocolo: estradiol elevado aumenta prolactina, e compostos com atividade progestogênica, como nandrolona e trembolona, são classicamente associados a isso. Ou seja, tratar o número com cabergolina enquanto a causa continua é tratar o termômetro. Segundo, o que precisa vir antes. Prolactina alta pede repetição da dosagem em condições adequadas, em repouso e sem esforço antes da coleta, porque ela sobe com estresse e exercício, e a segunda coleta resolve boa parte dos casos. Depois disso, revisão de medicações em uso e dosagem de tireoide, porque hipotireoidismo é causa comum e corrigível. Só então se discute tratamento, e se a elevação persistir sem explicação, entra imagem da hipófise. Terceiro, a droga. Cabergolina é agonista dopaminérgico de prescrição. Os efeitos que aparecem com frequência são náusea, tontura e queda de pressão. E existe um efeito de classe que quase nunca é mencionado nesses fóruns e que deveria ser: agonistas dopaminérgicos estão associados a transtornos do controle de impulsos, como jogo compulsivo, compras compulsivas e hipersexualidade. É um efeito descrito, real, e que a pessoa em geral não relaciona ao remédio. Existe ainda, em uso prolongado e em doses altas, preocupação com alteração de válvula cardíaca, que é a razão pela qual esse uso é acompanhado com ecocardiograma. Não é um comprimido inofensivo, e não é decisão de fórum. A terceira coisa está no quarto post do tópico e nunca foi retomada. Quando perguntaram como ele se sentia, ele respondeu: vivo com sono, durmo doze horas fácil se o despertador não tocar, mas sempre acordo cansado. E completou: sem paciência, sem concentração, muito explosivo. Isso, num homem que estava com 104 kg, é o retrato da apneia obstrutiva do sono. Dormir muito e acordar cansado é diferente de dormir pouco: aponta para sono fragmentado, e não para sono curto. E irritabilidade, dificuldade de concentração e sonolência diurna são exatamente o cortejo que vem junto. Isso importa por três motivos. Apneia é fortemente ligada ao excesso de peso, e melhora muito com a perda dele, que foi o que ele fez. Ela é fator de risco cardiovascular por si. E androgênios podem piorar apneia, o que torna a combinação dele a pior possível para deixar sem diagnóstico. Se aquele cansaço persistiu depois dos vinte quilos perdidos, ou se alguém em casa relata ronco alto com pausas, o exame é polissonografia, e não é caro perto do que ele já gastou no projeto. Agora quatro pontos menores. O primeiro é o nódulo no peito que ele tratou com anastrozol por conta própria, em comprimidos partidos, até o caroço regredir. Isso funcionou para ele e fico feliz, mas o critério continua valendo: nódulo mamário palpável em homem adulto é achado de exame clínico, e não de titulação de medicamento. Ginecomastia é de longe a causa mais comum, e câncer de mama masculino é raro mas existe e se apresenta assim. São dez minutos de consulta. E vale saber que, uma vez formado tecido glandular, inibidor de aromatase não o desfaz. A droga com evidência para ginecomastia inicial e dolorosa é o tamoxifeno. O segundo é o potássio alto que apareceu em um exame e gerou dúvida. Antes de investigar causa, vale repetir a coleta, porque a causa mais comum de potássio falsamente elevado é a própria coleta: hemólise da amostra, garrote apertado por muito tempo ou fechar e abrir a mão durante a punção elevam o valor sem que exista nada. Se repetir e persistir, aí se olha função renal, e nesse caso creatinina e ureia entram junto. O terceiro é a creatino quinase e a dor muscular que ele relatou de segunda a sexta. Creatino quinase elevada em quem treina pesado é esperada e não indica doença por si. Mas dor muscular todos os dias da semana, sem janela de recuperação, geralmente significa que o volume está acima da capacidade de recuperar, e não que o treino está bom. Quem já está adaptado a um estímulo apresenta menos dor ao repeti lo, e isso é sinal de adaptação, não de treino fraco. O quarto é a lista de suplementos que atravessou o tópico. Picolinato de cromo três vezes ao dia não tem evidência consistente de efeito em composição corporal ou em glicemia em quem não tem deficiência. Vinagre de maçã em jejum, várias vezes ao dia, tem efeito pequeno e inconsistente, e o custo é real: ácido em contato direto com o esmalte, que não se regenera. Se for manter, dilua bem, use canudo e não escove os dentes logo depois. E vitamina D em 5.000 UI por dia está acima do limite superior tolerável para uso continuado, que é 4.000 UI, e deveria ser guiada por exame. Fecho com o que eu acho. O que produziu os vinte quilos dele foi comida pesada, treino, cardio seis vezes por semana e dois anos de constância dentro de uma escala de plantão. Ele mesmo escreveu, e é verdade: a glicemia caiu, a cintura caiu, o perfil lipídico melhorou. O que eu mudaria não é o esforço, é a ordem de quem decide. Prolactina alta, hematócrito alto, nódulo no peito e sono ruim de doze horas são quatro coisas que apareceram no tópico e que têm em comum precisarem de um médico, e as quatro foram tratadas aqui dentro. E entre elas, a doação de sangue de rotina é a única que não afeta só ele. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  19. Esse é um dos relatos mais bonitos do fórum. A @Famama chegou aos 45 anos com 65 kg, atravessou quase um ano de atualizações quinzenais sem falhar uma vez, e terminou com um shape que virou referência aqui dentro. Nada disso foi sorte, e ela mesma já respondeu bem a quem atribuiu tudo à genética: antes do fórum, ela fazia atividade física e não tinha aquele resultado. Por isso mesmo eu preciso voltar a uma frase da primeira atualização dela, que passou sem resposta e que é o ponto mais sério de todo o tópico. Ela escreveu: acho que estou precisando de mais força, pois quando estou fazendo exercício com muita carga às vezes a vista escurece. A resposta que ela recebeu foi para não aumentar cargas por conta própria, para evitar lesão. Isso estava certo, mas era sobre outra coisa. O sintoma em si nunca foi discutido. Vista escurecendo durante esforço é o que se chama de pré síncope, e ela merece atenção. Na maior parte das vezes a causa é benigna: a manobra de Valsalva, aquele bloqueio da respiração que se faz para levantar carga, aumenta a pressão dentro do tórax, reduz o retorno de sangue ao coração e derruba momentaneamente a perfusão cerebral. Isso acontece com muita gente e melhora corrigindo a respiração e evitando prender o ar em séries longas. Mas existem outras causas que precisam ser afastadas antes de se assumir a benigna, e algumas eram plausíveis no caso específico dela: pressão baixa, desidratação, anemia, queda de glicose, e causas cardíacas, que são raras mas são justamente as que não se pode presumir ausentes. E o contexto dela pesava. Ela tinha 45 anos, estava numa dieta em torno de 1.300 a 1.400 kcal, treinando todos os dias, no primeiro mês de um processo em que perdeu três quilos e meio. A conduta prática, para quem lê isso hoje com o mesmo sintoma, é simples: não prender a respiração em séries longas, não levantar da máquina ou do banco de forma abrupta, hidratar, e não treinar em jejum quando isso acontece. E, se o escurecimento voltar mesmo com esses ajustes, ou se vier com palpitação, dor no peito ou perda de consciência, aí não é ajuste de técnica, é avaliação médica antes de continuar. Ela não relatou o sintoma de novo depois, o que é bom sinal. Mas ele merecia uma resposta na hora, e não teve. Agora a segunda coisa que eu observaria, que é sobre o rumo do projeto. Na atualização de setembro, com quatro meses de fórum, ela escreveu com todas as letras: como já não sou uma novinha, não quero ficar muito magra, já estou quase com o peso de dezesseis anos atrás, estou achando meu rosto magro e os peitos já estão quase desaparecendo. E completou: quero ganhar mais perna e bunda. Ou seja, ela pediu, de forma clara, para trocar de objetivo. Sair de perder peso e passar a ganhar músculo. E os pesos seguintes foram: 56,5, 56,25, 56, 55,5, 56,1, 55,8, 56,5, 56,3. Isso é manutenção, por oito meses. Não é perda, o que é bom, mas também não é ganho. E ganhar perna e glúteo, que era o pedido dela, exige comer acima do gasto. Sem superávit não existe ganho de massa relevante, com dieta impecável ou não. De novo, isso não é crítica ao trabalho, que foi excelente. É que o objetivo declarado mudou e o protocolo não mudou junto, e ela repetiu o pedido mais de uma vez. E existe um argumento adicional que vale muito aos 45 anos, e que é a parte que ninguém colocou na mesa. Nessa faixa etária, a prioridade deixa de ser o número da balança e passa a ser massa muscular e osso. A perda de densidade óssea acelera no período que antecede e sucede a menopausa, e ela é silenciosa: não dá sintoma, não aparece na foto, não aparece na fita. O que protege é justamente o pacote que ela já tinha em mãos: treino de força com carga progressiva, proteína suficiente, cálcio e vitamina D adequados, e ausência de déficit calórico crônico. Ou seja, o pedido dela de parar de emagrecer e começar a ganhar não era vaidade. Era, do ponto de vista de saúde, a decisão mais acertada do tópico inteiro. Agora uma nota sobre o jejum intermitente que passou a ser prescrito a partir do segundo mês. Jejum intermitente funciona, e funciona por um motivo específico: concentrar as refeições em uma janela faz a maioria das pessoas comer menos no total. Comparado a outra dieta com as mesmas calorias, ele não entrega vantagem adicional em gordura corporal. O ponto de atenção, no caso dela, é o oposto do que se costuma discutir. Numa mulher de 45 anos, a proteína é o macronutriente que mais importa para preservar músculo e osso, e ela costuma render mais quando distribuída ao longo do dia do que concentrada em poucas refeições. Ou seja, a janela restrita atrapalhava justamente aquilo que ela tinha pedido para priorizar. Duas correções menores. Sobre o colágeno, que ela perguntou: a resposta que recebeu estava correta, e é boa. Colágeno é uma proteína formada por aminoácidos, e quem come carne, ovo e laticínio já ingere esses aminoácidos. Acrescento só a nuance honesta: existe alguma evidência, modesta e ainda inconsistente, de que peptídeos de colágeno junto com vitamina C possam ajudar em tendão e articulação. O que não existe é vantagem dele como fonte de proteína, e nesse quesito o prato dela já resolvia. Sobre a hidratação e os treinos diários: treinar todos os dias, sem dia de folga, funciona enquanto funciona. Aos 45 anos a recuperação é o recurso mais escasso, e um dia de descanso por semana costuma render mais que o sétimo treino, especialmente em quem está comendo pouco. Fecho com o que eu acho de mais importante nesse relato, e não é o shape. Ela chegou aqui contando que gostava de cerveja e de pinga, e o assunto reapareceu várias vezes. Ao longo dos meses ela reduziu drasticamente, e chegou a escrever que não estava nem sentindo falta. Do ponto de vista de saúde, isso vale mais que os nove quilos. Reduzir álcool aos 45 anos melhora sono, pressão arterial, fígado, ritmo cardíaco e composição corporal ao mesmo tempo, e é a mudança do tópico que mais rende ao longo dos próximos vinte anos. E ela também escreveu, quase no fim, o que considerava o maior aprendizado de onze meses: que aprendeu a comer e aprendeu a importância da disciplina. Isso é exatamente o que fica quando a dieta acaba, e é a única parte que ninguém tira dela. Se fosse para acrescentar uma frase ao projeto, seria esta: ela já fez a parte difícil, que era tirar. O que falta agora é a parte que ela mesma pediu e que ainda não começou, que é construir. E, aos 45, construir músculo é tratamento, e não vaidade. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  20. Esse tópico tem um achado clínico logo na primeira página, e ele merece ser desenvolvido, porque foi bem identificado e mal explicado. A @marianap chegou com 24 anos, 1,70 m e 55 kg, dizendo que perdia peso muito rápido e não conseguia ganhar. E trouxe exames que ela mesma ainda não tinha mostrado a nenhum médico. O @Apollo Galeno olhou aqueles exames e notou três coisas ao mesmo tempo: TSH, T4 livre e T3 livre alterados, e SHBG elevado. Encaminhou de volta ao endocrinologista e chegou a sugerir imagem de hipófise. Ela repetiu em outro laboratório e a alteração se confirmou. Isso foi bem visto e vale explicar o porquê, porque a associação que ele apontou não é coincidência, e ela responde exatamente a queixa que ela trouxe. Excesso de hormônio tireoidiano aumenta o gasto energético de repouso. Ou seja, a pessoa gasta mais em pé, parada, dormindo, sem fazer nada diferente de ninguém. Isso produz perda de peso e dificuldade de ganhar, que foi literalmente a frase com que ela abriu o tópico. E o SHBG fecha o raciocínio: hormônio tireoidiano aumenta a produção hepática de SHBG. Ou seja, os dois achados não eram dois problemas, eram o mesmo problema visto de dois ângulos. É por isso que a combinação chamou atenção. Agora o ponto que ninguém ligou, e que eu acho o mais importante do relato inteiro. Ela informou, no primeiro post, que usa alprazolam por transtorno de ansiedade, para dormir. Hipertireoidismo produz, de forma clássica: palpitação, insônia, irritabilidade, tremor, sensação de calor e inquietação. É um dos grandes imitadores de transtorno de ansiedade, a ponto de a dosagem de TSH ser rotina na investigação de quadros ansiosos. Não estou dizendo que a ansiedade dela é só tireoide. Não dá para afirmar isso por um fórum, e ansiedade pode perfeitamente existir junto. Mas é uma pergunta que ela precisa levar, escrita, para o endocrinologista e para quem prescreveu o alprazolam: parte desses sintomas pode ser tireoidiana, e nesse caso tratar a tireoide muda a necessidade do resto. Duas notas importantes sobre o alprazolam, e nenhuma delas é para ela mudar nada por conta própria. A primeira: benzodiazepínico não se interrompe de forma abrupta. A retirada, quando indicada, é gradual e conduzida por quem prescreveu. A segunda, que interessa direto ao projeto dela: benzodiazepínicos ajudam a adormecer, mas alteram a arquitetura do sono, reduzindo as fases profundas. Ou seja, a pessoa dorme, mas o sono rende menos em recuperação. Para quem está treinando pesado e em fase de ganho, isso importa. É mais um motivo para a conversa acontecer. Agora onde eu discordo do encaminhamento do tópico. Foi dito a ela, mais de uma vez, que a inteligência estava sendo usada a favor dela, e que ela teria o shape com patologia ou sem patologia. Preciso discordar do enquadramento. Hipertireoidismo não tratado não é uma vantagem metabólica a ser aproveitada. Ele cobra em dois lugares específicos, e os dois são caros. O primeiro é o coração. Excesso de hormônio tireoidiano aumenta frequência cardíaca de repouso e é causa reconhecida de arritmia, incluindo fibrilação atrial, inclusive em pessoas jovens. Isso pesa mais em quem treina forte e faz cardio. O segundo é o osso, e esse é o que me preocupa mais nela. Hormônio tireoidiano em excesso acelera a remodelação óssea e reduz a densidade mineral. Ela tem 24 anos, ou seja, está exatamente no período em que se constrói o pico de massa óssea, que se completa por volta dos 30. Perda óssea nessa faixa é justamente a que não se recupera depois, e não dá sintoma nenhum: não aparece na fita, não aparece na balança, não aparece na foto. Ou seja, a pressa não é estética. Ela tinha um motivo para acelerar a consulta que era melhor do que o peso, e ela mesma escreveu que estava tentando antecipar o retorno e que estava difícil. Agora um detalhe técnico que foi perguntado com precisão e que merece ser explicado, porque é o erro de exame mais comum que existe nessa área. O @Apollo Galeno perguntou a ela, logo no começo, se andava tomando alguma vitamina para cabelo, algo com biotina. Essa pergunta é exatamente a certa. Biotina em dose alta interfere em boa parte dos imunoensaios usados em laboratório, e o efeito sobre o painel de tireoide é característico: tende a elevar falsamente T4 e T3 livres e a reduzir falsamente o TSH, produzindo um resultado que imita hipertireoidismo em quem não tem nada. É por isso que a orientação padrão é suspender biotina alguns dias antes da coleta. Ela tinha usado Pantogar meses antes, o que torna a interferência improvável, e a repetição em outro laboratório confirmou a alteração. Mas quem lê isso hoje precisa saber: suplemento de cabelo, unha e pele antes de exame de tireoide é a causa número um de painel alterado sem doença. E ela mesma deu, sem querer, a segunda lição sobre isso, com uma honestidade que merece registro: contou que tinha tomado um comprimido de B12 na casa de um amigo vegano, de brincadeira, na semana do exame, e que a B12 veio altíssima. É a mesma história em miniatura. Suplemento tomado de forma casual aparece no exame, e quem lê o resultado depois não tem como adivinhar. Agora a coluna de pesos, em que ela também acertou sozinha. Os registros foram 55,1, depois 54,8, depois 58, depois 55,75. E foi ela quem identificou o problema: a penúltima pesagem tinha sido na farmácia, a seguinte numa balança de ponteiro comprada para casa, e ela estava vestida de forma diferente. Ela mesma corrigiu o próprio dado, e isso é melhor do que a maioria dos relatos daqui. Vale só transformar em regra: mesma balança, em jejum, depois de urinar, com a mesma roupa ou sem roupa, no mesmo dia da semana. Balança de ponteiro tem erro grande e varia com o ponto do piso onde está apoiada. E o número que interessa é a média de sete dias, não o do dia. Três notas rápidas. A primeira é a vesícula retirada em 2018, que apareceu no primeiro post e não foi retomada. Na maioria das pessoas não muda nada. Em parte delas, refeições com muita gordura de uma vez passam a cair mal. Se isso acontecer, a correção é distribuir a gordura ao longo do dia, e não cortá la. A segunda é o cisto de ovário de 2017. Foi perguntado no tópico há quanto tempo ela não fazia acompanhamento, e a pergunta ficou meio no ar. É acompanhamento de rotina com a ginecologista, e ela já estava indo. A terceira é sobre o apetite. Ela relatou semanas pulando refeições, com dificuldade no café da manhã, num projeto cujo objetivo era ganhar. Vale dizer o óbvio que às vezes some: quem quer ganhar e não consegue comer precisa de comida mais densa, e não de mais volume. Azeite, pasta de amendoim, castanhas, leite integral e ovo inteiro entregam muita caloria em pouco espaço. Tentar ganhar peso com prato grande costuma falhar exatamente onde ela estava falhando. E vale registrar o treino que o @Batata... montou para ela, periodizado com semanas de 12 a 15 repetições alternando com semanas de 8 a 10, com progressão de carga explícita e intervalos definidos. É um bom trabalho, e ela relatou logo depois que estava sentindo tudo. Programa simples, com progressão escrita, é o que funciona. Fecho com o que eu acho. Ela chegou aqui achando que tinha um problema de disciplina ou de biotipo, e o que ela tinha era um exame alterado que ninguém tinha olhado ainda. Isso é o oposto do que costuma acontecer: normalmente a pessoa culpa a tireoide sem exame nenhum, e aqui havia exame e faltava a leitura. O melhor que esse tópico fez por ela não foi a dieta nem o treino, que também foram bons. Foi alguém ter olhado aqueles papéis e mandado ela voltar ao médico. E o que eu acrescentaria é só uma frase: enquanto a tireoide não estiver resolvida, ela não está com o metabolismo a favor. Ela está pagando por ele. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  21. Ontem

  22. O @Marco Passarelli escreveu, no primeiro post, uma informação que atravessa o relato inteiro e que nunca foi comentada por ninguém em duzentas mensagens. Ele estava fazendo o desmame de Depakote, um anticonvulsivante, com oito anos sem crises. E explicou a origem: quando era mais novo, se privava muito de sono, o que ocasionava convulsões. Isso muda a leitura de várias coisas discutidas aqui, e é por onde eu preciso começar. Primeiro, o que ele estava fazendo certo: retirada gradual, e não abrupta. Interrupção súbita de anticonvulsivante é uma das piores decisões possíveis, e ele estava seguindo o caminho correto, com desmame. Segundo, e é aqui que o tópico devia ter parado para pensar: o período de retirada de um antiepiléptico é justamente aquele em que a chance de recorrência de crise é maior. E o gatilho mais bem documentado para crise, na literatura, é privação de sono. Ou seja, ele estava atravessando a janela mais sensível da vida clínica dele exatamente enquanto: Estudava para a prova da OAB, que é o cenário clássico de noite mal dormida e estresse alto. Treinava pesado, com sessões longas e progressão agressiva de carga. E recebia, no tópico, sugestões como acrescentar mais uma sessão de HIIT ao longo do dia, porque melhor fazendo do que pensando. Não estou dizendo que treinar era errado. Atividade física regular é benéfica, inclusive para quem tem epilepsia, e a maioria das pessoas com epilepsia controlada pode e deve treinar. O que precisava estar dito é outra coisa: no caso específico dele, sono não era uma variável de performance. Era uma variável de segurança. E existem duas outras que valem para quem treina pesado nessa situação: desidratação e distúrbio eletrolítico também são gatilhos reconhecidos, o que torna hidratação e reposição de sódio e potássio mais relevantes do que seriam para outra pessoa. E pré treino estimulante em dose alta é o tipo de coisa que se conversa com o neurologista antes, não depois. Nada disso é motivo para ele parar. É motivo para o desmame acontecer sob orientação do neurologista, com uma conversa explícita sobre rotina de sono, e para ele saber que dormir mal na semana da prova era, para ele, um risco diferente do que é para os colegas. E há um detalhe do próprio Depakote que ajuda a explicar parte do relato: ácido valproico está entre os medicamentos mais associados a ganho de peso. Ou seja, é bem possível que parte da mudança que ele viveu nesse período tenha vindo também da retirada da medicação, e não só da dieta. Isso não tira mérito nenhum dele. Só explica por que a resposta foi tão rápida. Agora a coluna de pesos, que é o outro achado do tópico. Os registros foram: 83,7 no início, 90,1 na primeira atualização, 82,3 na segunda, 85,8 na terceira, e 81,1 pouco depois. Ou seja, ele teria ganhado 6,4 kg em três semanas, perdido 7,8 kg nas quatro seguintes, ganhado 3,5 kg de novo e perdido 4,7 kg em três semanas. Nada disso é tecido. Não existe fisiologia que ganhe e perca seis, sete, oito quilos de gordura e músculo nesses intervalos, comendo o que ele comia. O que oscila nessa velocidade é água, glicogênio e conteúdo intestinal, e as condições de medida: balança diferente, hora do dia, refeição livre no fim de semana anterior, quantidade de carboidrato dos dias anteriores. Cada uma dessas variações foi interpretada, no tópico, como perdeu gordura e ganhou massa. Às vezes era mesmo, porque as fotos e as roupas mudaram de verdade. Mas o número não sustentava a leitura, e ele mesmo escreveu, honestamente, que estava abismado com aquele peso todo. A saída é chata e resolve: pesar sempre na mesma balança, em jejum, depois de urinar, no mesmo dia da semana, e olhar a média de sete dias em vez do valor do dia. E, quando peso e fita discordarem, a fita ganha. Aliás, ele fez uma coisa certa que merece registro: descartou o número de gordura corporal da bioimpedância. Estava certo, e vale saber por quê. Bioimpedância não mede gordura, mede resistência elétrica e estima a composição a partir da água corporal, assumindo hidratação padrão. Em quem está mudando carboidrato e hidratação toda semana, essa premissa não vale. Agora duas correções sobre orientação de treino. A primeira é a ideia de que o treino é contra você mesmo, de que se sentiu dor deve continuar, e de que se a série pede 12 é para ir até 20. Vale separar duas coisas que a frase junta. Desconforto de esforço é para ser atravessado, e é isso que faz a série valer. Dor articular, dor pontual e sempre no mesmo movimento, não: essa é informação, e insistir nela é como transformar um incômodo em lesão que tira do treino por um ano. E sobre extrapolar as repetições prescritas: se a série pede 12 e a pessoa faz 20 sempre, a carga está leve e o certo é subir a carga, não somar repetições. Fazer sempre além do prescrito muda o estímulo, aumenta muito a fadiga acumulada e atrapalha justamente a progressão de carga, que é o que ele estava registrando e que é o melhor marcador de resultado que existe. A segunda é sobre a velocidade da progressão. Ele saiu de 140 kg para 210 kg no leg press em duas semanas, e de 30 para 60 e depois 90 kg no agachamento. Isso é ótimo e é esperado no começo: os primeiros meses de progressão vêm em grande parte de aprendizado neural, ou seja, o sistema nervoso aprende a recrutar melhor o que já existe. É a fase mais generosa da vida de treino e ele aproveitou bem. O cuidado é um só: nessa velocidade, o tendão e a técnica não acompanham o número. Setenta quilos a mais em duas semanas no leg press quase sempre significa que a amplitude diminuiu. Vale filmar de lado uma vez por mês e conferir se a profundidade continua a mesma. Se diminuiu, o número subiu e o estímulo caiu. Três notas rápidas. A primeira é a vesícula retirada, que ele informou no primeiro post e ninguém retomou. Em geral não muda nada na dieta, e a maioria das pessoas leva vida normal. Mas parte delas passa a tolerar pior refeições com muita gordura de uma vez, com desconforto ou intestino solto. Se isso acontecer com ele, a solução é distribuir a gordura ao longo do dia em vez de concentrar, e não cortar gordura. A segunda é o ômega 3, sobre o qual ele perguntou e recebeu a resposta certa: se já comprou, use, e se não comprou, coma sardinha ou atum duas vezes por semana. Comida antes do pote é quase sempre a resposta correta, e nesse caso é também a mais barata. A terceira é o alongamento e a ioga que ele passou a fazer depois do treino, e sobre os quais escreveu que o deixavam zerado para o dia. Isso não vai aumentar hipertrofia nem prevenir dor muscular tardia, e é bom que ele saiba disso. Mas melhora amplitude de movimento e ele relatou que se sentia melhor, o que já é motivo suficiente. Se ajuda a dormir, no caso dele vale ainda mais. Fecho com o que eu acho. Ele chegou aqui desempregado, recém formado, estudando para a OAB, na pior forma da vida, e montou uma rotina que sustentou por meses no meio disso. Aprendeu a cozinhar as próprias refeições, registrou tudo, filmou a própria evolução e agradeceu praticamente todo mundo que passou pelo tópico. O que faltou não foi disciplina nem apoio, que ele teve de sobra. Faltou alguém ler a primeira linha do primeiro post e dizer a ele que, no caso dele, dormir era parte do protocolo. Para quem quiser montar um treino com base na própria rotina e no equipamento disponível, o site tem um gerador de treino em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/treino/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  23. Se uma competição premia cada vez mais tamanho e definição, faz sentido culpar apenas as mulheres que se preparam para vencer? Em A situação do fisiculturismo feminino é pior do que imaginávamos, o canal Sofa Especialist defende que a arbitragem ajudou a construir o padrão que depois passou a ser usado contra as próprias competidoras. A provocação merece debate: a responsabilidade não pode terminar nas atletas. [1] Esta é uma análise de opinião sobre os incentivos do fisiculturismo feminino. Seu argumento central é que federações, organizadores e juízes precisam responder pelo rumo das categorias que administram. Isso não autoriza transformar preferência estética em diagnóstico de saúde, nem reduzir uma mulher ao quanto seu corpo agrada ao público. O pódio ensina qual físico vale a pena construir Nos anos 1980 e 1990, a presença de mulheres musculosas em revistas, televisão e publicidade compõe a lembrança de uma fase de maior aproximação com o público. A interpretação defendida aqui é que a busca posterior por físicos mais extremos dificultou essa relação. Essa leitura histórica, porém, não equivale a uma série de dados de audiência capaz de provar que toda a mudança comercial decorreu do tamanho muscular. [1] Dentro de uma competição estética, o resultado tem uma função que vai além de distribuir medalhas. Ele sinaliza o que será valorizado na próxima preparação. A sequência é simples: O pódio define a referência. As características das vencedoras ganham autoridade prática. A referência vira meta. Atletas e treinadores ajustam o desenvolvimento físico ao padrão vencedor. A meta orienta a próxima disputa. Se mais volume, densidade e definição continuam sendo recompensados, crescer e chegar mais condicionada parecem caminhos competitivos previsíveis. A aparência de pele fina, com separação muscular muito evidente, também entra nessa corrida. O problema surge quando o padrão avança sucessivamente e, depois, a organização trata o resultado como uma escolha isolada das competidoras. Uma atleta pode decidir como se preparar, mas não decide sozinha quais características recebem o primeiro lugar. As regras da IFBB Professional League organizam o Women's Bodybuilding com poses obrigatórias e comparações conduzidas pela arbitragem. Isso ajuda a localizar quem operacionaliza a avaliação. O regulamento, por si só, não comprova que os juízes tenham ordenado uma escalada farmacológica ou causado perda de audiência. [2] Iris Kyle: 10 títulos e o peso de representar um padrão Iris Kyle conquistou 10 títulos de Ms. Olympia. O décimo veio em 2014, conquista registrada em entrevista realizada pela Generation Iron após a vitória. Seu domínio é o exemplo mais forte da distância que pode existir entre excelência competitiva e aceitação fora do ambiente especializado. [3] Vencer repetidamente significa ter correspondido ao julgamento aplicado àquela disputa. Por isso, não é coerente celebrar uma campeã como referência técnica e depois tratá-la como culpada solitária pelo padrão que suas vitórias consolidaram. Iris representa, nessa crítica, a atleta que executa com disciplina os critérios valorizados e recebe pessoalmente a rejeição dirigida ao resultado. A campeã acaba absorvendo ataques que também deveriam provocar perguntas sobre a mesa de julgamento: o que foi premiado, por quanto tempo e com quais consequências para a categoria? Essa discussão tem um limite: o histórico de títulos e a aparência de Iris não permitem reconstruir seu uso de medicamentos. Não há na fonte documentação clínica de um protocolo individual. Associar genericamente a elite a preparações arriscadas não comprova quais substâncias uma pessoa utilizou, suas doses ou os efeitos que sofreu. Ms. Olympia: a interrupção após 2014 e o retorno em 2020 A cronologia precisa ficar clara: houve Ms. Olympia em 2014, a disputa ficou ausente de 2015 a 2019 e retornou em 2020. Portanto, não se trata de dizer que a edição de 2014 não aconteceu ou que todo o fisiculturismo feminino deixou de existir. [3, 4] Em 2015, o Rising Phoenix foi criado pela Wings of Strength em conjunto com Tim Gardner para oferecer uma competição de referência mundial às atletas. O comunicado da organizadora também registra a parceria com o Olympia em 2019 e o anúncio da volta do Ms. Olympia para 2020. A modalidade continuou encontrando caminhos competitivos durante a interrupção. [4] Baixo interesse comercial não explica sozinho a responsabilidade A hipótese comercial é que a categoria perdeu apelo para uma parcela do público. Mesmo que essa hipótese seja aceita, ainda falta discutir como os padrões foram construídos e quais decisões de promoção, exposição e organização influenciaram a demanda. Culpar exclusivamente as atletas por uma suposta falta de interesse ignora que elas competiam segundo uma avaliação institucional. Quem organiza o espetáculo e quem decide seus resultados também participa da definição do produto oferecido ao público. Ao mesmo tempo, afirmações de arquibancadas sempre vazias ou de rejeição generalizada exigiriam dados de ocupação, vendas e audiência. A opinião de origem não apresenta essa série de dados. A crítica aos incentivos permanece pertinente como argumento, mas não demonstra uma causa única para a interrupção do Ms. Olympia. [1] Andrea Shaw e Natalia Amazonka: palco e redes premiam coisas diferentes Andrea Shaw e a vitória no retorno do Ms. Olympia Andrea Shaw venceu o Ms. Olympia em 2020, justamente na retomada da disputa. Seu histórico competitivo está registrado pela Wings of Strength. Ela simboliza a continuidade de uma categoria que exige grande desenvolvimento muscular e condicionamento. [5] Na avaliação estética defendida nesta análise, Andrea combina esse volume com uma apresentação capaz de ampliar a identificação do público. Isso é um julgamento de imagem, não a comprovação de que a federação tenha publicado uma política de “feminilidade ideal” ou decidido deliberadamente construir uma campeã para reparar sua reputação. Uma campeã pode ser admirada pelo físico e pela apresentação sem precisar representar um limite universal de como mulheres devem parecer. O desafio institucional é explicar os critérios e aplicá-los com consistência, sem transferir às atletas a obrigação de satisfazer todas as expectativas sociais. Natalia Amazonka e a atenção ao físico extremo A russa Natalia Amazonka ocupa o outro lado da comparação: a visibilidade de um físico muito musculoso nas redes sociais. Segundo a análise de Sofa Especialist, ela tem quase 1,70 m de altura, peso que por vezes ultrapassa 100 kg, 50 cm de braço e levantamento terra acima de 240 kg. [1] Esses números não vêm acompanhados de data de aferição, método de medição ou registro de competição que homologue a carga. Devem ser entendidos como medidas e desempenho atribuídos a Natalia, não como uma ficha antropométrica atual certificada. O rótulo de “mulher mais musculosa do mundo” também não define, sozinho, um recorde verificável. O caso desafia a ideia de que um físico extremo necessariamente afasta toda audiência. Uma imagem pode despertar admiração, curiosidade ou surpresa e encontrar um público específico. Isso não significa que visualizações se convertam automaticamente em ingressos, assinaturas ou interesse em acompanhar um campeonato inteiro. O palco distribui colocações. As redes distribuem atenção. Andrea representa o êxito dentro de uma competição julgada. Natalia ilustra a visibilidade digital para uma estética extrema. As duas formas de reconhecimento podem coexistir, mas uma não mede o sucesso da outra. Essa comparação tampouco exige afirmar que Natalia nunca participou de competições. Saúde não pode ser deduzida pelo tamanho muscular A preocupação com preparações farmacológicas merece ser levada a sério. Em estudo qualitativo com 16 mulheres com uso atual ou anterior de esteroides anabolizantes, Havnes e colegas investigaram experiências com alterações corporais e seus impactos pessoais. As entrevistas descreveram mudanças na voz, na menstruação e na genitália, além de dificuldades de autoestima e convivência social. [6] Os pesquisadores alertam para efeitos de virilização que podem ser irreversíveis. O trabalho não estima a frequência desses problemas entre todas as fisiculturistas e não permite diagnosticar Iris, Andrea ou Natalia. Seu valor é mostrar que as consequências não se encerram na aparência apresentada ao palco. [6] Criticar incentivos que favoreçam exposições perigosas é diferente de presumir que toda mulher muito musculosa tem a mesma história clínica. Quem utiliza anabolizantes precisa de avaliação por profissionais de saúde habilitados. Este texto é informativo e não substitui acompanhamento individual. O que cobrar da arbitragem e da organização O público participa do financiamento por meio de ingressos, pay-per-view e produtos de patrocinadores. Ignorar essa relação pode comprometer a sustentabilidade de um evento. Mas “o público” reúne interesses diferentes, como a própria comparação entre campeonato e redes sociais demonstra. A cobrança mais consistente não é obrigar todas as atletas a buscar uma aparência única. É exigir coerência entre julgamento, comunicação e promoção. Três perguntas ajudam a tornar essa discussão concreta: O tamanho foi recompensado antes de ser criticado? Se sim, a análise precisa incluir quem distribuiu as colocações, não apenas quem desenvolveu o físico. A alegação de desinteresse tem dados? Vendas, ocupação e audiência são evidências mais úteis do que comentários isolados sobre a aparência das atletas. A cobrança recai sobre o critério ou sobre a mulher? Discutir volume, condicionamento e apresentação não exige insultos, diagnósticos à distância ou questionamentos sobre o valor pessoal da competidora. A mesma pergunta sobre escalada de tamanho aparece em Physique e Bikini: se uma categoria passa a ser considerada “grande demais”, quais resultados incentivaram esse crescimento? É uma provocação sobre consistência de julgamento, não a afirmação de que categorias diferentes tenham a mesma proposta ou precisem do mesmo físico. Conclusão O fisiculturismo feminino não pode premiar um padrão durante anos e depois explicar seus problemas apenas pelas escolhas das atletas. Iris Kyle, a interrupção do Ms. Olympia, o retorno com Andrea Shaw e a visibilidade de Natalia Amazonka ajudam a discutir incentivos, responsabilidade institucional e diferentes formas de interesse do público. A opinião mais defensável é cobrar de juízes e organizadores a responsabilidade proporcional ao poder que exercem. As competidoras continuam tendo escolhas, mas fazem essas escolhas dentro de um ambiente que valoriza determinados resultados. Respeitar seu trabalho e discutir riscos à saúde são atitudes compatíveis. Antes de perguntar por que uma atleta ficou “grande demais”, vale perguntar quem transformou aquele tamanho em vantagem competitiva. FAQ A arbitragem influencia o tamanho das fisiculturistas? As colocações sinalizam quais características têm valor competitivo e podem orientar as preparações seguintes. Isso sustenta a crítica aos incentivos, mas não prova que os juízes determinem todas as escolhas individuais. O Ms. Olympia acabou em 2014? A edição de 2014 aconteceu. Depois, a disputa ficou ausente de 2015 a 2019 e voltou em 2020. Outras competições, como o Rising Phoenix, mantiveram espaço para o Women's Bodybuilding durante esse período. Quantos títulos de Ms. Olympia Iris Kyle conquistou? Iris Kyle conquistou 10 títulos. O décimo foi obtido em 2014 e ilustra seu domínio competitivo, sem permitir conclusões sobre protocolos farmacológicos individuais. Popularidade nas redes prova que uma categoria vende ingressos? Não. Atenção digital e compra de acesso a um campeonato são comportamentos diferentes. O interesse por Natalia Amazonka ajuda a questionar a rejeição universal a físicos extremos, mas não substitui dados comerciais de eventos. É possível avaliar a saúde de uma atleta pela aparência? Não. Tamanho muscular e definição não revelam histórico clínico, substâncias utilizadas ou efeitos adversos. Riscos associados a anabolizantes precisam ser discutidos com evidências e avaliados individualmente. Referências SOFA ESPECIALIST. A situação do fisiculturismo feminino é pior do que imaginávamos. YouTube, 4 ago. 2026. 1 vídeo (11 min 26 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=K5SBMPoZxks. Acesso em: 6 set. 2026. IFBB PROFESSIONAL LEAGUE. Pro Competition Rules. [S. l.], [s. d.]. Seção Women's Bodybuilding. Disponível em: https://www.ifbbpro.com/rules/. Acesso em: 6 set. 2026. GI TEAM. Iris Kyle right after winning 10th Ms. Olympia. Generation Iron, 25 set. 2014. Entrevista após a conquista. Disponível em: https://generationiron.com/iris-kyle-right-winning-10th-ms-olympia/. Acesso em: 6 set. 2026. WINGS OF STRENGTH. Rising Phoenix Invitational. Phoenix, 3 jan. 2020. Disponível em: https://wingsofstrength.net/rising-phoenix-invitational/. Acesso em: 6 set. 2026. WINGS OF STRENGTH. Andrea Shaw. [S. l.], [s. d.]. Perfil e histórico competitivo. Disponível em: https://wingsofstrength.net/ambassador/andrea-shaw-2/. Acesso em: 6 set. 2026. HAVNES, Ingrid Amalia et al. Anabolic-androgenic steroid use among women: a qualitative study on experiences of masculinizing, gonadal and sexual effects. International Journal of Drug Policy, v. 95, art. 102876, 2021. Publicação antecipada em 28 jul. 2020. DOI: 10.1016/j.drugpo.2020.102876. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32736958/. Acesso em: 6 set. 2026.
  24. Esse tópico tem duas frases do @pL4ymObiL que valem mais que o resto todo, e as duas passaram sem o destaque que mereciam. A primeira, logo na primeira atualização: interessante ver como eu comia muito pouco e achava que comia muito. A segunda, três semanas depois: coloquei o treino numa planilha e comecei a anotar as cargas de todos os treinos, tentando sempre subir em pelo menos um ou dois exercícios. Esses dois hábitos, pesar a comida e registrar a carga, são os que mais predizem resultado em quem está começando, e ele adotou os dois por conta própria no primeiro mês. É por isso que o relato funcionou. E o resultado, quando se olha a série completa, é melhor do que ele mesmo achou. Os pesos foram 88,8, depois 85,6, depois 83,3, depois 84,6, depois 85,5, depois 86,5. Ou seja, ele desceu três quilos e meio e depois subiu de volta. E, ao mesmo tempo, a cintura foi caindo, a calça foi folgando e a camiseta foi apertando em cima. Isso tem nome e é o melhor desfecho possível para quem está voltando a treinar depois de anos parado: recomposição corporal. Ele perdeu gordura e ganhou massa ao mesmo tempo, e por isso a balança subiu enquanto a fita descia. Vale dizer isso com todas as letras porque ele quase desistiu duas vezes por causa do número da balança, e várias pessoas do tópico leram isso corretamente e o seguraram. Quando peso e medida discordam, a medida está certa. Agora o ponto em que eu discordo abertamente do que foi dito a ele. Ele relatou que a última refeição da noite estava insuportável. Escreveu que comia na força do ódio, que às vezes não conseguia terminar, que a comida virava chiclete na boca, que chegou a ter ânsia, que ficava com o estômago pesado e que aquilo estava atrapalhando o sono. A orientação foi: por hora, faça, nem que seja na força do ódio. Não concordo, e não é por delicadeza. É porque isso tem custo e não tem benefício. Ele treinava às 19h30, chegava em casa perto das 21h, comia por volta das 21h30 e dormia em seguida. Volume grande de comida deitando logo depois favorece refluxo e desconforto, e ele descreveu exatamente isso. E sono ruim não é um detalhe do projeto: é uma das variáveis que mais afetam recuperação, apetite e resultado, num homem que trabalha dez horas por dia e tem três filhos. E a correção é gratuita: o que importa é o total do dia, não o horário. Aquele mesmo prato podia ser redistribuído mais cedo, e o resultado seria igual ou melhor. Forçar comida até a ânsia não é disciplina, é uma troca ruim, e ele mesmo já estava batendo 95 a 100 por cento de adesão em tudo. Aliás, vale registrar que o próprio @Apollo Galeno identificou depois que o problema podia ser o horário do treino e sugeriu treinar de manhã, o que era a solução certa. Só chegou uma etapa depois do necessário. O segundo ponto é sobre o treino de perna que o deixou destruído por dois dias, com sensação de febre, e sobre a resposta de que aquele tinha sido o único dia em que ele treinou corretamente, porque treino bom é treino pesado. Discordo dessa equivalência, e ela reaparece em todo lugar aqui. Dor muscular tardia é sinal de estímulo pouco habitual, não de estímulo eficiente. Ela é maior quando o exercício é novo ou quando há muita fase excêntrica, e diminui à medida que a pessoa se adapta, justamente enquanto os ganhos continuam acontecendo. Não existe relação entre quanto dói e quanto cresce. Mal estar sistêmico por dois dias, com sensação de febre, é outra coisa ainda: é sinal de que a dose de treino excedeu a capacidade de recuperação daquele momento. Em alguém que trabalha dez horas por dia e dorme mal, isso rouba do dia seguinte. O que prevê resultado é o que ele já estava fazendo na planilha: carga subindo ao longo das semanas com execução mantida. Esse é o marcador. A dor não é. Agora três correções técnicas menores. A primeira é o desenvolvimento atrás da nuca, que apareceu na sugestão de treino de ombro. Esse é um dos poucos exercícios que eu tiraria sem pena. Ele exige rotação externa extrema com abdução horizontal, uma posição em que o espaço subacromial fica reduzido, e está associado a maior risco de conflito no ombro, especialmente em quem tem mobilidade limitada de ombro e coluna torácica, que é a maioria de quem trabalha sentado. O desenvolvimento à frente entrega o mesmo estímulo sem pedir aquela posição. O resto da orientação de ombro estava boa, e o ponto principal dela era correto: ele fazia quatro exercícios de peito e dois de ombro, e equilibrar isso fazia sentido. E a sugestão de esquecer os dias da semana e seguir a ordem dos treinos, encaixando o descanso quando for necessário, é uma boa recomendação para quem tem rotina instável. A segunda é a altura. Ele descobriu na academia que tinha 1,77 e não 1,83, como sempre acreditou, e ouviu que aquilo não alterava nada. Altera um pouco, e vale saber. Altura entra em toda estimativa de gasto energético e de índice de massa corporal. Com 88,8 kg, a diferença entre 1,83 e 1,77 muda o índice de massa corporal de cerca de 26,5 para cerca de 28,4. Não muda a conduta, mas muda o ponto de partida, e é um lembrete útil de que altura autodeclarada quase sempre é maior que a medida. A terceira é o culote, que ele reclamou várias vezes que não mexia enquanto o resto reduzia. Não existe redução localizada. A gordura sai na proporção do total, na ordem que a genética determina, e flanco, culote e abdome inferior costumam ser os últimos justamente porque foram os primeiros a se formar. Não é falha de execução nem falta de exercício específico para a região: é a fila. Quem persiste chega lá, só chega por último. Duas notas finais. Sobre os suplementos: ele já sabia da baixa utilidade dos aminoácidos de cadeia ramificada quando alguém come proteína suficiente, e disse isso sozinho, o que é raro. Creatina vale a pena e é o suplemento com melhor evidência de segurança e eficácia, três a cinco gramas por dia, sem necessidade de saturação nem de ciclos, e o horário não faz diferença. O resto do que ele tinha em casa é conveniência, não alavanca. E sobre o tempo de treino, que ele mesmo estranhou: uma hora e meia a duas horas por sessão é bastante para quem trabalha dez horas por dia e tem três filhos em casa. O mesmo estímulo cabe em bem menos tempo, com descansos controlados, e o que sobra vira sono, que no caso dele era o recurso mais escasso. Fecho com o que eu acho do relato. Ele fez isso trabalhando em varejo com dez horas por dia, entrando às 5h30 em época de balanço, com três filhos, e ainda mudou de cidade e pegou covid no meio do caminho. Voltou seis meses depois pedindo para retomar. E o que mais me chamou atenção foi a primeira atualização, em que ele pediu desculpas por ter postado antes da data porque queria reler aquilo no futuro e lembrar das próprias dificuldades. Quem escreve isso não está atrás de atalho. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento.
  25. Preciso começar por uma informação que o @Edubsb deu no meio do tópico, quase de passagem, e que muda tudo o que foi discutido antes e depois dela. Ele contou que o colesterol dele sempre foi alto, que um exame feito quando ele tinha 39 anos detectou cerca de 30 por cento de obstrução arterial, e que por isso o cardiologista prescreveu rosuvastatina, ezetimiba e aspirina. Ou seja, ele não é um homem de 44 anos com um número de colesterol fora da faixa. Ele é um homem com doença aterosclerótica coronariana documentada, diagnosticada aos 39, em tratamento por isso. E é por causa disso que eu preciso discordar, com todas as letras, de duas coisas que foram ditas a ele neste tópico. A primeira: foi dito que estatinas detonam a testosterona e que, salvo se ele já tivesse tido algum evento mais grave, não seriam recomendadas. A segunda: foi dito que colesterol elevado não é um marcador relevante atualmente, com indicação de um livro sobre o assunto. Sobre a primeira, o raciocínio está invertido. Placa documentada já é a indicação. O tratamento não espera o infarto para começar: ele existe justamente para que o infarto não aconteça. Alguém com obstrução coronariana identificada aos 39 anos está exatamente no grupo em que o benefício de reduzir LDL é maior e mais bem demonstrado. Condicionar o tratamento a já ter tido um evento grave é abrir mão da única janela em que ele serve para alguma coisa. Sobre a segunda, a afirmação não corresponde ao que se sabe. O papel causal do LDL na aterosclerose é um dos achados mais sólidos da medicina cardiovascular. Ele não se apoia em um estudo isolado, e sim na convergência de três linhas independentes: estudos observacionais de longo prazo, estudos genéticos em pessoas que nascem com LDL naturalmente baixo ou alto por variação genética, e ensaios clínicos randomizados com fármacos de mecanismos completamente diferentes entre si, estatinas, ezetimiba e inibidores de PCSK9, que reduzem eventos de forma proporcional a quanto reduzem o LDL. É difícil imaginar um desenho mais convincente do que esse, porque drogas com mecanismos diferentes produzindo o mesmo benefício na proporção da redução do LDL é justamente o que se esperaria se o LDL fosse causal, e não apenas um acompanhante. E existe, no caso dele, um detalhe que fecha o argumento: ele mesmo escreveu que o colesterol sempre foi alto apesar de alimentação regrada, e que o cardiologista atribuiu a causa a fator genético. Colesterol muito alto, desde sempre, sem explicação dietética, com doença arterial precoce, é a descrição de um quadro de origem genética, e é o cenário em que tratar com medicação importa mais, e não menos. Sobre estatina e testosterona: a literatura não sustenta que estatina produza queda clinicamente relevante de testosterona. Os estudos são inconsistentes e, quando encontram algo, encontram variações pequenas. Mesmo que houvesse esse efeito, a comparação não é próxima: de um lado, alguma variação hormonal; do outro, prevenção de infarto em quem já tem placa. Ele não deve interromper a medicação por causa de um livro ou de um fórum, incluindo este. Se quiser uma segunda opinião médica, ela é legítima e sempre foi. Mas ela se pede a outro cardiologista. Agora o segundo ponto, e ele decorre diretamente do primeiro. Ele estava começando deposteron, uma ampola por semana. E o próprio tópico calculou corretamente que 200 mg por semana coloca a testosterona em faixa suprafisiológica, com estimativa acima de 1.500. Ninguém ligou isso à doença coronariana dele, e é o ponto mais importante do relato. Androgênio em dose suprafisiológica atua exatamente sobre os mesmos alvos que o tratamento dele tenta controlar. Ele derruba HDL, tende a elevar LDL, eleva pressão arterial e aumenta hematócrito, deixando o sangue mais viscoso. São quatro efeitos empurrando na direção contrária ao motivo pelo qual ele toma rosuvastatina, ezetimiba e aspirina. Isso não é argumento contra reposição de testosterona em geral. É argumento contra dose suprafisiológica e contra usar o tratamento como impulso estético, que foi a intenção declarada dele quando abriu o tópico: aproveitar o ciclo para acelerar a evolução. E, se ele seguir com reposição, o mínimo que precisa entrar no acompanhamento, além do que o cardiologista já pede, é hemograma com hematócrito e hemoglobina, perfil lipídico e pressão. O hematócrito é o que mais some das discussões daqui e é o mais fácil de medir. Agora a pergunta mais bem feita do tópico, que ficou sem resposta. Alguém observou que, nos exames dele, a testosterona estava baixa com LH e FSH também baixos, e perguntou se a origem disso tinha sido investigada, citando hipopituitarismo e outras hipóteses. Também perguntou se a próstata havia sido avaliada antes. As duas perguntas estavam certíssimas, e a primeira é decisiva. Testosterona baixa com LH e FSH baixos aponta para uma origem central, ou seja, o problema não está no testículo, e sim no comando. Isso é diferente da queda relacionada à idade, em que tipicamente o eixo tenta compensar e as gonadotrofinas não ficam baixas. Ou seja, a explicação que ele mesmo tinha assumido, de que a causa provável era a idade, não combina com o desenho dos exames dele. E isso importa porque hipogonadismo central tem causas que podem ser tratadas, e algumas são bem comuns: excesso de peso, apneia obstrutiva do sono, prolactina elevada, uso de opioides, e, menos frequentemente, alteração da hipófise. Prolactina, TSH e uma avaliação de sono resolvem boa parte disso, e o resultado muda a conduta. Vale destacar a mais provável no caso dele, porque ela também resolve o outro problema. Excesso de gordura corporal reduz testosterona por mecanismos conhecidos: mais tecido adiposo significa mais aromatização de testosterona em estrogênio, o que retroalimenta negativamente o eixo, e isso se soma ao efeito da apneia do sono e da resistência à insulina. Perda de peso significativa costuma elevar a testosterona própria de forma substancial em homens nessa situação. Ou seja, a dieta que ele veio buscar aqui é, ao mesmo tempo, o tratamento com melhor relação entre benefício e risco para a testosterona dele e para a doença coronariana dele. É a única intervenção do tópico que age nas duas frentes. Sobre o androgel que não funcionou nos dois meses anteriores: foi dito que era esperado, porque teria suprimido ainda mais o eixo. A supressão é real, mas essa provavelmente não é a explicação. Gel de testosterona tem absorção bastante variável entre pessoas, depende de aplicação e de área, e a falha mais comum é dose insuficiente ou exame colhido em horário inadequado. Antes de concluir que não funciona, o padrão é conferir a dosagem sérica com o gel em uso. Três notas rápidas. A primeira é o percentual de gordura. Ele relatou 15 por cento, e o próprio tópico estranhou. Bioimpedância não mede gordura: mede resistência elétrica e estima a composição a partir da água corporal. O erro é grande, e nesse caso a estimativa não conversava com as fotos. Fita métrica na cintura, sempre no mesmo ponto e no mesmo horário, informa mais e custa menos. E, no caso dele, circunferência abdominal é um marcador que interessa diretamente ao cardiologista. A segunda é a cirurgia de coluna que ele mencionou de passagem, e que foi o motivo de ele evitar esteira. Isso merecia ter sido desenvolvido. Quem operou a coluna precisa saber, de quem operou ou de um fisioterapeuta, quais movimentos e cargas estão liberados, em vez de decidir por tentativa e erro. Vale especialmente para agachamento, levantamento terra e desenvolvimento com carga alta. A terceira é sobre a orientação de manter o HIIT entre 80 e 90 por cento da frequência cardíaca máxima estimada pela fórmula de 220 menos a idade. Duas ressalvas. A fórmula tem erro individual grande, de mais ou menos dez a doze batimentos, o que a torna um chute razoável para a população e um mau guia para um indivíduo. E, num homem com doença coronariana documentada, faixa de treino de alta intensidade é assunto para o cardiologista, idealmente definida a partir de um teste ergométrico, que ele inclusive já fez outras vezes. Esse é o tipo de detalhe em que a diferença entre orientação genérica e orientação individual deixa de ser acadêmica. Fecho com o que eu de fato acho. Ele chegou aqui querendo mudar o shape e disposto a trabalhar por isso, e a disciplina dele é evidente: pesava a comida, dividia em seis refeições, treinava todos os dias e detalhou tudo quando pediram. Isso é o que faz diferença e é dele. Mas o dado mais relevante do tópico não é o shape. É que ele tem placa coronariana desde os 39 anos e está em tratamento por isso. Esse dado precisava estar na frente de toda decisão discutida aqui, e ele apareceu no meio da terceira página, respondendo a uma pergunta, sem nunca ser incorporado ao raciocínio. E, entre tudo que foi dito a ele, o que menos posso deixar passar é a sugestão de que a medicação que previne o infarto dele talvez não fosse necessária. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  26. Esse tópico tem, na quarta página, o melhor conselho que eu já vi ser dado neste fórum. E tem, oito meses depois, o desaparecimento silencioso desse mesmo conselho. Vale reconstituir, porque a sequência importa. O @Rian.odm chegou aqui em maio de 2021, com 27 anos, já em ciclo por conta própria, com enantato e decanoato de nandrolona. Quando perguntado sobre histórico familiar, ele respondeu com uma informação que muda tudo: um tio morreu de infarto, e o pai infartou, precisando de angioplastia e stents. E a resposta que ele recebeu do @Apollo Galeno foi, em letras maiúsculas, que não era sugerido o uso de esteroides no caso dele, porque ali o risco pesava a ponto de duplicar a chance de dar errado. Isso está correto e é raro. Um homem de 27 anos, com pai infartado e tio morto de infarto, ouviu de um fórum de fisiculturismo para não usar. E ele parou. Encerrou o ciclo, fez terapia pós ciclo, seguiu natural, e saiu de 96 kg para 85 kg com dieta e cardio. Em dezembro do mesmo ano, o tópico já falava em aproveitar o ciclo. Em janeiro, em ponte. E o histórico familiar nunca mais foi mencionado. Não escrevo isso para cobrar ninguém, e menos ainda para cobrar ele, que é dono das próprias decisões e tinha todo o direito de mudar de ideia. Escrevo porque a informação que motivou aquele conselho não mudou, e ela continua sendo o dado mais importante do relato inteiro. Então vale desenvolver o que aquele conselho significava na prática, porque ele foi dado de forma resumida. Ter parente de primeiro grau com evento coronariano precoce é um dos poucos fatores de risco que alteram a classificação de risco cardiovascular de uma pessoa jovem, e ele não é modificável. É o ponto de partida dele, e ele já nasceu com ele. E os efeitos dos androgênios incidem exatamente sobre esse mesmo eixo, por quatro caminhos: O primeiro é o perfil lipídico. Esteroides derrubam HDL de forma acentuada e costumam elevar LDL, e os orais 17 alfa alquilados e a nandrolona estão entre os que mais fazem isso. O segundo é a pressão arterial. Ele, aliás, media a pressão regularmente, e chegaram a perguntar no tópico por quê. Isso é conduta correta e merece registro. O terceiro é o hematócrito, e esse é o que ficou completamente de fora da conversa. Testosterona exógena estimula a produção de glóbulos vermelhos, e a eritrocitose é um dos efeitos mais previsíveis e mais mensuráveis do uso. Sangue mais viscoso aumenta risco trombótico, e isso pesa mais em quem já tem predisposição familiar. Hemograma com hematócrito e hemoglobina é o exame mais barato dessa lista e o mais fácil de acompanhar. O quarto é o coração em si, com remodelamento e hipertrofia ventricular descritos no uso prolongado. Ou seja, a lista de acompanhamento no caso específico dele não é a mesma de qualquer um: perfil lipídico com HDL, pressão, hemograma e ecocardiograma seriado. E aqui vem o crédito maior que eu tenho a dar a ele. Ele já fazia isso antes de chegar aqui. Ele contou que, por causa do histórico do pai, buscava fazer exames de tempos em tempos, e já tinha feito ecocardiograma, MAPA e teste ergométrico por iniciativa própria. Ele chegou ao fórum com um eco de dois meses antes. Em centenas de relatos daqui, com anos de esteroide, quase ninguém olha o coração uma única vez. Ele olhava antes de alguém pedir. Isso é maturidade e é o que mais protege ele. O que eu diria hoje é apenas isto: mantenha esse hábito, e agora ele importa mais do que importava. Um eco de 2021 vale como ponto de partida, e o valor dele está justamente em poder comparar depois. E acrescente o hemograma, que era o único da lista que faltava. Agora três correções técnicas. A primeira é sobre a terapia pós ciclo. Ele contou que iniciou tamoxifeno 20 mg doze dias depois da última aplicação de enantato. Doze dias é cedo demais para enantato. O éster tem meia vida de vários dias e, nesse ponto, ainda há testosterona exógena circulando em quantidade relevante. Iniciar o modulador enquanto o androgênio exógeno ainda está suprimindo o eixo esvazia boa parte do propósito, porque o estímulo à retomada compete com uma supressão que continua ativa. Com enantato, o intervalo usual é maior, da ordem de duas a três semanas depois da última aplicação. Some se a isso um detalhe que pesa mais no caso dele: ele estava usando também decanoato de nandrolona, que tem liberação do depósito ainda mais prolongada e supressão do eixo bastante persistente. Nandrolona é reconhecidamente das moléculas cuja recuperação demora mais. A segunda é sobre a leitura de exames, e aqui a pergunta feita no tópico foi excelente e merece ser repetida para quem lê: quantos dias depois da aplicação o sangue foi colhido? Essa pergunta resolve metade das confusões que aparecem por aqui. Testosterona dosada perto do pico de uma aplicação não diz nada sobre a produção própria, e vai vir alta por definição. Exame que serve como referência precisa ser colhido fora do uso, e com tempo suficiente para o éster ter saído. A terceira é sobre os 100 kg comemorados no início de janeiro. Ele mesmo escreveu, com honestidade, que o combo de Natal e Ano Novo ajudou a chegar aos três dígitos e que tinha ganhado uns bacons. Vale só nomear o que aconteceu: peso que sobe em poucos dias depois de duas refeições livres grandes é água, glicogênio e conteúdo intestinal, e não massa. O número redondo na balança é o dado menos informativo de toda a tabela dele. As medidas e as fotos, que ele acompanhava, valem muito mais. E isso conecta com a observação mais madura que ele fez no tópico inteiro, em janeiro: ele escreveu que vinha se guiando pelo peso e pelo espelho, sentia que estava melhorando, e quando finalmente tirou as medidas percebeu que elas tinham caído. Essa frase deveria ser lida por todo mundo aqui. Espelho e balança variam com luz, hora do dia, retenção e humor. Fita métrica no mesmo ponto e carga registrada no treino são os dois dados que não mentem, e ele descobriu isso sozinho. Um último ponto, e é de treino. O @Batata... notou que o ombro esquerdo dele era mais baixo, puxando o trapézio, e apontou uma leve curvatura em S nas fotos, prescrevendo exercícios corretivos e isometria. Isso foi bem observado e a conduta é razoável. Acrescento só um critério. Assimetria postural que se corrige quando a pessoa se organiza conscientemente costuma responder bem a trabalho corretivo. Assimetria que permanece igual em qualquer posição, e que se acentua quando a pessoa se inclina para a frente, é outra história e merece avaliação de ortopedista ou fisioterapeuta, porque aí a hipótese é estrutural. Ele agacha e levanta terra com carga alta, e é justamente nessas duas coisas que uma assimetria estrutural cobra caro. Fecho com o que eu acho. O relato dele é impecável no método: atualizações quinzenais, medidas de dez pontos, fotos comparativas, exames completos, pressão aferida e coração acompanhado desde antes de tudo. Ele saiu de 96 kg para 85 kg em pouco mais de um mês de dieta bem feita, e depois construiu de volta com muito mais qualidade do que tinha no começo. Nada disso é sorte. E é exatamente por ele ser cuidadoso que valia a pena escrever isso: o conselho de maio de 2021 não perdeu validade em dezembro. A história do pai dele continua a mesma, e ela é a única variável do projeto que não dá para treinar, comer ou dosar melhor. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  27. A @Sussu fez onze atualizações detalhadas ao longo de quase um ano, com peso, medidas, fotos comparativas, dia do ciclo menstrual e observações honestas, inclusive nas semanas em que ela não gostou do que viu. Ela também agendava as fotos para dois dias depois do fim da menstruação, o que elimina de graça a maior fonte de ruído que existe em avaliação feminina. É um dos relatos mais bem documentados do fórum. E é por isso que dá para fazer com ele uma coisa que quase nunca dá: somar a coluna. Peso inicial em maio: 62,5. Depois 61,65, 60,90, 61,40, 61,45, 62,10, 63,35, 65,30, 64,30, 65,90, 66,35 e 66,40 em fevereiro. Ou seja, ao longo de nove meses de treino diário, com musculação, muay thai e HIIT pela manhã, o peso subiu quase 4 kg. Ela percebeu, chamou de estagnação, e a explicação que recebeu da médica foi termogênese adaptativa. Preciso ajustar isso, porque a explicação não fecha. Termogênese adaptativa existe: quem emagrece passa a gastar um pouco menos do que se esperaria pelo novo peso, por redução do gasto de repouso e, principalmente, por redução do movimento espontâneo ao longo do dia. Mas a magnitude é modesta, da ordem de alguns por cento do gasto total. Ela desacelera a perda. Ela não produz ganho de quatro quilos. Peso que sobe de forma consistente por nove meses significa consumo acima do gasto, e ponto. Isso não é acusação nem falha de caráter, e parte desse ganho pode muito bem ser massa muscular, porque as fotos dela mudaram de verdade e a força subiu. Mas a explicação precisa ser a certa, porque é dela que sai a correção. E há um fator que ninguém colocou na conta, embora ele estivesse escrito em todas as atualizações. Ela amamentou durante quase todo o projeto. Isso muda várias coisas ao mesmo tempo. A prolactina elevada da lactação suprime o eixo hipotálamo hipófise ovário, o que altera o ambiente hormonal inteiro. A lactação aumenta a demanda energética e o apetite. E o volume de água corporal muda bastante, o que interfere justamente nas duas medidas em que ela mais se apoiava. Aliás, sobre isso: a balança dela que estima gordura e músculo faz isso por bioimpedância, ou seja, mede resistência elétrica e estima composição a partir da água corporal, assumindo hidratação padrão. Em mulher lactante, essa premissa não vale. Os números de gordura e de músculo que ela vinha anotando com tanto cuidado eram, nesse período específico, os menos confiáveis de todos os dados que ela produziu. A fita métrica e a foto na mesma luz valiam mais. Ou seja, ela não estava estagnada por falta de esforço. Ela estava num período fisiológico em que os marcadores que ela usava não estavam medindo o que ela pensava. Agora a parte que eu preciso dizer com mais firmeza, porque é sobre uma decisão que não era do projeto. Ela relatou que estava sofrendo pressão para desmamar, que não tinha certeza, e que queria decidir com calma. E dentro do tópico ela recebeu, mais de uma vez, a mensagem de que não daria para dar passos maiores com uma criança grudada no peito, e que era hora de fechar aquele bebedouro. Discordo do critério. Desmame é decisão dela e da criança, e a recomendação de saúde pública é amamentação exclusiva até os seis meses e complementada até os dois anos ou mais. Pode haver mil razões legítimas para desmamar antes, e todas elas pertencem a ela. Cronograma de projeto estético não é uma delas. E vale a mesma nota que já fiz em outros relatos de mães aqui: lactante em déficit calórico prolongado precisa de acompanhamento. O corpo prioriza o leite, e quem paga a conta é a mãe. Ela chegou ao fórum vindo de anos de dieta de 1.200 kcal, e isso apareceu no primeiro post. Agora quatro correções técnicas. A primeira é sobre vitamina D, e é a mais importante porque foi dita com muita convicção. Foi afirmado no tópico que a exigência de prescrição médica para dose alta era bobagem, que bastava comprar e monitorar, entre 5.000 e 10.000 UI por dia, e que pessoas de 120 kg geralmente usam 20.000 UI por dia. E foi dito que, com vitamina D acima de 60, dificilmente alguém daria um espirro. Sobre a dose: o limite superior tolerável para adultos, em uso continuado sem monitoramento, é 4.000 UI por dia. Doses acima disso existem e são usadas, mas em correção de deficiência documentada, com dosagem de vitamina D e de cálcio e por tempo definido. Vinte mil UI por dia não é uma dose de rotina, é uma dose de tratamento, e excesso crônico produz hipercalcemia, com consequência renal. A nutricionista dela que disse que aquilo precisava de médico estava certa. Sobre a imunidade: corrigir deficiência de vitamina D faz sentido e tem valor. Mas os grandes ensaios clínicos randomizados não sustentaram que suplementar vitamina D previna infecção respiratória ou covid em quem já tem nível adequado, e não existe evidência de que empurrar o valor acima do normal traga proteção extra. E a melhor refutação disso veio dela mesma, no post seguinte, e passou batido: ela respondeu que todo mundo da casa pegou covid, incluindo o bebê, e que a única que ficou mal foi ela, a esportista da casa. Um caso a favor e um caso contra, no mesmo tópico, é exatamente a razão pela qual anedota não decide isso. A segunda é sobre a ioimbina que foi indicada quando ela relatou esgotamento nos treinos. Duas coisas. A ioimbina é medicamento, e não suplemento, e o efeito é adrenérgico: eleva frequência cardíaca e pressão, e produz ansiedade, tremor e insônia com facilidade. E há um problema de dose específico dela: numa análise de 49 produtos vendidos como suplemento de ioimbina, a maioria não informava a quantidade no rótulo, e entre os que informavam o conteúdo real variou de 23 a 147 por cento do declarado. Mas o ponto principal é outro. Quando ela relatou esgotamento, ela estava correndo ou fazendo HIIT toda manhã, fazendo muay thai todos os dias, treinando musculação, amamentando e comendo dentro de um plano ajustado. O esgotamento tinha causa, e a causa estava listada na própria atualização. A resposta para cansaço nesse cenário é descanso, comida ou redução de volume, e não estimulante adrenérgico por cima. Estimulante não devolve energia: ele adia a percepção de que ela acabou. A terceira é sobre a refeição livre. Ela relatou que a refeição liberada terminou em dor e horas dependente do banheiro, e a resposta foi que aquilo era justamente o esperado, e que quando alguém relata que nada aconteceu, gera desconfiança. Discordo, e por dois motivos. Do ponto de vista fisiológico, mal estar depois de um volume grande de comida em quem passou semanas comendo pouco é previsível e não prova adesão nenhuma. Prova apenas que o volume foi grande. Do ponto de vista do comportamento alimentar, tratar o sofrimento como confirmação de que a pessoa foi disciplinada amarra comida a punição. Ela mesma, em outra passagem, tinha recebido a orientação de não sentir culpa em comer, e essa era a orientação certa. As duas não cabem juntas. Vale ainda a aritmética: duas horas de comida livre não é uma refeição, é uma janela, e ela pode devolver boa parte do saldo da semana. Isso, aliás, entra direto na conta do peso que subiu. A quarta é sobre a comparação entre açúcar e cocaína que circulou no tópico. Aquilo vem de estudos com roedores em esquemas de acesso intermitente, e a leitura de que açúcar seria mais viciante que cocaína não se sustenta como conclusão sobre pessoas. O que a evidência humana descreve é um padrão de comportamento alimentar, e não uma dependência química de um nutriente. Açúcar em excesso é problema por outras razões, que são suficientes e reais. Não precisa de metáfora de droga, e a metáfora tem um custo: ela alimenta exatamente a culpa que atrapalha quem já tem uma relação difícil com comida. Agora um ponto de saúde específico dela, que apareceu no primeiro post e nunca mais foi mencionado. Ela informou duas doenças autoimunes: psoríase não controlada e alopecia controlada. A psoríase merece registro porque ela tem associação estabelecida com síndrome metabólica e com risco cardiovascular aumentado. Ou seja, no caso dela, perfil lipídico, pressão e glicemia pesam mais do que pesariam na média, e essa é uma razão adicional para acompanhar esses exames. Vale também um detalhe prático: lesões de psoríase podem surgir em áreas de trauma cutâneo, e muay thai é um esporte de atrito e impacto na pele. Se ela notar lesão nova em ponto de fricção, é informação útil para o dermatologista, e não motivo para parar. A alopecia importa por outro motivo, e é o que eu diria antes de qualquer conversa sobre hormônio, que era para onde o tópico estava caminhando no fim. Entre os efeitos androgênicos, acne, oleosidade e retenção regridem quando se para. A queda de cabelo de padrão androgenético em mulher, não. Uma vez que o folículo miniaturiza, ele não volta sozinho, e o tratamento depois é longo e parcial. Para quem já tem histórico de alopecia, esse é o item que pesa mais, e ele já está na mesa dela. Fecho com dois créditos que ela merece. O primeiro é o método. Onze atualizações, fotos padronizadas, avaliação de dobras cutâneas feita sempre pela mesma pessoa, registro do dia do ciclo. Isso é melhor do que a maioria dos acompanhamentos pagos. O segundo é uma decisão dela que aparece no meio do tópico e que eu acho a mais madura de todas. Ela contou que todos os ginecologistas a quem foi receitaram método hormonal, que ela não queria hormônio, que insistiu no DIU de cobre e que foi questionada de novo no dia da inserção. Ela manteve a escolha. Método não hormonal de alta eficácia, escolhido com informação, por alguém que já tinha razões para evitar hormônio. Foi a decisão certa e ela precisou repetir três vezes para ser ouvida. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  28. Começo esse tópico por um elogio, porque ele merece e porque é raro aqui. O @Loirinho abriu o relato pedindo ajuda para iniciar uma reposição de testosterona e, quando perguntado, respondeu com honestidade: era para melhorar o shape. A resposta que ele recebeu foi a correta, e veio de duas pessoas. O @Foston disse, sem rodeio, que reposição é feita com dose fisiológica, que ela desliga a produção própria, que por isso não traz ganho substancial, e que ele não tinha perfil para reposição. E o @Apollo Galeno resumiu numa frase que devia estar fixada no fórum: reposição não é ciclo, não é ponte, é tratamento, e tratamento existe quando há patologia. Isso é o oposto do que costuma acontecer. Na maioria dos tópicos daqui, um homem de 34 anos saudável que pede reposição sai com uma receita de reposição para sempre. Ele saiu com uma explicação e com um projeto com data para acabar. Registro isso porque é o melhor momento do tópico. Agora o assunto que atravessou meses e que é onde eu preciso discordar do encaminhamento. Na quarta semana do projeto ele relatou o peito direito dolorido. Depois relatou um nódulo, que ele descrevia como caroço, e que persistiu. O manejo foi por escalonamento de anastrozol: primeiro 0,25 mg por dia durante quatro dias, depois repetir, depois um comprimido inteiro, depois meio comprimido dia sim dia não, por tempo indeterminado, até melhorar. Isso se estendeu por cerca de dois meses e meio. Quando os exames finalmente saíram, o estradiol estava praticamente zerado, a testosterona estava alterada, e ele relatou libido muito baixa e sensação de moleza. A leitura no tópico foi que ele tinha usado anastrozol além da conta. Ele usou além da conta seguindo a orientação recebida. Mas o problema anterior a isso é que ninguém examinou o nódulo, e é aí que eu insisto. Primeiro, o mais importante: nódulo mamário palpável, unilateral e persistente em homem adulto é achado que pede exame clínico, e não titulação de medicamento por fórum. Ginecomastia é de longe a causa mais comum e quase sempre é isso mesmo. Mas câncer de mama em homem existe, é raro e se apresenta exatamente assim, como nódulo unilateral e endurecido. É um exame de dez minutos com um médico, e resolve a dúvida. Segundo, e é o ponto farmacológico que explica por que nada estava funcionando: ele estava usando acetato de trembolona. A trembolona não aromatiza. Ou seja, ela não gera estradiol, e um inibidor de aromatase não tem sobre o que agir em relação a ela. O que a trembolona tem é atividade progestogênica marcante, agindo no receptor de progesterona, e é justamente a isso que se atribui, classicamente, o incômodo mamário em quem a usa. Ou seja, o anastrozol foi escalonado por dois meses e meio contra um mecanismo que ele não alcança. O sintoma não melhorava não porque a dose estava baixa, mas porque o alvo estava errado. Terceiro, mesmo se fosse estradiol o problema, o anastrozol não era o remédio certo. Inibidor de aromatase reduz a produção de estradiol, mas não desfaz tecido glandular já formado. A droga com evidência para ginecomastia inicial e dolorosa é o tamoxifeno, que é um modulador de receptor, e ginecomastia estabelecida é resolvida cirurgicamente. Ou seja, uma vez que o caroço existe, aumentar inibidor de aromatase não o dissolve. E, quarto, existe um custo em zerar o estradiol que não aparece no espelho e que vale ser dito com clareza, porque o fórum inteiro trata estradiol masculino como inimigo. Estradiol, no homem, é o principal regulador da densidade óssea. É ele, e não a testosterona diretamente, que sustenta o osso masculino. Além disso, participa da libido, do humor, da função sexual e do perfil lipídico. Estradiol muito baixo produz exatamente o quadro que ele descreveu: libido no chão, moleza, e frequentemente dor articular. Ou seja, dois meses e meio de estradiol suprimido, para tratar um sintoma que provavelmente não vinha do estradiol, cobraram um preço real e nenhum benefício. E vale corrigir também a lógica do começo, que é comum aqui: anastrozol para ter em mãos e evitar ginecomastia. Inibidor de aromatase profilático não é conduta recomendada. Ele é, na melhor das hipóteses, reativo e guiado por exame, e usar por precaução troca um risco possível por um dano provável. Agora as coisas que foram bem feitas, e foram várias. O ecocardiograma. Ele fez, e veio normal. Eu acho isso o segundo melhor momento do tópico. Em centenas de relatos daqui, com anos de esteroide, quase ninguém olha o coração. Ele olhou, e o @Apollo Galeno insistiu para que olhasse, o que merece crédito dos dois lados. Vale só a nota de que um eco normal aos 34 anos é ponto de partida, e não passe livre: o valor dele está justamente em poder comparar daqui a alguns anos. O treino de pandemia. O @Locemar montou um programa inteiro com 32 kg de anilhas, um par de halteres, um peso de cimento e uma polia caseira, e o adaptou ao turno de revezamento 4 por 4 dele, tirando o treino das 22 horas porque não renderia. Isso é boa orientação de treino, é específica, e é o tipo de coisa que resolve o problema real de quem trabalha em escala. E a lista de exames inicial foi bem completa, o que também é incomum. Agora quatro pontos técnicos menores. O primeiro é a homocisteína elevada, que foi tratada como fator de risco cardíaco a ser corrigido com dieta. Vale um ajuste. Homocisteína alta é, na maioria das vezes, reflexo de deficiência de B12, folato ou B6, e por isso a conduta prática é dosar essas vitaminas e corrigir o que estiver faltando. Mas é preciso dizer que o papel dela como fator de risco causal é discutido: os ensaios que reduziram homocisteína com vitaminas não reduziram eventos cardiovasculares. Ou seja, vale investigar a causa, e não vale tratar o número como se ele fosse o risco. No caso dele, o que de fato pesa é pressão arterial, perfil lipídico e o que está sendo injetado. O segundo é o clembuterol veterinário de 500 ml que ele tinha em casa e que foi aprovado no tópico. Duas coisas. Não é anabolizante, é broncodilatador agonista beta 2, e os efeitos frequentes são taquicardia, tremor, cãibra, insônia e queda de potássio, com descrição de hipertrofia cardíaca em modelos animais no uso prolongado. E é formulação de uso animal, ou seja, a concentração não foi pensada para pessoa e a dose vira estimativa. Num sujeito com histórico familiar de hipertensão, isso é o pior lugar para improvisar. O terceiro é o estanozolol em 20 a 30 mg por dia por 8 a 10 semanas. Ele já tinha usado, ao longo da vida, hemogenin, dianabol e estanozolol, que são todos 17 alfa alquilados, ou seja, moléculas modificadas para resistir ao metabolismo hepático, e é essa modificação que se associa à sobrecarga do fígado e à queda acentuada de HDL. Nesse desenho, hepatograma e perfil lipídico durante e depois não são detalhe: são a única parte da conta que não aparece na foto. O quarto é o peso. Ele saiu de 85 kg para 79,6 kg em 15 dias, e isso foi celebrado como resultado da adesão. A adesão foi real, mas 5,4 kg em duas semanas não é gordura: é sobretudo água e glicogênio, que caem rápido quando o carboidrato desce. A gordura vem depois, mais devagar, e é o número das semanas seguintes que conta. Fecho com uma observação sobre a rotina dele, que ninguém colocou na conta e que explica muita coisa. Ele trabalha em turno de revezamento, doze horas de dia e doze de noite, alternando. Trabalho em turno desregula sono, apetite, cortisol e tolerância à glicose, e é um dos fatores que mais atrapalham composição corporal, independentemente de dieta e de treino. Ele fez o que fez apesar disso, com uma polia improvisada em casa e as academias fechadas. E é por isso que eu diria a ele o seguinte: o shape que impressionou o fórum inteiro veio de dez anos de treino e de constância dentro de uma escala que quebra qualquer rotina. Isso é o ativo dele. O que faltou não foi disciplina. Faltou alguém dizer, na quarta semana, que caroço no peito se examina, e não se titula. Se essa consulta tivesse acontecido naquele momento, ele teria evitado dois meses e meio de estradiol zerado, de libido no chão e de dose crescente de um remédio que não agia sobre o que estava causando o sintoma. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  29. Esse relato tem duas coisas raras. A @Rafaellla28 pediu uma lista de exames antes de começar, e não depois, e usou a menor dose que eu já vi em relato feminino aqui: 5 mg por dia, dividindo o comprimido. Terminou 12 semanas sem alteração de voz, sem alteração de clitóris e sem queda de cabelo, que é o melhor desfecho disponível. Boa parte disso é mérito direto do cuidado dela. Justamente por isso preciso apontar o que passou, porque dois achados foram tratados como detalhe e não eram. O primeiro está no começo, e é o mais importante do tópico inteiro. Ela fez os exames antes de começar e a prolactina veio em 49,9. Ela mesma percebeu que era um número fora da curva, ficou preocupada, adiou o ciclo e decidiu retirar o implante. A resposta que recebeu foi que os exames estavam bons, com a recomendação de repetir a prolactina depois. A prolactina não estava boa. A referência para mulher fora de gestação e amamentação fica em torno de 25, e 49,9 é praticamente o dobro do limite superior. Isso não significa que havia algo grave. Significa que havia uma pergunta em aberto, e ela tem um roteiro conhecido: repetir a dosagem em condições adequadas, ou seja, em repouso, sem estímulo mamário e sem exercício antes da coleta, porque prolactina sobe com estresse e com esforço físico e a segunda coleta frequentemente já resolve o caso. Depois disso, revisar medicações em uso, afastar gravidez e, principalmente, dosar a tireoide, porque hipotireoidismo é uma das causas mais comuns e mais facilmente corrigíveis de prolactina elevada. Se a elevação persistir sem explicação, aí sim entra exame de imagem da hipófise. E aqui está a coincidência que fecha o argumento: o próprio tópico notou que faltava TSH nos exames dela. Ou seja, o único exame que estava faltando era exatamente o que precisava ser feito primeiro. Isso importa por uma razão prática. Prolactina alta é uma das causas clássicas de irregularidade e de parada da menstruação. E, no meio do ciclo, ela escreveu: minha menstruação não veio, é comum? A pergunta ficou sem resposta objetiva. Ela chegou com prolactina elevada, parou de menstruar durante o ciclo, e nenhuma das duas coisas foi ligada à outra. O segundo achado é a reação de pele. Ela relatou manchas que começaram no abdome e foram se espalhando, sem coceira, sem febre e sem qualquer mudança de sabão, amaciante ou rotina. A resposta imediata foi: adianto que a oxandrolona não é a causa. Eu não teria essa certeza, e o motivo é que ninguém tem. Erupção cutânea por medicamento é possibilidade real com praticamente qualquer fármaco, e não se descarta por afirmação. Descarta se por avaliação e, muitas vezes, pela retirada. E o que aconteceu depois torna isso mais relevante. As manchas não passaram com anti histamínico comum. Ela procurou médica, que prescreveu fexofenadina por cinco dias e pediu exames. Não passou. Ela precisou de injeção de corticoide, pomada e mais um remédio. Levou semanas. E, no meio disso, os exames voltaram com as enzimas hepáticas alteradas. Ou seja: erupção cutânea persistente somada a transaminases alteradas, durante o uso de um oral 17 alfa alquilado. Essa combinação específica é a que pede parar o oral, esperar e repetir o exame, e não seguir mais seis semanas. Se normalizar fora do uso, era efeito esperado. Se não normalizar, é avaliação médica, porque nesse ponto a hipótese deixou de ser efeito esperado. Vale explicar por que o oral pesa aqui. A oxandrolona é modificada na posição 17 alfa justamente para resistir ao metabolismo hepático, e é essa modificação que se associa à sobrecarga do fígado e à queda de HDL. É esperado que altere um pouco. O que não é esperado é seguir sem reavaliar. Sobre as sugestões de protetor hepático que apareceram, com S adenosilmetionina e N acetilcisteína, apresentadas como mais eficazes que a silimarina: não existe evidência de que qualquer suplemento dito hepatoprotetor previna ou reverta lesão por oral 17 alfa alquilado. O que resolve é retirar o agente e dar tempo. Nesse ponto a silimarina e as alternativas estão empatadas em zero. Agora três correções sobre orientações que foram dadas com convicção. A primeira é a ideia, repetida no tópico, de que mulheres se dão melhor com ciclos longos e doses baixas do que com doses maiores e ciclos curtos, porque o colateral depende da dose e não do tempo. A dose importa muito, e a escolha dela de 5 mg foi excelente. Mas a conclusão está incompleta de um jeito que muda decisão: parte dos efeitos de virilização depende de exposição acumulada, e exposição acumulada é dose multiplicada por tempo. Entre esses efeitos, acne, oleosidade e retenção regridem com a suspensão. O engrossamento da voz e o aumento do clitóris não regridem de forma confiável. Alongar o ciclo não é neutro, é justamente o que aumenta o total. A segunda é a sugestão de decanoato de nandrolona como o esteroide menos danoso ao cabelo e à pele. A premissa tem base. A nandrolona é reduzida pela 5 alfa redutase a um metabólito menos androgênico, o que é o oposto do que acontece com a testosterona, e por isso ela tende mesmo a pesar menos em pele e folículo. Mas a recomendação continua sendo ruim para ela, por outro motivo. O decanoato tem liberação do depósito da ordem de 6 a 12 dias, com atividade persistindo por semanas. Como parte dos sinais de virilização é irreversível, o valor inteiro de um composto de ação curta está em poder interromper no dia em que o sinal aparece e ter a exposição caindo depressa. Com éster longo, no dia do sinal ainda restam semanas de droga circulando, e não existe como acelerar isso. Para mulher, meia vida curta não é conveniência. É a margem de segurança inteira. E a oxandrolona, que ela usou, tem meia vida em torno de 9 horas, ou seja, era o composto do qual dava para sair rápido. Trocar isso por um éster longo em nome da pele é trocar o problema reversível pelo irreversível. Vale acrescentar que a nandrolona tem atividade progestogênica e é bastante associada a alteração menstrual, o que, no caso de alguém que já chegou com prolactina alta e amenorreia, é o pior encaixe possível. A terceira é a resposta que ela recebeu quando disse ter medo de acne e de queda de cabelo: entre de cabeça e sem medo, mude sua mente antes de mudar seu corpo. Discordo. O medo dela era informação, e não obstáculo. Foi ele que fez ela comprar o comprimido de 5 mg, dividir a dose, pedir exames antes e perguntar semana a semana sobre voz e clitóris. É exatamente por isso que ela terminou 12 semanas sem nenhum sinal irreversível, num fórum cheio de relatos que terminam com a voz mudada. O medo dela funcionou. Foi o melhor instrumento que ela tinha. Agora a aritmética, que é a mesma que aparece em quase todos os relatos daqui. Ela abriu o tópico dizendo que tinha dificuldade de ganhos, que a dieta era rica em carboidrato por causa disso, e escreveu mais de uma vez que queria volume. Os pesos foram 59 no primeiro post, 57 na avaliação de março, 58,8 no meio, e 57,4 no fim. E o carboidrato prescrito caiu de 180 g para 100, depois 70, depois 50, com aeróbico subindo até três sessões de 30 minutos por dia na última semana. Ou seja, ela executou com disciplina impecável um protocolo de definição, e ele funcionou: ela ficou seca, o abdome apareceu, as fotos mudaram de verdade. Mas o objetivo escrito no primeiro post era o contrário, e ela repetiu isso várias vezes, inclusive dizendo que não via a hora de colocar volume. Isso não é crítica ao resultado, que foi bom, e ela mesma gostou. É só o registro que falta para quem lê hoje querendo aprender a ganhar massa: o roteiro deste tópico faz o inverso, e não existe superávit em nenhuma linha dele. E vale dizer, porque ela contou: no fim, as pessoas em volta estavam dizendo a ela que aquela magreza não era normal e que ela parecia doente. Esse comentário costuma ser tratado como inveja aqui. Nem sempre é. Vale ouvir. Sobre a finalização com três sessões de aeróbico por dia e carboidrato em 50 g, para fotos: isso é protocolo de palco, feito para durar um dia, por quem vai competir. Rende foto boa e não rende mais nada. Como ela não estava competindo, era a única parte do projeto que eu diria que não valia a pena. Uma nota rápida sobre a explicação de que os vegetais funcionariam como aditivo limpando os receptores de nutrientes, como a borra de um motor. É uma boa imagem e não é assim que funciona. Vegetais valem a pena por outros motivos, que são reais: fibra, micronutrientes, volume e saciedade, que era exatamente o problema dela naquelas semanas de fome às 15 horas. Fecho com o que eu de fato acho. Ela fez, em quase tudo, o que eu recomendaria: dose mínima, exames antes, fotos padronizadas na mesma luz e na mesma pose, relato semanal honesto incluindo o que não estava bom, e nenhum sinal irreversível no fim. É um dos ciclos mais bem conduzidos do fórum, e não é coincidência que seja também o de menor dose. O que ficou para trás não foi o protocolo. Foi que ela chegou com dois dados na mão, prolactina em 49,9 e nenhum TSH, e começou assim mesmo. Depois parou de menstruar e ninguém juntou as duas coisas. Se ela ainda estiver por aqui, essa é a única parte do relato que continua valendo hoje: repetir prolactina em repouso e dosar a tireoide, fora do uso de qualquer coisa. Custa pouco e responde o que o espelho não responde. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  30. Esse tópico é curto e tem, no meio dele, uma das melhores decisões que já li aqui. A autora relatou inchaço do clitóris no vigésimo sétimo dia de oxandrolona, perguntou diretamente se aquilo poderia ser irreversível, parou tudo em poucos dias e voltou para dizer que tinha desinchado. Isso é exatamente o que se deve fazer, e é o oposto do que costuma acontecer. O padrão daqui é observar e ver se piora. Nesse item específico não existe observar, porque observar é esperar dentro do dano. Entre os sinais de virilização, acne, oleosidade, retenção e alteração de fluxo regridem quando se para. O aumento do clitóris e o engrossamento da voz, não regridem de forma confiável. Ela teve sorte, e a sorte teve um motivo farmacológico que vale nomear: os compostos que ela usava tinham ação curta. A oxandrolona tem meia vida em torno de 9 horas, e o gel sai rápido. Foi por isso que parar funcionou em dias. Se aquele mesmo sinal tivesse aparecido com um éster longo, ainda restariam semanas de droga circulando depois da decisão, e não existiria como acelerar isso. Para mulher, meia vida curta não é conveniência. É a margem de segurança inteira. Um pequeno ajuste sobre a explicação que ela mesma considerou, de que o inchaço fosse da libido alta por estar sem ver o namorado. Ingurgitamento por excitação é transitório e passa em minutos. Aumento persistente, percebido no dia a dia, é outra coisa. Ela fez certo em não apostar na diferença. Agora o número que estava no primeiro post e que é o achado mais importante do tópico. A testosterona total dela veio em torno de 900 ng/dL. A faixa de referência feminina fica em torno de 15 a 70 ng/dL. Ou seja, o resultado dela estava em faixa masculina adulta, e não um pouco acima do normal: mais de dez vezes o topo da referência. E o @Foston fez, sobre isso, a melhor conta do tópico, que merece ser repetida porque explica tudo. A prescrição era gel em pentravan a 20 mg por dia. Com absorção da ordem de 40 a 45 por cento, isso significa algo próximo de 70 a 80 mg de testosterona por semana, que é a ordem de grandeza de uma reposição masculina. A dose usual para mulher, no mesmo veículo, fica entre 2 e 5 mg. Ou seja, ela não estava tomando uma dose feminina um pouco alta. Estava tomando uma dose de homem. E isso reordena o resto do tópico. A mudança corporal que ela celebrou, e que era real, e o inchaço do clitóris que a assustou vieram da mesma origem, e não de duas coisas separadas. Agora o ponto que atravessou o tópico inteiro, foi perguntado três vezes pelo @Apollo Galeno, nunca teve resposta, e é o mais sério de todos. Ela não menstrua há cerca de dois anos. E ela mesma escreveu quando isso começou: quando passou a se exercitar, a se alimentar de forma restrita e a emagrecer. Isso tem nome, e é a hipótese principal até que se prove o contrário: amenorreia hipotalâmica funcional, ou seja, a parada do ciclo por baixa disponibilidade energética. É o eixo central do que o Comitê Olímpico Internacional descreve como deficiência energética relativa no esporte. O quadro dela encaixa item por item. Aeróbico todos os dias sem exceção, no mínimo 40 minutos, mais musculação quatro vezes por semana, dieta restrita, perda de peso, e a menstruação parando exatamente nesse período. E aqui está a correção mais importante que eu tenho para fazer, porque ela muda a conduta. A orientação que ela recebeu foi aplicar estradiol por 14 dias e depois progesterona, até vir a menstruação. Isso induz um sangramento. Não trata a causa. Na amenorreia hipotalâmica funcional, o tratamento estabelecido é restaurar a disponibilidade energética: comer mais, reduzir volume de treino, recuperar peso quando necessário. O sangramento induzido por hormônio exógeno não indica que o eixo voltou, e não corrige o que está acontecendo em silêncio. E o que está acontecendo em silêncio é osso. Dois anos sem ciclo significam dois anos de estrogênio baixo, e estrogênio é o principal hormônio de manutenção da densidade óssea na mulher. Ela tem 30 anos, ou seja, está saindo justamente do período em que o pico de massa óssea se constrói, que vai até por volta dos 30. Essa perda não dá sintoma, não aparece em fita métrica e não aparece no espelho. Aparece na densitometria ou na primeira fratura. E a menstruação, nesse contexto, não é um incômodo estético. É o marcador gratuito de que o organismo tem energia suficiente sobrando. Ela parou de aparecer e ninguém tratou isso como informação. Vale, por isso, corrigir também o argumento que apareceu no fim, de que menstruar todo mês seria algo recente na história e dispensável. Essa discussão existe e é legítima, mas ela é sobre suprimir a menstruação com um método hormonal controlado, em que o ambiente hormonal é conhecido e mantido. Não é sobre parar de menstruar espontaneamente por déficit de energia. Nesse segundo caso a ausência de sangramento é o sintoma, e não o objetivo, e ela vem acompanhada de estrogênio baixo, com a consequência óssea junto. São duas situações opostas, e misturá las é o que fez o tópico tratar como detalhe o achado mais relevante do caso. Uma nota sobre o percentual de gordura, que foi usado como explicação. Foi dito que o BF dela estava bem baixo. Ela relatou cerca de 21 por cento, medido por bioimpedância. Dois problemas aí. Vinte e um por cento não é baixo: está dentro da faixa considerada saudável para mulher. E bioimpedância não mede gordura, e sim resistência elétrica, estimando composição a partir da água corporal, com a hidratação assumida como padrão. Em alguém em déficit, usando termogênico e T3, a estimativa fica ainda menos confiável. O ponto mais útil é que o gatilho não é um número de BF. Atletas menstruam com 15 por cento, e mulheres param com 25 por cento se o déficit for grande o bastante. O que determina é a energia disponível, não o percentual. Agora o T3, que o @Thiago Carneiro levantou corretamente e que merece desenvolvimento. Hormônio tireoidiano usado para emagrecer não é acelerador de nada: ele aumenta o gasto às custas de massa magra também, suprime o TSH e a produção própria, e a recuperação da função depois pode demorar. Os efeitos que aparecem são taquicardia, tremor, intolerância ao calor e risco de arritmia, incluindo fibrilação atrial. E há um detalhe que fecha o círculo neste caso específico: excesso de hormônio tireoidiano é, por si, causa reconhecida de perda de massa óssea. Somando T3 em excesso, dois anos de amenorreia e aeróbico diário, são três fatores empurrando na mesma direção, no mesmo osso, ao mesmo tempo. Sobre a ioimbina do mesmo composto, dois pontos. É medicamento, e não suplemento, e o efeito é adrenérgico, elevando frequência cardíaca e pressão. E numa análise de 49 produtos vendidos como suplemento de ioimbina, a maioria não informava a quantidade no rótulo, e entre os que informavam o conteúdo real variou de 23 a 147 por cento do declarado. Somar isso a T3 e a aeróbico diário é empilhar estímulo sobre o mesmo sistema. Duas observações sobre a sequência dos exames, porque elas explicam o impasse. A primeira foi notada corretamente no tópico: os exames que a ginecologista usaria para investigar a amenorreia foram colhidos com ela usando gel de testosterona. Dosagem hormonal feita sob uso de hormônio exógeno não responde à pergunta que se queria fazer. O encaminhamento final sugerido, de repetir os exames depois de pelo menos um mês sem nada, foi o único caminho possível e estava certo. A segunda é que existem outras causas de amenorreia secundária que precisam ser afastadas antes de fechar em causa funcional, entre elas alteração de tireoide, prolactina elevada, síndrome dos ovários policísticos e falência ovariana precoce. Ela fez exames de imagem sem alteração, o que é um começo, mas prolactina, TSH e T4 livre fora do uso de T3 são a parte que faltava. Fecho com o que eu diria a ela, e a quem estiver lendo com o mesmo quadro. O corpo que ela alcançou é real e o esforço foi dela. Mas o preço, nesse desenho, não estava sendo cobrado no clitóris, que era o único sinal visível e que felizmente regrediu. Estava sendo cobrado em dois anos sem ciclo, aos 30 anos, com aeróbico diário, dieta restrita e hormônio tireoidiano por cima. E a boa notícia é que essa é a única parte do relato que ainda dependia inteiramente dela, e que ela já começou a resolver quando parou tudo e decidiu refazer os exames do zero. O passo seguinte não é escolher o próximo composto. É descobrir por que ela não menstrua, e a resposta mais provável se corrige com comida e com menos aeróbico, não com receita. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  31. A @Gestgirl abriu esse tópico com um objetivo declarado: que ele virasse um dos mais completos do fórum sobre gestrinona e endometriose, porque ela sabia que muitas mulheres chegam aqui procurando exatamente isso. Ele cumpriu boa parte do que se propôs. E é justamente por isso que ele precisa de uma atualização, porque a conversa parou em 2022 e o assunto mudou depois disso. Começo por aí, porque é a informação que muda decisão para quem lê hoje. Em outubro de 2024 a Anvisa suspendeu a fabricação, a manipulação, a importação, a comercialização e a divulgação dos implantes hormonais manipulados, os chamados chips. A medida veio depois de manifestações de entidades médicas, entre elas a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, e o motivo central foi a ausência de comprovação de segurança e de eficácia nessa forma de uso. Ou seja, o implante que atravessa esse tópico inteiro, discutido em marcas, custos e fornecedores, não está mais disponível legalmente no Brasil. Isso não transforma a gestrinona em vilã, e é importante separar as duas coisas. A gestrinona é um fármaco com história clínica real na endometriose, associada ao trabalho do professor Elsimar Coutinho, e existiu como medicamento registrado no país. O que a Anvisa retirou não foi a substância: foi a forma implantável manipulada, que não tem registro, não tem estudo de liberação e não passa por controle de teor. E aqui está a distinção que o tópico não fez, e que é o argumento mais forte contra o chip. Um gel tem uma característica que o implante não tem: dá para parar. A @Gestgirl escreveu isso ela mesma, e estava certíssima, quando explicou por que preferia começar pela via intravaginal: pelo custo e pela probabilidade de não suportar os colaterais. Esse é exatamente o critério. Com o implante, no dia em que aparecer o efeito que não se quer, ainda restam meses de hormônio liberando, e a única forma de interromper é um procedimento para retirar. Com o gel, para se no mesmo dia. É a mesma lógica que vale para qualquer androgênio em mulher, e ela vale mais aqui do que em qualquer outro lugar do fórum: o que determina a margem de segurança é a rapidez com que a exposição cai depois que se decide parar. Agora o ponto do tópico que eu considero o mais importante clinicamente, e que foi dispensado rápido demais. A @Lady Who usou implantes de gestrinona por um ano para mioma, e voltou aqui para contar o que aconteceu, o que é raríssimo e merece registro. Ela levantou a hipótese de ter perdido massa óssea. A resposta foi que provavelmente era massa magra, e que massa óssea seria difícil. Preciso discordar, e o motivo é que essa é uma pergunta que não se responde por dedução. A gestrinona tem ação antiestrogênica, e é assim que ela funciona na endometriose e no mioma: reduzindo o estímulo estrogênico. Só que estrogênio é também o principal hormônio de manutenção da densidade óssea na mulher. Hipoestrogenismo mantido por tempo prolongado é um fator de risco reconhecido para perda de massa óssea, e é por isso que os análogos de GnRH, que produzem esse mesmo estado, têm limite de tempo de uso e protocolos de terapia complementar. E o detalhe que torna isso concreto no caso dela: perda óssea não aparece em fita métrica, não dá sintoma e não dá para sentir. A pessoa descobre na densitometria ou na primeira fratura. Ela usou por um ano, considerava usar de forma contínua e disse querer atravessar a menopausa já em amenorreia induzida. Nesse desenho específico, densitometria óssea de base e acompanhamento não são exagero: são a única forma de saber. E isso é conversa com o ginecologista dela, que conhece o caso. Agora três correções que eu preciso fazer com clareza, porque foram ditas com segurança e são as que mais podem causar dano em quem lê. A primeira é a testosterona apresentada como forma de suspender a menstruação e como alternativa para mioma. Amenorreia induzida por androgênio não é o mesmo fenômeno que amenorreia induzida por um progestágeno ou por gestrinona. Ela é consequência da supressão do eixo hipotálamo hipófise ovário, ou seja, é um sinal de que o eixo foi desligado, e não um efeito terapêutico buscado. Não existe estudo de eficácia nem de segurança de testosterona como supressor menstrual em mulher, e não existe indicação dela para mioma ou endometriose. E há um ponto de mecanismo que costuma passar batido: mioma e endometriose são condições estrogênio dependentes, e parte da testosterona aromatiza em estradiol. Ou seja, não é sequer um caminho farmacologicamente coerente para o problema que se quer resolver. Foi dito no tópico que um médico tradicional não faria isso por falta de publicações que o amparassem perante o conselho. Eu inverteria a leitura: a ausência de publicação é exatamente o problema, e não uma formalidade burocrática. É ela que significa que ninguém sabe o que acontece com essas mulheres em cinco ou dez anos. E vale lembrar o que está do outro lado da conta. Entre os efeitos androgênicos, acne, oleosidade e alteração de fluxo regridem quando se para. O engrossamento da voz e o aumento do clitóris, não. As alterações vocais vêm de mudança estrutural na prega vocal, e a literatura descreve casos permanentes inclusive após uso curto. A segunda é a testosterona apresentada como forma de coibir histórico familiar de câncer de mama. Isso não procede, e é a afirmação mais delicada do tópico. Não existe evidência que sustente testosterona como estratégia de prevenção de câncer de mama, e parte dela aromatiza em estradiol, que é justamente o hormônio envolvido na maioria dos tumores de mama. Quem tem histórico familiar relevante tem um caminho estabelecido, e ele é bem diferente: avaliação de risco, aconselhamento genético quando indicado, rastreamento com frequência e método adequados ao risco, e, em casos selecionados, medidas de redução de risco conduzidas por mastologista ou oncologista. Nenhuma delas passa por hormônio comprado em farmácia de manipulação. A terceira é menor, mas vale ajustar. Foi dito que a única maneira resolutiva para mioma, segundo diretriz, é a histerectomia. A histerectomia é de fato o tratamento definitivo, no sentido de que sem útero não há mioma novo. Mas ela não é a única conduta com respaldo. Miomectomia, embolização das artérias uterinas e tratamento medicamentoso são opções reais, e a escolha depende de número, tamanho e localização dos miomas, da intensidade dos sintomas e do desejo de gestação. Apresentar cirurgia radical como a única saída para uma mulher de 39 anos é estreitar demais o leque. Agora um ponto que passou como comentário e que é dos mais úteis para qualquer leitora daqui. A @Gestgirl registrou que tem enxaqueca com aura. Isso merece destaque, porque é uma das poucas situações em ginecologia com contraindicação formal e bem estabelecida: mulher com enxaqueca com aura não deve usar contraceptivo hormonal combinado, com estrogênio, pelo aumento de risco de acidente vascular cerebral. Métodos apenas com progestágeno, como o desogestrel que ela usava, são justamente a alternativa adequada. Ou seja, a prescrição que ela tinha estava correta, e isso vale ser dito, porque toda semana aparece aqui alguém recomendando trocar de anticoncepcional por conta do treino, sem saber que existe esse tipo de contraindicação do outro lado. E vale registrar o episódio mais instrutivo do tópico, que foi ela quem contou. Ela recebeu da farmácia de manipulação 24 doses, com 36 aplicadores, e a embalagem dizendo 36 gramas. Ela percebeu a discrepância e correu atrás. Esse parágrafo vale mais que toda a discussão de preço que veio depois. É a demonstração prática do problema central do produto manipulado: não há como saber o que se está usando. E isso tem uma consequência clínica direta, que apareceu logo em seguida no relato dela. Ela usou o gel por semanas, não sentiu nem benefício nem colateral, teve duas menstruações num mês e cólica intensa, e escreveu que ficou com receio de não ser gestrinona. Ela estava fazendo a pergunta certa e não tinha como respondê la. Ausência total de efeito, em qualquer direção, é compatível tanto com resposta individual quanto com produto sem teor, e não existe jeito de distinguir pela sensação. Com medicamento registrado, teor e uniformidade de dose são garantidos pelo controle do produto. É essa a diferença, e não o preço. E, sobre a conduta naquele momento, eu discordo do encaminhamento. Piora do sangramento e dor intensa depois de semanas de tratamento não é indicação de trocar para uma forma da qual não se pode sair. É indicação de voltar ao ginecologista e reavaliar, inclusive com exame de imagem, que foi aliás o que ela mesma cogitou. Sobre resveratrol, própolis, pinus e a estratégia antioxidante em geral: não há evidência consistente de efeito clínico na endometriose. Não fazem mal, mas não substituem tratamento e não devem entrar na conta de decidir se algo está funcionando. E uma nota sobre a vitamina D, que atravessou o tópico. Foi dito que é para a vida toda, a menos que se tome sol todos os dias. O critério melhor é outro e é mais simples: dosar, repor conforme o resultado e reavaliar. Uso continuado sem exame tem um teto, que é 4.000 UI por dia para adultos, e excesso crônico produz hipercalcemia. Fecho com o que eu de fato acho desse tópico. Ele foi aberto por alguém que não estava procurando shape, e sim tentando parar de sentir dor, e que decidiu documentar isso publicamente para ajudar outras mulheres na mesma situação. A @Lady Who fez o mesmo, e ainda voltou depois de um ano para contar o que não tinha funcionado, que é a parte que quase ninguém volta para contar. Endometriose e mioma são condições que causam dor real, sangramento real e prejuízo real de vida, e a impaciência de quem procura qualquer coisa que funcione é absolutamente compreensível. É exatamente por isso que essas são as pacientes mais expostas a produto sem comprovação, e é por isso que a decisão de 2024 sobre os implantes manipulados precisa estar escrita aqui, no tópico que elas vão encontrar quando pesquisarem. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  32. Esse tópico tem uma informação no primeiro post que foi citada dezenas de vezes, porque todo mundo respondeu com a mensagem inteira dela colada, e que mesmo assim ninguém comentou uma única vez em oito meses. A @Catcat escreveu, ao anunciar o ciclo: vou usar minoxidil e 10 mg de Roacutan por semana. Roacutan é isotretinoína. E isotretinoína junto com oxandrolona merece conversa, por dois motivos distintos. O primeiro é o fígado. A isotretinoína tem elevação de transaminases entre os efeitos descritos, e eleva triglicerídeos com frequência. A oxandrolona é um oral 17 alfa alquilado, ou seja, uma molécula modificada exatamente para resistir ao metabolismo hepático, e é essa modificação que se associa à sobrecarga do fígado e à queda de HDL. São duas cargas somando no mesmo lugar. Isso não significa que não se possa fazer. Significa que quem prescreveu a isotretinoína precisa saber da oxandrolona, e que o hepatograma e o perfil lipídico deixam de ser opcionais e passam a ser parte do tratamento. E não é hipótese. Meses depois ela mesma escreveu que fez o exame e deu alteração. Fez o exame, encontrou o que se esperava, e seguiu. O segundo motivo é mais sério e vale para qualquer leitora daqui em uso de isotretinoína: a isotretinoína é uma das substâncias mais teratogênicas em uso clínico, e por isso o uso em mulher com possibilidade de engravidar exige contracepção rigorosa e acompanhamento formal. Ela tinha 42 anos e ciclo menstrual normal, como ela mesma registrou. Somar a isso um androgênio, que também é teratogênico, torna esse o ponto do tópico que eu levantaria antes de qualquer discussão sobre dose. Agora a premissa que sustentou todo o desenho do ciclo, e que eu preciso contestar porque ela reaparece em quase todos os relatos femininos deste fórum. Foi dito, logo no início, que mulheres não precisam de ciclos curtos porque não têm eixo hipotálamo hipófise a recuperar. As duas partes dessa frase estão erradas. Mulheres têm eixo. É o eixo hipotálamo hipófise ovário, e androgênio exógeno o suprime da mesma forma, com consequência concreta: alteração de ciclo menstrual, ciclo anovulatório e irregularidade. O eixo existe. Mas o erro maior está na conclusão. A razão para manter ciclo curto em mulher nunca foi recuperação de eixo. É exposição acumulada. Entre os sinais de virilização, acne, oleosidade, retenção e alteração de fluxo regridem quando se para. O engrossamento da voz e o aumento do clitóris, não. As alterações vocais vêm de mudança estrutural na prega vocal, e a literatura descreve casos permanentes inclusive após uso curto. Ou seja, a duração do ciclo importa mais para mulher do que para homem, e não menos. A frase inverte exatamente o critério que deveria orientar a decisão. E o desdobramento prático dela apareceu no fim do tópico: quando ela perguntou sobre terapia pós ciclo, a resposta foi que não precisava, bastando pedir testosterona em gel para manter os ganhos. Isso não é pós ciclo. É transformar um ciclo com data de término em uso contínuo, que é justamente a estrutura que mais acumula exposição na categoria de efeito que não volta atrás. Agora o episódio que eu considero o mais arriscado de todo o relato. Ela pesou 66 kg, viu quase 69 kg em dois dias, sentiu a calça apertando e escreveu: vou tomar um diurético mesmo sabendo que me faz mal. A resposta que veio no tópico sugeriu hidroclorotiazida, dizendo ser tiro e queda para retenção. Preciso discordar com clareza. Hidroclorotiazida é medicamento de prescrição, usado para hipertensão. Os efeitos previsíveis são queda de potássio, queda de sódio, desidratação e alteração de função renal. Numa mulher que treina seis vezes por semana, que descreveu suar muito, que estava em dieta com restrição e usando oxandrolona, isso não é um ajuste estético. É a combinação que produz cãibra, arritmia, tontura e desmaio. E o mais importante: não havia nada para tratar. Três quilos em dois dias não é gordura, é água. Ela mesma listou os motivos no próprio post, e estavam todos ali: quatro dias sem treinar, período menstrual, dieta com carboidrato oscilando e oxandrolona. Cada um desses move água. A conduta correta para retenção nesse contexto é chata: manter a hidratação, controlar sódio, voltar à rotina e esperar. Ela some sozinha, e some rápido. E vale corrigir a ideia que circulou no tópico e que tornou a retenção aceitável antes e assustadora depois. Foi dito, e repetido por outra pessoa como algo que a tinha deixado feliz de estar inchada, que a retenção é parte importante do processo e necessária para suprir o aumento da síntese proteica. Isso não procede. O músculo realmente carrega água junto com glicogênio, e isso é normal. Mas retenção subcutânea e abdominal não é insumo de hipertrofia, não é sinal de que o ciclo está funcionando, e não precisa ser celebrada nem combatida com remédio. É apenas água, e ela responde a sódio, carboidrato, ciclo menstrual e treino. Agora a parte do fígado, que ficou sem encaminhamento. Quando ela contou que os exames tinham alterado, as sugestões foram chá de marroio, abacaxi, própolis e uma fórmula manipulada de N acetilcisteína, ácido lipóico e silimarina. Não existe evidência de que silimarina, N acetilcisteína em uso preventivo, ácido lipóico, abacaxi ou qualquer suplemento dito hepatoprotetor previna ou reverta lesão por oral 17 alfa alquilado. O que resolve é retirar o agente e dar tempo. E a conduta diante de enzimas alteradas é a mesma sempre: parar o oral, esperar algumas semanas e repetir o exame. Se normalizar, era efeito esperado. Se não normalizar, é avaliação médica, porque nesse ponto a hipótese deixou de ser efeito esperado. O que aconteceu no tópico foi o contrário. As enzimas alteraram e o protocolo seguinte foi de 14 semanas com boldenona mais oxandrolona chegando a 20 mg por dia, que é o teto de bula da oxandrolona. Sobre a garcinia que ela usava para controlar a fome, e as fórmulas de physilium e pholia: não há evidência consistente de efeito relevante em gordura corporal para nenhuma delas, e a garcinia tem relatos de caso de lesão hepática associada ao uso. Ou seja, no período em que ela estava preocupada com o fígado, havia mais de um item somando na mesma direção. Agora três pontos menores, e depois o que eu acho de fato do relato. O primeiro é o sono. Ela descreveu dormir por volta das 23h e acordar às 5h30, e procurava melatonina para resolver. Melatonina age principalmente sobre o adormecer, e o problema descrito não era dificuldade de adormecer: eram seis horas e meia na cama. Nenhum suplemento corrige tempo de sono insuficiente, e sono curto crônico derruba recuperação, apetite, humor e rendimento no treino. Era o ajuste mais barato e mais eficaz disponível, e ficou de fora. O segundo é o masteron, que ela usou e do qual não gostou, e cuja explicação no tópico foi que a droga podia ser falsa. Duas coisas. A primeira é que a leitura do @Batata... estava certa: acúmulo de gordura em uma semana não é gordura, e o que se ganha ou se perde nesse intervalo é água e conteúdo intestinal. A segunda é que atribuir a uma molécula específica uma mudança subjetiva de libido, em uma pessoa, num período em que ela também tinha terminado outro ciclo e mudado a dieta, não é possível. Não dá para distinguir droga ruim de resposta individual pela sensação, e por isso a suspeita de falsificação não se sustenta nem em um sentido nem no outro. Vale registrar, isso sim, que o propionato de drostanolona não é 17 alfa alquilado e por isso não tem o problema hepático dos orais, e que ele tem meia vida curta. Esse último ponto é o que realmente importa para mulher, e leva ao terceiro item. O terceiro é a boldenona, que ela usou por 14 semanas. O undecilenato de boldenona tem meia vida da ordem de duas semanas, com detecção que se estende por meses. Como parte dos sinais de virilização é irreversível, o valor inteiro de um composto de ação curta está em poder interromper no dia em que o sinal aparece e ter a exposição caindo depressa. Com éster longo, no dia do sinal ainda restam semanas de droga circulando. E o sinal apareceu. Ela relatou, no fim da boldenona, aumento do clitóris, e tratou como detalhe. Depois escreveu que voltou ao normal, o que é uma boa notícia e acontece em parte dos casos. Mas a regressão não é garantida, e nesse item específico não existe observar e ver se piora, porque observar é esperar dentro do dano. Como ela canta, vale a mesma sugestão que eu daria a qualquer cantora aqui: gravar trinta segundos de voz no celular, sempre no mesmo horário, uma vez por semana, incluindo uma escala subindo. A mudança é gradual e o ouvido se acostuma. A gravação não se acostuma, e o agudo é o primeiro a ir. Uma observação sobre os números de percentual de gordura, que saíram de 24 para 20 por cento. Adipômetro e bioimpedância não medem gordura: estimam. O erro típico é de três a cinco pontos percentuais, ou seja, do mesmo tamanho da diferença medida. A tendência entre duas medidas feitas do mesmo jeito vale. O valor isolado, bem menos. E a foto na mesma luz e na mesma pose, que ela fez com disciplina, continua sendo o dado mais confiável que ela produziu. Fecho com o que eu de fato acho. Ela tem 42 anos, treina há muitos anos, come comida de verdade, recusou whey porque não se adaptava e preferiu prato, criou a filha comendo de tudo, mediu, fotografou, comparou e contou os revezes com honestidade, incluindo os que não a favoreciam. Isso é o que sustenta o shape que impressionou o fórum inteiro, e não a oxandrolona. O que eu mudaria não é o esforço, é a ordem. O exame que ela fez e que veio alterado era a informação mais importante do relato, e chegou depois da decisão em vez de antes. E a isotretinoína, que estava escrita na primeira linha do primeiro post, atravessou oito meses sendo copiada e colada sem que ninguém a lesse. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  33. Esse é um dos relatos mais bem documentados que já li aqui. O @MOTUMBO saiu de 118,5 kg para 94 kg em 250 dias, atualizou de quinze em quinze dias sem falhar uma vez, registrou peso, cintura, treino, dieta e fotos em todas, e foi até o fim. Isso é raro e o resultado é indiscutível. Justamente por isso vale discutir com seriedade as partes que ficaram sem revisão, porque esse tópico virou referência e é lido até hoje por gente que vai repetir o roteiro. Começo pela pergunta mais bem feita do tópico inteiro, que foi dele e recebeu a resposta errada. Depois de nove semanas de oxandrolona, ele perguntou: estanozolol oral depois de oxandrolona seria exigir demais do fígado? A resposta foi sugerir o estanozolol injetável. A pergunta estava certíssima e a solução não resolve o problema. O estanozolol injetável não é outra molécula: é a mesma substância 17 alfa alquilada, apenas em suspensão aquosa. A alquilação na posição 17 alfa é uma modificação feita exatamente para a molécula resistir ao metabolismo hepático, e é ela que se associa à sobrecarga do fígado e à queda acentuada de HDL. Isso é da molécula, não da via de administração. Ou seja, trocar oral por injetável reduz um pouco a passagem inicial pelo fígado, mas não retira a característica que produz o problema. Quem faz oxandrolona por nove semanas e emenda estanozolol está somando dois 17 alfa alquilados em sequência. E aqui está o que me preocupa de verdade nesse relato: em 250 dias, com enantato, propionato, oxandrolona, nandrolona, estanozolol e clembuterol, eu não encontrei um único exame de sangue postado. O acompanhamento quinzenal perguntava cabelo, pelos, acne, libido e voz, que são sinais externos e que ele respondia com honestidade. Mas fígado e colesterol não dão sinal externo. Eles só aparecem no exame, e é justamente por isso que o exame existe. Dois marcadores importavam nesse projeto, e nenhum foi olhado. O hepatograma, com TGO, TGP, gama GT e bilirrubinas, por causa dos dois orais. E o perfil lipídico, porque oxandrolona e estanozolol estão entre os compostos que mais derrubam HDL, e ele estava fazendo isso durante meses de déficit calórico agressivo. Isso não invalida nada do que ele conquistou. Só significa que a parte da conta que não aparece na foto nunca foi conferida. Agora a decisão que estruturou o projeto inteiro, e onde eu discordo desde o primeiro post. Ele começou, aos 28 anos, com 115 kg, direto num cruise de enantato a 150 mg por semana. Não houve exame prévio mostrando testosterona baixa, e ele não estava saindo de um ciclo. O conceito de cruise faz sentido dentro de uma lógica: depois de um ciclo, o eixo está suprimido, a produção própria caiu, e uma dose de manutenção evita o período de testosterona baixa. Ele não estava nessa situação. Ele estava começando. E existe uma ironia nesse caso específico que vale desenvolver, porque ela é o argumento mais forte contra a escolha. Obesidade derruba testosterona por mecanismos conhecidos: mais tecido adiposo significa mais aromatização de testosterona em estrogênio, o que retroalimenta negativamente o eixo, e há ainda alteração de SHBG e o efeito da apneia do sono e da resistência à insulina. É por isso que perda de peso significativa costuma elevar a testosterona própria de forma substancial em homens obesos. Ou seja, o próprio projeto que ele estava executando era o tratamento mais eficaz disponível para a testosterona dele. Ele perdeu 24 kg. Nós nunca vamos saber o que a testosterona dele fez nesse período, porque ela estava sendo fornecida de fora desde o dia um. E cruise, por definição, não termina. Aos 28 anos, isso é uma decisão de longo prazo tomada sem o exame que mostraria se havia problema para resolver. Agora um ponto de segurança que eu considero o mais urgente do relato. Na fase final ele estava usando, ao mesmo tempo: cafeína pela manhã, ioimbina 5 mg, clembuterol, e HIIT duas a três vezes por dia, todos os dias. Esses quatro atuam sobre o mesmo sistema. Cafeína e ioimbina são adrenérgicos, o clembuterol é agonista beta 2, e o HIIT é o estímulo simpático mais intenso que existe no treino. Somar tudo isso é empilhar frequência cardíaca, pressão e arritmia sobre a mesma via. Sobre o clembuterol, especificamente, vale dizer o que ele é. Não é anabolizante. É um broncodilatador, e os efeitos que aparecem com frequência são taquicardia, tremor, cãibra, insônia e queda de potássio. Em modelos animais há descrição de hipertrofia cardíaca com uso prolongado. E o gel de uso veterinário, que foi o sugerido, não tem concentração pensada para pessoa, o que torna a dose um chute. Sobre a ioimbina, dois pontos. É medicamento, e não suplemento. E numa análise de 49 produtos vendidos como suplemento de ioimbina, a maioria não trazia a quantidade no rótulo, e entre os que traziam o conteúdo real variou de 23 a 147 por cento do declarado. Quem toma 5 mg pelo rótulo não sabe o que tomou. E há a interação que quase nunca é mencionada: ioimbina com antidepressivos que agem na noradrenalina pode elevar bastante a pressão. Sobre a finalização, com baixa hidratação seguida de hiper hidratação: isso é protocolo de palco, feito para durar horas, sob supervisão, por quem vai competir. Ele não estava competindo. Manipular água e sódio para uma foto de fórum, ainda por cima com clembuterol e estimulantes em uso, troca risco real por um ganho que dura um dia. É a única parte do projeto em que eu diria, sem meio termo, que não valia a pena. Agora três correções técnicas menores, e um crédito grande. O crédito primeiro, porque foi merecido: quando ele repetiu a crença da janela de oportunidade pós treino e do pico de insulina, o @Apollo Galeno desmontou corretamente. Vale reforçar o motivo, porque é útil para quem lê: a janela anabólica é muito mais larga do que se dizia, existe ainda aminoácido circulando das refeições anteriores, e o que determina o resultado é o total de proteína e de calorias do dia, não os trinta minutos depois do treino. A primeira correção é sobre a nandrolona preservar as articulações do estanozolol. Isso circula muito e precisa de ajuste. O alívio articular relatado com nandrolona é sobretudo sintomático, e boa parte se explica por retenção hídrica. Ela não repara cartilagem nem protege a articulação. E isso tem um risco embutido: dor articular é o sinal que faz a pessoa reduzir carga ou corrigir execução, e mascarar esse sinal enquanto se treina pesado é como desligar o alarme e continuar dentro de casa. A segunda é sobre pholia negra, garcinia e vinagre. Não há evidência consistente de efeito relevante em gordura corporal para nenhum dos três. A garcinia, em particular, tem relatos de caso de lesão hepática associada ao uso, e ele estava tomando isso durante meses de oral 17 alfa alquilado. E vinagre em jejum, todo dia, é ácido em contato direto com o esmalte, que não se regenera. Se for manter, dilua bem, use canudo e não escove os dentes logo depois. A terceira é a vitamina D em 5.000 UI por dia. O limite superior tolerável para adultos em uso continuado é 4.000 UI. Doses acima disso existem e são usadas, mas em correção de deficiência documentada, com dosagem e por tempo definido. É um dos poucos suplementos em que exagerar tem consequência real, e o exame vem antes da dose. Agora o desfecho que eu acho mais importante desse tópico inteiro, e que passou como nota de rodapé. Ele escreveu, no início, que tinha insônia havia dez anos e que estava começando melatonina. No balanço final, escreveu que dormia maravilhosamente bem. Isso quase certamente não foi a melatonina. Melatonina age sobre o adormecer, e um homem de 118 kg com dez anos de insônia tem, antes de tudo, uma hipótese que precisa ser afastada: apneia obstrutiva do sono. Ela é fortemente ligada ao excesso de peso, produz sono fragmentado e cansaço diurno, e melhora de forma expressiva com perda de peso. Vinte e quatro quilos a menos é a intervenção mais eficaz que existe para isso. Vale a informação complementar, que interessa a ele diretamente: androgênios podem piorar apneia do sono. Ou seja, quem faz cruise contínuo e ronca precisa saber que essa é uma das poucas interações em que o efeito é direto e mensurável. E sobre o GABA que entrou na fórmula do sono: GABA por via oral praticamente não atravessa a barreira hematoencefálica em quantidade relevante, então o efeito esperado é pequeno. Insônia de dez anos, aliás, tem tratamento de primeira linha bem estabelecido, que é a terapia cognitivo comportamental para insônia, com resultado superior e mais duradouro que medicação. É um caso em que o que funciona não é um pote. Fecho com o que eu de fato acho desse relato. Ele descreveu, no balanço, o que considerava as vitórias: perdeu o sobrepeso, voltou a dormir, deixou de sentir dor na canela ao correr, deixou de ser ultrapassado por senhoras no parque. Nada disso é estética. É saúde, e é o que vai ficar com ele. E é aí que está a lição que eu tiraria. Ele executou 250 dias de dieta pesada, cardio diário e treino consistente, num nível de disciplina que quase ninguém sustenta. Essa parte não tem substituto e não tem atalho, e foi ela que entregou os 24 kg. O que eu mudaria não é o esforço. É que um projeto desse tamanho, com essa quantidade de fármaco, merecia dois exames de sangue no meio do caminho. Custavam pouco, respondiam o que os espelhos não respondem, e seriam a única parte do relato que ele não pode reconstruir depois. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  34. Chegar mais seco ao palco não significa chegar mais saudável. Quando a preparação reúne anabolizantes, estimulantes, diuréticos e restrição de água, a aparência pode melhorar enquanto a margem de segurança diminui. Em Bodybuilders Are Dying For NOTHING, Coach Kolton parte da morte do fisiculturista Mailson Araújo para questionar essa escalada e a normalização de sintomas graves em nome de uma competição. [1] O alerta merece atenção, mas exige uma separação: os riscos dessas práticas podem ser discutidos com base científica. A causa da morte de uma pessoa não pode ser deduzida de suas fotos, de seu tamanho muscular ou da proximidade de um campeonato. Mailson Araújo e a preparação interrompida Horas depois de uma publicação de treino, Mailson Araújo morreu em Alagoinhas, na Bahia, em julho de 2026. A cobertura de VEJA e Metrópoles informou que ele tinha 35 anos. Ele conquistou o cartão profissional em 2023, no Arnold Classic South America, em São Paulo, e acumulava aproximadamente três anos na condição de atleta profissional. [2, 3] A legenda da última postagem celebrava o processo e o prazer de vivê-lo a cada dia. A sequência entre essa publicação, a preparação para voltar a competir naquele fim de semana e a notícia da morte provocou comoção. [1] Segundo Metrópoles, a mãe, técnica de enfermagem, participou das tentativas de reanimação, assim como equipes de socorro. O atleta não sobreviveu. [3] Nas reportagens consultadas, a causa da morte não havia sido divulgada. A informação de uma parada cardíaca descreve o evento final, mas não identifica, por si só, o que o desencadeou. Não há nessas fontes um laudo que permita atribuir o desfecho a um anabolizante, a um diurético ou a uma combinação específica. [2, 3] Essa ausência impede reconstruir um suposto protocolo de Mailson e responsabilizar pessoas por decisões que não foram documentadas. Também impede tratar hipóteses de intoxicação ou alteração do potássio como diagnóstico do atleta. A discussão sobre preparação extrema precisa respeitar esse limite. Quando o resultado estético incentiva a polifarmácia A avaliação estética premia a aparência apresentada ao palco. Ela não mede a quantidade de substâncias necessária para construí-la, nem mostra ao público os efeitos acumulados sobre a saúde. O problema aparece quando qualquer melhora visual passa a justificar mais um medicamento. Segundo Kolton, há preparações que reúnem 12 medicamentos e outras que chegam a 15 ou mais compostos usados simultaneamente. São exemplos de polifarmácia apresentados por ele, não uma contagem comprovada de substâncias usadas por Mailson nem uma estimativa da frequência dessa prática entre todos os competidores. [1] Essa multiplicação muda a pergunta que o atleta precisa fazer. Não basta saber a finalidade isolada de cada produto. É necessário considerar como seus efeitos se combinam, quais condições de saúde aumentam o risco e o que acontece quando alimentação, hidratação e esforço físico também mudam. A pressão pode atingir homens e mulheres. O retorno financeiro tampouco acompanha necessariamente o investimento: bronzeamento, maquiagem, academia e substâncias podem sair do próprio bolso, enquanto o resultado esportivo oferece uma medalha ou um troféu. Não existe um valor único de premiação aplicável a todo campeonato ou categoria. Ganhar uma competição pode representar anos de dedicação, disciplina e reconhecimento. Esse valor pessoal não transforma uma deterioração da saúde em requisito aceitável de preparação. E receber dinheiro não torna uma combinação de drogas menos perigosa. Clenbuterol, hormônios tireoidianos e cafeína Entre os exemplos concretos de exposição, Kolton menciona clenbuterol acima de 200 mcg e medicamentos tireoidianos bem acima de 100 mcg, em protocolos que afirma ter analisado anteriormente. Ele não apresenta esses números como o esquema de Mailson. Também não esclarece a frequência de administração nem identifica qual hormônio tireoidiano corresponde ao segundo valor. [1] Essas informações são exemplos de uso potencialmente perigoso, não uma prescrição, uma faixa segura ou um ponto a partir do qual o risco começaria. A ausência de frequência e de identificação do produto impede transformar os números em um protocolo completo. T3 e T4, por exemplo, não devem ser considerados equivalentes apenas porque a quantidade é expressa em microgramas. As substâncias não pertencem à mesma classe Clenbuterol é um agonista beta-2 adrenérgico. Seu uso indevido para emagrecimento e fisiculturismo foi associado, em uma série de casos atendidos por centros de toxicologia, a taquicardia, palpitações, tremores, dor no peito e redução do potássio no sangue. O estudo descreve eventos adversos, não uma dose que torne o uso estético seguro. [4] Hormônios tireoidianos atuam por outro mecanismo. A bula de liotironina traz um alerta contra o uso para tratar obesidade ou promover emagrecimento. Doses excessivas podem produzir toxicidade grave ou ameaçar a vida, especialmente em associação com substâncias de ação simpaticomimética. Isso não autoriza concluir que o medicamento mencionado no exemplo era liotironina. [5] Acrescentar cafeína e outros estimulantes também precisa entrar na avaliação. Uma substância estar presente em produtos comuns não permite ignorá-la ao revisar tudo o que foi ingerido. A combinação não deve ser avaliada apenas pelo quanto aumenta disposição ou facilita treinar com pouca energia. Tremor em uma pose não identifica um protocolo Um tremor durante uma pose pode ter diferentes explicações, incluindo o esforço de manter a contração muscular. Ele não permite identificar uma substância ou calcular uma dose. Expressões faciais em fotografias também não permitem concluir que alguém sabia estar em perigo e decidiu ignorar os sinais. A pergunta útil para quem está vivo e se preparando é outra: surgiram palpitações, fraqueza acentuada, dificuldade para movimentar os membros e falta de ar? Sintomas assim merecem avaliação, em vez de serem reinterpretados como prova de disciplina ou consequência inevitável de estar com pouca gordura. Diuréticos: tanto potássio alto quanto baixo podem ser perigosos Na busca por definição, diuréticos são usados indevidamente para alterar a quantidade de água no organismo. Kolton descreve situações em que a exposição começa uma semana inteira ou mais antes da apresentação. Esse período é um exemplo criticado, não uma duração recomendada, e não foi demonstrado como parte da preparação de Mailson. [1] Não existe, porém, um único efeito compartilhado por todos os diuréticos sobre o potássio. A diferença entre as classes é indispensável para entender o perigo. Poupadores de potássio podem elevar sua concentração A espironolactona é um exemplo de diurético poupador de potássio. Sua bula alerta para hiperpotassemia, também chamada de hipercalemia, que significa potássio elevado no sangue. O risco aumenta em determinadas situações, como comprometimento da função renal e associação com suplementos de potássio ou substitutos do sal que contenham esse mineral. [6] Isso não significa que todo usuário desenvolverá potássio alto nem que seja possível prever o resultado apenas pela aparência física. Medicamentos, função renal e ingestão precisam ser avaliados em conjunto. Alterações importantes do potássio podem comprometer a atividade elétrica do coração. Diuréticos de alça podem reduzir o potássio Furosemida, um diurético de alça, pode aumentar a perda de potássio e provocar hipopotassemia, ou hipocalemia. Sua bula também alerta para desidratação, redução do volume circulante e desequilíbrios de eletrólitos com potencial de complicações graves. [7] Portanto, a explicação de que diuréticos simplesmente fazem o potássio subir é incompleta. Tanto a concentração excessiva quanto a insuficiente podem ser perigosas. Associar produtos com efeitos diferentes não permite supor que um neutralizará o outro, nem cria uma estratégia caseira de segurança. Contar minerais não substitui exames Registrar sódio, potássio e água ingeridos não revela a concentração desses eletrólitos no sangue. Essa concentração depende também de distribuição entre os compartimentos do corpo, perdas, função renal e efeito dos medicamentos. Uma planilha alimentar não equivale a uma dosagem laboratorial. [6, 7] Conhecer a alimentação ajuda a equipe de saúde a entender a exposição, mas não permite corrigir sintomas em casa com sal, água ou potássio. Na suspeita de alteração relevante, a avaliação pode envolver exames de sangue, função renal e eletrocardiograma. O tratamento depende do distúrbio identificado, não de um palpite baseado na definição muscular. Cortar água uma semana antes não é um ajuste inofensivo Outra prática criticada é cortar água uma semana antes da competição. A tentativa de controlar a aparência por restrições prolongadas ignora que o organismo regula continuamente água, sódio e circulação. O sistema renina-angiotensina-aldosterona participa dessa regulação. Mudanças de ingestão e de volume circulante podem acionar respostas compensatórias, de modo que reduzir água não produz uma retirada simples e seletiva do líquido que o atleta gostaria de eliminar. A revisão de Escalante e colaboradores sobre a semana final de preparação descreve essas limitações e os riscos de manipulações agressivas. [8] A própria musculatura contém água. Desidratar o corpo não garante preservar o volume muscular enquanto se elimina apenas água sob a pele. Quando restrição hídrica e diuréticos entram juntos, a preocupação ultrapassa a aparência e envolve a estabilidade circulatória e o equilíbrio de eletrólitos. [7, 8] Anabolizantes e a soma de riscos para o coração A combinação de substâncias pode afetar o coração por caminhos diferentes. Anabolizantes não são equivalentes a estimulantes, e ambos diferem de medicamentos que alteram a excreção de água e sais. A avaliação precisa considerar os efeitos de cada grupo e o estado de saúde de quem os utiliza. Em um estudo com homens experientes em musculação, o uso prolongado de esteroides anabolizantes esteve associado a pior função cardíaca e maior carga de aterosclerose coronariana. O desenho observacional não permite reconstruir a causa de uma morte individual, mas mostra por que um físico musculoso não é um indicador suficiente de saúde cardiovascular. [9] Uma investigação publicada em 2025 acompanhou registros de 20.286 fisiculturistas homens que participaram de competições da IFBB. Foram identificadas 121 mortes, das quais 46 foram classificadas como mortes súbitas cardíacas. Os profissionais apresentaram risco maior que os amadores dentro dessa população estudada. [10] Os pesquisadores trabalharam com informações públicas e disponibilidade limitada de dados clínicos e de autópsia. Esses resultados não demonstram que todos os óbitos foram causados por esteroides, não representam todo praticante de musculação e não esclarecem o caso de Mailson. Eles sustentam a necessidade de investigar o risco cardiovascular no esporte, sem substituir a apuração de cada morte. [10] Por que repetir um protocolo não garante segurança A analogia do queijo suíço ajuda a entender esse acúmulo: imagine várias fatias com furos em posições diferentes. Cada camada representa uma barreira de proteção que pode falhar. Se os furos se alinham, o problema atravessa todas elas. Na preparação, uma condição cardíaca, uma interação medicamentosa, uma alteração de eletrólitos e a demora para reconhecer sintomas podem se combinar. Ter atravessado competições anteriores sem uma emergência não demonstra que a próxima repetição será segura. Essa analogia descreve um modelo geral de risco. Ela não reconstitui os acontecimentos que levaram à morte de Mailson nem comprova quais barreiras teriam falhado em seu caso. Decisões concretas para não normalizar o perigo Confiar em um treinador não elimina interações medicamentosas nem substitui uma avaliação médica. O acompanhamento esportivo pode organizar treino e preparação, mas decisões clínicas exigem profissionais habilitados e acesso às informações de saúde do atleta. Perguntas que precisam ser respondidas antes de qualquer decisão O que está sendo usado? Informe à equipe de saúde todos os medicamentos, suplementos, estimulantes e produtos sem rótulo confiável. Inclua quantidade, frequência e mudanças recentes, sem esconder substâncias por receio de julgamento. Qual é a finalidade clínica? Diferencie tratamento de uma doença de uso para mudar a aparência. Um resultado estético não comprova que a exposição é necessária ou segura. Quais efeitos podem se somar? A revisão precisa abranger coração, pressão arterial, rins, hidratação e eletrólitos, conforme as substâncias e o quadro clínico. Quem acompanha alterações e sintomas? Uma orientação para continuar porque o campeonato está próximo não é resposta adequada a sinais de possível complicação. O que sustenta a orientação? Ter funcionado com outro atleta ou ter sido repetido em campeonatos anteriores não equivale a evidência de segurança. Ler estudos e entender mecanismos pode melhorar essas perguntas. Não transforma, porém, o atleta em alguém capaz de prescrever combinações para si mesmo. Tampouco um exame normal isolado garante que mudanças posteriores no protocolo serão seguras. Quando procurar atendimento imediatamente Dor no peito, falta de ar importante, desmaio ou palpitações acompanhadas de mal-estar intenso exigem atendimento de urgência. No Brasil, acione o SAMU pelo 192. Não espere o campeonato passar nem tente compensar a situação adicionando outro medicamento. [11] Fraqueza marcante ou dificuldade para movimentar os membros também precisa ser levada a sério, especialmente durante uso de diuréticos ou restrição de líquidos. Informe à equipe de atendimento tudo o que foi utilizado. Isso pode ser decisivo para a investigação. Conclusão A preparação se torna perigosa quando o espelho passa a orientar decisões que dependem de avaliação clínica. Empilhar substâncias, manipular água e eletrólitos e aceitar sintomas como parte obrigatória do processo são problemas concretos, mesmo sem ser possível atribuí-los a um atleta específico. A morte de Mailson Araújo merece respeito e apuração. A ausência de uma causa divulgada impede um diagnóstico à distância, mas não impede discutir como reduzir exposições perigosas. A decisão mais segura é não recorrer a anabolizantes e diuréticos por conta própria para alcançar uma aparência de palco. Quem já utiliza essas substâncias deve procurar atendimento e relatar seu uso com franqueza. Medicamentos prescritos para uma doença não devem ser alterados sem orientação. Este texto é informativo e não substitui avaliação individual por profissionais de saúde. FAQ Está confirmado que Mailson Araújo morreu por uso de anabolizantes? Não nas fontes consultadas. As reportagens informaram a morte, mas não apresentaram uma causa estabelecida que permitisse atribuí-la a anabolizantes ou a outra substância. Fotos e proximidade de competição não substituem essa investigação. Todo diurético aumenta o potássio? Não. Poupadores de potássio, como a espironolactona, podem elevá-lo. Diuréticos de alça, como a furosemida, podem reduzi-lo. As duas alterações podem ser perigosas, e combinar medicamentos não permite prever uma compensação segura. Clenbuterol é a mesma coisa que hormônio tireoidiano? Não. Clenbuterol é um agonista beta-2 adrenérgico. Hormônios tireoidianos pertencem a outra classe. Ambos podem produzir efeitos graves quando usados indevidamente, mas não devem ser tratados como substâncias equivalentes. Já ter feito uma preparação parecida significa que posso repeti-la? Não. O estado de saúde, a função renal, as interações e as condições de hidratação podem mudar. A ausência de uma emergência anterior não valida a segurança de um protocolo. Palpitações e falta de ar são normais na semana da competição? Não devem ser normalizadas por causa da preparação. Se houver falta de ar importante, dor no peito, desmaio ou palpitações com mal-estar intenso, procure urgência e acione o SAMU pelo 192. Informe todas as substâncias utilizadas. Referências COACH KOLTON. Bodybuilders Are Dying For NOTHING. YouTube, 2 ago. 2026. 1 vídeo (18 min 18 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aJFRma7SPvc. Acesso em: 6 set. 2026. MAZZOTTO, Camila. Fisiculturista baiano morre aos 35 anos de parada cardíaca; entidade alerta para riscos dos anabolizantes. VEJA, 14 jul. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/fisiculturista-baiano-morre-aos-35-anos-de-parada-cardiaca-entidade-alerta-para-riscos-dos-anabolizantes/. Acesso em: 6 set. 2026. SANTANA, Pedro. Quem era Mailson Araújo, fisiculturista baiano que faleceu aos 35 anos. Metrópoles, 14 jul. 2026. 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Acesso em: 6 set. 2026. VECCHIATO, Marco et al. Mortality in male bodybuilding athletes. European Heart Journal, v. 46, n. 30, p. 3006–3016, 2025. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf285. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40393525/. Acesso em: 6 set. 2026. BRASIL. Ministério da Saúde. Dor torácica: sou paciente. Linhas de Cuidado, [s. d.]. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/dor-toracica/sou-paciente/. Acesso em: 6 set. 2026.
  35. Esse tópico tem sete meses de execução muito boa e uma pergunta que ficou sem resposta do começo ao fim, embora a resposta estivesse escrita em todas as atualizações. A @Bárbara abriu o relato dizendo qual era o problema dela: dificuldade de ganhar massa magra. Depois repetiu, quando perguntaram o objetivo, que queria volume. E os pesos que ela registrou foram estes: 60, depois 61,1, depois 59,5, depois 59,6, depois 59,8, depois 59,6, depois 59,8. Sete meses de dieta nota 100, cardio nota 100, hidratação nota 100, e o peso terminou 400 gramas abaixo de onde começou. Isso não é crítica ao esforço dela, que foi grande, nem às fotos, que mostram mudança real. É uma constatação aritmética: peso estável por sete meses significa, por definição, que o consumo estava igual ao gasto. Não havia superávit em nenhum momento. E sem superávit não existe ganho de peso. O que aconteceu com ela tem nome, e é um bom resultado: recomposição corporal. Ela perdeu gordura e ganhou alguma massa ao mesmo tempo, mantendo o peso. Isso acontece principalmente em quem retomou o treino depois de um período parado, que era exatamente o caso dela no pós parto. O problema não é o resultado. É que o objetivo declarado no primeiro post nunca foi nomeado como abandonado. A conversa passou a elogiar cintura fina, abdome aparecendo e quadríceps riscado, que são desfechos de quem está secando, e o pedido original era o contrário. Ela ficou feliz, e isso é legítimo. Mas quem lê o tópico hoje procurando aprender a ganhar massa vai encontrar um roteiro de definição. E vale dizer onde estava a conta, porque ela é simples. A dieta prescrita foi de 105 g de proteína, 180 g de carboidrato e 60 g de gordura. Isso dá em torno de 1.680 kcal. Some a isso caminhada ou HIIT, cinco treinos por semana e um bebê pequeno em casa. Para uma mulher de 1,66 m e 60 kg com essa rotina, isso não é dieta de ganho. Provavelmente é o gasto dela, e foi por isso que o peso não se moveu. Ela executou com precisão o protocolo, e o protocolo estava calibrado para outro objetivo. Se em algum momento ela retomar, a correção é chata e barata: manter o mesmo treino, acrescentar em torno de 300 kcal por dia, e conferir na balança depois de duas ou três semanas. Se o peso sobe devagar, é superávit. Se não sobe, não é. Agora quatro pontos técnicos que passaram sem revisão. O primeiro é sobre a amamentação, e é a correção que eu acho mais importante para quem lê. Quando ela contou que estava exausta, foi dito que, comendo muito ou pouco, a fábrica de leite mantém a mesma qualidade. Isso é uma simplificação que circula muito e que precisa de ajuste. É verdade que a composição básica do leite materno é notavelmente estável, e que o corpo prioriza o leite mesmo sob restrição, porque quem paga a conta é a mãe, e não o bebê. Mas existem componentes que acompanham o consumo materno: o perfil de gordura, incluindo os ômega 3 de cadeia longa, e várias vitaminas, entre elas B1, B12, vitamina D e iodo. E, o que importa mais no contexto daqui, restrição calórica acentuada em lactante costuma afetar a produção e esgota os estoques dela. Ou seja, a frase acalma no ponto certo, que é o bebê, mas não autoriza dieta muito restrita durante a lactação. Lactante em déficit precisa de acompanhamento, não de mais desconto na comida. No caso específico dela isso acabou não se aplicando, porque ela respondeu que tinha parado de amamentar com um mês de vida do bebê. Mas a informação ficou registrada no tópico para todas as outras mães que estão lendo, e várias estão. O segundo é o desjejum prescrito no fim, com suco de limão com gengibre e uma colher de sopa de vinagre de maçã. Não há evidência de que essa combinação faça diferença em gordura corporal, e o efeito de vinagre de maçã em estudos é pequeno e inconsistente. Isso, por si, não é problema, porque também não faz mal. O detalhe prático é outro, e vale para quem já tem sensibilidade dentária: vinagre e limão em jejum, todo dia, são ácidos em contato direto com o esmalte, que não se regenera. Se for manter, o mínimo é diluir bem, tomar com canudo e não escovar os dentes logo depois, porque escovar sobre o esmalte amolecido piora o desgaste. Ela inclusive passou por cirurgia dentária no meio do relato. O terceiro é a vitamina D em 4.000 UI por dia, também prescrita sem exame. Esse valor é exatamente o limite superior tolerável para adultos em uso continuado. Não é uma dose absurda, mas é o teto, e ela está sendo dada sem saber qual era o ponto de partida. O certo é o inverso: dosar, repor conforme o resultado e reavaliar. Vitamina D em excesso crônico produz hipercalcemia, e é um dos poucos suplementos em que exagerar tem consequência real. O quarto é a refeição livre de duas horas, liberada semanalmente. Duas horas de comida livre não é uma refeição, é uma janela. E ela mesma descreveu o que acontece: comi doces e salgado, dessa vez não consegui comer pouco, e depois a sensação de inchaço. Numa dieta de 1.680 kcal, uma janela dessas pode facilmente devolver boa parte do saldo da semana. Isso explica, junto com o resto, por que o peso ficou parado mesmo com adesão altíssima. E, se o objetivo fosse ganhar, nem seria problema. Como o objetivo virou definir, virou. Agora as coisas que foram feitas certo, e foram várias. A orientação de tirar fotos e peso dois dias depois do fim do período menstrual foi excelente, e quase ninguém faz. Retenção pré menstrual muda peso e medida por dias e não tem nada a ver com gordura. Padronizar o dia da medida elimina de graça a maior fonte de ruído que existe em avaliação feminina. A periodização alternando blocos de força e de hipertrofia, montada pelo @Batata..., também foi bem conduzida, e ele disse uma coisa correta e pouco repetida: não existe faixa de repetição que seja obrigatória para força, resistência ou hipertrofia, porque o que decide é a combinação de carga, execução e proximidade da falha. E o mais importante de tudo, que merece ser dito com todas as letras: o @Apollo Galeno respondeu, no terceiro post do tópico, que não havia indicação de esteroide naquele momento e que primeiro seriam ajustados dieta, cardio e treino. Ele manteve isso por sete meses, com uma mulher de 26 anos e resposta boa ao treino, num fórum onde a pressão costuma ir no sentido oposto. Isso é conduta correta e é raro. Faltou só uma coisa, e é a que eu acrescentaria. Faltou alguém somar a coluna dos pesos e dizer a ela, sem rodeio: o que você está executando está impecável, e está indo para o lado oposto do objetivo que você escreveu no primeiro post. Você não está com dificuldade de ganhar massa magra. Você está comendo a quantidade exata para não ganhar peso nenhum. E uma última observação sobre a leitura que ficou no tópico. Foi dito, logo no início, que a genética dela era boa e que dava para ver a linhagem. Pode ser. Mas o que mudou nas fotos ao longo desses meses foi sete meses de comida pesada, cardio feito e carga subindo, com um bebê em casa. Atribuir isso a linhagem tira dela justamente o crédito do que ela fez, e passa a mensagem errada para quem lê e acha que não tem a mesma sorte. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  36. Esse relato tem uma linha que atravessa todas as 20 páginas e que ninguém tratou como o assunto principal, embora fosse. A @Sereiafit é cantora. E o tema da voz aparece já na segunda semana do ciclo, volta em novembro, volta em dezembro, volta em janeiro e reaparece no fim, depois da boldenona, com a frase que fecha a história: a voz lascou de vez. Quero começar por aí, porque é o ponto em que a conversa do tópico levou o assunto para o lado errado. Quando ela relatou rouquidão, a explicação que circulou foi de esforço vocal e de garganta. Foi dito para evitar cantar durante o ciclo, para não ensaiar, para não beber água gelada, para poupar as cordas. E ela mesma escreveu, mais de uma vez, que a rouquidão devia ser da garganta inflamada e do tempo seco de Cuiabá. O problema é que esses dois quadros são diferentes e só um deles volta atrás. Rouquidão por inflamação, por esforço vocal ou por ar seco é da mucosa, e melhora com repouso e hidratação. A alteração vocal por androgênio não é da mucosa: é uma mudança estrutural da prega vocal, com espessamento do epitélio, da lâmina própria e da fibra muscular. É o mesmo processo da puberdade masculina, e ele não é reversível de forma confiável. A literatura descreve casos de virilização vocal permanente inclusive após uso curto, com melhora apenas parcial depois da interrupção. E o que ela descreveu era o quadro estrutural, não o inflamatório. Ela escreveu, em novembro: falando a voz é a mesma, porém perdi a força, voz falhando ao cantar, grave mais limpo e não alcanço agudos. Perder agudo e ganhar grave limpo não é garganta inflamada. É exatamente o desenho da alteração androgênica, e ele apareceu na sexta semana do ciclo. A @Loirafitness escreveu no mesmo tópico que, um ano depois do stanozolol, ainda não conseguia mais algumas notas. Estava dando o desfecho antes da hora, e passou como comentário lateral. Vale dizer com todas as letras, porque é a parte que muda decisão: entre os sinais de virilização, acne, oleosidade, retenção, libido e alteração de fluxo regridem quando se para. O engrossamento da voz e o aumento do clitóris, não. Nesses dois, não existe observar e ver se piora, porque observar é esperar dentro do dano. E há uma sugestão prática que custa nada e vale mais que qualquer descrição: gravar trinta segundos de voz no celular, sempre no mesmo horário, uma vez por semana. A mudança é gradual e o ouvido se acostuma. A gravação não se acostuma. Para quem canta, vale gravar também uma escala subindo, porque o agudo é o primeiro a ir. Agora a escolha seguinte, que é onde a farmacologia explica o desfecho. Depois da oxandrolona, ela passou para boldenona, 100 mg por semana. E foi nesse ciclo que a voz se perdeu de vez. O undecilenato de boldenona tem meia vida da ordem de duas semanas, com detecção que se estende por meses. A oxandrolona tem meia vida em torno de 9 horas. Isso não é um detalhe de conveniência. Como parte dos sinais de virilização é irreversível, o valor inteiro de um composto de ação curta está em poder interromper no dia em que o sinal aparece e ter a exposição caindo depressa. Com éster longo, no dia em que a voz muda ainda restam semanas de droga circulando, e não existe como acelerar isso. Para mulher, meia vida curta não é conveniência. É a margem de segurança inteira. Ou seja, ela já tinha demonstrado sensibilidade vocal na oxandrolona, que era o composto do qual dava para sair rápido, e a etapa seguinte foi justamente aquela da qual não dava. Agora o cabelo, que foi o outro colateral forte e que também recebeu uma explicação que precisa de ajuste. Foi dito no tópico que esteroides à base de di hidrotestosterona, como a oxandrolona, geram bastante queda de cabelo, e que por isso o gel de testosterona seria a alternativa melhor. A primeira parte é razoável. A segunda não se sustenta. A queda de padrão androgenético depende de di hidrotestosterona formada no próprio folículo, a partir da testosterona, pela 5 alfa redutase. Testosterona em gel fornece justamente o substrato dessa conversão. Não existe base para tratar o gel como opção segura para o cabelo, e o que determina o desfecho é a sensibilidade individual do folículo, que varia enormemente de pessoa para pessoa. Aliás, foi citado no tópico um exame com di hidrotestosterona alta e nenhuma queda de cabelo. É exatamente a demonstração do ponto: o valor no sangue não prevê a queda, porque o que decide é o que acontece dentro do folículo. Há, no relato dela, uma distinção que vale muito e que ninguém fez. Existem dois tipos de queda diferentes aqui. O eflúvio telógeno é uma queda difusa, que aparece semanas depois do estímulo, dura alguns meses e se recupera sozinha. A queda de padrão androgenético é o afinamento progressivo do fio, com miniaturização do folículo, e essa não volta sozinha. A descrição dela tem elementos dos dois: queda intensa e difusa que começou cedo, seguiu depois do fim do ciclo e veio junto de crescimento acelerado dos pelos. Isso é bom sinal quanto ao volume que ela recuperaria. Mas ela também escreveu que o cabelo estava mais ralo, e isso é o que precisa de olho de dermatologista, porque afinamento é outra história. E, sobre o minoxidil que ela cogitou: é o tratamento com melhor evidência para queda de padrão feminino, e funciona melhor quanto mais cedo se começa. Só um cuidado, porque aparece muito por aqui: finasterida não é opção para mulher em idade fértil, por risco de malformação em feto masculino. Agora um ponto que ficou literalmente sem resposta no tópico e que era o mais objetivo de todos. Ela perguntou se poderia usar fluconazol, um comprimido por semana durante três meses, prescrito pelo dermatologista para uma unha, enquanto tomava oxandrolona. Ninguém respondeu. A resposta certa não é sim nem não vindo de fórum, e sim: essa pergunta volta para quem prescreveu. O motivo é concreto. O fluconazol tem elevação de enzimas hepáticas entre os efeitos descritos, e a oxandrolona é um oral 17 alfa alquilado, ou seja, uma molécula modificada exatamente para resistir ao metabolismo hepático, e é essa modificação que se associa à sobrecarga do fígado. São dois agentes com carga hepática somando ao mesmo tempo, por três meses. Isso não significa que não se possa fazer. Significa que quem prescreveu precisa saber do outro, e que hepatograma no meio do caminho deixa de ser opcional. E vale a mesma lógica para a enxaqueca, que também virou tema aqui. Ela tem enxaqueca crônica e ficou sem tomar nada porque leu que não podia. Depois recebeu a orientação de cortar o leite, com a afirmação de que em dois meses a enxaqueca poderia estar curada e de que leite é um péssimo alimento. Preciso discordar. Dieta de exclusão para enxaqueca tem evidência fraca e resultado individual, e laticínio não é gatilho estabelecido para a maioria das pessoas. Testar é legítimo, e não custa nada, mas apresentar como cura provável é ir muito além do que se sabe. E, no caso específico dela, que estava em dieta com proteína contada, cortar leite e queijo tem um custo imediato de proteína e cálcio. O ponto de fundo é outro: enxaqueca crônica não se trata apagando incêndio com o que tem na gaveta. Ela tem tratamento preventivo, e quem toma analgésico com frequência alta corre risco de cefaleia por uso excessivo de medicação, que é justamente a armadilha em que se cai tentando resolver crise a crise. É consulta, não fórum. Agora o item que eu considero o mais útil do tópico inteiro para quem lê hoje, porque ele reaparece em todo lugar. Ela contou que os exames vieram normais, exceto a creatino quinase, e que a leitura foi de que o treino não estava pegando, porque as fibras não estariam rompendo. Isso não procede. A creatino quinase mede dano muscular recente, e ela varia de forma enorme entre pessoas, com o horário da coleta, com o tempo desde o último treino e com o quanto aquele treino era novo. E existe um fenômeno bem descrito: quem já está adaptado a um estímulo apresenta resposta menor de creatino quinase ao repeti lo. Ou seja, valor baixo em quem treina há anos é compatível com adaptação, e não com treino insuficiente. Não existe faixa de creatino quinase que signifique treino bom. E o mesmo vale para a frase dela, que é a crença mais difundida da academia: o que dói é o que cresce. Dor muscular tardia é sinal de estímulo pouco habitual, não de hipertrofia. Ela cai à medida que a pessoa se adapta, justamente enquanto os ganhos continuam acontecendo. Quem persegue dor acaba trocando de exercício o tempo todo e perdendo a única coisa que realmente prevê resultado, que é progressão de carga registrada ao longo das semanas. Sobre a dose, já que foi tema recorrente. Ela usou 40 mg no primeiro ciclo, 10 mg neste, e voltou várias vezes à ideia de subir para 15 ou 20 mg por achar que tinha estagnado. Duas coisas aqui. A primeira é que 20 mg por dia é o teto de bula da oxandrolona para adulto, e 40 mg era o dobro disso. A segunda é que a estagnação que ela descreveu tem explicação nos próprios posts dela: foram exatamente as semanas em que ela relatou pular refeições por causa de estresse, viagem e problemas pessoais, e ela mesma escreveu isso. Não faltava dose. Faltava comida. Esse é o padrão mais comum de todos os relatos daqui, e ele merece ser dito de forma direta: quando o resultado trava, a primeira variável a conferir é a que não custa nada, que é o que entrou no prato. E fecho com o que eu acho de verdade desse relato. Ela saiu de 45 kg magra e sem massa para um shape que motivou dezenas de mulheres a abrir os próprios relatos, com três filhos, diástase, viagens a trabalho e marmita na mala. Levantou 70 kg no agachamento livre e 150 kg no leg. Manteve dieta em restaurante de estrada. Isso é trabalho, e é o que produziu a maior parte do que apareceu nas fotos. O que eu mudaria não é o esforço. É a ordem em que os sinais foram lidos. Ela tinha, na sexta semana, a informação mais importante do ciclo inteiro na própria garganta, e essa informação foi interpretada como clima seco. Se um dia ela retomar, o critério é esse: com voz já alterada, e sendo cantora, o que está em jogo não é estética, é o instrumento de trabalho. E é a única coisa desse relato que não dá para recuperar treinando mais. Uma última observação, sobre o implante de gestrinona que ela cogitou por causa da endometriose. Em outubro de 2024 a Anvisa suspendeu a fabricação, a manipulação, a venda e a divulgação dos implantes hormonais manipulados, os chamados chips, justamente por falta de comprovação de segurança e eficácia nessa forma de uso. Endometriose e ovário policístico têm tratamento com indicação, e essa é uma conversa com ginecologista. Para quem quiser entender quais exames costumam entrar antes, durante e depois, e o que cada um responde, o site tem um orientador de protocolo hormonal simulado em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ . A saída é simulada e serve como rascunho de estudo, não como prescrição. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
  37. Trocar o lanche por uma barra proteica, acrescentar whey a uma dieta já farta e escolher até a água pela quantidade de proteína pode aumentar a conta do supermercado sem melhorar a alimentação. A proteína é indispensável, mas existe uma diferença entre atender à necessidade do corpo e transformar cada refeição em uma disputa para consumir mais. Em “PROTEÍNAS: BENEFÍCIOS REAIS e EXAGEROS - Live do Bastter”, do canal Bastter.com, o apresentador defende uma alimentação variada e critica a ideia de que mais proteína sempre significa mais músculo ou mais saúde. Esse alerta é útil, desde que venha acompanhado de duas distinções: a necessidade diária varia entre pessoas, e suplementos podem ter utilidade quando resolvem uma necessidade concreta. [1] Para que a proteína serve além de construir músculos Proteínas são formadas por aminoácidos e participam da estrutura e do funcionamento do organismo. Elas entram na construção e no reparo dos tecidos, compõem anticorpos, atuam como enzimas na digestão e no metabolismo e integram a hemoglobina, responsável pelo transporte de oxigênio no sangue. Até o movimento depende de proteínas como a actina e a miosina, que permitem a contração muscular. Uma ingestão adequada também ajuda na recuperação do exercício e na preservação muscular ao longo do envelhecimento. A proteína pode favorecer a saciedade, e sua digestão e metabolização exigem energia. Esse efeito térmico, porém, não elimina suas calorias nem transforma qualquer aumento da ingestão em emagrecimento. Carboidratos continuam sendo um combustível relevante para as atividades e o treinamento. Gorduras participam das membranas celulares, da produção de hormônios esteroides e da absorção de vitaminas lipossolúveis. Frutas, verduras, legumes, aveia, batatas, abacate, castanhas e azeite têm funções na alimentação que não desaparecem quando a quantidade de proteína aumenta. Mais proteína não produz mais músculo sem limite O músculo precisa de estímulo do treinamento, recuperação e nutrientes para se adaptar. Acrescentar proteína pode ajudar quando a ingestão é insuficiente, mas continuar aumentando depois que a necessidade está atendida não garante um ganho proporcional de massa muscular. Uma meta-análise de Morton e colaboradores reuniu 49 estudos, com 1.863 participantes, e identificou benefícios da suplementação proteica sobre os resultados do treinamento de força. Na análise da ingestão total, os ganhos médios adicionais de massa livre de gordura deixaram de aumentar claramente acima de aproximadamente 1,6 g de proteína por quilograma de peso corporal ao dia. Esse resultado descreve uma média dos estudos, com incerteza estatística. Não é um teto biológico rígido, uma meta obrigatória para todo adulto ou uma regra que cubra todas as situações esportivas e clínicas. [2] Para visualizar a conta, 1,6 g/kg corresponde a cerca de 112 g por dia para uma pessoa de 70 kg. O exemplo mostra por que o peso corporal muda a interpretação da quantidade diária. Não define sozinho quanto essa pessoa deve comer, sobretudo se houver doença, restrição energética ou outro contexto que exija avaliação individual. O que acontece com a proteína que não vira músculo? Os aminoácidos também podem ser utilizados em outras funções e como fonte de energia. Durante seu metabolismo, parte do nitrogênio é convertida em ureia e eliminada pela urina. A porção restante da molécula pode seguir outras vias metabólicas. Isso não significa que toda proteína acima de uma meta saia intacta pelos rins. Se alguém precisasse de 150 g por dia, passar a consumir 300 g não duplicaria automaticamente a hipertrofia. Também seria incorreto concluir que exatamente 150 g de proteína seriam simplesmente descartados na urina. Necessidade nutricional, aproveitamento metabólico e ganho muscular são conceitos diferentes. Proteína em excesso pode contribuir para ganhar gordura? Proteína fornece aproximadamente 4 kcal por grama. Essas calorias entram no balanço energético. O corpo pode aumentar o uso de aminoácidos como combustível e modificar a utilização de outros nutrientes, inclusive gordura. Se a alimentação mantiver um excedente de energia, consumir muita proteína não impede o acúmulo de gordura corporal. Em um experimento controlado de Bray e colaboradores, 25 adultos receberam dietas com diferentes proporções de proteína e aproximadamente 40% de energia além da manutenção durante oito semanas. O ganho de gordura foi semelhante entre os grupos, embora a proteína tenha influenciado massa magra e gasto energético. O resultado reforça que as calorias continuam relevantes. Não demonstra que qualquer ingestão acima da necessidade proteica engorde na ausência de excedente energético. [3] 100, 150 ou 200 g por dia: o tamanho da porção muda a conta Bastter usa 100 a 150 g de proteína por dia como uma aproximação para a maioria das pessoas e apresenta refeições comuns para mostrar que suplementos não são obrigatórios. A faixa, porém, não pode ser aplicada indistintamente a praticamente toda a população. Peso corporal, idade, quantidade de atividade, objetivo, ingestão energética e condições de saúde precisam entrar na avaliação. O primeiro exemplo combina um filé de frango e um filé de peixe, estimados em cerca de 60 g de proteína. Ovos, feijão e os demais alimentos completariam o dia. Para uma pessoa maior e que treina bastante, a ilustração passa a dois filés de frango no almoço e dois de peixe no jantar, estimados em aproximadamente 120 g de proteína. Quatro ovos levariam a soma para perto de 150 g, e iogurte e acompanhamentos ajudariam a chegar a 200 g. A combinação pode fornecer bastante proteína, mas “um filé” não é uma unidade de peso. Um corte pequeno e outro grande não entregam a mesma quantidade. A espécie do peixe, o tamanho dos ovos e o peso do alimento cru ou preparado também mudam os valores. Por isso, aquela sequência não garante 200 g por dia e não deve ser copiada como um cardápio pronto. Quatro ovos com aproximadamente 50 g de parte comestível cada fornecem perto de 27 g de proteína, pela composição do ovo cozido na TACO. [4] Como conferir a quantidade sem confundir alimento com nutriente Uma porção de 100 g de frango não contém 100 g de proteína. Na Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, o peito sem pele grelhado tem aproximadamente 32 g de proteína por 100 g. O peso considerado é o do alimento já preparado. Usar esse valor para 100 g de peito cru cria uma conta diferente da composição consultada. [4] As referências abaixo ajudam a entender a ordem de grandeza. São valores aproximados de composição, não porções prescritas. As medidas se referem à parte comestível e ao estado de preparo indicado. [4] AlimentoQuantidade consideradaProteína aproximada Peito de frango sem pele, grelhado100 g32 g Ovo de galinha inteiro, cozido50 g sem casca6,7 g Arroz branco tipo 1, cozido120 g3 g Feijão carioca, cozido100 g4,8 g Aveia em flocos, crua30 g4,2 g Lentilha, cozida100 g6,3 g Arroz, pão, aveia e batata também contribuem para a ingestão proteica, mesmo quando são lembrados principalmente como fontes de carboidrato. Feijão e lentilha acrescentam proteína e fibras. Contar apenas a carne e ignorar todos os acompanhamentos subestima o total. A estimativa de 3 g de proteína em quatro colheres de arroz depende do tamanho da colher e de quanto ela está cheia. Pela TACO, 120 g de arroz branco cozido fornecem aproximadamente esses 3 g. Já os acréscimos de 10 a 12 g por refeição ou de 15 a 20 g ao longo do dia dependem das quantidades de feijão, arroz, aveia e outros alimentos. Não são valores fixos que possam ser acrescentados à conta de qualquer prato. [1, 4] Quando a busca por proteína empobrece a alimentação Existe um limite prático para o volume de comida e para as calorias que cabem no dia. Se carne, ovos e produtos proteicos ocuparem quase todo esse espaço, frutas, verduras, leguminosas e cereais podem ficar de fora. A dieta passa a ter mais proteína e, ao mesmo tempo, menos variedade. A hipótese de dedicar 70% a 80% da dieta à proteína ilustra esse extremo. Não se trata de uma proporção recomendada, e a expressão não esclarece se o percentual se refere às calorias ou ao volume de alimentos. A consequência relevante é deixar outros grupos alimentares sem espaço. Carne, peixe, frango e ovos praticamente não fornecem fibras. Feijão, lentilha, aveia, frutas e hortaliças ajudam a suprir essa necessidade. Uma refeição de carne com ovos pode fazer parte da rotina, mas repetir uma alimentação quase restrita a esses itens não reproduz os benefícios de uma dieta variada. O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados, em grande variedade, sejam a base da alimentação. [5] Emagrecer com uma dieta restritiva não comprova sua qualidade Uma dieta carnívora pode reduzir o peso de alguém, mas a balança não informa, sozinha, se a alimentação atende às necessidades nutricionais. A exclusão de alimentos vegetais compromete a oferta de fibras, e a resposta do colesterol precisa ser avaliada individualmente. Perder peso e manter uma alimentação adequada são objetivos que precisam ser examinados juntos. O mesmo cuidado vale para a escolha das carnes. Variar entre peixe, frango, ovos e leguminosas evita fazer da carne vermelha a única fonte proteica. Bacon, linguiça, salsicha e salame não devem ser tratados como equivalentes nutricionais de um corte fresco apenas porque também fornecem proteína. Teor de sódio, gordura e processamento importam para a escolha. [5] “Proteico” no rótulo não é um atestado de alimento saudável Cookie, chocolate, sorvete, pão, barrinha, shake, bebida e até água podem ser vendidos com apelo proteico. O nutriente adicionado não apaga o restante da composição. Um produto pode fornecer proteína e, ao mesmo tempo, concentrar açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio. Também pode custar mais sem resolver uma necessidade alimentar. Isso exige leitura do rótulo, não condenação automática de toda a categoria. Existem formulações diferentes, e nem todo produto proteico tem muito açúcar. Para decidir, compare a porção realmente consumida, a quantidade de proteína, a lista de ingredientes e os demais nutrientes. Depois considere o que ele vai substituir: uma conveniência ocasional e uma refeição habitual têm consequências diferentes. Estar em uma embalagem não torna um alimento ultraprocessado. Leite pasteurizado ou UHT sem adições, iogurte natural sem açúcar adicionado, grãos embalados e carnes congeladas podem ser alimentos minimamente processados. O critério é a natureza do processamento e da formulação, não a presença de uma caixa, pote ou saco. [5] Whey: ferramenta possível, obrigação inexistente Whey é uma fonte concentrada de proteínas do soro do leite. Ele pode ajudar a complementar a ingestão quando a alimentação habitual não atende à necessidade ou quando oferece uma conveniência útil. Não é requisito para começar musculação, nem produz um benefício ilimitado quando somado a uma ingestão já suficiente. Antes de comprar, vale verificar se realmente falta proteína, quanto falta e se a dificuldade pode ser resolvida com a rotina alimentar. Ovos, leite, iogurte, feijão, frango e peixe oferecem possibilidades diferentes de custo, preparo e composição. A vantagem de comer esses alimentos está no conjunto da dieta. Carne e ovos, por exemplo, não passam a fornecer fibras só por serem comida. A suplementação não é exclusiva de atletas profissionais. A meta-análise sobre treinamento de força identificou benefícios em adultos saudáveis, embora eles não aumentem indefinidamente com a ingestão. Em pessoas idosas com baixa ingestão ou risco de desnutrição, intervenções alimentares e suplementos nutricionais também podem fazer parte do cuidado. Suplemento nutricional completo, porém, não é sinônimo de whey isolado: o problema pode envolver energia e outros nutrientes além de proteína. [2, 6] A procedência merece atenção, mas não é correto presumir que todo suplemento contenha contaminantes ou hormônios. Confira fabricante, ingredientes, lote, validade e situação sanitária pelos canais oficiais. A Anvisa orienta a consulta da regularização de suplementos em seu sistema de alimentos. [7] Proteína faz mal aos rins? O contexto muda a resposta Uma ingestão maior pode aumentar a filtração glomerular, isto é, a quantidade de líquido filtrada pelos rins. Essa resposta fisiológica, isoladamente, não comprova que ocorreu uma lesão renal. Uma meta-análise de Devries e colaboradores avaliou 28 estudos, com dados de 1.358 participantes sem doença renal. A comparação da mudança da filtração entre dietas com mais e menos proteína não mostrou efeito adverso sobre esse indicador. Havia limitações metodológicas, e o resultado não permite garantir a segurança de qualquer quantidade por tempo ilimitado. Também não autoriza transportar a conclusão para quem já tem doença renal. [8] Doença renal crônica exige uma avaliação diferente. A diretriz KDIGO orienta controle da ingestão proteica em determinados estágios e situações de risco de progressão. Isso deve ser conciliado com o estado nutricional, a presença de fragilidade e outros tratamentos. Restringir proteína por conta própria pode agravar a desnutrição, e as necessidades de quem faz diálise não são as mesmas de todas as pessoas com doença renal. [9] Quem tem diagnóstico renal ou histórico de cálculos deve conversar com a equipe de saúde antes de elevar substancialmente a ingestão ou adotar suplementos. O tipo de cálculo e o conjunto da alimentação importam. [11] A frase “proteína destrói os rins” é tão pouco útil quanto uma promessa de segurança irrestrita. Como organizar as refeições sem transformar a conta em obsessão A quantidade diária pode ser estimada para orientar escolhas, sem exigir que toda pessoa pese cada alimento para sempre. Um registro temporário pode revelar que já há proteína suficiente ou, ao contrário, que determinadas refeições quase não oferecem esse nutriente. A decisão de acompanhar quantidades depende do objetivo e da necessidade de orientação. Contar macros não caracteriza, por si só, um transtorno alimentar. O sinal de atenção é a relação com o comportamento: ansiedade intensa ao sair da rotina, culpa frequente, restrições crescentes ou prejuízo à convivência merecem acolhimento e avaliação profissional. Uma estratégia alimentar deve ajudar a comer adequadamente, não tornar cada refeição uma fonte de sofrimento. Escolhas práticas para a rotina Identifique a proteína das refeições. Pode vir de frango, peixe, carne, ovos, leite, iogurte, feijão ou lentilha. Considere também a contribuição dos acompanhamentos. Preserve os vegetais e outros alimentos. Acrescentar um filé não exige retirar o feijão, a salada e a fruta. A quantidade de cada item depende do conjunto da dieta. Use combinações simples. Atum com cebola roxa, pepino, alho, azeite e pimenta é um exemplo de unir proteína e vegetais. Modere o sal acrescentado e considere o sódio da conserva. Aproveite cascas comestíveis quando apropriado. Maçã, batata e batata-doce podem ser consumidas com casca, com higienização e preparo adequados. Partes deterioradas, cascas não comestíveis e batatas verdes ou brotadas não entram nessa orientação. Ajuste os horários à rotina. Não é obrigatório comer a cada duas ou três horas. A ingestão nas 24 horas é uma referência central, e a distribuição pode ser ajustada conforme tolerância, treinamento e orientação nutricional. Compre suplemento para resolver uma necessidade identificada. A propaganda de “mais proteína” não demonstra que a dieta precise daquele produto. Idosos e pessoas com baixa ingestão precisam de atenção A falta de proteína não depende de alguém deixar de usar uma balança de cozinha. Ela pode acompanhar restrições alimentares prolongadas, dificuldade de acesso a alimentos, má absorção, doenças e ingestão insuficiente. Baixo apetite, perda involuntária de peso e dificuldades para mastigar ou engolir merecem investigação. Na população idosa, a ESPEN recomenda avaliação do risco nutricional e individualização da oferta de proteína e energia. A idade, sozinha, não obriga a comprar um suplemento, mas também não permite presumir que a alimentação esteja adequada. Conforme a avaliação, podem ser necessários ajustes das refeições, enriquecimento alimentar e suplementação nutricional. [6] Conclusão A proteína tem benefícios reais para tecidos, recuperação e manutenção muscular. O objetivo útil é suprir a necessidade com uma alimentação que também ofereça energia, fibras, vitaminas, minerais e variedade. Os exemplos de 100, 150 ou 200 g só ganham sentido quando relacionados à pessoa e às quantidades efetivamente consumidas. Treinar bem, conferir a composição das refeições e usar suplementos quando fizerem sentido é mais consistente do que escolher tudo pelo maior número de proteína no rótulo. Em caso de doença renal, perda involuntária de peso ou necessidade de uma meta individual, procure nutricionista e acompanhamento médico. Esta matéria é informativa e não substitui avaliação profissional. FAQ Todo mundo precisa de 100 a 150 g de proteína por dia? Não. Uma quantidade absoluta pode representar ingestões muito diferentes conforme o peso, a atividade, a idade e as condições de saúde. A faixa ajuda a visualizar exemplos, mas não substitui a definição individual da necessidade. Dá para ganhar massa muscular sem whey? Sim. É possível atender à necessidade com alimentos. Whey pode ser útil como complemento, mas o ganho muscular depende também do treinamento, da energia disponível e da recuperação. Proteína demais engorda mesmo sendo saudável? Pode contribuir para o ganho de gordura se fizer parte de um excedente energético mantido. Proteína tem calorias. Ultrapassar uma meta proteica, porém, não prova sozinho que exista excedente calórico ou que o ganho de gordura seja inevitável. É preciso comer de três em três horas para aproveitar proteína? Não existe essa obrigação para todos. Quantidade diária, conforto e rotina são prioridades. A distribuição entre refeições pode ser ajustada em situações esportivas ou clínicas específicas. Frango de granja recebe hormônios para crescer? O uso de substâncias hormonais para estimular o crescimento e a eficiência alimentar de aves é proibido no Brasil. O Conselho Federal de Medicina Veterinária esclarece que o crescimento rápido está relacionado à seleção genética, à alimentação e ao manejo. A proibição também vale para a produção convencional, independentemente do preço ou da marca do frango. A compra deve considerar procedência e inspeção. [10] Referências BASTTER.COM. PROTEÍNAS: BENEFÍCIOS REAIS e EXAGEROS - Live do Bastter. YouTube, 25 ago. 2026. 1 vídeo (44 min 27 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6a0zeC8d4hE. Acesso em: 5 set. 2026. MORTON, Robert W. et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, v. 52, n. 6, p. 376–384, 2018. DOI: 10.1136/bjsports-2017-097608. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28698222/. Acesso em: 5 set. 2026. BRAY, George A. et al. Effect of dietary protein content on weight gain, energy expenditure, and body composition during overeating: a randomized controlled trial. JAMA, v. 307, n. 1, p. 47–55, 2012. DOI: 10.1001/jama.2011.1918. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22215165/. Acesso em: 5 set. 2026. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos — TACO. 4. ed. rev. e ampl. Campinas: NEPA/UNICAMP, 2011. Disponível em: https://www.nepa.unicamp.br/arquivo/uploads/taco-4-edicao-ampliada-e-revisada/taco_4_edicao_ampliada_e_revisada/. Acesso em: 5 set. 2026. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/publicacoes-para-promocao-a-saude/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf/view. Acesso em: 5 set. 2026. VOLKERT, Dorothee et al. ESPEN practical guideline: Clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clinical Nutrition, v. 41, p. 958–989, 2022. DOI: 10.1016/j.clnu.2022.01.024. Disponível em: https://2022.espen.org/files/ESPEN-Guidelines/ESPEN_practical_guideline_Clinical_nutrition_and_hydration_in_geriatrics.pdf. Acesso em: 5 set. 2026. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Como saber se um suplemento alimentar é autorizado? Brasília, DF: Anvisa, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/alimentos/suplementos-alimentares/como-saber-se-um-suplemento-alimentar-e-autorizado. Acesso em: 5 set. 2026. DEVRIES, Michaela C. et al. Changes in Kidney Function Do Not Differ between Healthy Adults Consuming Higher- Compared with Lower- or Normal-Protein Diets: A Systematic Review and Meta-Analysis. The Journal of Nutrition, v. 148, n. 11, p. 1760–1775, 2018. DOI: 10.1093/jn/nxy197. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30383278/. Acesso em: 5 set. 2026. KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO) CKD WORK GROUP. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International, v. 105, supl. 4S, p. S117–S314, 2024. Disponível em: https://kdigo.org/wp-content/uploads/2024/03/KDIGO-2024-CKD-Guideline.pdf. Acesso em: 5 set. 2026. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA. Uso de hormônios na criação de aves é mito. Brasília, DF: CFMV, 22 dez. 2016. Atualizado em 31 out. 2022. Disponível em: https://www.cfmv.gov.br/uso-de-hormonios-na-criacao-de-aves-e-mito/comunicacao/noticias/2016/12/22/. Acesso em: 5 set. 2026. NATIONAL INSTITUTE OF DIABETES AND DIGESTIVE AND KIDNEY DISEASES. Eating, Diet, & Nutrition for Kidney Stones. Bethesda: NIDDK, [s. d.]. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/urologic-diseases/kidney-stones/eating-diet-nutrition. Acesso em: 5 set. 2026.
  38. Esse é um dos relatos mais completos do fórum. A @Degcastro começou, atualizou toda semana, postou fotos, fez exames e foi até o fim, que é justamente o que quase ninguém faz. Por isso mesmo vale discutir com seriedade a decisão tomada no último post, que passou como detalhe e é a mais importante de todas. Ela encerrou 13 semanas de oxandrolona e ia começar, no mesmo dia, um cruise com propionato de testosterona. A orientação foi para não esperar nada, começando no mesmo dia, para não haver crash hormonal e para aproveitar o SHBG baixo. Preciso discordar disso, e o motivo não é dose. O conceito de cruise foi importado da lógica masculina. Nela, o raciocínio é o seguinte: o androgênio exógeno suprime o eixo, a produção própria cai, e manter uma dose de manutenção evita o período de testosterona baixa que vem depois. Faz sentido dentro daquela lógica. Em mulher esse raciocínio não se transporta. A produção androgênica feminina vem do ovário e da adrenal em quantidade muito menor, e o que se descreve como crash depois de um ciclo curto em mulher não é comparável ao hipogonadismo masculino pós ciclo. Ou seja, o problema que o cruise resolve no homem não é o mesmo problema aqui. Mas há uma diferença que pesa muito mais, e é ela que muda a conta. Entre os efeitos de virilização, alguns regridem com a suspensão, como acne, oleosidade e alteração do fluxo menstrual. Dois não regridem de forma confiável: o engrossamento da voz e o aumento do clitóris. As alterações vocais vêm de mudança estrutural na prega vocal, e a literatura descreve casos permanentes inclusive após uso curto. E esses efeitos dependem de exposição acumulada. Um ciclo tem começo, meio e fim, e o intervalo é o que limita o total. Um cruise, por definição, não termina. Ou seja, para uma mulher, cruise é a estrutura que mais acumula exposição justamente na categoria de efeito que não volta atrás. É o oposto do que a farmacologia recomendaria para ela. E existe um problema imediato no caso específico dela, que ninguém ligou: os exames dela vieram com as enzimas hepáticas alteradas, e a própria conversa reconheceu isso ao dizer que o fígado estava um pouco sofrido. Com enzimas alteradas, a conduta é parar, esperar e repetir o exame, e não iniciar outro composto no mesmo dia. E, se as enzimas não normalizarem em algumas semanas fora do uso, é avaliação médica, porque nesse ponto a hipótese não é mais efeito esperado. Sobre a recomendação de consumir abacaxi para o fígado: não existe evidência de que abacaxi, bromelina, silimarina ou qualquer suplemento dito hepatoprotetor previna ou reverta lesão por oral 17 alfa alquilado. O que resolve é retirar o agente e dar tempo. Agora a discussão que ocupou metade do tópico, e que tem uma resposta que ninguém apresentou. Ela ficou semanas sem ver mudança no peso, e a conclusão coletiva foi que a oxandrolona era falsa ou subdosada. Ela chegou a ser aconselhada a jogar fora e comprar outra marca. Repare no que ela mesma tinha escrito no começo do tópico: mantinha 53 kg comendo 1.600 kcal por cinco meses, e depois passou a comer cerca de 1.900 kcal. Ou seja, ela estava, com muita coerência, comendo em torno da manutenção. E peso que não se move em quem come na manutenção é exatamente o resultado esperado, com oxandrolona ou sem. O que se questionou foi a droga. O que explicava era a aritmética. E vale desmontar a premissa que sustentou toda aquela conclusão, porque ela reaparece em quase todos os relatos femininos daqui: a ideia de que ausência de colateral significa produto fraco. Efeito colateral e efeito desejado vêm do mesmo receptor androgênico, mas em tecidos diferentes, com sensibilidades diferentes. Quanta acne, quanta oleosidade e quanta queda de cabelo alguém desenvolve depende de fatores individuais, como densidade de receptor e atividade da 5 alfa redutase na pele e no folículo. Isso não guarda relação com quanto músculo a pessoa ganha. Quem não sentiu colateral não recebeu produto ruim. Provavelmente teve a melhor sorte possível. E, na prática, ela terminou o ciclo com resultado visível e sem virilização, que é o melhor desfecho disponível. Uma nota sobre o argumento de aproveitar o SHBG baixo. É verdade que androgênios reduzem o SHBG e que isso eleva a fração livre. Mas isso é a descrição de um efeito, não uma janela de oportunidade: o SHBG volta a subir quando o androgênio sai, e não existe ganho que se perca por esperar duas semanas. Agora três pontos práticos. O primeiro é a dor lombar em queimação do lado esquerdo, que ela relatou como colateral e que ficou sem resposta objetiva. Dor em queimação na região de flanco não é achado típico de oxandrolona. As causas que precisam ser afastadas primeiro são as urinárias, ou seja, infecção e cálculo renal, e o quadro tem sinais próprios: dor que vem em ondas, irradia para a virilha, febre, ardência ao urinar, urina turva ou com sangue. Se qualquer um desses aparecer, é atendimento no mesmo dia. Vale dizer também que ela estava fazendo jejum prolongado, dieta com proteína alta e três litros de água, o que torna a hidratação a variável mais fácil de conferir. O segundo é a ioimbina que ela cogitou usar, em 5 mg ao acordar e 5 mg antes do treino, junto com HIIT que se pretendia levar para cinco vezes por semana. Dois pontos aqui. A ioimbina é medicamento, e não suplemento, e o efeito dela é adrenérgico: eleva frequência cardíaca e pressão arterial, e produz ansiedade, tremor e insônia com facilidade. Somar isso a HIIT cinco vezes por semana e a cafeína pré treino é empilhar estímulo sobre o mesmo sistema. E há um problema de dose que é específico dessa substância. Numa análise de 49 produtos vendidos como suplemento de ioimbina, a maioria não informava a quantidade no rótulo, e entre os que informavam o conteúdo real variou de 23 a 147 por cento do declarado. Ou seja, quem toma 5 mg pelo rótulo pode estar tomando bem mais ou bem menos, e não tem como saber. Ela também precisa saber que ioimbina interage com antidepressivos, sobretudo os que agem na noradrenalina, com risco de elevação importante da pressão. Quem usa qualquer antidepressivo não deve associar sem falar com quem prescreveu. O terceiro é sobre o método de avaliação, e aqui é um elogio. Ela usou avaliação por sete dobras, sempre no mesmo lugar, e comparou 20 por cento com 18 por cento. Fazer sempre com o mesmo método é exatamente o procedimento correto, porque o erro do método passa a ser constante e a diferença fica interpretável. O único cuidado é não tratar o número absoluto como exato: adipômetro tem erro típico de três a cinco pontos percentuais. A tendência entre duas medidas iguais vale. O valor isolado, menos. E vale notar que ela fez algo que quase ninguém faz: procurou o médico antes, pediu exame, foi recusada, e mesmo assim conseguiu fazer os exames depois. A observação de que qualquer clínico geral pode solicitar esses exames estava correta e é útil para muita gente que lê isso. Sobre o plano seguinte, de boldenona para ganhar volume, deixo só o critério, porque ele vale para qualquer escolha futura dela. O undecilenato de boldenona tem meia vida muito longa, da ordem de duas semanas, com detecção que se estende por meses. Como parte dos sinais de virilização é irreversível, o valor de um composto de ação curta está em poder interromper no dia em que o sinal aparecer e ter a exposição caindo depressa. Com éster longo, no dia do sinal ainda restarão semanas de droga circulando, e não há como acelerar isso. Para mulher, meia vida curta não é conveniência. É a margem de segurança inteira. E é por isso que a oxandrolona, apesar do custo hepático, continua sendo a escolha mais defensável, e foi justamente a que ela usou. Uma última coisa, sobre o que de fato produziu o resultado. Ela saiu de 20 por cento para 18 por cento, mudou visivelmente nas fotos e ganhou consciência de treino e de dieta. E a leitura mais honesta do tópico foi a do próprio @Apollo Galeno, quando disse que a diferença provavelmente estava mais associada à dieta do que ao esteroide, e a da @Joaninha, que apontou que o valor maior foi ela ter aprendido a treinar e a comer. Ela passou o ciclo inteiro achando que a droga era falsa, e mesmo assim entregou o resultado. Isso responde sozinho qual das duas partes estava fazendo o trabalho. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.

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