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Mounjaro aumenta testosterona e fertilidade? Entenda a evidência
Prometer emagrecimento já tornou a tirzepatida um fenômeno. Associar a caneta a testosterona, libido e fertilidade amplia ainda mais o desejo pelo tratamento, mas mistura efeitos possíveis da perda de peso com benefícios diretos que não estão estabelecidos. Em “O que ninguém te contou sobre o MOUNJARO (A manipulação revelada)”, o médico Samuel Dalle Laste usa essas manchetes para questionar como argumentos de venda podem fazer um medicamento parecer solução para problemas muito diferentes. A crítica tem um núcleo importante: Mounjaro não é reposição hormonal nem tratamento aprovado para infertilidade. Ao mesmo tempo, chamar todos os benefícios de simples manipulação também perde uma parte da história. A tirzepatida é um medicamento eficaz para diabetes tipo 2 e, nas condições autorizadas, para controle crônico do peso. O ponto decisivo é separar indicação real, efeitos mediados pelo emagrecimento, riscos conhecidos e frases que ultrapassam a evidência. Da carta ao clique: por que o atalho ficou tão atraente A comparação começa com uma rotina de cerca de 200 anos atrás. Sem televisão, celular, rede social ou comida pronta na geladeira, dormir ao anoitecer, esperar uma carta e tolerar períodos de fome eram experiências mais comuns. Essa reconstrução é uma imagem retórica, não um retrato histórico completo, mas ajuda a explicar a mudança de expectativa: hoje, quase tudo promete velocidade, conveniência e recompensa imediata. O preço de R$ 299 em vez de R$ 300 resume a lógica de persuasão apresentada sob o rótulo de programação neurolinguística, ou PNL. A diferença de R$ 1 é mínima, porém o primeiro algarismo pode fazer o valor parecer mais baixo. A mesma arquitetura pode aparecer na comunicação em saúde quando uma manchete destaca um benefício secundário e esconde a cadeia causal, as limitações do estudo ou o perfil dos participantes. Tirzepatida cara, versão de origem duvidosa, produto trazido do Paraguai e formulação anunciada como manipulada entram nesse ambiente de desejo. O problema deixa de ser apenas decidir se um medicamento é indicado. Procedência, esterilidade, concentração, conservação e autenticidade também passam a determinar o risco. O que a tirzepatida faz de fato A tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1. Ela melhora a sensibilidade à insulina, aumenta a saciedade, reduz a ingestão de alimentos e retarda o esvaziamento gástrico, embora esse último efeito diminua com o tempo. Esses mecanismos ajudam no controle glicêmico e na redução de peso. No Brasil, a Anvisa autorizou Mounjaro para controle crônico do peso, junto de dieta de baixa caloria e aumento da atividade física, em adultos com IMC igual ou superior a 30 kg/m². A indicação também alcança adultos com IMC igual ou superior a 27 kg/m² quando existe pelo menos uma condição relacionada ao peso, como hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2. Os resultados que sustentaram essa indicação são relevantes. No SURMOUNT-1, as perdas médias na semana 72 ficaram entre 15% e 20,9% com tirzepatida, diante de 3,1% com placebo. No SURMOUNT-2, ficaram entre 13,4% e 15,7%, ante 3,3% no placebo. Portanto, a caneta não é uma fraude farmacológica. A distorção começa quando eficácia para obesidade vira promessa de corrigir diretamente qualquer problema associado ao excesso de gordura. Testosterona, libido e fertilidade não são indicações do Mounjaro As manchetes que provocaram a crítica apareceram em uma sequência específica: cerca de um mês antes, uma publicação teria associado Mounjaro à fertilidade feminina e masculina. Aproximadamente uma semana antes, outras mensagens teriam ligado o medicamento à libido, à ereção e ao aumento da testosterona. O emagrecimento pode participar dessas melhoras sem transformar a tirzepatida em terapia hormonal. Uma meta-análise com 24 estudos encontrou aumento de testosterona total após perda de peso em homens com obesidade. O ganho foi maior em quem perdeu mais peso, o que apoia a relação entre redução da adiposidade e recuperação do eixo hormonal em parte desses pacientes. Fertilidade exige ainda mais cautela. Uma revisão de ensaios randomizados encontrou mais gestações e nascidos vivos entre mulheres com sobrepeso ou obesidade submetidas a intervenções combinadas de dieta e exercício, mas os estudos eram pequenos e o resultado não se repetiu em todos os cenários de reprodução assistida. Não foram encontrados ensaios elegíveis em homens. Outra meta-análise concluiu que a melhora de fertilidade não foi estatisticamente significativa quando avaliadas mulheres com obesidade que não haviam sido recrutadas por infertilidade. A conclusão correta é mais estreita do que a publicidade sugere. Perder gordura e melhorar a saúde metabólica pode favorecer testosterona, função sexual, ciclo menstrual e chance de gestação em alguns grupos. Isso não prova que Mounjaro tenha ação hormonal ou pró-fertilidade direta, independente da perda de peso. Também não autoriza seu uso com a finalidade de engravidar ou elevar testosterona sem avaliação médica. Emagrecer também pode melhorar energia, sono e qualidade de vida. Já prometer melhora previsível de rinite, sinusite ou dermatite como se a tirzepatida corrigisse diretamente essas condições ultrapassa o que essa relação permite concluir. Uma associação mediada pela redução de peso não deve virar uma nova indicação do medicamento. O número de 94% precisa de contexto A afirmação mais contundente é que, de cada 100 pessoas que emagrecem com Mounjaro, 94 voltariam a engordar após interromper o tratamento. Nenhum estudo ou link foi identificado na descrição para sustentar exatamente essa proporção. O reganho é real e frequente, mas o número de 94% não deve ser tratado como estatística confirmada sem a origem. O SURMOUNT-4 oferece uma medida mais verificável. Primeiro, 783 adultos receberam tirzepatida por 36 semanas. Entre os 670 randomizados depois dessa fase, a perda média inicial havia sido de 20,9%. Nas 52 semanas seguintes, quem continuou usando o medicamento perdeu mais 5,5%, enquanto o grupo transferido para placebo recuperou em média 14% do peso corporal. Ao final de 88 semanas, 89,5% de quem continuou a tirzepatida preservou pelo menos 80% da perda inicial. Entre quem foi transferido para placebo, essa proporção foi de 16,6%. O ensaio confirma que interromper favorece reganho substancial. Ele não demonstra que 94 em cada 100 pessoas recuperam todo o peso e tampouco permite concluir que o tratamento seja um “fracasso total”. Obesidade é doença crônica. Medicamentos que controlam apetite e peso podem precisar de estratégia de manutenção, como ocorre com tratamentos de outras condições persistentes. Hábitos continuam essenciais, mas não anulam a biologia que favorece a recuperação do peso. Um casal com pedra na vesícula: alerta importante, prova insuficiente O caso clínico descrito envolve um casal que começou a usar Mounjaro aproximadamente 45 a 60 dias antes da consulta. Os dois teriam ultrassonografias anteriores sem cálculo, passaram a sentir dor atribuída inicialmente a gastrite e receberam diagnóstico de pedra na vesícula após o início do tratamento. A cronologia também é resumida como ocorrida dentro de quatro meses. Dois pacientes não provam causalidade. Faltam prontuários, exames, doses, velocidade de emagrecimento, fatores de risco e uma linha do tempo uniforme. Ainda assim, o episódio aponta para um risco reconhecido. Na bula americana, doença aguda da vesícula, incluindo colelitíase, cólica biliar e colecistectomia, apareceu em 0,6% dos adultos tratados com Mounjaro e em 0% no placebo nos ensaios controlados. A Anvisa também registra maior incidência de eventos gastrointestinais e relacionados à vesícula nos estudos de controle de peso. Dor abdominal persistente, sobretudo no lado direito superior, febre, vômitos ou pele amarelada exigem avaliação médica. A investigação não deve parar no rótulo de “gastrite”. Esvaziamento gástrico e anestesia: não existe pausa universal de três semanas A lentidão do trato gastrointestinal aparece como outro alerta. A tirzepatida retarda o esvaziamento gástrico, e alimento residual no estômago pode elevar o risco de regurgitação e aspiração durante anestesia geral ou sedação profunda. A frase de que nenhum anestesista realiza procedimento em usuário de Mounjaro e sempre exige três semanas de pausa é ampla demais. A orientação multissocietária divulgada em 2024 afirma que a maioria dos pacientes pode continuar agonistas de GLP-1 antes de cirurgia eletiva. O planejamento deve considerar fase de aumento da dose, intensidade dos sintomas gastrointestinais, dose utilizada e outras doenças que retardem o esvaziamento. Pacientes de maior risco podem receber dieta líquida por 24 horas, ajuste do plano anestésico, avaliação do conteúdo gástrico por ultrassom ou adiamento do procedimento. A bula informa que ainda não há dados suficientes para definir se mudar o jejum ou suspender temporariamente Mounjaro reduz a aspiração. A regra prática é avisar cirurgião, anestesista e prescritor, sem interromper por conta própria e sem adotar um prazo universal retirado da internet. Pancreatite é rara, mas não pode ser banalizada Pancreatite aguda integra os alertas do medicamento. Nos estudos clínicos reunidos na bula americana, houve 14 eventos confirmados em 13 pacientes tratados com Mounjaro, equivalentes a 0,23 caso por 100 pacientes-ano de exposição. Entre os comparadores, foram três eventos em três pessoas, ou 0,11 por 100 pacientes-ano. Em fevereiro de 2026, a Anvisa reforçou o risco para a classe dos agonistas de GLP-1, incluindo tirzepatida. Entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, o Brasil registrou 145 notificações de suspeita de eventos adversos e seis suspeitas com desfecho fatal. Notificação não prova que o medicamento causou cada caso, mas funciona como sinal de farmacovigilância que merece investigação. Dor abdominal intensa e persistente, com possível irradiação para as costas, náuseas e vômitos exige atendimento imediato. O uso fora de indicação, a automedicação e a dificuldade de reconhecer sintomas podem aumentar o perigo. Produto irregular acrescenta riscos que o ensaio clínico não mediu Comprar tirzepatida de procedência desconhecida não equivale a usar o medicamento registrado. A Anvisa encontrou problemas de identificação de matéria-prima e de controle de qualidade em insumos e produtos manipulados. Em 2026, ações de fiscalização também proibiram marcas irregulares de tirzepatida fabricadas por empresas desconhecidas e anunciadas em redes sociais. Uma caixa parecida, uma caneta com rótulo convincente ou a promessa de preço menor não confirmam identidade, dose, esterilidade ou cadeia fria. Essa diferença é decisiva porque a substância é injetável. O risco do princípio ativo se soma ao risco de contaminação, concentração errada e produto falsificado. Sete perguntas antes de considerar o tratamento Existe indicação clínica? IMC, comorbidades, diabetes, histórico de tentativas e risco cardiometabólico precisam entrar na decisão. Qual é o objetivo mensurável? A Anvisa orienta reavaliar a continuidade quando não houver perda de pelo menos 5% do peso inicial após seis meses da titulação até a maior dose tolerada. A origem é regular? Farmácia autorizada, receita retida, embalagem íntegra e conservação correta não são detalhes. Há plano para efeitos adversos? Náusea, vômito, constipação, dor abdominal e sinais de desidratação precisam de orientação prévia. Existe cirurgia ou sedação programada? A equipe deve saber do uso antes do procedimento. Como será preservada a massa muscular? Alimentação adequada, proteína, exercício resistido e acompanhamento reduzem o risco de emagrecer às custas de tecido magro. Qual é a estratégia de manutenção? Parar sem plano aumenta a chance de reganho. O acompanhamento deve continuar mesmo quando a balança melhora. Conclusão Mounjaro pode produzir perda de peso expressiva e melhorar controle metabólico em pessoas com indicação. Parte da melhora de testosterona, libido e fertilidade observada após o tratamento pode vir da redução de gordura e da melhora metabólica, não de uma ação hormonal direta comprovada da caneta. O mesmo cuidado vale para os riscos. Cálculo biliar, retardo do esvaziamento gástrico, aspiração em procedimentos e pancreatite fazem parte da discussão médica, mas relatos isolados e regras universais não substituem evidência. O número de 94% e a pausa automática de três semanas são exemplos de afirmações que precisam de contexto. Informação de qualidade não serve para demonizar nem para vender o medicamento. Serve para colocar eficácia, indicação, manutenção, procedência e segurança na mesma decisão. Este texto é informativo e não substitui avaliação individual por profissional habilitado. FAQ Mounjaro aumenta a testosterona diretamente? Não há indicação aprovada nem evidência robusta de ação direta da tirzepatida para elevar testosterona. Em homens com obesidade, a perda de peso pode aumentar testosterona, e esse mecanismo pode explicar parte da melhora observada. Mounjaro melhora a fertilidade feminina? Emagrecimento e melhora metabólica podem favorecer ovulação e gestação em alguns grupos, especialmente em mulheres com obesidade ou síndrome dos ovários policísticos. Isso não transforma Mounjaro em tratamento aprovado para infertilidade e a evidência sobre desfechos reprodutivos ainda é limitada. Todo mundo volta a engordar depois de parar? Não. O reganho é frequente, mas varia. No SURMOUNT-4, quem interrompeu recuperou em média 14% do peso corporal durante 52 semanas. Apenas 16,6% preservaram pelo menos 80% da perda inicial, contra 89,5% de quem continuou o tratamento. Mounjaro pode causar pedra na vesícula? Doença aguda da vesícula é um risco reconhecido. Nos ensaios controlados citados na bula americana, ocorreu em 0,6% dos tratados e em 0% do placebo. Um relato individual não prova causa, mas sintomas precisam ser avaliados. É obrigatório suspender Mounjaro três semanas antes da anestesia? Não existe essa regra universal. A maioria dos pacientes pode continuar, segundo orientação multissocietária de 2024. A decisão depende da dose, da fase de titulação, dos sintomas, do procedimento e da avaliação da equipe. Tirzepatida manipulada ou comprada fora da farmácia é igual ao Mounjaro? Não se pode presumir equivalência. Identidade do princípio ativo, concentração, esterilidade, armazenamento e cadeia fria precisam ser comprovados. Produtos irregulares acrescentam riscos que não existem da mesma forma no medicamento registrado. Referências DALLE LASTE, Samuel. O que ninguém te contou sobre o MOUNJARO (A manipulação revelada). YouTube, 5 dez. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EpuI0jHI9Vk. Acesso em: 8 set. 2026. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação. Brasília, 9 jun. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/mounjaro-r-tirzepatida-nova-indicacao. Acesso em: 8 set. 2026. ARONNE, Louis J. et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA, v. 331, n. 1, p. 38–48, 2024. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2812936. Acesso em: 8 set. 2026. U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. Mounjaro (tirzepatide) injection: prescribing information. Silver Spring, 2026. Disponível em: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2026/215866s041lbl.pdf. Acesso em: 8 set. 2026. CORONA, Giovanni et al. Body weight loss reverts obesity-associated hypogonadotropic hypogonadism: a systematic review and meta-analysis. European Journal of Endocrinology, v. 168, n. 6, p. 829–843, 2013. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23482592/. Acesso em: 8 set. 2026. BEST, Damian et al. The effectiveness of weight-loss lifestyle interventions for improving fertility in women and men with overweight or obesity and infertility: a systematic review update of evidence from randomized controlled trials. Obesity Reviews, v. 22, n. 12, e13325, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34390109/. Acesso em: 8 set. 2026. SOLTANI, H. et al. The effect of weight loss interventions for obesity on fertility and pregnancy outcomes: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Gynecology & Obstetrics, v. 160, n. 2, p. 417–429, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36440496/. Acesso em: 8 set. 2026. AMERICAN SOCIETY OF ANESTHESIOLOGISTS. Drugs for Diabetes or Weight Loss: What To Know Before Surgery. Schaumburg, 2025. Disponível em: https://madeforthismoment.asahq.org/preparing-for-surgery/risks/drugs-diabetes-weight-loss/. Acesso em: 8 set. 2026. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Anvisa emite alerta para risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de canetas emagrecedoras. Brasília, 9 fev. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-emite-alerta-para-risco-de-pancreatite-aguda-associada-ao-uso-indevido-de-canetas-emagrecedoras. Acesso em: 8 set. 2026. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Anvisa esclarece e determina regras para manipulação de canetas de GLP-1. Brasília, 25 ago. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/anvisa-esclarece-e-determina-regras-para-manipulacao-de-canetas-de-glp-1. Acesso em: 8 set. 2026.
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Ecocardiograma Hipertrofia Excêntrica
Esse tópico ficou sem nenhuma resposta, e a pergunta era boa e importante. Vou respondê-la. O @Locomotion90 fez um ecocardiograma que apontou hipertrofia excêntrica, aguarda a consulta com a médica e pergunta se aquilo pode ser explicado pela rotina de musculação e aeróbico, já que é comum o coração hipertrofiar em quem treina, ou se pode haver algo errado. Ele contou também que, há cerca de dois anos, começou testosterona por conta própria, sem diagnóstico formal, porque o exame estava baixo e ele tinha sintomas. E que, em alguns períodos, subia a dose para 250 mg por semana. Começo pela parte da pergunta que tem resposta favorável a ele. Existe, sim, uma adaptação do coração ao treinamento, conhecida como coração de atleta. Ela é benigna e reversível, e o padrão que ela costuma produzir é justamente o excêntrico, ou seja, aumento da cavidade do ventrículo com espessura de parede proporcional. Ou seja, a hipótese dele não é absurda. Só que ela tem condições para ser aceita, e é aí que o caso dele precisa de cuidado. O coração de atleta aparece em pessoas com volume alto e sustentado de treinamento aeróbico, do tipo ciclismo, corrida de longa distância, natação, remo. Ele é acompanhado de função sistólica normal, função diastólica normal e ausência de sintomas, e regride quando a pessoa para de treinar por alguns meses. Musculação com períodos intercalados de aeróbico, sem volume alto e contínuo de resistência, normalmente não é o cenário que produz esse tipo de remodelamento. E aqui entra a segunda parte, que é a que ele precisa levar para a consulta. O uso de andrógenos em doses acima das fisiológicas está associado a alterações cardíacas em estudos que compararam usuários de longa data com não usuários. As descrições incluem aumento da massa do ventrículo esquerdo, redução da função de contração e alteração do relaxamento do coração, além de aterosclerose coronariana mais precoce. E existe um detalhe importante sobre a dose. Reposição de testosterona, no sentido de tratamento, costuma trabalhar com doses bem menores do que 250 mg por semana. Esse patamar não é reposição: é dose suprafisiológica. Ou seja, o que ele descreveu não foi um período de TRT contínuo, e sim uma alternância entre reposição e ciclo. Isso não quer dizer que o achado do ecocardiograma dele seja causado por isso. Quer dizer que existem duas explicações possíveis na mesa, uma benigna e uma que precisa ser acompanhada, e que não dá para escolher uma delas por dedução em fórum. O que separa uma da outra é justamente o que a cardiologista vai avaliar: as medidas indexadas das câmaras, a espessura das paredes, a função sistólica, a função diastólica, e como isso se comporta ao longo do tempo. E aqui está a coisa mais importante que eu tenho a dizer neste tópico. Ele precisa contar à médica, com todas as letras, que usa testosterona, há quanto tempo, em que doses e com quais intervalos. Digo isso porque essa é a informação que mais se omite em consulta, e é justamente a que muda a interpretação do exame. Um ecocardiograma com hipertrofia em alguém que treina significa uma coisa. O mesmo exame em alguém que usa andrógeno há dois anos em doses suprafisiológicas significa outra, e a conduta é diferente. Sem esse dado, a médica está trabalhando com metade do caso. Não existe julgamento nisso. Médico não é polícia, e a alternativa, que é ser acompanhado com base em informação incompleta, é pior para ele. Duas coisas que eu acrescentaria à investigação. A primeira é o hematócrito. O efeito adverso mais comum do uso de testosterona é o aumento do número de células vermelhas, o que deixa o sangue mais espesso e aumenta risco de trombose. Ele mencionou que os exames de sangue nunca acusaram nada, mas vale conferir especificamente hematócrito e hemoglobina, além do perfil lipídico, porque essa classe reduz o colesterol bom. A segunda é a pressão arterial. Ele disse que nunca teve problema, e isso é ótimo. Mas hipertrofia ventricular é, classicamente, consequência de pressão alta ao longo do tempo, inclusive de pressão que sobe apenas em determinados períodos. Medir em casa, em dias comuns, e levar os valores anotados vale mais do que a medida única do consultório. E há um item que raramente aparece e que se encaixa bem no caso dele: apneia do sono. Ela causa hipertensão e remodelamento cardíaco, produz exatamente os sintomas que o levaram à testosterona, que eram desânimo e cansaço fácil, e pode ser piorada pelo uso de testosterona. Se ele ronca ou acorda cansado, isso vale ser mencionado na consulta. Sobre a decisão inicial, uma observação sem sermão. Sintomas de desânimo e cansaço fácil são inespecíficos, e a lista de causas inclui apneia do sono, deficiência de ferro, hipotireoidismo e depressão, todas mais comuns do que hipogonadismo em homem jovem. O caminho formal é dosar testosterona total em jejum, pela manhã, em duas ocasiões, junto com LH, FSH e prolactina, porque é o LH que diz se o problema está no testículo ou no comando central. Isso não é para reescrever o passado. É porque, agora que ele decidiu fazer um check up completo, esses exames ainda respondem perguntas úteis. E uma última observação prática: depois de dois anos de uso, interromper por conta própria e de uma vez costuma produzir um período ruim de sintomas, porque a produção natural leva tempo para voltar. Se a decisão for reduzir ou parar, isso também é conversa com médico. Se o Locomotion estiver lendo isto, é isto que eu diria a ele. A atitude de fazer um check up completo foi excelente, e o exame que ele encontrou é exatamente o tipo de coisa que esse check up serve para achar. A pergunta que ele fez tem duas respostas possíveis, e quem decide entre elas é a cardiologista, com todas as informações na frente. Levar o histórico de uso escrito, com doses e datas, é o que transforma essa consulta em uma resposta de verdade. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Bolinhas na veia quando faço força.
Essa pergunta é boa e tem resposta, então vou respondê-la. O @BananaAmanteigada, de 15 anos, notou que ao fazer flexão aparecem várias bolinhas ao longo da veia mais visível do braço, que somem quase instantaneamente quando ele termina a série, e que depois de um tempo a mão começa a formigar. São duas coisas diferentes, e vale separar. Começo pelas bolinhas, que é a parte simples e tranquilizadora. O que ele está vendo são as válvulas da veia. As veias dos braços e das pernas têm válvulas por dentro, distribuídas ao longo do trajeto, que servem para impedir que o sangue volte no sentido contrário. Durante o esforço, a musculatura comprime a veia e o sangue se acumula em segmentos entre uma válvula e outra. Cada segmento cheio fica levemente abaulado, e o resultado visual é exatamente esse: uma veia que parece ter contas ou bolinhas ao longo dela. Quando a série termina, a pressão normaliza, o sangue circula e o aspecto desaparece na hora. É por isso que some tão rápido, e esse detalhe, o de sumir instantaneamente, é justamente o que indica que se trata de um fenômeno mecânico e normal. Isso aparece mais em quem tem pouca gordura sob a pele, mais no calor e mais em exercícios em que o braço fica abaixo do coração ou sob esforço sustentado, que é o caso da flexão. Agora o formigamento, que é a parte que merece mais atenção. Formigamento na mão durante flexão de braço, em uma pessoa jovem, quase sempre tem causa mecânica e local, e a mais comum é a posição do punho. Na flexão tradicional, com a palma apoiada no chão, o punho fica em extensão máxima e sustentando o peso do corpo. Essa posição comprime o nervo mediano dentro do túnel do carpo, e o resultado é formigamento no polegar, indicador e dedo médio, geralmente depois de alguns segundos ou de algumas repetições. Existe também a compressão do nervo ulnar no cotovelo, que dá formigamento no dedo mínimo e na metade do anelar. A solução costuma ser simples e vale testar: fazer as flexões apoiando as mãos em barras paralelas, em apoios próprios de flexão ou segurando halteres no chão, tudo isso mantendo o punho reto em vez de dobrado. Fazer sobre os punhos fechados, com apoio nos nós dos dedos, resolve pelo mesmo motivo. Séries mais curtas e pausas entre elas também ajudam. Se o formigamento acabar assim que ele muda a posição, o assunto está resolvido. E aqui vai a lista do que não é para deixar passar, porque é a informação mais importante que eu posso dar a ele. Procure um médico se o formigamento persistir depois do exercício, se aparecer dormência ou fraqueza na mão fora do treino, se a mão ficar pálida, roxa ou muito fria durante o esforço, se o braço inchar como um todo, ou se surgir um cordão endurecido e doloroso ao longo da veia, com vermelhidão e calor. Esse último merece nome: inflamação de veia, e é diferente do que ele descreveu, porque não some quando a série termina. E existe uma condição que aparece justamente em pessoas jovens e que combina formigamento com alterações do braço em determinadas posições, especialmente com o braço acima da cabeça, chamada síndrome do desfiladeiro torácico. Não é o quadro mais provável no caso dele, mas é o motivo pelo qual sintoma que persiste merece avaliação em vez de busca na internet. Como ele tem 15 anos, aproveito para deixar duas informações que interessam a essa idade e que raramente alguém dá. A primeira é que treinar com peso nessa idade é seguro e faz bem, desde que com técnica e orientação. A ideia de que musculação atrapalha o crescimento é um mito antigo e já foi contrariada pelos estudos. O que existe de risco real é lesão por técnica ruim ou por carga máxima sem preparo, e não o treino em si. A segunda é que, nessa fase, os fatores que mais rendem são os mais chatos: comer bem, dormir bastante e treinar com regularidade por anos. Ele está na idade em que isso mais compensa, e é também a idade em que aparece a pressão para procurar atalhos. Não vale a pena, e o motivo é simples: ele ainda não usou nem um por cento do que consegue de graça. Crédito ao @Foston, que respondeu do jeito certo. Diante de um achado visual, pedir foto é exatamente o que se faz, porque descrição escrita de coisa que se vê engana bastante. Se o autor estiver lendo isto, é isto que eu diria a ele: as bolinhas são as válvulas das veias e não são problema. O formigamento provavelmente é a posição do punho, e vale testar as flexões com o punho reto. E, se o formigamento continuar depois do treino, aí é conversa com os pais e com um médico. Para quem quiser montar um treino a partir da própria rotina e do equipamento disponível, o site tem um gerador de treino em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/treino/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Pele avermelhada tomando Stanozolol
Esse tópico tem uma pergunta de urgência médica que foi respondida com dicas de técnica de aplicação. Vou responder a pergunta que ele fez. O @Sebastião Silva relatou que, depois da aplicação, passou a noite sem dormir, teve muita febre, dor forte no braço a ponto de não conseguir se mexer nem se virar na cama, e que a região continuava muito avermelhada no dia seguinte. Febre, vermelhidão e dor intensa no local de uma aplicação, juntas, formam o quadro de infecção de sítio de injeção. Isso pode ser uma celulite ou um abscesso, e é a complicação mais comum e mais séria de aplicações feitas fora de ambiente de saúde. Não é para tratar com paciência nem com compressa. É para ser examinado. Os sinais que indicam que a pessoa precisa procurar atendimento imediatamente são estes: febre, vermelhidão que aumenta de tamanho ao longo das horas, calor local, endurecimento ou área amolecida com sensação de líquido embaixo da pele, riscos avermelhados subindo pelo braço, mal estar geral e dor desproporcional. Abscesso costuma precisar de drenagem, e antibiótico sozinho muitas vezes não resolve. Quanto mais cedo, menor o procedimento. Existe uma reação diferente, que é a dor inflamatória intensa que o estanozolol notoriamente provoca, sem infecção. Ela é conhecida, é muito dolorida e melhora ao longo de alguns dias. O problema é que, no começo, as duas se parecem, e a febre é o sinal que pesa para o lado da infecção. Ou seja: o quadro pode ter sido apenas a reação do produto, e provavelmente foi, já que ele relatou melhora. Mas essa é uma conclusão que se tira depois, e não na noite em que a pessoa está com febre. E há dois pontos práticos que valem para qualquer um que se aplique alguma coisa: verificar se a vacina antitetânica está em dia, e nunca reaproveitar ampola de dose única, que não tem conservante e não foi feita para ser perfurada mais de uma vez. Sobre a substância especificamente, existem duas informações que não apareceram e que interessam a ele. A primeira é que o estanozolol injetável é uma suspensão aquosa, e não uma solução oleosa. As partículas em suspensão são justamente o motivo da dor intensa e da reação inflamatória local, e também o motivo pelo qual esse produto é o campeão de relatos de abscesso. Isso tem uma consequência prática: aquecer a seringa esfregando entre as mãos ajuda em óleo espesso, mas não dissolve uma suspensão, porque ali não há nada dissolvido para amolecer. E tem outra: aplicar suspensão com agulha de insulina, que é muito fina, tende a entupir e a dificultar a aplicação. Para quem for aplicar de qualquer jeito, agulha fina não é a solução para esse produto específico. A segunda informação é sobre o fígado. A maioria das substâncias injetáveis não passa pelo fígado da mesma forma que as orais, e por isso se costuma dizer que injetável não é hepatotóxico. O estanozolol é a exceção conhecida: mesmo na forma injetável, ele mantém a estrutura que o torna tóxico para o fígado. Ou seja, quem usa estanozolol injetável tem os mesmos motivos para acompanhar função hepática que teria usando comprimido. E ele derruba o colesterol bom de forma acentuada, o que junto com o durateston forma uma combinação que merece perfil lipídico antes e durante. Sobre a orientação de aplicação, dois comentários. A observação de que não se aplica substância de depósito por via subcutânea estava correta, e é importante. E a recomendação de evitar o braço para volumes maiores também: o deltoide comporta pouco volume, e volume demais em músculo pequeno aumenta dor e reação local. Glúteo e vasto lateral da coxa comportam melhor. Agora a parte editorial, e eu quero ser justo com todos os lados. Ele foi orientado, por duas pessoas, a não usar naquele momento, com o argumento de que o percentual de gordura estava alto e a base de treino e alimentação não estava consolidada. O argumento é tecnicamente correto: quem começa com dieta e treino desalinhados ganha pouco, e o pouco que ganha some rápido. Ele respondeu que ia continuar de qualquer forma. A partir daí, o que sobra de útil não é repetir o conselho. É garantir que quem decidiu seguir tenha as informações que reduzem o risco. E isso é o que eu acrescentaria ao tópico, porque não foi dito: Exames antes e durante, que no caso dele são perfil lipídico, transaminases para função hepática, hemograma com hematócrito e glicemia. Sem o exame de antes, não existe como saber o que mudou depois. Pressão arterial medida periodicamente, porque essa combinação eleva pressão em muita gente. E a lista de sinais de alerta da infecção que eu escrevi lá em cima, que é a que interessava naquela noite específica. Créditos ao @Smac, que se deu ao trabalho de procurar e postar o link do material de aplicação, e que, mesmo discordando da decisão dele, escreveu a mensagem mais equilibrada da página, explicando o motivo técnico da recomendação em vez de simplesmente condenar. E a quem apontou a questão da assepsia, do volume por região e da via de aplicação logo na primeira resposta, que estava certo no diagnóstico provável do que aconteceu. Se o Sebastião estiver lendo isto, é isto que eu diria a ele. O susto daquela noite tinha nome, e febre com vermelhidão depois de aplicação é sinal para ser examinado, não para esperar passar. Se acontecer de novo, é pronto atendimento no mesmo dia. E, já que a decisão está tomada, o que protege ele agora é barato: exames antes de continuar, e saber reconhecer o que é reação e o que é infecção. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Sono pode afetar meu crescimento?
Esse tópico é curto e tem uma informação que merece mais atenção do que recebeu. Vou direto ao ponto, porque acho que é importante. O @F.rossi contou que está acordando várias vezes durante a noite para ir ao banheiro, que está em fase de crescimento e queria saber se isso pode afetar o crescimento dele a longo prazo. Contou também que já parou de beber água às dezoito horas, que dorme no escuro e de porta fechada, e que mesmo assim continua acordando. E que durante o dia não se sente cansado. Vou começar pela parte que eu acho que ele precisa saber. Levantar várias vezes por noite para urinar não é normal em um adolescente. E é ainda menos normal em alguém que já parou de beber líquido às seis da tarde e mesmo assim continua acordando. Isso não significa que seja algo grave. Significa que é algo que precisa ser investigado, e não ajustado com truque de rotina. O motivo de eu insistir é este: em uma pessoa jovem, urinar muito, inclusive à noite, é uma das formas clássicas de aparecimento do diabetes tipo 1. Junto com isso costumam vir sede excessiva, vontade de beber água o tempo todo, perda de peso sem explicação, cansaço e visão embaçada. O exame que responde isso é barato, rápido e disponível em qualquer posto de saúde: uma glicemia de jejum, e de preferência também a hemoglobina glicada. Um exame de urina simples completa. Existem outras causas possíveis, e vale conhecê-las para não ficar assustado sem necessidade: infecção urinária, ingestão grande de líquido mais cedo no dia sem que a pessoa perceba, cafeína à tarde, e uma condição menos comum chamada diabetes insípido, em que o corpo perde água pela urina sem que o açúcar esteja alterado. E existe uma causa que é especialmente interessante no caso dele, porque conecta diretamente com a pergunta que ele fez. Apneia do sono, em crianças e adolescentes, produz justamente esse quadro: sono fragmentado, várias idas ao banheiro durante a noite e, em alguns casos, xixi na cama. Nessa faixa etária, a causa mais comum é aumento das amígdalas e das adenoides, e o sinal que costuma acompanhar é ronco. Ou seja, a pergunta prática que vale fazer em casa é: ele ronca? Isso importa porque a apneia do sono em crianças e adolescentes é uma das causas conhecidas de atraso de crescimento, e ela é tratável. Se for esse o caso, tratar melhora o sono e melhora o crescimento. Agora respondendo diretamente à pergunta que ele fez, que é boa. Sim, o sono influencia o crescimento, e a intuição dele está correta. A liberação do hormônio do crescimento acontece principalmente durante as fases mais profundas do sono, que se concentram na primeira metade da noite. Sono fragmentado, noite após noite, ao longo de anos, interfere nisso. Além disso, adolescentes precisam de mais sono do que adultos, algo em torno de oito a dez horas por noite, e o padrão que ele descreveu não permite isso mesmo que ele fique deitado o tempo necessário, porque acordar várias vezes quebra os ciclos. E um detalhe que ele mencionou merece comentário: ele disse que durante o dia não se sente cansado. Isso é bom sinal e não deve ser motivo para adiar a consulta, porque no começo desses quadros a pessoa costuma se sentir bem justamente por ser jovem. Uma observação sobre o que ele já está fazendo. Dormir no escuro é uma boa medida e vale manter. Já parar de beber água às dezoito horas eu não manteria. Quando alguém restringe líquido e continua acordando à noite, isso é justamente o sinal de que a causa não é o quanto ele bebe. E restringir água por horas, ainda mais em quem treina, tem custo próprio. O que eu faria no lugar seria beber normalmente durante o dia, reduzir apenas na hora imediatamente anterior a dormir, e anotar por uma semana quantas vezes ele acorda por noite. Essa anotação vale ouro na consulta, porque transforma uma queixa vaga em um dado. Um último ponto, e é o mais importante de todos: se aparecer sede muito intensa, boca seca constante, perda de peso sem estar tentando emagrecer ou visão embaçada, isso não é para esperar consulta agendada. É para procurar atendimento logo. Créditos ao @DIEGO SANTOS, que respondeu bem em duas frentes. Explicou corretamente que o sono é o momento em que o corpo se recupera, e, o mais importante, fez as perguntas certas de acompanhamento e concluiu, com honestidade, que aquilo poderia ser algo mais complexo e que era caso de médico. Reconhecer o limite do que dá para resolver por fórum é o tipo de resposta que ajuda de verdade. E a última mensagem do tópico é a melhor de todas: ele escreveu que ia conversar com os pais. Era exatamente isso que ele precisava fazer. Se o F.rossi estiver lendo isto, é isto que eu diria a ele: leve para os pais três frases prontas. Que ele acorda várias vezes por noite para urinar mesmo sem beber água à noite, que isso acontece há um tempo, e que ele quer fazer uma glicemia de jejum e um exame de urina. E que valeria alguém em casa observar se ele ronca dormindo. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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O FISICULTURISMO PARA O IDOSO
Esse tópico faz quatro perguntas diretas e sérias, e merecia quatro respostas. Vou responder todas, e começo pela que ninguém respondeu e que é a mais fácil. O @Edilan pergunta por que não se vê literatura sobre treinamento para idosos, e se existe algum preconceito. Não existe preconceito, e a literatura existe, é vasta e é uma das mais consistentes da área. Só que ela não é publicada com o nome de fisiculturismo: é publicada com o nome de sarcopenia, que é a perda de massa e de força muscular associada ao envelhecimento. E ela chega a conclusões que interessam diretamente a ele. A primeira é que o treino com pesos é a intervenção mais eficaz que existe contra a sarcopenia, e funciona em qualquer idade, inclusive acima dos oitenta anos. A segunda é a mais prática de todas, e provavelmente é a resposta para boa parte do que ele descreveu: a necessidade de proteína aumenta com a idade, e não diminui. A recomendação geral para adultos, de oito décimos de grama por quilo, é insuficiente para idosos, e as recomendações específicas para essa faixa etária ficam entre 1,2 e 1,6 grama por quilo de peso por dia, subindo mais em quem treina. E existe um detalhe fino que muda o resultado. Com a idade, o músculo responde menos a doses pequenas de proteína, um fenômeno chamado resistência anabólica. Na prática, isso significa que o idoso precisa de uma quantidade maior em cada refeição para ativar a construção muscular, algo em torno de trinta e cinco a quarenta gramas, enquanto um jovem consegue com vinte. Agora vale olhar o que ele descreveu comendo: três refeições por dia, evitando fritura, refrigerante e doce, uma dose de whey depois do treino, e carne com salada no jantar. Com esse padrão, é bem provável que ele esteja bem abaixo do que precisa. Para 88 kg aos 60 anos, treinando cinco dias por semana e correndo, eu miraria entre cento e dez e cento e quarenta gramas de proteína por dia, distribuídas em três porções grandes em vez de concentradas em uma. Isso, sozinho, pode explicar parte da fadiga muscular e da recuperação ruim que ele relata, e é a mudança mais barata de todas. Segunda pergunta: o que fazer com as dores e a fadiga. Aqui eu vou ser honesto: dor em membros inferiores há onze anos, que limita a corrida a sete quilômetros em alguém que já correu bem mais, não é assunto de ajuste de treino. É assunto de investigação, e existem causas específicas que valem ser nomeadas para que ele leve os nomes à consulta. A primeira, e a que mais combina com a descrição de dor que aparece ao caminhar ou correr e melhora com o repouso em um homem de 60 anos, é a claudicação intermitente, que é a manifestação da doença arterial periférica. Ela é subdiagnosticada, e o rastreio inicial é simples: um exame chamado índice tornozelo braquial, que compara a pressão do tornozelo com a do braço. A segunda é a estenose do canal lombar, que produz dor nas pernas ao caminhar e melhora ao sentar ou ao inclinar o tronco para a frente, e que é comum nessa faixa etária. A terceira é a própria tireoide. Ele usa levotiroxina, e tanto dose insuficiente quanto dose excessiva produzem dor muscular, cansaço e intolerância ao exercício. Vale conferir se o TSH está na faixa certa, e não apenas se ele toma o remédio. E fica uma pergunta que só ele pode responder: se usa alguma estatina. Dor muscular é o efeito adverso mais relatado dessa classe, e é a primeira coisa a se checar em quem tem dor muscular difusa e usa medicação contínua. Sobre esse ponto, aliás, há um detalhe importante: ele usa creatina, e creatina eleva discretamente a creatinina no sangue sem que exista lesão renal, e também pode elevar a CK, que é a enzima muscular. Se ele fizer exames para investigar dor muscular, precisa avisar ao médico que usa creatina, ou a interpretação sai errada. Terceira pergunta: o que melhorar na rotina. Duas coisas, e a primeira é a mais concreta deste tópico inteiro. Ele escreveu que toma a creatina em jejum junto com a levotiroxina. A levotiroxina precisa ser tomada em jejum, sozinha, com água, e com trinta a sessenta minutos de intervalo antes de qualquer outra coisa. Ela tem absorção sensível, e alimentos, café, cálcio, ferro e outros produtos tomados junto reduzem o quanto entra no organismo. Café, especificamente, tem redução de absorção documentada em estudo. A correção é simples e não custa nada: levotiroxina sozinha ao acordar, e a creatina em qualquer outro horário do dia, porque para a creatina o horário não faz diferença. A segunda é a distribuição do treino. A divisão dele coloca peito com tríceps e posteriores de coxa no mesmo dia, e costas com bíceps e anteriores de coxa em outro. Funciona, mas para quem tem sessenta anos e quer performance na corrida, eu separaria melhor as pernas dos dias em que ele corre, para que a corrida não seja feita sempre sobre pernas trabalhadas na véspera. Quarta pergunta, e aqui está a parte que eu considero de segurança. Ele contou que o endocrinologista prescreveu cipionato de testosterona a cada dez dias quando a testosterona dele oscilava entre 380 e 420 ng/dL, e que hoje, em uso contínuo há três anos, o exame apontou 900 ng/dL. E contou também que faz exames de próstata a cada dois anos. Duas observações. A primeira é que aqueles valores iniciais, de 380 a 420, estão dentro da faixa de referência da maioria dos laboratórios. As recomendações para iniciar reposição partem de testosterona baixa comprovada, geralmente com duas dosagens em jejum e pela manhã, associada a sintomas. Isso não significa que a decisão dele tenha sido errada, porque quem examinou tinha o quadro completo na frente. Mas é uma pergunta legítima para levar à consulta: qual foi a indicação formal. A segunda é sobre o acompanhamento, e essa é a parte prática. O efeito adverso mais comum da reposição de testosterona não é a próstata: é o aumento do hematócrito, ou seja, o sangue ficar mais espesso, o que aumenta risco de eventos trombóticos. O acompanhamento recomendado inclui hemograma com hematócrito e PSA por volta de três a seis meses depois do início e, depois, pelo menos uma vez por ano. Ou seja, um intervalo de dois anos é longo demais para quem está em uso contínuo há três anos. Essa é a mudança que eu levaria à próxima consulta, junto com o perfil lipídico. Créditos ao @Foston, que deu a melhor referência possível para a pergunta dele ao citar o doutor José Maria Santarém, que é justamente o autor brasileiro que consolidou o tema de musculação para idosos e para pessoas com doenças crônicas. E ao @Apollo Galeno, por pedir o contexto completo antes de opinar, que é a conduta correta em um caso com essa complexidade. E há um último ponto, que é sobre o desfecho do tópico. Ele leu as regras, concluiu que não preenchia os requisitos do fórum e se despediu. A @FaBHana e o Foston responderam dizendo que não havia requisito nenhum, e eles estavam certos. Vou acrescentar o motivo prático: um homem de 60 anos, com onze anos de investigação de dor, em uso de levotiroxina e de testosterona, que treina cinco dias por semana e ainda corre, é exatamente o tipo de participante de que este fórum mais precisa. Perguntas como as quatro que ele fez são raras aqui, e interessam a muita gente que está chegando nessa faixa etária e não encontra nada escrito. Se o Edilan estiver lendo isto, é isto que eu diria a ele: as portas estão abertas, e as respostas mais úteis para o caso dele estão em três lugares baratos. Separar a levotiroxina da creatina, subir a proteína para a faixa de idoso que treina, e levar ao médico dois pedidos: hematócrito e PSA anuais por causa da testosterona, e investigação da dor nas pernas com o nome certo, começando pelo índice tornozelo braquial. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Motivação para emagrecimento
Nesse tópico foi feita a pergunta certa e ela nunca foi respondida, e o tópico acabou por causa disso. Vale retomar, porque a lista que está no formulário dela merece atenção. A @Mafira Pereira Saft chegou com 29 anos, 1,67 m, 63 kg, sem exames, informando quatro medicações em uso: Venvanse, Ozempic, fluoxetina e anticoncepcional. Trabalha das dezenove às sete, treina das nove e meia ao meio dia e dorme por volta das duas da manhã. O @Apollo Galeno pediu que ela listasse a indicação de cada medicação, uma a uma, e há quanto tempo usava cada uma. Essa era exatamente a pergunta certa. Ela não voltou, e o tópico terminou. Vale explicar por que aquela pergunta era tão importante, porque isso serve para muita gente que lê. Começo pelo peso. Com 1,67 m e 63 kg, o índice de massa corporal dela é cerca de 22,6, ou seja, no meio da faixa normal. Ela abriu um tópico chamado motivação para emagrecimento estando dentro do peso. Agora as duas medicações que chamam atenção nesse contexto. O Ozempic é a semaglutida, e sua indicação registrada é para diabetes tipo 2. Existe uma apresentação da mesma substância aprovada especificamente para tratamento de obesidade, e o critério para essa indicação é índice de massa corporal a partir de trinta, ou a partir de vinte e sete quando existe uma condição associada, como pressão alta ou apneia do sono. O Venvanse é a lisdexanfetamina, e suas indicações são transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e transtorno de compulsão alimentar periódica. Ele não é medicação para emagrecer, embora reduza o apetite como efeito. Ou seja, existem cenários em que essas prescrições fazem todo o sentido para ela. Se ela tem diabetes, o Ozempic está no lugar. Se ela tem déficit de atenção ou compulsão alimentar, o Venvanse está no lugar, e nesse caso a fluoxetina também se encaixa na história. E existe um cenário em que não fazem: se as duas estiverem sendo usadas apenas para emagrecer, em alguém com índice de massa corporal de 22,6. Por isso a pergunta sobre a indicação de cada uma não era burocracia nem curiosidade. Era a única forma de saber em qual dos dois cenários ela estava, e é a mesma pergunta que vale a pena ela levar para quem prescreveu. A segunda coisa é sobre a combinação, e é o ponto de segurança do tópico. Lisdexanfetamina é um estimulante, e eleva frequência cardíaca e pressão arterial. Fluoxetina é um antidepressivo serotoninérgico. A combinação das duas existe na prática clínica e é usada, mas exige acompanhamento médico justamente porque ambas atuam em sistemas que se somam. E aqui entra a informação prática que ela deveria levar ao médico: ela treina musculação e faz cardio. Quem usa estimulante e treina precisa que o prescritor saiba disso, porque a resposta cardiovascular ao exercício muda. Se aparecerem palpitação, falta de ar desproporcional, dor no peito ou tontura durante o treino, isso é motivo de consulta, e não de insistir. A terceira coisa é a que mais afeta o resultado dela e ninguém mencionou: a semaglutida e a massa muscular. Essa classe de medicação funciona reduzindo o apetite, e é justamente por isso que ela funciona. O efeito colateral prático é que a pessoa passa a comer menos de tudo, inclusive de proteína. E aqui está o problema: quando alguém emagrece com pouca proteína e sem treino de força, uma parte relevante do peso perdido vem de massa magra. Isso está bem documentado com esses medicamentos, e é a razão pela qual quem usa precisa fazer duas coisas de forma deliberada. A primeira é garantir proteína, mesmo sem fome. Para o peso dela, algo entre cem e cento e vinte gramas por dia. Isso costuma exigir planejar a proteína primeiro na refeição, comer devagar e usar fontes concentradas, porque o volume de comida fica difícil. A segunda é treinar com carga. Musculação é o que sinaliza ao corpo que aquele músculo é necessário. Sem isso, o emagrecimento vem, mas vem com perda de massa magra, e essa parte é justamente a que não volta sozinha depois. Vale ainda um aviso prático sobre a combinação com anticoncepcional oral: essa classe de medicação causa náusea, vômito e diarreia em parte das pessoas, e episódios de vômito ou diarreia intensos podem comprometer a absorção da pílula. Nesses dias, vale usar método adicional. A quarta coisa é a rotina, e ela explica muita coisa. Ela trabalha das dezenove às sete da manhã, chega em casa, treina das nove e meia ao meio dia e dorme por volta das duas da manhã. Isso significa que ela treina logo depois de doze horas de trabalho noturno, e dorme provavelmente pouco e em horário deslocado. Trabalho noturno desregula o ritmo circadiano, e isso afeta sono, apetite, controle da glicemia e recuperação. Não é falta de disciplina: é fisiologia, e um plano que ignora isso não sobrevive. No caso dela, eu trocaria treino longo diário por sessões mais curtas e menos frequentes, encaixadas nos dias de folga e nos dias em que o sono foi melhor, e trataria o sono como parte do plano, e não como o que sobra dele. Duas horas de treino em alguém que dormiu quatro horas rendem menos do que quarenta minutos bem feitos com sono decente. A quinta coisa é o que faltava por completo: exames. Ela informou que não tinha nenhum, usando quatro medicações contínuas. O mínimo aqui é hemograma, glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico, função renal, função hepática e TSH. Em quem usa semaglutida, saber a glicemia é o básico do básico, porque muda inclusive a leitura do que a medicação está fazendo. Sobre o fim do tópico, um comentário justo. Ela não respondeu às perguntas e o acompanhamento se encerrou. Quem ajuda de graça tem o direito de exigir as informações mínimas, e sem elas realmente não dá para conduzir nada, ainda mais nesse caso, em que a lista de medicações era o centro de tudo. Vale só notar que uma pessoa que trabalha das sete da noite às sete da manhã tem uma disponibilidade bem diferente da de quem trabalha em horário comercial, e talvez o silêncio dela tenha mais a ver com isso do que com desinteresse. Créditos à @FaBHana, que pediu o cardápio detalhado, item por item, que é o que torna qualquer avaliação possível, e à @Andressa Souza, que fez as perguntas certas sobre há quanto tempo ela treinava e qual era a duração da sessão, porque o campo estava ambíguo. Ao @Clutch e à @Famama pela recepção, e ao Apollo pela pergunta central, que continua valendo. Se a autora estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. A pergunta mais importante do caso dela não é sobre dieta: é para que serve cada uma das quatro medicações que ela usa, e essa resposta está com quem prescreveu. Enquanto isso, duas coisas protegem o resultado dela: proteína suficiente mesmo sem fome, e treino com carga. E, com plantão noturno, sono não é luxo: é parte do plano. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Foco nos objetivos
Esse tópico é curto e tem uma informação no formulário que passou despercebida por todo mundo, e que é justamente a que mais muda o treino dela. Vou começar por ela. A @Miy chegou com 29 anos, 1,63 m, 51 kg, sem treinar, sem dieta definida, e informou, no campo de problemas de saúde, uma única coisa: glaucoma. Ninguém comentou. E glaucoma tem implicação direta em treino de musculação, o que faz dessa a informação mais útil que ela poderia levar deste tópico. Explico. O glaucoma é uma doença em que a pressão dentro do olho danifica o nervo óptico ao longo do tempo. Por isso, o que importa em qualquer atividade é o efeito dela sobre a pressão intraocular. E aqui vem a parte boa: exercício aeróbico regular, como caminhada, bicicleta e corrida leve, reduz a pressão intraocular. Ou seja, começar a se exercitar joga a favor dela, e não contra. A parte que exige cuidado é específica e fácil de aplicar. A primeira é a respiração. Prender o ar durante o esforço, aquilo que todo mundo faz instintivamente ao empurrar um peso pesado, aumenta a pressão dentro do olho de forma aguda. A correção é simples e não custa nada: expirar durante a parte de esforço do movimento e nunca prender a respiração. Isso vale para agachamento, leg press, supino, remada e qualquer exercício em que a tentação de segurar o ar é grande. A segunda são as posições com a cabeça abaixo do nível do coração. Ficar de cabeça para baixo eleva a pressão intraocular, e isso inclui certos exercícios abdominais em banco declinado e algumas posturas invertidas de ioga. A terceira é a carga máxima. Séries com peso muito alto e poucas repetições são justamente as que estimulam a apneia e o esforço extremo. Trabalhar com cargas moderadas e mais repetições, com respiração controlada, entrega quase o mesmo resultado para quem está começando e evita o pico de pressão. E a quarta é a conversa que vale mais do que tudo isso: contar ao oftalmologista que ela vai começar a treinar musculação. Cada caso de glaucoma é diferente, e quem acompanha é quem pode dizer o que liberar. Se ela usa colírio, vale confirmar horários e manter a rotina, porque a adesão ao colírio é o que preserva a visão a longo prazo. Uma observação extra que quase ninguém sabe: óculos de natação muito apertados elevam a pressão intraocular enquanto estão no rosto. Se ela nadar, vale escolher um modelo mais folgado. Nada disso é motivo para não treinar. É motivo para treinar do jeito certo, e a diferença entre uma coisa e outra é basicamente saber respirar durante a série. Agora o resto, porque ela chegou sem nenhum plano e saiu do tópico do mesmo jeito. Com 1,63 m e 51 kg, o índice de massa corporal dela é cerca de 19,2, ou seja, na parte baixa da faixa normal. Isso tem uma consequência prática importante: o projeto dela quase certamente não é de emagrecimento, e sim de construção. Para quem está nessa situação, comer de menos é o erro que mais atrasa. O plano que faz sentido é comer em manutenção ou levemente acima, garantir proteína e deixar o trabalho por conta do treino com carga. Sobre proteína, a faixa útil para ela fica entre oitenta e cento e dez gramas por dia, distribuídas ao longo das refeições. Ovo, frango, carne, peixe enlatado, leite, iogurte e arroz com feijão dão conta disso sem nada caro e sem suplemento nenhum. Sobre o treino, ela nunca treinou, e isso é uma vantagem enorme. O primeiro ano é o período em que o corpo mais responde, e ela vai ganhar força e forma com relativamente pouco. O que eu recomendaria é um programa simples de corpo inteiro, três vezes por semana, com os movimentos básicos: agachamento ou leg press, levantamento terra romeno ou mesa flexora, alguma puxada, alguma remada, algum empurrar acima da cabeça e elevação pélvica. E o item que mais importa, e que quase ninguém faz: anotar exercício, peso e repetições, todas as sessões. Sem esse registro não existe como saber se a carga subiu, e carga subindo é o motivo pelo qual o músculo cresce. Vale ainda pedir exames simples, já que ela não tem nenhum: hemograma com ferritina, TSH, glicemia e vitamina D. Em mulher jovem que menstrua, ferritina baixa é achado comum e produz exatamente a sensação de treinar e não render. Créditos à @MLR Paiva, à @FaBHana, à @Famama, à @Qsr e à @fe16, que receberam bem e mantiveram o clima que faz alguém voltar. E a orientação da FaBHana, de tirar dúvidas com o professor da academia e procurar conhecimento antes de começar, é exatamente o passo certo para quem nunca treinou. Se a Miy estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. Ela pode e deve treinar. As duas coisas que ela leva deste tópico são: avisar o oftalmologista que vai começar musculação, e nunca prender a respiração durante o esforço. Fora isso, comer o suficiente, garantir proteína e anotar as cargas. Quem nunca treinou está no melhor momento possível. Para quem quiser montar um treino a partir da própria rotina e do equipamento disponível, o site tem um gerador de treino em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/treino/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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EM BUSCA DE UM NORTE!
Esse tópico termina com uma conclusão sobre a autora que eu preciso contestar, e ela é o motivo desta resposta. A @fonsecafonseca chegou com 28 anos, 1,59 m, 74,7 kg, contando que tinha acabado de recomeçar acompanhamento com nutricionista, que fez avaliação de composição corporal e ficou chocada, e que o efeito sanfona sempre a acompanhou: ela consegue emagrecer e não consegue manter. Mais adiante, ela escreveu a frase mais importante do tópico. Disse que já passou por todos: endocrinologistas, nutrólogos, psiquiatras, psicólogos e nutricionistas, e que, teoricamente, não há nada de errado com ela. A resposta que ela recebeu foi que já estava descoberto o erro: falta de força de vontade e determinação. É sobre isso que eu quero escrever, porque a explicação verdadeira existe, é conhecida, e é bem diferente dessa. Começo pelo que acontece com quem emagrece e não consegue manter, que é exatamente a queixa dela. Depois de uma perda de peso, o gasto energético cai mais do que o esperado apenas pela redução do tamanho do corpo. Ao mesmo tempo, os hormônios que regulam fome e saciedade mudam de patamar: a leptina, que sinaliza saciedade, cai, e a grelina, que sinaliza fome, sobe. O ponto decisivo é que essas alterações não são passageiras. Estudos que acompanharam pessoas por anos depois de uma perda grande de peso mostraram que elas persistem por muito tempo, ou seja, quem emagreceu convive com mais fome e menos gasto do que alguém do mesmo peso que nunca engordou. Isso não é desculpa e não é fatalismo. É a descrição do que ela está enfrentando, e explica por que manter é mais difícil do que perder, para todo mundo, e não só para ela. Por isso a obesidade é tratada, hoje, como doença crônica e recidivante, e não como questão de caráter. E o efeito sanfona não é sinal de fraqueza: é o resultado previsível de tratar como projeto de dois meses uma coisa que exige plano de manutenção. O que muda na prática, com isso na mão, é o desenho do plano. Quem tem histórico de sanfona precisa que a fase de manutenção esteja escrita desde o começo, com a mesma seriedade da fase de perda. Perder quatro quilos e ter um plano para os doze meses seguintes vale mais do que perder dez e não ter nenhum. A segunda coisa é a meta, e aqui existe um número que ninguém deu a ela. Ela mencionou peso ideal de 53,9 kg e disse, ela mesma, que isso parecia inviável. Ela tem razão. Sair de 74,7 kg para 53,9 kg é reduzir cerca de vinte e oito por cento do peso corporal, o que é uma meta que quase ninguém alcança e mantém sem cirurgia. A meta que a literatura usa é outra, e é muito mais alcançável: uma redução de cinco a dez por cento do peso corporal já produz melhora mensurável em pressão arterial, glicemia, triglicerídeos e função hepática. No caso dela, cinco a dez por cento significam entre 3,7 kg e 7,5 kg. Ou seja, o resultado que vale clinicamente está muito mais perto do que a meta que ela carregava na cabeça. E carregar uma meta impossível é, em si, um dos maiores fatores de abandono: a pessoa perde seis quilos, olha para os vinte que faltam e conclui que não adiantou. A terceira coisa é uma pergunta que eu faria a ela e que, pelo que está escrito, ninguém fez de forma direta. Ela relatou histórico longo de tentativas, passagem por vários profissionais e dificuldade específica de manter. Nesse cenário, vale investigar de forma explícita a presença de episódios de compulsão alimentar, ou seja, momentos de comer grande quantidade em pouco tempo, com sensação de perda de controle, geralmente sozinha e seguidos de culpa. Isso importa porque é o transtorno alimentar mais comum, é frequentemente associado a obesidade, e tem tratamento com resultado bom. E porque muita gente passa por vários consultórios sem que essas perguntas específicas sejam feitas, e sai com a impressão de que não há nada, quando o que houve foi que ninguém perguntou. E há um detalhe que conecta isso com o próprio plano que estava sendo proposto: restrição rígida é um dos preditores mais consistentes de episódios de perda de controle alimentar. Ou seja, um plano de tudo ou nada, com cem por cento obrigatório, é justamente o desenho com maior chance de reiniciar o ciclo que ela quer quebrar. O que costuma funcionar melhor em quem tem esse histórico é o contrário do que parece: metas menores, flexibilidade programada e um plano que sobrevive a uma semana ruim. A quarta coisa vale ser dita porque ela é jovem e o assunto raramente aparece. Com índice de massa corporal de 29,5, ela está na faixa em que o tratamento medicamentoso da obesidade tem indicação formal, tanto a partir de trinta quanto a partir de vinte e sete quando existe alguma condição associada. Isso é conversa para o endocrinologista, e ela já tem trânsito com esses profissionais. Não estou dizendo que ela deva usar algo. Estou dizendo que existe uma opção de tratamento com indicação estabelecida que não é atalho nem preguiça, e que alguém que tentou por anos merece saber que ela existe em vez de ouvir que o problema é determinação. A quinta coisa é sobre a composição corporal, e aqui tem uma leitura importante. Ela relatou 33,2 kg de massa gorda e 22,5 kg de massa muscular. O número de gordura assusta, e ela mesma disse que ficou chocada. Duas observações. A primeira é que avaliações por bioimpedância variam bastante conforme hidratação, horário e aparelho, e servem melhor para acompanhar tendência do que como retrato exato. A segunda, e mais útil, é que o objetivo dela deveria incluir preservar aqueles 22,5 kg, porque é exatamente essa parte que costuma se perder nas dietas rápidas e é ela que sustenta o gasto energético. O que protege isso é proteína suficiente e treino de força com carga, não mais aeróbico. Agora a parte que eu preciso comentar sobre o tom, e faço isso reconhecendo que quem escreveu ali oferece ajuda de graça e de boa fé. A mensagem que ela recebeu falava sobre ser jovem, poder usar decote e short curto, tirar selfies e estar escolhendo ficar cada dia mais estragada. Vale saber que abordagens que associam peso a valor pessoal, mesmo com intenção de motivar, estão associadas a piores resultados, e não melhores. O que se observa é aumento de comportamento alimentar desorganizado e maior chance de abandono do acompanhamento. E, no caso específico dela, existe um detalhe que torna a conclusão sobre falta de determinação difícil de sustentar: essa é uma pessoa que procurou endocrinologista, nutrólogo, psiquiatra, psicólogo e nutricionista, recomeçou acompanhamento mais uma vez em setembro, veio a um fórum público expor peso, foto e composição corporal e pediu ajuda. Isso descreve alguém que tentou muitas vezes. Falta de determinação é justamente o que não explica esse histórico. Créditos à @Sussu, que foi a primeira a responder, deu as boas vindas e sugeriu o caminho prático de postar o cardápio, e que reagiu com tristeza sincera ao fim do tópico. À @FaBHana pela torcida constante. E ao @Clutch, cuja mensagem, mesmo intensa, era de incentivo. Ao @Apollo Galeno, pela organização do que precisava ser entregue e pelo tempo dedicado de graça a desconhecidos. Se a autora estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. O que ela tem não é falta de força de vontade. É a parte difícil de um problema que tem biologia própria, e que exige plano de manutenção escrito e meta realista. Sete quilos, mantidos por um ano, valem mais do que vinte perdidos e recuperados. E, na próxima consulta, valem duas perguntas: se existe indicação de tratamento medicamentoso para o caso dela, e se ela apresenta episódios de compulsão alimentar. As duas mudam o rumo, e nenhuma delas depende de determinação. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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É possível ter um corpo sem Danone?
O título desse tópico faz uma pergunta direta, e ele terminou com quinze mensagens sem que ninguém a respondesse. Então vou responder. Sim, é possível. E vale explicar até onde, porque a resposta honesta tem limite e o limite importa. A @Giovanna Aguiar chegou contando que treina há um ano, que pesava 67 a 68 kg com 1,65 m, que se descrevia como falsa magra, que cortou doce, fritura e farinha por conta própria, treinou funcional em casa todos os dias durante a pandemia e emagreceu bastante. E que, no fim disso, se sentiu magrela e sem glúteo. Falou também em competir no futuro, em bikini ou wellness. Começo pela resposta técnica à pergunta do título. Uma mulher treinando de forma organizada, comendo o suficiente e sem usar nada, ganha algo na ordem de duzentos a quatrocentos gramas de massa magra por mês em condições favoráveis, principalmente no primeiro ou segundo ano de treino sério. Parece pouco por mês. Em quatro anos, é uma pessoa diferente. Ou seja, dá para construir um corpo forte, com glúteo e perna, sem nada. O que não dá é para fazer isso na velocidade que as fotos da internet sugerem. E existe uma parte da resposta que precisa ser dita com franqueza, porque ela apareceu no tópico quando se falou em competir: o padrão de palco das categorias de fisiculturismo feminino, em nível competitivo, não é o padrão de quem treina para saúde. Quem entra nessa comparação achando que a diferença é só esforço acaba concluindo que está fazendo algo errado, quando não está. São réguas diferentes. Isso não é motivo para desistir de competir. É motivo para separar as duas coisas na cabeça antes de decidir. Agora o que eu acho que era o assunto principal do caso dela, e que ninguém tocou. Ela descreveu com precisão um percurso muito comum: emagreceu bastante com restrição alimentar e treino diário de funcional, e chegou magra sem forma. Isso não aconteceu por acaso. Treino funcional feito em casa, todos os dias, com pouca carga, condiciona bem e gasta caloria, mas não é o estímulo que constrói músculo. E dieta restritiva prolongada não fornece o material para construir. Ou seja, ela passou um ano fazendo exatamente o que produz o resultado que ela não queria. O que ela quer agora, que é glúteo e perna, exige o oposto do que a levou até aqui: treino com carga progressiva e comida suficiente. Não é ajuste fino, é mudança de fase. Na prática, isso significa três coisas. A primeira é sair do déficit. Ninguém constrói músculo em restrição crônica, e ela já está magra. Passar seis meses a um ano comendo em manutenção ou levemente acima é o que muda o cenário. A segunda é proteína entre 1,6 e 2,2 gramas por quilo de peso por dia, distribuída ao longo do dia. A terceira é treino de força de verdade, com carga anotada. Para glúteo, os exercícios que mais rendem são elevação pélvica, agachamento, levantamento terra romeno, afundo e cadeira abdutora, treinados duas vezes por semana, com aumento progressivo de peso registrado em caderno ou aplicativo. Sem registro, não existe progressão comprovável. E aqui vale outra observação: ela relatou treinar de domingo a domingo. Recuperação é parte do treino, não interrupção dele. Músculo cresce no descanso, e sete dias por semana sem folga costuma render menos do que cinco bem feitos. Uma pergunta que eu faria a ela e que ninguém fez: como está a menstruação. Emagrecimento grande, treino diário e restrição por meses é o cenário em que o ciclo se altera ou desaparece, e isso não é detalhe estético. É o sinal mais barato de que a energia disponível está baixa demais, e a conta chega no osso. E uma sobre as nutricionistas. Ela contou que passou por duas e não se adaptou, e que hoje faz por conta própria. Isso é comum, e normalmente não é falta de vontade: é plano montado sem levar em conta o que a pessoa gosta, o que ela cozinha e quanto ela pode gastar. Se ela for tentar de novo, o que costuma funcionar é procurar alguém de nutrição esportiva e chegar com a lista do que ela realmente come, em vez de receber um cardápio pronto. E ela tem uma vantagem que quase ninguém tem: estudou gastronomia. Quem sabe cozinhar resolve, sozinho, metade dos problemas de aderência que eu leio neste fórum. Voltando ao título, para fechar. Ela tem um ano de treino, nunca fez uma fase de construção e já está pensando na decisão farmacológica. Esse é o momento em que a resposta é mais fácil: ela ainda não usou o recurso que tem de graça e que rende mais, que é justamente o primeiro ciclo de anos treinando com carga e comendo o suficiente. Quem antecipa essa decisão não pula etapa. Perde a etapa em que o corpo mais responde de graça, e passa a precisar do recurso para sempre. E, no caso de mulheres, existe um detalhe que pesa: parte dos efeitos androgênicos não regride com a interrupção, especificamente o engrossamento da voz, o aumento do clitóris e o pelo em padrão masculino. Créditos à @Isa, que fez a única coisa realmente útil do tópico ao pedir que ela completasse o relato com os dados do modelo, porque sem idade, peso atual, dieta e treino escritos ninguém consegue ajudar de verdade. E à @Bárbara, à @Vezinha, à @Helynha e à @Sussu pela recepção. Se a Giovanna estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. O corpo que ela quer se constrói comendo mais, treinando com carga e anotando. E a resposta para a pergunta do título dela é sim, com a ressalva de que o prazo é medido em anos. Ela tem um ano de treino, o que significa que a melhor parte ainda está pela frente. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Shape natural ou atlético para mulheres?
Esse tópico é uma enquete sobre qual dos dois shapes é mais bonito, e a resposta prática é que gosto não se discute. Mas tem uma pergunta técnica escondida nele que vale muito mais do que o voto, e que eu não vi ninguém fazer: o que exatamente separa aquelas duas fotos, e quanto tempo custa sair de uma para a outra. Começo pelo nome, porque ele confunde. Chamar as duas fotos de natural e atlético dá a impressão de que são dois tipos de corpo, como se a pessoa escolhesse um e pronto. Não é isso. As duas fotos são da mesma pessoa, e o que mudou entre elas foram basicamente duas variáveis: quantidade de músculo construído e percentual de gordura. Isso importa porque muda a pergunta. Não é qual tipo alguém prefere ser. É quanta massa muscular alguém está disposta a construir, e em quanto tempo. E o tempo é a parte que quase nunca aparece nesse tipo de comparação. Uma mulher treinando de forma organizada, comendo o suficiente e sem usar nada, ganha algo na ordem de duzentos a quatrocentos gramas de massa magra por mês em condições boas, e isso no primeiro ano, que é o de maior resposta. Depois, o ritmo cai. Ou seja, a diferença visível entre aquelas duas fotos representa anos de treino, e não meses. Isso não é desanimador: é a informação que impede alguém de concluir, depois de seis meses, que fracassou. A segunda coisa que separa as duas fotos e que ninguém menciona é o percentual de gordura. O visual mais desenhado depende de gordura mais baixa, e aí existe uma diferença fisiológica entre homens e mulheres que precisa ser dita. A mulher tem, por construção, um percentual essencial de gordura mais alto, e descer muito abaixo disso tem custo: o ciclo menstrual se altera ou desaparece, e quando isso acontece por tempo prolongado a massa óssea sofre. Ou seja, existe um ponto em que ficar mais seca deixa de ser estética e passa a ser assunto de saúde. E, em geral, o percentual que rende as melhores fotos não é o mesmo em que se vive bem o ano inteiro. Quem aparece assim numa foto, muitas vezes, não está assim em janeiro, em junho e em dezembro. A terceira coisa é o que a foto não mostra. Pose, iluminação, ângulo, bronzeado, roupa e até a fase do ciclo menstrual mudam radicalmente a aparência do mesmo corpo no mesmo dia. Duas fotos tiradas com meia hora de diferença, uma com luz de cima e outra com luz de frente, parecem duas pessoas. Isso vale como aviso para quem se compara com fotos da internet, e vale também como dica prática para quem acompanha a própria evolução: fotografar sempre no mesmo lugar, com a mesma luz, na mesma roupa e no mesmo horário é o que torna a comparação honesta. E, para mulheres, existe um detalhe extra que já apareceu em outros tópicos daqui: retenção de líquido na fase pré menstrual distorce a foto. Fotografar alguns dias depois do fim da menstruação evita conclusões erradas. Agora a parte prática, que é o que eu acho que alguém lendo esse tópico realmente quer saber. Se a intenção for sair do primeiro shape para algo parecido com o segundo, são três coisas, e nenhuma delas é complicada. A primeira é treino de força com carga que aumenta ao longo do tempo, com registro escrito. Sem anotar exercício, peso e repetições, não existe como saber se houve progressão, e progressão é o que faz o músculo crescer. A segunda é proteína suficiente, entre 1,6 e 2,2 gramas por quilo de peso por dia. Esse é o item que mais falta nas dietas femininas que eu leio por aqui, e é o mais barato de corrigir. A terceira é comer o suficiente. Ninguém constrói músculo em restrição crônica, e é por isso que tanta gente treina há anos com o mesmo corpo: passa o ano inteiro tentando emagrecer e nunca passa um período construindo. Um comentário sobre o formato da enquete, e é o único ponto em que eu faria diferente. Comparação de antes e depois motiva, e o entusiasmo do tópico mostra isso. Mas ela também cria expectativa de prazo, e é justamente a frustração com prazo que costuma levar gente muito jovem a procurar atalho farmacológico. Eu tenho lido tópicos aqui em que exatamente isso aconteceu. Por isso, sempre que uma transformação assim é mostrada, a informação mais útil que pode acompanhar a foto é o tempo que ela levou. Créditos à @TataBarb, que fez a coisa mais útil da página: quando dois participantes avisaram que o arquivo não abria, ela postou o link que funcionava, para que todo mundo conseguisse ver. E ao @durosbrutos e ao @Marco Passarelli por terem avisado do problema em vez de simplesmente sair. E, para registrar o voto, já que é uma enquete: eu fico com o segundo, e o motivo é técnico. O corpo do segundo tem mais músculo, e músculo é o que sustenta força, densidade óssea e metabolismo ao longo dos anos. É o tipo de coisa que fica bonita na foto e útil aos sessenta. Para quem quiser montar um treino a partir da própria rotina e do equipamento disponível, o site tem um gerador de treino em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/treino/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Perder barriga e ganhar massa magra
Nesse tópico existe um descompasso entre o objetivo declarado e o plano montado, e ele passa despercebido porque os números são pequenos. Vale olhar com calma. A @Kaci chegou com 47 anos, 1,45 m, 47 kg, doze meses de treino, sem medicação e sem exames, pedindo ajuda para perder barriga e ganhar massa magra. Com 1,45 m e 47 kg, o índice de massa corporal dela é cerca de 22,4, ou seja, no meio da faixa normal. O plano montado ficou em torno de oitenta gramas de proteína, cem de carboidrato e cinquenta de gordura, o que dá aproximadamente mil e duzentas calorias por dia. Ou seja, uma mulher que não precisa emagrecer recebeu uma dieta de emagrecimento para atingir um objetivo que é de ganho. Isso não é crítica a quem montou, que fez de graça e com cuidado. É uma questão de calibragem, e ela muda o resultado. Explico o que muda. O que ela descreveu querer, menos barriga e mais massa magra, não depende da balança descer. Depende de construir músculo debaixo da pele e de ter energia suficiente para isso. Em quem já está com peso normal, cortar mais calorias tende a produzir o contrário do pedido: a pessoa fica menor, e não mais definida. No caso dela, eu manteria a proteína, que está bem colocada em oitenta gramas para 47 kg, ou seja, cerca de 1,7 g por quilo, e subiria o carboidrato para algo próximo de manutenção, deixando o trabalho pesado por conta do treino com carga. E há uma parte específica da idade dela que precisa entrar na conversa, porque ninguém tocou nela. Aos 47 anos, a maioria das mulheres está na transição para a menopausa. Duas coisas mudam nesse período e as duas explicam exatamente a queixa dela. A primeira é a distribuição de gordura, que passa a se concentrar mais na região abdominal mesmo em quem não engordou. Isso responde a pergunta sobre a barriga que apareceu sem que o peso mudasse. A segunda é o osso. A perda de massa óssea acelera nessa fase, e existe um detalhe no caso dela que aumenta a importância disso: peso corporal baixo é, por si só, fator de risco para osteoporose. Uma mulher de 47 kg está nesse grupo. Por isso, no caso dela, treino de força com carga progressiva não é assunto estético. É a intervenção que protege osso e músculo ao mesmo tempo, e é justamente a que exige comida suficiente para funcionar. Vale somar a isso duas coisas simples: garantir cálcio na alimentação, com leite, iogurte e queijo, que a dieta dela já tem, e conversar com um médico sobre quando fazer uma densitometria óssea. E ninguém perguntou sobre menstruação. Aos 47 anos, saber se o ciclo está regular, irregular ou ausente é a informação que organiza tudo o que eu escrevi acima, e é uma pergunta de uma linha. A terceira coisa é o que faltou por completo: exames. Ela informou que não tinha nenhum. Aos 47 anos, com queixa de dificuldade de mudar o corpo, eu pediria hemograma com ferritina, TSH, glicemia, perfil lipídico e vitamina D. Nada disso é caro, tudo isso está disponível na unidade básica de saúde, e qualquer um desses itens alterado muda a conduta. Hipotireoidismo e deficiência de ferro produzem exatamente a sensação de treinar e não render. A quarta coisa é o treino, onde eu faria a mudança mais concreta. A divisão que ela postou tem tabela A de perna, tabela B de braço e tabela C de glúteo. Ou seja, das três tabelas, duas são de membros inferiores e uma é de braço, e não aparece um dia dedicado a costas, peito e ombro. Isso importa por dois motivos. O primeiro é que as costas são o grupo que mais muda a postura e a aparência da cintura, que é justamente o que ela quer. O segundo é ósseo: os exercícios que mais estimulam coluna e quadril são os grandes movimentos com carga, como agachamento, levantamento terra, remada e desenvolvimento. Eu reorganizaria em três tabelas mais equilibradas: uma de inferiores com ênfase em quadríceps, uma de inferiores com ênfase em glúteo e posterior, e uma de superiores completa, com puxada, remada, desenvolvimento e o trabalho de braço junto. E fica o registro que eu repito sempre: anotar exercício, peso e repetições. Sem esse caderno, não há como saber se doze meses de treino viraram progressão ou repetição. A quinta coisa é uma correção que vale para a queixa principal. Não existe redução localizada. Não dá para escolher de onde a gordura sai, nem treinando aquela região específica. Isso já foi testado em estudos que treinaram apenas um lado do corpo e mediram os dois lados depois. A barriga muda por causa do conjunto, e no caso dela muda principalmente por causa de músculo construído e de postura. Duas observações menores sobre a dieta montada, que no geral está bem feita e é barata. A colher de leite condensado no pós treino cumpre bem o papel de carboidrato rápido e não tem nada de errado. E os alimentos escolhidos, com ovo, feijão, arroz, carne e frutas comuns, são justamente os que cabem no orçamento e sustentam a longo prazo. Sobre o fim do tópico, um comentário justo. Ela ficou doente com uma virose, perdeu a data da atualização e voltou pedindo, com todas as letras, se ainda podia ser acompanhada. Perguntou uma vez e ficou sem resposta. Um mês depois, outra pessoa apareceu e se ofereceu para retomar. Quem pede desculpas por ter adoecido e pergunta duas vezes se ainda pode continuar não é alguém que abandonou o projeto. E vale registrar quem estendeu a mão depois, porque isso é o que faz alguém não sumir de vez. Créditos à @Sussu, que montou uma dieta completa de graça, com horários e quantidades, para alguém que chegou sem nada. À @FaBHana, que fez algo raro e honesto: disse que gostaria de ajudar mas que não tinha conhecimento para passar dieta. Esse tipo de honestidade evita muito estrago, e devia ser mais comum. E à @Julie pelo incentivo. Se a Kaci estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. Ela não precisa emagrecer. O que ela quer se resolve comendo o suficiente, colocando um dia de costas e ombro no treino e anotando as cargas. E, aos 47 anos, com 47 kg, vale marcar uma consulta para conversar sobre osso e pedir exames simples. Isso vale mais para os próximos vinte anos do que qualquer ajuste de cardápio. Para quem quiser montar um treino a partir da própria rotina e do equipamento disponível, o site tem um gerador de treino em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/treino/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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CONSEGUEM ME AJUDAR NESSA SITUAÇÃO?
Esse tópico tem um resultado de exame que foi mencionado de passagem, no meio de uma conversa sobre doses, e que na minha leitura é o assunto principal do caso. Vou começar por ele. O @Twin contou que fez, três anos atrás, uma restrição alimentar extrema: cerca de quarenta e cinco dias comendo apenas banana, maçã e aveia, dentro de uma janela curta no fim da tarde, com quatro litros de água e mais de quatrocentos miligramas de cafeína por dia. Desde então convive com queixas que o levaram a procurar médico e a colher exames. No meio da conversa, ele escreveu que o médico havia dito que a prolactina estava alta, e perguntou se valia mandar cabergolina para dar uma baixada. Prolactina alta em homem não é um número para se baixar. É um achado que pede investigação, e é o item deste tópico que mais muda conduta. Explico por quê. Prolactina elevada tem uma lista de causas que precisa ser percorrida antes de tratar. Medicamentos são a causa mais comum, e entram aí antipsicóticos, alguns antidepressivos, metoclopramida e domperidona, opioides e outros. Hipotireoidismo eleva prolactina, e por isso o TSH entra sempre na conta. Doença renal e hepática também. E existe a causa que não pode ser esquecida: um tumor benigno da hipófise, o prolactinoma, que é a causa mais frequente de prolactina muito elevada. Por isso a sequência importa. Primeiro se confirma o resultado, porque a dosagem sofre interferência: estresse na coleta, punção difícil, exercício, refeição, atividade sexual recente e até estímulo mamilar elevam o valor. Existe ainda a macroprolactina, uma forma que não tem atividade biológica e que produz resultado alto sem doença nenhuma, e que pode ser pesquisada no próprio laboratório. Confirmado, se procuram as causas da lista acima. E, se a elevação for expressiva ou persistir sem explicação, o exame que se pede é uma ressonância magnética da região da hipófise. A cabergolina é, de fato, o tratamento correto para prolactinoma. O problema não é a substância: é usá-la para derrubar o número antes de saber o que está causando o número. Isso resolve o exame e deixa a causa sem diagnóstico. E há uma informação que conecta tudo isso com a queixa dele: prolactina alta, por si só, reduz testosterona e reduz libido. Ou seja, esse achado pode ser justamente a explicação do quadro, e nesse caso o caminho não é estimular o eixo por fora, e sim tratar o que está causando a elevação. Isso é conversa com endocrinologista, e vale insistir nela. A segunda coisa é a origem do quadro, e aqui o tópico foi bem. O que ele descreveu três anos atrás é o cenário clássico de baixa disponibilidade energética: déficit muito grande, por semanas, com alimentação monótona e pobre. Isso derruba o eixo hormonal, em homens também, e é um mecanismo bem descrito. Não é castigo nem sequela misteriosa, e a recuperação passa justamente por reverter o que causou: comer o suficiente, ter proteína adequada, dormir e treinar. A orientação do @Foston nesse ponto estava certa e é a base de tudo: dieta com proteína de verdade, oito horas de sono e atividade física. Sem energia disponível, nenhum estímulo hormonal se sustenta. A terceira coisa é onde eu discordo, e são três pontos. O primeiro é a vitamina D. Foi dito que dez mil unidades por dia é para tomar todo dia nessa dose. O limite superior tolerável para uso contínuo em adulto é de quatro mil unidades por dia. Doses acima disso, mantidas sem exame e sem acompanhamento, podem levar a excesso de cálcio no sangue e na urina, com risco de pedra nos rins e de comprometimento renal. Dose de reposição sai da dosagem sanguínea e do acompanhamento, e não de um número fixo. O segundo é a frase de que não existe nada mais supressor de testosterona do que estatina, acompanhada da sugestão de trocar de médico. Os estudos que avaliaram isso mostram, no máximo, um efeito pequeno das estatinas sobre a testosterona, e não algo que explique um quadro como o dele. E a recomendação de trocar de médico por causa de uma prescrição de estatina pode custar caro para quem tem indicação cardiovascular real, porque essa é uma das classes com maior benefício documentado em prevenção de infarto e de AVC. Discutir a indicação com o médico é legítimo. Abandonar por causa de um comentário de fórum não é. Vale notar, aliás, que o próprio perfil dele, com triglicerídeos altos, aponta mais para padrão alimentar e metabólico do que para efeito de medicação. O terceiro é a lista de manipulados. Aqui eu separo, porque não é tudo igual. Tribulus é o caso mais estudado e o mais claro: os ensaios em homens não mostram aumento de testosterona. Maca tem ensaios clínicos com melhora de desejo sexual, e o dado interessante é que essa melhora aconteceu sem alteração dos hormônios, ou seja, ela pode ajudar no sintoma sem mexer na causa. Saw palmetto foi estudado para sintomas urinários de próstata, e não para libido ou testosterona. Não é que não sirvam para nada. É que nenhum deles resolve prolactina alta, e gastar dinheiro com eles enquanto a causa não foi investigada é adiar o que importa. Uma observação sobre o clomifeno: a afirmação de que ele não precisa de desmame está correta. Mas, no caso dele, a pergunta anterior a essa é se estimular o eixo é o passo certo antes de saber por que a prolactina está alta. Se a prolactina for a causa, tratar a prolactina resolve o eixo. Essa é uma conversa para o endocrinologista, com os exames na mão. E fica um item para a lista, porque não apareceu: TSH e T4 livre. Hipotireoidismo eleva prolactina e produz cansaço e queda de libido, e é barato de descartar. Créditos ao Foston pelas orientações de base, que são as que sustentam qualquer recuperação, ao @Kami Back pela observação honesta de que libido é multifatorial e pela sugestão de buscar segunda opinião médica quando não há confiança na primeira, que foi o melhor conselho da página, e ao @Batata... pela orientação de calcular os macronutrientes em vez de continuar no escuro. Se o Twin estiver lendo isto, é isto que eu diria a ele. O achado mais importante do caso dele já está na mão: prolactina alta. Antes de qualquer decisão sobre substância, valem três coisas com um endocrinologista: repetir a dosagem em condições adequadas e pesquisar macroprolactina, revisar toda medicação em uso e dosar TSH, e discutir a necessidade de ressonância da hipófise. É isso que responde a pergunta que ele está fazendo há três anos. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Perca de gordura
Esse tópico é curto, mas tem uma decisão importante tomada pela própria autora que merece ser comentada, e tem também uma correção técnica que vale para muita gente que lê por aqui. A @Batata doce chegou com 20 anos, 1,68 m, contando que estava em dieta prescrita por um médico do esporte, usando alguns medicamentos, e frustrada por ter perdido apenas seiscentos gramas em dez dias. Depois, respondendo a uma pergunta, ela contou o que estava por trás: foi ela quem pediu ao médico que receitasse hormônio, para acelerar a perda de gordura. E, na atualização seguinte, ela escreveu que tinha suspendido a oxandrolona por conta de muita espinha no queixo e no maxilar. Começo por aí, porque essa foi a melhor decisão do tópico e ela foi dela. Acne no queixo e no maxilar, aparecendo depois de começar androgênio, não é coincidência nem pele oleosa por acaso. É efeito androgênico, e essa distribuição no terço inferior do rosto é justamente o padrão típico. Isso importa por um motivo que vai além da pele. A acne é do grupo de efeitos que regride quando se interrompe. Mas ela é também um aviso de que a substância está agindo de forma sistêmica, e existe um segundo grupo de efeitos que não regride: engrossamento da voz, aumento do clitóris e crescimento de pelo em padrão masculino. Ou seja, o sinal que ela percebeu era da parte reversível, e ela parou antes de chegar à parte que não volta. Ela acertou, e vale que alguém diga isso a ela com todas as letras. E fica o combinado que protege qualquer mulher nessa situação, muito mais do que qualquer discussão sobre dose: ao primeiro sinal de mudança na voz, para na hora. Essa é a que não melhora depois. Vale acrescentar duas coisas sobre a idade dela, que ninguém mencionou. Aos 20 anos, o corpo ainda está terminando de acumular massa óssea, e essa é uma janela que não se repete. Restrição alimentar agressiva nessa fase, principalmente se alterar o ciclo menstrual, cobra caro e cobra depois. E, por falar nisso, este tópico repete a ausência que eu tenho encontrado em quase todos: em nenhum momento se perguntou sobre menstruação. Em mulher jovem, em dieta e usando androgênio, alteração do ciclo é o marcador mais barato, mais precoce e mais sensível que existe. Deveria ser a primeira pergunta. A segunda coisa é a melhor observação técnica do tópico, e ela veio do @Batata... Ele olhou os exames e perguntou por que o médico havia pedido apenas T3, sem TSH e sem T4. A pergunta é certeira. Para investigar tireoide, o exame de triagem é o TSH, complementado pelo T4 livre. O T3 isolado praticamente não serve para esse fim, e é justamente o item que mais aparece pedido sem necessidade. Se havia suspeita de hipotireoidismo, o pedido estava incompleto. Também foi correta a observação de que o gasto calórico usado para montar a dieta parecia ter sido calculado como se ela fosse sedentária, quando ela treina cinco vezes por semana. Dieta calculada por baixo gera fome desnecessária e aumenta a chance de abandono. Agora a correção, e ela é a parte que vale para todo mundo. Foi dito no tópico que a massa magra pesa três vezes mais que a gordura. Isso não é verdade, e o número faz diferença. Músculo é mais denso que gordura, mas a diferença é de aproximadamente quinze a vinte por cento em volume, e não de três vezes. Ou seja, um quilo de músculo ocupa um pouco menos de espaço que um quilo de gordura, o suficiente para mudar a silhueta, mas não o suficiente para explicar grandes diferenças na balança. A conclusão prática que veio junto, aliás, está certíssima: a balança não conta a história toda, e medidas, roupa e foto contam melhor. Só que o motivo verdadeiro é outro. É que dá para perder gordura e ganhar músculo ao mesmo tempo, principalmente em quem tem gordura para perder e treina há pouco tempo de forma organizada, e nesse caso o peso quase não se mexe enquanto o corpo muda bastante. Chama-se recomposição corporal, e provavelmente é o que estava acontecendo com ela. A terceira coisa é o número que a desanimou, e ele merecia outra leitura. Seiscentos gramas em dez dias, para alguém de 1,68 m que treina cinco vezes por semana, é aproximadamente meio por cento do peso por semana, que é exatamente a faixa que preserva massa magra. Ela chamou isso de desanimador. Tecnicamente, era o ritmo certo. E na atualização seguinte ela relatou dois a três quilos com setenta por cento de aderência, o que confirma que o plano funcionava. O problema nunca foi a velocidade: era a expectativa. Isso importa porque foi essa expectativa que motivou o pedido do hormônio. A frustração com um resultado que estava correto levou a uma decisão com custo real, e a acne apareceu. Um último ponto sobre a aderência. Ela relatou setenta por cento na dieta e cem por cento no treino, e recebeu o incentivo para buscar os cem por cento na dieta também. O incentivo é legítimo, mas vale dizer que setenta por cento sustentado por meses vence cem por cento sustentado por três semanas. Restrição rígida demais é justamente o que costuma terminar em episódios de perda de controle, e ela tem vinte anos e muito tempo pela frente. Créditos ao Batata..., que fez a leitura clínica correta dos exames, apontou o cálculo baixo do gasto e conduziu sem alarde, e à @TataBarb, que voltou semanas depois só para perguntar como ela estava, que é o tipo de mensagem que faz gente voltar. Se a Batata Doce estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. Ela parou a oxandrolona ao primeiro sinal claro, e isso foi certo. O resultado que ela achou pouco era, na verdade, o ritmo adequado. E o que eu levaria adiante são duas coisas: pedir TSH e T4 livre, já que a dúvida sobre tireoide ficou no ar, e trocar a meta de secar mais rápido pela meta de sustentar por seis meses. Aos vinte anos, tempo é o recurso que ela tem de sobra. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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É cedo para ciclar ou não?
Olá, este tópico é muito antigo. Mas com minha nova idade, com minha profissão, e com a visão de como está o mundo fitness hoje, vejo como as "dicas" do moderador eram prejudiciais e abusivas. Não tive voz, e muitos devem ter sido calados por ele e sua arrogância. Mas olhando agora, percebo como esse Moderador Apollo Galeno recomendava doses e coisas até mesmo criminosas para a saúde. Além de ser totalmente narcisista e autoritario com outras pessoas que comentam. Invalidando a tudo com seus posicionamentos sarcásticos e arrogantes. Inclusive, vou ver minuciosamente os ultimos posts dele, e tomar as medidas cabiveis contra ele e o Forum. Pode banir minha conta e meu IP. Acessarei de outra maneira.
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HiddeN começou a seguir É cedo para ciclar ou não?
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Emagrecer pela saúde
Esse tópico começa com uma pergunta certíssima, recebe uma resposta que deveria ter acendido todos os alertas e segue adiante sem que ninguém volte ao assunto. Vou começar por ali. A @Thay30 abriu o tópico com 88 kg dizendo que tem pressão alta e que isso atrapalha as dietas que já tentou. O @Agan81 perguntou, e a pergunta era exatamente a certa: você não usa nenhuma medicação para cuidar dessa desordem no sistema cardiovascular? A resposta dela foi esta: nunca tomou medicação, e as vezes em que foi ao médico era sempre quando estava com dor, porque aí a pressão aumentava, mas que fora isso, ao longo do dia, está sempre bem. Ou seja: uma pessoa com pressão alta, sem tratamento, sem acompanhamento, que só mede a pressão quando está sentindo dor, e que estava começando a treinar todos os dias. E o assunto morreu ali. Vale muito a pena retomar. Existe uma ideia muito difundida, e ela é justamente o motivo pelo qual a hipertensão é perigosa: a de que pressão alta se sente. Ela não se sente. A imensa maioria das pessoas com pressão alta não tem sintoma nenhum, e é exatamente por isso que a doença é chamada de silenciosa. Sentir-se bem o dia todo não é evidência de que a pressão está boa. E medir só quando está com dor tem um problema adicional: dor eleva a pressão de forma momentânea em qualquer pessoa. Ou seja, ela vinha medindo sempre no pior momento possível e nunca no momento que interessa, que é o dia comum. O que responde isso é simples e barato: medir a pressão em dias diferentes, em repouso, na unidade básica de saúde do bairro ou na farmácia, e levar os números anotados a uma consulta. Se houver dúvida, existe o exame de vinte e quatro horas, que registra a pressão ao longo do dia inteiro. E aqui vem a parte boa, que ninguém contou a ela. Tratamento de pressão alta não é sinônimo de remédio. Perder peso é uma das intervenções que mais reduzem pressão arterial, na ordem de aproximadamente um ponto para cada quilo perdido em muitas pessoas. Ou seja, o projeto que ela começou é, em si, tratamento. Só que isso tem uma consequência prática que precisa ser dita: quem tem pressão alta e começa a emagrecer precisa acompanhar a pressão justamente porque ela tende a cair. Isso é ótimo, e é mais um motivo para ter um médico acompanhando, e não menos. E, para quem está começando a se exercitar sem nunca ter tratado a pressão, vale a regra de segurança: dor de cabeça forte e persistente, dor no peito, falta de ar desproporcional, alteração visual ou tontura intensa durante o esforço são motivo para parar e procurar atendimento, não para insistir. A segunda coisa que faltou é a mais surpreendente, considerando que o assunto do tópico é pressão alta: em nenhum momento se falou de sal. Redução de sódio é a mudança alimentar com maior efeito comprovado sobre pressão arterial. Não é detalhe: é o item principal. E ela trabalha em pizzaria, come no horário que dá e relata que come alguma coisa à meia noite quando chega em casa. Isso descreve um padrão com muito sódio, provavelmente bem acima do que ela imagina. O que costuma render mais, na prática, não é tirar o saleiro da mesa, e sim reduzir o que já vem salgado: embutidos, queijos processados, temperos prontos, macarrão instantâneo, caldos em tablete, salgadinhos e a própria pizza. E aumentar frutas, verduras e feijão, que são ricos em potássio, ajuda no mesmo sentido. Uma dieta montada para uma pessoa hipertensa deveria começar por aí. A terceira coisa é sobre o refrigerante, e tem um detalhe que passou despercebido. Ela contou que tentou parar e que deu dor de cabeça, e por isso voltou a comprar. Essa dor de cabeça tem explicação simples: os refrigerantes à base de cola contêm cafeína, e parar cafeína de repente causa dor de cabeça, cansaço e irritabilidade por alguns dias. Passa sozinha, e reduzir aos poucos em vez de cortar de uma vez evita quase todo o desconforto. Ou seja, não era falta de força de vontade. Era abstinência de cafeína, e ela poderia ter sido avisada disso. A sugestão de usar a versão zero como transição está correta, e é o tipo de solução prática que funciona melhor do que proibir. Para o caso dela, aliás, há um detalhe extra: algumas versões zero contêm sódio, então vale olhar o rótulo. A quarta coisa é a proteína, onde eu ajustaria o plano. Somando o cardápio montado, o total de proteína fica em torno de setenta a oitenta gramas por dia. Para 88 kg em emagrecimento, eu subiria para algo entre cento e dez e cento e trinta gramas. Proteína é o que mais protege músculo enquanto se perde gordura, e é também o que dá mais saciedade, o que importa muito para quem trabalha à noite e come fora de hora. E o cardápio já foi montado respeitando alergia a couve e a pimentão e a implicância com peito de frango, o que é atenção que raramente se vê. Vale só usar as opções mais baratas de proteína para chegar ao total: ovo, sardinha em lata, moela, fígado, carne moída e coxa com osso. Sobre o horário, dois pontos práticos. Comer alguma coisa à meia noite não é problema em si: o que importa é o total do dia, e comer à noite não engorda mais do que comer de manhã. E, para quem trabalha em pizzaria, a estratégia que mais funciona é levar comida pronta de casa, porque a decisão difícil deixa de existir. A quinta coisa é o treino. Ela perguntou se podia aumentar os dias de treino para tirar as gordurinhas da coxa. A resposta que veio foi para aumentar o aeróbico e manter a musculação como estava, o que faz sentido para gasto calórico. Só faltou dizer uma coisa importante: não existe redução localizada. Não dá para escolher de onde a gordura sai, nem treinando aquela região. As coxas vão afinar por causa do déficit calórico, e não por causa de exercício específico para coxa. E eu, no caso dela, aumentaria a musculação em vez de reduzi-la. Treino com carga é o que preserva músculo durante o emagrecimento, e músculo é o que sustenta o gasto lá na frente, além de ajudar no controle da pressão. Um comentário sobre o ritmo: ela saiu de 88 kg para 83,8 kg em cerca de um mês. É um bom começo, e parte dessa queda inicial é água. Daqui para a frente, algo entre meio e um quilo por semana é o ritmo que mais preserva massa magra e que menos costuma terminar em efeito sanfona, que foi justamente a queixa dela na primeira mensagem. Créditos. Ao Agan81, que fez a pergunta clínica certa logo de início, montou uma dieta completa de graça, respeitando as alergias e as preferências dela, e ajustou quando ela relatou dificuldade. Ao @Batata..., pela orientação de subir carga aos poucos e pela frase sobre respeitar o tempo do corpo, e pelo relato pessoal sobre ter parado de fumar, que vale mais como exemplo do que qualquer sermão. E à @RenatinhaSA, à @Julinha e à @Bárbara pelo acompanhamento. Se a Thaís estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. O projeto está indo bem e ela já sente diferença na disposição, o que é real. A coisa mais importante que ela pode fazer agora não custa dinheiro: medir a pressão em três ou quatro dias comuns, anotar, e levar esses números a uma consulta na unidade de saúde do bairro. E, na dieta, olhar para o sal com a mesma atenção que está olhando para o refrigerante. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Diario e avaliação - Dieta Cutting
Esse tópico é um dos melhores que eu já li aqui, e é também um dos poucos em que apareceu documentação de verdade: exame de sangue com data, espirometria e ajuste de medicação acompanhado. Vale comentar o que foi bem feito e as duas coisas que eu faria diferente. O @Masterplan chegou com 26 anos, 1,78 m, 86 kg, usando Depakote e Symbicort, com relato de burnout, crises de ansiedade e asma. Terminou o período com 78,4 kg. Começo pelos números, porque eles contam uma história melhor do que o entusiasmo. Foram 7,6 kg em cerca de cem dias, o que dá aproximadamente meio por cento do peso corporal por semana. Essa é exatamente a faixa que preserva massa magra. É raro ver alguém acertar isso, e ainda mais raro ver alguém acertar sem tentar. A maior parte dos relatos daqui perde peso rápido demais e depois se pergunta por que a força caiu. Ou seja, o ritmo dele estava certo, e isso merece ser dito com número e não só com parabéns. A segunda coisa que foi muito bem feita foi a condução da asma, e ela é o melhor exemplo técnico deste fórum que eu vi até agora. O que aconteceu ali foi o seguinte: em vez de simplesmente sugerir reduzir a medicação, foi pedida uma espirometria, foram feitas as perguntas certas sobre controle da asma na última semana, sintomas noturnos, sintomas diurnos, uso de medicação de alívio por cansaço e limitação de atividade física, e só depois disso foi proposta a redução do corticoide inalatório, mantendo a medicação diária e explicando quando usá-la como resgate. Isso é exatamente o método que se usa para reduzir dose em asma controlada, e o @Samu0808 conduziu certo. E vale acrescentar uma informação que ninguém deu a ele, e que reforça o que ele fez: perder peso melhora o controle da asma. Isso está bem documentado, e é uma das razões pelas quais ele passou a treinar sem chiado. Ou seja, os 7,6 kg não foram só estética, eles são parte do motivo pelo qual a dose pôde ser reduzida. Duas observações práticas ficam para ele: a redução do corticoide inalatório é degrau, e não abandono, porque asma controlada com medicação continua sendo asma, e o retorno dos sintomas pede reavaliação antes de qualquer coisa. E a orientação sobre gatilhos e vacinas estava correta. A terceira coisa é onde eu discordo, e discordo com firmeza. Apareceu no tópico a ideia de que o Depakote logo iria embora e que os psiquiatras exageram na medicação. Divalproato de sódio é estabilizador de humor, e no caso dele foi prescrito depois de um quadro com instabilidade de humor e crises de ansiedade, com acompanhamento mensal em andamento. Retirada de estabilizador de humor tem risco conhecido de recaída, e é justamente o tipo de decisão que depende de tempo de estabilidade e de avaliação de quem acompanha. O que me preocupa não é a opinião em si, é o efeito dela. Quem lê que o remédio vai embora logo e que quem receitou exagerou tende a diminuir a dose por conta própria, e isso é como se perde uma estabilidade conquistada. O caminho correto é o que já tinha sido dito antes, e esse estava certo: continuar treinando, contar à psiquiatra que começou a treinar e emagreceu, e deixar que a decisão sobre dose venha de lá. Atividade física tem efeito real sobre ansiedade e humor, e ele mesmo relatou isso na última atualização, quando escreveu que a ansiedade tinha melhorado muito. Esse relato é ótimo argumento para levar à consulta, e não substituto dela. E há um detalhe prático que vale para quem usa valproato: ele pede acompanhamento laboratorial periódico, incluindo função hepática e plaquetas. Como ele já estava colhendo exames, é só somar à lista. A quarta coisa é a dieta, onde eu faria um ajuste. A meta era cento e trinta gramas de proteína por dia. Para 86 kg, isso dá cerca de 1,5 g por quilo. Está dentro do aceitável, mas em quem está em déficit calórico prolongado e treinando com carga, eu subiria para algo entre cento e sessenta e cento e oitenta gramas por dia. O motivo é direto: proteína é o principal fator dietético que protege massa magra durante o emagrecimento, e a necessidade aumenta justamente quando as calorias caem. E ele relatou, na reta final, que sentiu perda de disposição, o que é o momento típico em que vale rever proteína e energia em vez de apertar mais. Sobre a fome à tarde e à noite nos dias em que treinava de manhã, que ele relatou, o ajuste é simples: manter o mesmo total do dia e deslocar parte do carboidrato das refeições da manhã para o fim da tarde. Carboidrato à noite não atrapalha emagrecimento quando o total é o mesmo, e resolve a fome no horário em que ela aparece. E vale registrar um acerto: a liberação de uma refeição livre a cada quinze dias, com hora marcada. Isso não é premiação, é ferramenta. Restrição rígida sem válvula programada é justamente o que prevê episódios de perda de controle mais adiante, e ele sustentou entre oitenta e cinco e noventa e três por cento de aderência por meses, o que é altíssimo para vida real com viagem de trabalho e metas de fim de ano. A quinta coisa é o fim do tópico, e eu quero comentar. Ele perdeu a data da última atualização e voltou não para atualizar, mas para agradecer, escrevendo que regra é regra e que não tinha cumprido. Quem oferece acompanhamento de graça tem direito de estabelecer regras, e a pontualidade tem função real, porque sem atualização não há como ajustar nada. Só que vale registrar o que esse participante entregou: 7,6 kg em um ritmo tecnicamente correto, exames de sangue com data, uma espirometria marcada e paga, respostas detalhadas a todas as perguntas clínicas, redução de degrau da medicação da asma feita com critério e uma melhora relatada de ansiedade. Ele foi, disparado, um dos casos mais bem documentados que passaram por aqui. Não é sobre flexibilizar regra. É só que, quando alguém desse nível para na porta pedindo desculpa por causa de uma data, quem perde o acompanhamento do caso é o fórum inteiro. Créditos. Ao @Apollo Galeno pela condução e pelos ajustes a cada atualização. Ao Samu0808 pela condução da asma, que foi feita do jeito certo e com exame na mão. À @FaBHana, à @Isa, à @Bárbara, à @RenatinhaSA, à @Yoka, à @Beca, à @marianap, à @Andressa Souza, à @Helynha e ao @pL4ymObiL pelo acompanhamento. E ao @Beetlebum013, que é irmão dele e foi o motivo de ele ter aberto o tópico, o que é uma das melhores coisas que alguém pode fazer por outra pessoa. Se o Masterplan estiver lendo isto, é isto que eu diria a ele. O ritmo dele estava certo, o resultado é dele e a asma melhorou por consequência do que ele fez. As duas coisas que eu levaria adiante são subir a proteína e levar à psiquiatra o relato de que a ansiedade melhorou com treino, deixando a decisão sobre o Depakote com quem acompanha. E, se um dia ele quiser retomar, o tópico não precisa de permissão para recomeçar. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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QUERO EMAGRECER E GANHAR MASSA MAGRA
Esse é um dos tópicos mais bem conduzidos que eu já li aqui, com uma das melhores evoluções, e ele termina exatamente no ponto em que faltou a única coisa que nunca foi feita nesses cinco meses. Vou chegar lá, mas começo pelo que deu certo, porque foi muito. A @drica123 chegou com 28 anos, 1,59 m, 62 kg, quatro anos de treino sem acompanhamento e uma abdominoplastia feita seis meses antes. Cinco meses depois, ela estava com 59,5 kg. Dois quilos e meio. E é aqui que está a lição mais bonita do tópico, porque quem olhar só esse número não vai entender nada do que aconteceu. As fotos comparativas mostraram quadríceps aparecendo, glúteo mais alto e desenhado, cintura mais fina e abdômen mudando, e ela relatou roupa folgando na cintura e apertando na coxa. Isso tem nome: recomposição corporal. Ela perdeu gordura e ganhou músculo ao mesmo tempo, e por isso a balança quase não se mexeu. É o cenário que mais acontece em quem tem alguma gordura para perder e nunca treinou de forma organizada, que era exatamente o caso dela, e é a explicação para a frase que ela escreveu, a de que aumentou algumas gramas mas estava se sentindo mais seca. Vale registrar para quem lê: se ela estivesse acompanhando apenas o peso, teria concluído que estagnou em agosto e provavelmente teria desistido. O que salvou a leitura do caso foram as fotos comparativas e a fita métrica. Duas coisas foram feitas certas ali e merecem crédito explícito. A primeira é a orientação de fotografar sempre no mesmo tipo de roupa e montar comparativo com a foto anterior. A segunda, e essa é ainda melhor, é a orientação de atualizar dois dias depois do fim do período menstrual, quando ela avisou que estava inchada. Retenção da fase pré menstrual distorce foto, distorce balança e faz gente boa achar que regrediu. Poucos lembram disso. A segunda coisa que merece registro é a insistência do @Foston sobre o treino, que foi a melhor sequência técnica da página. Ele olhou a divisão postada e perguntou onde estavam peito e ombro. Ela respondeu que fazia. Ele perguntou de novo, apontando que na tabela transcrita aqueles exercícios não existiam. E, depois de insistir, veio a resposta verdadeira: o treinador não seguia tabela, falava o exercício na hora e mudava direto. Esse é o problema estrutural, e é o mesmo que eu encontro na maioria dos tópicos: sem tabela escrita, não existe registro de carga, e sem registro de carga não existe como saber se houve progressão. Ela obteve um resultado excelente apesar disso, e não por causa disso. A terceira coisa é o que nunca aconteceu no tópico inteiro, e é o motivo pelo qual eu estou escrevendo esta resposta. Ela informou, na primeira mensagem, que não tinha nenhum exame recente. Alguém chegou a comentar, no começo, que era estranho ter feito uma abdominoplastia sem exames. E, cinco meses depois, na última página, veio a proposta de passar para a fase seguinte, com substância, e ela aceitou. Ou seja, o tópico chega ao ponto de introduzir androgênio em uma mulher de 28 anos que nunca teve um único exame de sangue mostrado ali. Isso precisa ser dito com clareza, e sem drama: independentemente da opinião de cada um sobre usar ou não usar, exame antes não é burocracia. É o que permite saber se algo mudou depois. O mínimo, nesse cenário, é perfil lipídico, e ele é o mais importante de todos, porque androgênios orais reduzem o colesterol bom de forma acentuada e rápida. Junto disso, transaminases para função hepática, hemograma e glicemia. Repetidos depois, eles são a única forma de enxergar o que aconteceu por dentro enquanto o espelho mostra o que aconteceu por fora. E existe uma segunda parte, que é a lista de sinais e a regra de parada. Colateral de androgênio em mulher se divide em dois grupos. Acne, oleosidade, alteração de libido e irregularidade menstrual costumam regredir depois da interrupção. Engrossamento de voz, aumento do clitóris e pelo em padrão masculino costumam ficar, mesmo parando. Por isso, o combinado que protege é simples e vale mais do que qualquer dose: ao primeiro sinal de mudança na voz, para. Não se espera para ver se melhora, porque essa é justamente a que não melhora. E aqui eu volto a uma observação que já fiz em outros tópicos: a ficha de atualização usada aqui pergunta acne e pergunta libido, que são dois marcadores corretos. Mas não pergunta menstruação. Em mulher usando androgênio, alteração do ciclo é o sinal mais barato, mais precoce e mais sensível que existe. Deveria estar na ficha, e deveria estar antes dos outros dois. A quarta coisa é uma informação do formulário dela que ficou cinco meses sem receber uma linha: ela relatou enxaqueca. Enxaqueca importa nesse contexto por motivos práticos. Ficar longos períodos sem comer, desidratação, privação de sono e mudanças bruscas na cafeína são gatilhos conhecidos, e todos eles aparecem quando alguém entra em dieta e treino de forma intensa. Se as crises aumentarem de frequência durante o projeto, isso é informação para levar ao médico, e não algo a apertar os dentes e seguir. A quinta coisa é sobre a abdominoplastia, que era a queixa original dela, e sobre a qual eu daria duas informações que não apareceram. A primeira é que a cicatriz leva cerca de um ano para amadurecer, e nesse período precisa de proteção solar. Ela fez a cirurgia em janeiro e passou o projeto inteiro caminhando de manhã, então vale a lembrança. A segunda é que a abdominoplastia retira pele e a gordura logo abaixo dela, mas não retira a gordura que fica dentro do abdômen, em volta dos órgãos. Ou seja, aquela camada que ela chamou de capa de gordura e queria perder era justamente a parte que só sai com o que ela fez agora: dieta e treino. Ela conseguiu, e vale entender por quê. Um ajuste que eu faria no plano: com 62 kg no início, cem gramas de proteína por dia dá cerca de 1,6 g por quilo. Está adequado, mas em quem está em déficit e treinando forte eu subiria para algo entre cento e vinte e cento e trinta gramas, especialmente agora que ela pretende passar para uma fase mais exigente. Proteína é o que mais protege músculo, e é o mais barato de ajustar. E sobre a água, três litros e cem por dia, exatos: não existe número universal, e a cor da urina resolve melhor. Créditos, e são muitos. Ao @Apollo Galeno pela condução, pelo ajuste de dieta a cada atualização e pelo detalhe do timing menstrual da foto. Ao Foston pela insistência sobre o treino, que era o buraco real. À @FaBHana pelos comparativos montados, que é trabalho e ninguém pediu. À @Isa, pelo relato de que quase fez uma lipo e mudou de caminho, que é o tipo de exemplo que faz diferença para quem chega. E à @vitoriamm, à @Famama, à @RenatinhaSA, à @Ruthynha, à @Helynha, à @MM_mm, à @Sussu, à @Fran, à @Lala, à @girl_33, à @ladot, à @De M, à @Mistakes, à @Bárbara, à @luhccardoso, à @Vezinha, à @Qsr, à @Keyte Luciana Cerqueira, à @Maah, à @Beca, ao @Marco Passarelli, ao @durosbrutos e ao @ursinho physique, que fizeram o tópico ser o que foi. Se a Drica estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. O resultado dela foi conquistado com dieta, treino e cinco meses de constância, com dois quilos e meio na balança e um corpo diferente no espelho. Isso é mérito e é dela. E, justamente por isso, antes de qualquer passo adiante, valem duas providências baratas: um exame de sangue com perfil lipídico e função hepática, para ter o antes, e um combinado consigo mesma sobre voz. O resto ela já provou que sabe fazer. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Cuidando do corpo
Nesse tópico tem uma informação que a autora soltou no meio da conversa, quase pedindo desculpa, e que era o dado mais importante da página inteira. Ela passou sem comentário. Vou começar por ela. A @arame123 chegou com 48 anos, 1,52 m, 68 kg, um ano de treino cinco vezes por semana, sem dieta e sem exames. A conversa seguiu por um caminho: como arroz, feijão, salada e carne dificilmente engordam em quantidade normal, a dedução foi que deveria haver doce, bolo e festa no meio, ou então algum problema clínico. E veio, em seguida, a pergunta sobre se ela queria mudar ou se ela quer mudar, com o recado sobre gente que chuta o balde quando descobre que precisa fazer dieta. Foi então que ela escreveu isto: que já tinha perdido vinte quilos desde que começou a se exercitar, e que só não conseguia sair daquele peso. Vinte quilos. Ou seja, a pessoa que estava sendo avaliada quanto ao nível de comprometimento tinha saído de aproximadamente 88 kg para 68 kg e mantinha treino cinco vezes por semana havia um ano, por conta própria, sem nutricionista, sem médico, sem plano de saúde e sem ninguém acompanhando. Isso não é perfil de quem não quer. Isso é uma das coisas mais difíceis de fazer sozinho que existe, e ela fez. Vale registrar isso porque muda o diagnóstico do caso. O problema dela não é vontade. É que a estratégia que funcionou até aqui chegou ao limite dela, o que é absolutamente esperado, e ninguém explicou isso a ela. Explico por que o platô era previsível. Quem pesava 88 kg gasta mais para viver e para se mover do que quem pesa 68 kg. Ao perder vinte quilos, o gasto diário cai, e a alimentação que produzia déficit no início passa a produzir equilíbrio. Não é o corpo travando por castigo: é aritmética. Quem chega ao platô depois de uma perda grande está, na verdade, mantendo uma conquista grande. E aqui entra a segunda parte, que é a mudança de ferramenta. Até agora ela usou uma ferramenta só, que foi exercício mais tirar o arroz. Para seguir adiante, o que costuma destravar não é cortar mais um alimento, e sim três coisas específicas. A primeira é proteína. Ela descreveu a alimentação como arroz, feijão, salada e proteína, sem quantidade nenhuma. Para o peso dela, um alvo entre cento e dez e cento e vinte gramas de proteína por dia é o que mais protege músculo enquanto ela perde gordura, e músculo é justamente o que sustenta o gasto. Ovo, frango, carne moída, sardinha em lata, leite em pó e a própria combinação de arroz com feijão dão conta disso sem nada caro. A segunda é treino com carga e com registro. Ela faz funcional cinco vezes por semana há um ano, e funcional é ótimo para condicionamento, mas ela não tem como saber se progrediu, porque não existe anotação de carga. Aos 48 anos, treino de força com carga progressiva deixa de ser assunto estético e passa a ser assunto de osso e de massa muscular, que é o que se perde nessa faixa etária. A terceira é medir outra coisa além da balança. Quem está no platô de peso muitas vezes continua mudando de forma, e a medida de circunferência de cintura, feita uma vez por mês com fita métrica, mostra isso quando a balança não mostra. A terceira coisa que faltou no tópico é uma pergunta, e ela é específica da idade dela. Aos 48 anos, ninguém perguntou nada sobre o ciclo menstrual. Essa faixa etária é justamente a da transição para a menopausa, e é um período em que a distribuição de gordura muda, o sono piora, o humor oscila e a perda de massa óssea acelera. Isso interfere no que ela está tentando fazer e muda o que vale a pena investigar e conversar com um médico. É uma pergunta de uma linha e ela vale mais do que metade da lista de exames que foi sugerida. E sobre os exames, uma observação prática, porque ela disse duas coisas importantes: que não tem plano de saúde e que não tem médico que a acompanhe. A lista sugerida no tópico incluía testosterona total, SHBG, SDHEA, T3 e T4 totais e livres, hemograma, glicemia, insulina e vitamina D. É uma lista completa e cara, e ela mesma foi apresentada como cara. Se o orçamento é limitado, eu priorizaria assim: glicemia de jejum e hemoglobina glicada, TSH, hemograma com ferritina, perfil lipídico e vitamina D. Isso responde as perguntas com maior chance de mudar a conduta em uma mulher de 48 anos com sobrepeso, e deixa de fora os itens que só fariam sentido em um segundo momento. E o caminho para conseguir isso sem plano de saúde é a unidade básica de saúde do bairro dela. Consulta e esses exames são oferecidos pelo SUS, e a resposta correta para quem diz que não tem médico não é procurar o médico que acompanha, e sim se cadastrar na unidade mais próxima de casa. Vale ainda mais porque, com 1,52 m e 68 kg, ela está em uma faixa de índice de massa corporal em que rastrear diabetes e pressão tem indicação por si só. Duas observações técnicas sobre o que foi orientado. A correção sobre pré e pós treino estava certa e vale repetir: não é preciso carboidrato minutos antes do treino, porque o que sustenta o treino veio das refeições anteriores, e faz mais sentido garantir proteína ao longo do dia do que caprichar no horário exato. Já sobre tirar o arroz, eu discordo de tratar isso como parte da solução. Arroz não é o motivo de ninguém engordar, e ele é uma das fontes de energia mais baratas que existem no prato brasileiro. Se for para cortar alguma coisa, que se corte a partir da conta total do dia, e não de um alimento específico eleito como culpado. Aliás, arroz com feijão junto tem uma vantagem extra, que é a combinação de aminoácidos que se completam, o que ajuda justamente na proteína que está faltando. E a sugestão de conversar com outra participante do fórum que mora na mesma cidade foi uma ideia excelente, e sinceramente das melhores que eu já vi aqui. Fazer isso acompanhada, com alguém no mesmo estágio, é um dos fatores de aderência mais fortes que existem. Créditos a quem atendeu, que trabalhou de graça e foi direto ao ponto em várias coisas: a exigência de pesar os alimentos, o aplicativo para contar, a correção do pré e pós treino e a lista de exames como ponto de partida. E à @Keyte Luciana Cerqueira pela recepção. Se a autora estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. Ela perdeu vinte quilos sozinha e mantém, e isso é mais do que a maior parte das pessoas que abrem tópico aqui já conseguiu. O que travou não foi a vontade dela: foi a matemática, e a saída não é comer menos ainda, e sim comer mais proteína, treinar com carga anotada e medir a cintura além do peso. E vale marcar a consulta na unidade de saúde do bairro, que é de graça, levando duas perguntas escritas: como estão glicemia e tireoide, e o que esperar do ciclo menstrual daqui para a frente. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Marcelo Pelaio: maturidade, dieta simples e a coragem de parar
Subir da categoria leve para a pesada e vencer com mais de 90 kg não foi a consequência de uma arrancada farmacológica. Para Marcelo Pelaio, foi o resultado de amadurecer o físico por etapas, aprender a obedecer um mestre e repetir o trabalho por anos. A frase que resume sua trajetória é direta: só alcança o propósito quem suporta o processo. Em Livecast Os Honoráveis #Episódeo 29 Marcelo Pelaio, do canal Os Honoráveis, Pelaio conversa com Alessandro Valentim, Renato Ventura e Samuel Vieira. Como a gravação reúne quatro vozes, as lições desta matéria foram atribuídas a Marcelo apenas quando aparecem em respostas diretas, relatos em primeira pessoa ou fatos biográficos inequivocamente dele. Da barra na praia ao primeiro título em 1983 A base começou com barra fixa e paralelas na praia. Depois vieram os treinos com Cláudio Magalhães, o Tibi, e passagens pela antiga Pumping Iron, que mais tarde se tornou Heavy Duty, em Copacabana. Em 1983, Marcelo estreou e venceu tanto a categoria leve quanto o overall do campeonato de novatos. Tibi ocupou um lugar maior do que o de treinador. Marcelo o chama de mestre e segundo pai, inclusive porque sabia frear sua ansiedade. Quando perguntava se deveria usar determinada substância, ouvia que era preciso ter calma e amadurecer o físico primeiro. A lição não era passividade. Era fazer a etapa presente antes de tentar comprar a próxima. A carreira levou esse princípio para a balança. Marcelo avançou da categoria leve para a média, depois para a meio-pesada e chegou a disputar a pesada. O corpo não saltou de uma divisão à outra. Foi sendo construído. Hugo Faria transformou provocação em combustível Antes de ser campeão, Marcelo encontrou Hugo Faria na academia e pediu uma orientação alimentar. Já consagrado, Hugo respondeu com uma brincadeira: feijão com rapadura. Marcelo percebeu a provocação e fez uma promessa íntima de vencê-lo algum dia. A rivalidade não virou inimizade. Hugo passou a ser uma referência concreta de nível. Marcelo competiu por anos, acumulou maturidade e finalmente o superou em um campeonato open em Santos, disputado apenas por campeões brasileiros. Ele situa a vitória em 1996 ou 1997 e recorda estar com mais de 90 kg no overall. Quase quinze anos separam a estreia de 1983 daquela vitória. Esse intervalo explica melhor o físico do que qualquer atalho. O adversário serviu como régua, não como desculpa para acelerar o que o corpo ainda não tinha construído. A dieta tinha seis refeições, mas não era sofisticada O conhecimento nutricional vinha de revistas americanas assinadas por Tibi, como Muscle & Fitness e MuscleMag. Marcelo pegava as edições emprestadas, traduzia as orientações e testava aos poucos no próprio corpo. Era um processo empírico, limitado pelo dinheiro disponível e muito distante do acompanhamento em tempo real que existe hoje. A alimentação básica ficou descrita com clareza: ovos como principal fonte de proteína batata-doce como alimento recorrente aveia comprada a granel como principal fonte de carboidrato peixe e frango quando havia mais dinheiro aproximadamente seis refeições por dia tentativa de colocar uma fonte de proteína em cada refeição Isso é um esqueleto alimentar histórico, não um protocolo completo. Marcelo não informa gramas, calorias, horários, divisão de macronutrientes, modo de preparo nem diferença entre dieta de ganho e preparação. Também não transforma seis refeições em regra universal. Ele descreve o que conseguia fazer com o orçamento e a informação da época. O protocolo hormonal que Marcelo não revelou A cronologia do uso é mais precisa do que as quantidades. Marcelo afirma que passou pelo estreante, pelo Carioca juvenil e pelo Brasileiro juvenil sem usar hormônios, chegando ao vice-campeonato brasileiro nessa fase. Só começou a testar substâncias quando entrou na categoria júnior. Ao descrever o início, ele usa uma formulação coloquial: “uma testozinha com uma dequinha”. A referência aponta para testosterona e nandrolona, mas para por aí. Não há miligramas, mililitros, concentração, frequência de aplicação, duração, exames ou terapia pós-ciclo. A afirmação de que usava “muito pouco” é relativa e não pode ser convertida em dose segura. Portanto, Marcelo não apresenta um protocolo hormonal reproduzível. Preencher as lacunas com números comuns da época seria inventar informação e transformar memória incompleta em prescrição. O dado realmente verificável é a ordem: anos iniciais sem uso, entrada na farmacologia apenas na categoria júnior e receio de elevar quantidades. Essa cautela não torna o uso de esteroides seguro. Uma coorte publicada em 2025 acompanhou 1.189 usuários identificados em um programa antidoping e 59.450 controles por uma média de 11 anos. O uso foi associado a risco três vezes maior de infarto, 8,9 vezes maior de cardiomiopatia e 3,63 vezes maior de insuficiência cardíaca. Outro estudo com 140 homens encontrou pior função ventricular e maior volume de placas coronarianas entre usuários de longo prazo. Testosterona, nandrolona ou qualquer outro agente anabólico não deve ser usado com base em relato de atleta. Decisões médicas exigem diagnóstico, indicação clínica, exames e acompanhamento de profissional habilitado. O treino de 100 mais 100 na véspera da competição Marcelo também deixa um exemplo concreto de treino. Na véspera de competir, fazia 100 repetições na cadeira extensora e mais 100 repetições de agachamento. Ele ainda recorda o agachamento frontal como parte do repertório old school e descreve sessões de pernas tão duras que o atleta podia vomitar, recuperar-se e voltar para terminar. O relato não informa carga, número de séries, intervalos, cadência, frequência nem supervisão. Sem essas variáveis, 100 mais 100 não é uma ficha pronta e não deve ser copiado como desafio. É o retrato de uma prática extrema de um atleta avançado na fase competitiva. Um ensaio com homens treinados mostrou que séries de 25 a 35 repetições e séries de 8 a 12 podem produzir hipertrofia semelhante quando o esforço é alto, enquanto a faixa mais pesada favorece mais a força máxima. Esse resultado não valida séries de 100 repetições nem treino até passar mal. Apenas mostra que a adaptação depende de carga, esforço, volume, recuperação e contexto, não de uma faixa isolada. De 1983 a 1999, com uma volta em 2010 A primeira fase competitiva durou de 1983 a 1999. Aproximadamente uma década depois, Marcelo voltou para disputar um Mundial na Alemanha em 2010, com passagem paga por pessoas que o incentivaram. No intervalo, havia mudado o foco para lutas, com muay thai e jiu-jítsu. A volta não o convenceu a perseguir o palco indefinidamente. Aos 62 anos, ele associa a própria saúde à capacidade de ter parado no momento certo. Trabalha dando aulas, treina com entusiasmo renovado e diz viver com o suficiente para ter conforto, sem precisar transformar exposição em medida de sucesso. Quando recebeu um convite para competir novamente, a recusa foi objetiva. Vontade existia, mas não queria elevar o uso de drogas para entrar com chance real de vitória. Subir apenas para participar também não combinava com a mentalidade de quem sempre competiu para ganhar. Preservar a saúde venceu as duas tentações. A oportunidade na Califórnia ficou atrás da família Em 1991 ou 1992, Marcelo recebeu de um diretor da ESPN o convite para viver na Califórnia e trabalhar em uma programação em espanhol. Teria suporte para treinar, preparar-se e fazer gravações. A condição era ir sozinho, sem levar a família. A filha nasceria em 1992. Marcelo sabia que uma oportunidade daquele tamanho talvez não aparecesse novamente, mas decidiu ficar. Décadas depois, ao falar da filha e da neta de sete meses, não trata a escolha como sacrifício desperdiçado. Afirma que não se arrepende. A decisão mostra que ambição e prioridade não são sinônimos. A carreira poderia ter crescido nos Estados Unidos, mas também poderia cobrar a ausência em uma fase familiar que não voltaria. O título possível perdeu para a vida que ele queria preservar. Estética antes do excesso Arnold Schwarzenegger e Frank Zane formaram as referências visuais de Marcelo. Ele prefere físicos harmônicos, com proporção e estética, e considera a categoria Classic mais próxima desse ideal do que a Open atual. Tamanho sem linha não representa evolução automática. Como árbitro da NPC e ex-árbitro da federação brasileira, ele atribui parte da escalada à própria arbitragem. O físico premiado vira o alvo do restante do elenco. Quando volume extremo, preenchimentos locais e aparência desarmônica recebem a maior nota, outros atletas entendem que precisam perseguir o mesmo padrão. Essa pressão se soma às redes sociais, ao comércio de hormônios e à promessa de que um cartão profissional trará dinheiro e status rapidamente. Marcelo reconhece que a internet facilitou o acesso a treino, alimentação e suplementação. Ao mesmo tempo, critica a banalização de substâncias e a pressa de atletas jovens que tentam alcançar em poucos anos o que exigia uma década de maturação. As lições práticas de Marcelo Pelaio Construa por categorias, não por ansiedade. A passagem da leve para mais de 90 kg levou anos e consolidou um físico capaz de vencer atletas antes inalcançáveis. Escolha alguém que saiba dizer “calma”. Tibi ajudou tanto pelo conhecimento quanto pela disposição de frear decisões prematuras. Use o adversário como régua. Hugo Faria virou motivação por quase quinze anos sem precisar virar inimigo. Organize o básico com o recurso disponível. Ovos, aveia, batata-doce e proteína em cerca de seis refeições sustentaram a rotina antes de existir abundância de suplementos. Não invente precisão onde ela não existe. O relato hormonal não fornece doses, e o bloco de 100 mais 100 não fornece variáveis suficientes para reprodução. Saiba encerrar a fase de performance. Continuar treinando por prazer é diferente de voltar ao palco e aceitar novamente os riscos de uma preparação competitiva. Defina o que o dinheiro não compra. Marcelo abriu mão da Califórnia para permanecer com a família e diz que repetiria a escolha. Conclusão Marcelo Pelaio não construiu sua principal lição em uma dose secreta ou numa dieta mirabolante. Ela aparece na sequência inteira: barra e paralela na praia, orientação de Tibi, estreia em 1983, subida gradual pelas categorias, vitória sobre Hugo Faria quase quinze anos depois e decisão de parar quando competir voltou a exigir um preço que já não aceitava pagar. Os detalhes alimentares e de treino existem e foram preservados. A dieta tinha cerca de seis refeições, proteína em cada uma, ovos, aveia, batata-doce, frango e peixe. A véspera de competição podia trazer 100 repetições na extensora e 100 no agachamento. Na farmacologia, porém, ele não forneceu doses ou duração. A honestidade editorial exige manter exatamente esse limite. O legado mais aplicável não é copiar o extremo, mas aprender a amadurecer, ouvir, escolher e sair na hora certa. FAQ Quem é Marcelo Pelaio? Marcelo Pelaio é um dos nomes históricos do fisiculturismo brasileiro, campeão em diferentes categorias, ex-árbitro da federação brasileira e árbitro da NPC. Sua primeira fase competitiva foi de 1983 a 1999, com retorno para um Mundial na Alemanha em 2010. Como era a dieta de Marcelo Pelaio? A base tinha ovos, batata-doce, muita aveia comprada a granel e, quando o orçamento permitia, frango e peixe. Ele fazia aproximadamente seis refeições por dia e buscava incluir uma fonte de proteína em cada uma, mas não informou gramas ou calorias. Marcelo Pelaio detalhou um protocolo hormonal? Não. Ele disse que permaneceu sem hormônios até o vice-campeonato brasileiro juvenil e começou na categoria júnior com testosterona e nandrolona em quantidades que chamou de pequenas. Não revelou dose, frequência, duração, exames ou terapia pós-ciclo. Qual protocolo de treino apareceu no relato? Na véspera de competição, Marcelo fazia 100 repetições na cadeira extensora e 100 de agachamento. Como não informou carga, séries, pausas, cadência ou frequência, o exemplo não constitui uma ficha reproduzível e não deve ser copiado como desafio. Por que ele recusou a oportunidade de morar na Califórnia? Porque teria de ir sozinho enquanto a esposa estava grávida. A filha nasceu em 1992, e ele preferiu permanecer com a família, mesmo sabendo que a oportunidade profissional talvez não voltasse. Por que Marcelo não quis voltar a competir? Porque uma volta com ambição de vitória exigiria elevar novamente o risco da preparação e do uso de drogas. Aos 62 anos, preferiu continuar treinando por prazer e preservar a saúde. Referências OS HONORÁVEIS. Livecast Os Honoráveis #Episódeo 29 Marcelo Pelaio. YouTube, 18 jun. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BlQBwYRsWwA. Acesso em: 8 set. 2026. WINDFELD-MATHIASEN, Josefine et al. Cardiovascular disease in anabolic androgenic steroid users. Circulation, v. 151, p. 828-834, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39945117/. Acesso em: 8 set. 2026. BAGGISH, Aaron L. et al. Cardiovascular toxicity of illicit anabolic-androgenic steroid use. Circulation, v. 135, n. 21, p. 1991-2002, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28533317/. Acesso em: 8 set. 2026. POPE, Harrison G. et al. Adverse health consequences of performance-enhancing drugs: an Endocrine Society scientific statement. Endocrine Reviews, v. 35, n. 3, p. 341-375, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24423981/. Acesso em: 8 set. 2026. SCHOENFELD, Brad J. et al. Effects of low- vs. high-load resistance training on muscle strength and hypertrophy in well-trained men. Journal of Strength and Conditioning Research, v. 29, n. 10, p. 2954-2963, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25853914/. Acesso em: 8 set. 2026.
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Mudança de hábitos
Esse tópico tem uma pergunta que não foi feita em nenhum momento, e ela muda tudo o que foi planejado ali. Vou começar por ela. A @tay.pnunes chegou com 26 anos, 1,55 m, 59,8 kg, dezenove dias de treino, e informou no formulário que tinha feito cesárea quatro meses antes. Ninguém perguntou se ela estava amamentando. Isso não é detalhe. Uma mulher que amamenta gasta, em média, algo em torno de quinhentas calorias por dia a mais só para produzir leite. Déficit agressivo nesse período pode reduzir a produção, e a orientação usual é perder peso devagar, na faixa de meio quilo por semana, justamente para não interferir na amamentação. O plano montado no tópico fica em torno de mil e setecentas calorias, com HIIT seis vezes por semana e, segundo ela mesma respondeu, tabata todos os dias. Se ela não estiver amamentando, esse total é razoável. Se estiver, ele fica apertado, e o aeróbico diário aperta mais ainda. É uma pergunta de uma linha que decide se o plano está adequado ou não, e ela ficou sem ser feita. A segunda coisa é sobre o que ela pediu, e aqui existe uma peça específica do pós parto que precisa entrar na conversa. Ela disse que quer diminuir abdômen e cintura. Quem teve bebê há quatro meses, e ainda mais por cesárea, tem uma pergunta a resolver antes de escolher exercício abdominal: se existe diástase dos retos abdominais, que é o afastamento dos músculos da parede abdominal que acontece na gestação e que em parte das mulheres não fecha sozinho. Isso importa por uma razão prática. Alguns exercícios abdominais tradicionais, feitos com diástase presente e sem orientação, tendem a piorar o quadro em vez de melhorar. E a barriga que não muda mesmo com a pessoa emagrecendo, no pós parto, muitas vezes é isso, e não gordura. A avaliação é simples e é feita por fisioterapeuta pélvico ou pelo próprio obstetra, que ela já tinha consulta marcada para dezembro. Vale levar essa pergunta junto, e vale perguntar também sobre assoalho pélvico, que é o outro assunto que ninguém comenta e que aparece justamente quando a mulher começa a correr e a saltar depois do parto. E vale registrar: ela relatou que já estava fazendo HIIT e tabata diariamente com quatro meses de pós parto e dezenove dias de treino. Foi a única resposta que recebeu sobre isso um "ótimo". A terceira coisa é sobre esse volume, e é onde eu discordo mais claramente. HIIT é, por definição, um método de alta intensidade, e alta intensidade não é modalidade diária. Não porque faça mal por si, mas porque a recuperação é parte do estímulo. Fazer tabata todos os dias, mais HIIT ao final de seis treinos, com dezenove dias de treino e um bebê de quatro meses em casa, é somar estresse de treino a um contexto que já tem privação de sono garantida. E o sono, aqui, não é um detalhe filosófico. Mãe de bebê de quatro meses dorme fragmentado, e sono fragmentado reduz recuperação, aumenta fome e piora rendimento. Isso não é falta de disciplina dela: é a realidade da fase, e um bom plano precisa ser desenhado para caber nela, não contra ela. Eu manteria a musculação e reduziria o aeróbico de alta intensidade para duas ou três vezes por semana, usando caminhada nos outros dias. O resultado a médio prazo tende a ser melhor, porque ela consegue sustentar. A quarta coisa é um exame que faltou, e que explica uma frase dela. Ela escreveu que no aeróbico vai bem, mas que na musculação sente que não tem força. Mulher no quarto mês pós parto é um dos perfis de maior risco de deficiência de ferro que existe. A gestação consome ferro, o parto tem perda sanguínea, e a cesárea costuma ter perda maior. O sintoma clássico da falta de ferro antes de virar anemia é exatamente esse: cansaço e queda de força, com hemoglobina ainda normal e ferritina já baixa. Um hemograma com ferritina, mais TSH, responde essa queixa. Alteração de tireoide no pós parto também é comum, e dá o mesmo tipo de sintoma. A quinta coisa é a dieta, que tem acertos e tem regras que eu tiraria. O acerto principal são cento e vinte gramas de proteína por dia, o que para 59,8 kg dá cerca de dois gramas por quilo. É um número bom e acima do que costuma aparecer em plano feminino, e é o item que mais protege músculo em quem está perdendo gordura. As regras que eu tiraria são as acessórias. Arroz somente integral não muda o resultado quando o total do dia é o mesmo. Limite de duas frutas por dia e intervalo máximo de três horas entre refeições aumentam a rigidez sem aumentar o resultado, e rigidez alta é justamente o que prevê episódios de perda de controle mais adiante, ainda mais em quem tem rotina imprevisível com bebê. Sobre a primeira refeição do dia sem carboidrato e com gordura saturada, eu manteria a proteína e deixaria a exigência da gordura saturada de fora, porque não existe vantagem demonstrada em priorizá-la ali. E sobre a água: um litro dentro de uma sessão de musculação é muito volume em pouco tempo, e não existe número universal de litros por dia. A cor da urina é a referência prática melhor, e vale ainda mais se ela estiver amamentando, quando a sede aumenta naturalmente. A sexta coisa é o que ela tem a favor, e é bastante. Dezenove dias de treino, nenhum uso de substância, índice de massa corporal por volta de 24,9 e alguma gordura para perder. Esse é o cenário em que perder gordura e ganhar músculo ao mesmo tempo funciona melhor. Ela não precisa escolher entre diminuir a cintura e aumentar glúteo e perna, que foi o que ela pediu: nessa fase, dá para as duas coisas acontecerem juntas. O que falta no plano dela é registro de carga. Anotar exercício, peso e repetições é o que vai mostrar, daqui a dois meses, se a musculação está progredindo ou se ela está apenas repetindo o mesmo treino. É o item mais barato e mais decisivo. Créditos. A @luhccardoso fez a única pergunta que reconheceu a situação real dela, a de como estava a recuperação e a rotina com o bebê, e a conversa que veio depois é a parte mais honesta da página. A @FaBHana, a @ELISA A, a @Sussu, a @Helynha, a @MM_mm, a @Keyte Luciana Cerqueira e a @RenatinhaSA sustentaram o clima que faz alguém voltar para atualizar. E a exigência de pesar os alimentos em gramas, em vez de medir em xícaras, é correta e é o que torna o acompanhamento possível. Se a autora estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. Antes de apertar mais qualquer coisa, três perguntas na consulta de dezembro: se está amamentando e quanto isso muda a conta de calorias, se existe diástase abdominal, e como está a ferritina. E, no treino, menos alta intensidade e mais registro de carga. Ela tem o corpo respondendo a favor nessa fase, e não precisa forçar. Para quem quiser montar um treino a partir da própria rotina e do equipamento disponível, o site tem um gerador de treino em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/treino/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Buscando qualidade de vida
Esse tópico tem uma informação no formulário inicial que se conecta diretamente com o plano que foi montado depois, e a ligação entre as duas coisas não foi feita. Vou começar por ela. A @MLR Paiva chegou com 29 anos, 1,64 m, 68,9 kg e um mês de musculação. No campo de problemas de saúde, escreveu que teve um episódio de queda intensa de cabelo e que está em acompanhamento com dermatologista. Informou também cirurgia de teratoma no ovário esquerdo em 2011. Queda intensa de cabelo em mulher de 29 anos tem uma lista curta de causas comuns, e ela é quase toda de coisas que se dosam no sangue: ferro baixo, que aparece como ferritina reduzida bem antes de a hemoglobina cair, alteração de tireoide, deficiência de vitamina D e zinco. Só que existe mais uma causa clássica, e é justamente ela que importa aqui: perda de peso rápida e dieta restritiva. Esse tipo de queda tem nome, eflúvio telógeno, e costuma aparecer entre dois e quatro meses depois do gatilho, o que faz muita gente não relacionar uma coisa com a outra. Ou seja, a pessoa que chegou relatando queda de cabelo em investigação recebeu, na mesma página, um plano com cerca de mil e quinhentas calorias e sete sessões de aeróbico por semana. Isso não significa que ela não deva emagrecer. Significa que essa informação precisa ir para a dermatologista antes, e que o ritmo deve ser moderado justamente por causa disso. Vale também garantir que a ferritina esteja dosada e adequada, porque emagrecer com ferro baixo tende a piorar tanto o cabelo quanto o rendimento no treino. E fica registrado o outro item que passou batido: teratoma de ovário operado tem seguimento com ultrassom, e é assunto para a ginecologista dela, não para o fórum. Mas merecia ao menos uma linha, já que ela se deu o trabalho de escrever. A segunda coisa é a melhor cena do tópico, e ela é pedagógica. A autora tentou montar a dieta quatro vezes. Nas primeiras tentativas ela escreveu, no almoço e no jantar, cem gramas de proteína. E foi reprovada sem entender por quê, até que a @FaBHana percebeu exatamente onde estava o nó e explicou: a quantidade em gramas de proteína não é a quantidade em gramas do alimento. Esse é, de longe, o erro mais comum de quem começa a contar macronutrientes, e vale deixar escrito com número. Cem gramas de peito de frango contêm cerca de vinte e três gramas de proteína. Um ovo tem cerca de seis. Cem gramas de patinho têm cerca de vinte e seis. Uma dose de whey tem entre vinte e vinte e cinco. Ou seja, para chegar aos cem gramas de proteína por dia que foram pedidos, ela precisava de aproximadamente quatrocentos gramas de carne ao longo do dia, ou uma combinação equivalente de carne, ovos e whey. Não existe jeito de acertar isso por intuição, e a autora não estava sendo relaxada. Estava usando a palavra proteína no sentido que ela tem no português comum. A resposta que a FaBHana deu ao "não consigo fazer certo nunca" também merece registro: ninguém nasce sabendo, e ela mesma tinha apanhado na primeira vez. Foi a mensagem mais útil da página, porque manteve a pessoa dentro do projeto no exato momento em que ela estava desistindo. A terceira coisa é a dieta final, e ela ficou boa. Somando o cardápio aprovado, com três ovos no café, cuscuz, frango e arroz no almoço, whey com banana no lanche e três ovos no jantar, a proteína fica em torno de noventa a cem gramas por dia. Para 68,9 kg em emagrecimento, isso é o mínimo adequado, e eu diria que existe espaço para subir um pouco, para algo entre cento e vinte e cento e trinta gramas, se a intenção é preservar músculo enquanto perde gordura. Trocar parte do carboidrato do jantar por mais uma porção de carne já resolveria. O ajuste dos dias sem treino, com menos arroz e sem a paçoca, é uma ideia boa e simples de seguir. Alinhar mais comida com os dias de mais trabalho funciona bem na prática. A quarta coisa é onde eu discordo, e são dois pontos. O primeiro é a água. Foi orientado três litros e quatrocentos por dia, exatos. Não existe número universal e exato de água por dia, e o marcador prático melhor é a cor da urina ao longo do dia. Beber muito além da sede, ainda mais em dieta com pouco sal, não é neutro. Água em quantidade razoável é ótimo, mas transformar isso em meta cravada em mililitros cria uma obrigação a mais sem ganho correspondente. O segundo é o volume de aeróbico. Sete sessões por semana, para quem tem um mês de treino, é começar no teto. O motivo de eu preferir começar por três a cinco é aderência: quem entra em um plano que ocupa todos os dias e falha na primeira semana atribulada tende a interpretar isso como fracasso pessoal. Começar em um patamar que cabe na vida e subir depois entrega mais no total do ano. Sobre a exigência de dieta sem opções, eu vejo os dois lados. Ter opções demais no começo realmente atrapalha, porque cada escolha é uma chance de errar a conta, e cardápio fixo simplifica. Só que existe um custo conhecido: restrição muito rígida prevê episódios de perda de controle mais adiante. O meio termo é cardápio fixo no começo, com duas ou três substituições equivalentes já definidas, para o dia em que faltar frango na geladeira. A quinta coisa é o que ela tem a favor e que ninguém disse a ela. Ela tem um mês de treino, 68,9 kg e nenhum histórico de uso de substâncias. Esse é o melhor cenário possível para ganhar músculo e perder gordura ao mesmo tempo. Quem está começando responde de um jeito que quem treina há anos não responde mais, e isso significa que ela pode ver a composição corporal mudar mesmo que a balança desça devagar. E, por isso mesmo, o item que falta no plano dela é registro de carga. A divisão que ela postou tem quadríceps duas vezes por semana e membros superiores uma vez só, o que já vale rever, mas o mais importante é anotar exercício, peso e repetições. Sem esse caderno, daqui a três meses não haverá como saber se houve progressão, e progressão de carga é o principal motivo pelo qual o músculo cresce. Créditos ao @Apollo Galeno pelo direcionamento e pela insistência em que ela mesma montasse a dieta, o que é a forma que ensina, ao @Marco Passarelli por sugerir trocar de aplicativo quando ela travou, à @Sussu pela indicação prática, à @Lala, à @Qsr e à @MM_mm pela recepção, e à FaBHana duas vezes: pelo diagnóstico do erro dos macros e pelo alerta sobre trocar a foto de perfil, que é o tipo de cuidado com privacidade que raramente alguém lembra de dar. Se a autora estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. Ela não tem dificuldade com dieta. Ela tinha uma dúvida de vocabulário que ninguém tinha explicado, e resolveu em uma tarde depois que alguém explicou. A parte que eu levaria adiante é contar à dermatologista que começou uma dieta de emagrecimento, conferir a ferritina e anotar as cargas do treino. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Hipertrofia após 40 anos
Esse tópico tem uma lista de sintomas que apareceu logo no começo e que, para mim, era o assunto principal da página. Ela foi tratada com um pré treino caro e nunca foi investigada. Vou começar por ela. A @Elis chegou com 40 anos, quase cinco anos de treino, contando uma história boa: sedentária até os 36, começou a treinar, perdeu vinte quilos em um ano com acompanhamento e depois passou a correr na rua. E contou também que estava patinando, com muita flacidez e sem ver mudança. Duas mensagens depois, ela acrescentou o que eu considero o dado mais importante do tópico: está sempre cansada, sonolenta, com libido baixa e com intestino que, nas palavras dela, nunca funcionou. Cansaço, sonolência, intestino preso e libido baixa em mulher de 40 anos é um conjunto que pede investigação de tireoide antes de qualquer ajuste de dieta. Hipotireoidismo produz exatamente esses quatro sintomas juntos, e é comum em mulheres nessa faixa etária. Junto disso eu pediria hemograma com ferritina, porque deficiência de ferro aparece antes da anemia e o sintoma principal é justamente cansaço com queda de rendimento, e vitamina B12. O que aconteceu no relato dela foi outra coisa: ela levou esses sintomas a uma profissional, foram pedidos exames, e a conduta que voltou foi ajustar vitamina D, receitar um pré treino para a sonolência e um manipulado para o intestino. Sonolência não se trata com cafeína. Cafeína disfarça a sonolência por algumas horas e não responde por que ela existe. Se houver um TSH alterado ali, ele continua alterado com ou sem pré treino, e é ele que explica também o intestino, a libido e a dificuldade de mudar a composição corporal. O @Apollo Galeno acertou em cheio nesse ponto e vale registrar: ele se recusou a trabalhar em cima de exames de março, disse que queria descartar coisa mais grave e exigiu exames novos antes de qualquer coisa. Essa é a conduta certa, e é o oposto de chutar suplemento. A segunda coisa é a energia, e ela explica boa parte do que ela chamou de patinar. Ela relatou que tenta manter mil e duzentas calorias por dia, com taxa metabólica basal estimada em torno de mil e trezentas, treinando musculação cinco vezes por semana e correndo três vezes por semana às cinco e meia da manhã. Isso é comer abaixo do gasto basal enquanto se treina oito vezes por semana, e mantido por tempo longo. O resultado esperado desse arranjo é exatamente o que ela descreveu: cansaço, sono, libido baixa, intestino lento e composição corporal que não muda. E vale dizer com clareza, porque é contraintuitivo: quem quer perder flacidez precisa de músculo debaixo da pele, e músculo não se constrói em restrição crônica. O caminho dela passa por comer mais, e não menos. Por isso o plano proposto no tópico, com cento e dez gramas de proteína, cento e cinquenta de carboidrato e cinquenta e cinco de gordura, foi um acerto: ele aumenta a ingestão dela e coloca a proteína no lugar certo para uma mulher de 40 anos em treino de força. A proteína, aliás, é o item que mais protege músculo e osso nessa faixa etária. O ponto em que eu ajustaria o plano é o aeróbico. Sete sessões de aeróbico ou HIIT por semana, somadas à musculação e às corridas que ela já fazia, é volume alto para alguém que chegou relatando cansaço e sonolência. Se a queixa principal é falta de energia, aumentar gasto sem investigar a causa tende a piorar o quadro. Eu começaria com três a quatro sessões e subiria conforme a disposição voltasse. A terceira coisa é a vitamina D, onde apareceram três números diferentes na mesma página. A profissional receitou dez mil unidades por semana, ela não encontrou e passou a tomar duas mil por dia por conta própria, e no tópico foi sugerido subir para pelo menos cinco mil por dia. Vale saber que o limite superior tolerável para uso contínuo em adulto é de quatro mil unidades por dia, e acima disso o uso prolongado sem exame pode levar a excesso de cálcio no sangue e na urina, com risco de pedra nos rins. Ou seja, a dose de reposição não deve ser escolhida por palpite: ela sai da dosagem sanguínea. Isso, aliás, foi exatamente o que o Apollo disse ao apontar que sem exame novo não dá para saber se a dose está sendo suficiente. A quarta coisa é o histórico de ciclos, que ficou sem comentário nenhum. Ela informou, no formulário, quatro passagens por substâncias: oxandrolona em 2016, oxandrolona com stanozolol manipulado seis meses depois, oxandrolona em dose maior por dois meses em 2018 e, em seguida, masteron por cinco semanas. Ninguém perguntou nada sobre isso. Nem se houve alteração de voz, pelos ou mudança no ciclo menstrual, que são os marcadores de virilização e os que podem não regredir, nem como ficou o perfil lipídico depois, já que androgênios orais derrubam o colesterol bom de forma acentuada. Aos 40 anos, com uso passado repetido, esses são exames que valem por si. A quinta coisa é o anticoncepcional, e aqui eu discordo de parte do que foi dito. Foi colocado que o contraceptivo é um limitador do projeto dela, e ela respondeu, na mesma hora, que ia parar já. Sobre o mérito: a evidência disponível não mostra que anticoncepcional combinado cause ganho de peso relevante, e os estudos que compararam ganho de massa magra em mulheres usuárias e não usuárias treinando igual encontram diferenças pequenas e inconsistentes. Não é o que explica cinco anos de estagnação em quem come mil e duzentas calorias. O motivo bom para revisar o método é outro, e é sério: risco de trombose, que aumenta com a idade e com outros fatores associados. Aos 40 anos, essa conversa vale a consulta. Mas a decisão de parar na mesma hora, por mensagem de fórum, é a parte que me preocupa. E aqui o Apollo foi correto no tópico seguinte que eu li dele, ao dizer para manter o método até ter outro no lugar. Interromper contracepção sem substituto combinado com o parceiro é como se resolve uma gravidez não planejada, e não um platô de treino. Sobre o fim do tópico, um comentário justo. Ela sumiu por mais de quinze dias e recebeu a mensagem de encerramento, com a observação de que não se pode ajudar quem não quer ser ajudada. Quem acompanha de graça tem o direito de exigir compromisso, e o recado sobre o valor do que está sendo oferecido é legítimo. Só que a pessoa que sumiu tinha escrito, semanas antes, que estava sempre cansada e sonolenta, e a causa disso nunca foi investigada. Quando alguém com um possível problema de tireoide não consegue sustentar um plano com oito sessões de treino por semana e mil e duzentas calorias, isso pode não ser falta de vontade. Créditos ao @Foston, que abriu o tópico com o recado mais importante para quem chega aos 40 achando que perdeu o bonde, ao @Locemar pela organização do que era preciso postar, ao Apollo pela exigência de exames novos antes de opinar, e à @Eff, à @Amanda Castanho Rj e à visitante que pediram que ela voltasse. Se a Elis estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. Ela emagreceu vinte quilos e mantém treino há cinco anos, o que é raro e é mérito. O que está faltando não é disciplina, e sim dois exames baratos, TSH e hemograma com ferritina, e comida suficiente para o volume de treino que ela faz. Flacidez se resolve construindo músculo, e músculo não se constrói com mil e duzentas calorias. Para quem quiser montar a dieta com os números na mão, o site tem um gerador de dieta em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/dieta/ , que serve como ponto de partida para ajustar com acompanhamento. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
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Masteron (drostanolona): por que não aromatizar não significa ser seguro
A aparência seca e rígida que tornou o Masteron popular no fisiculturismo também ajuda a esconder sua principal armadilha. Como a droga não se converte em estrogênio, muita gente conclui que ela seria leve ou quase livre de efeitos adversos. Em ‘MASTERON (DROSTANOLONA) O PREÇO QUE NINGUÉM FALA’, o canal eudeleeudela desmonta essa associação e mostra que o custo pode aparecer longe do espelho. A drostanolona pode contribuir para manutenção e construção de massa muscular, mas ganhou fama pelo acabamento estético. Esse efeito depende de um físico já construído e com pouca gordura. Ela não derrete gordura, não substitui dieta e não transforma ausência de retenção em prova de segurança. O que é Masteron e por que ele não aromatiza Masteron é o nome pelo qual a drostanolona ficou conhecida. Trata-se de um esteroide anabolizante androgênico derivado da di-hidrotestosterona, a DHT. A molécula foi modificada para resistir melhor à inativação que limita a ação anabólica da DHT natural no músculo. Essa estrutura explica uma característica importante: a drostanolona não aromatiza, ou seja, não se converte em estrogênio pela ação da aromatase. A conclusão correta termina aí. Não aromatizar não impede supressão hormonal, alterações em pele e cabelo, virilização, piora do colesterol ou sobrecarga cardiovascular. Dureza muscular aparece quando já existe definição O efeito mais procurado é descrito como músculo mais duro, denso, seco ou “empedrado”. Por isso o composto aparece com frequência em cutting e preparação para o palco. A camada de gordura, porém, funciona como uma cobertura. Quanto maior ela for, menor tende a ser a diferença visual perceptível. Masteron não é queimador de gordura. Andrógenos podem influenciar a composição corporal, mas uma aplicação não começa a derreter tecido adiposo. Dieta, gasto calórico e percentual de gordura continuam determinando o processo. Na prática, a droga funciona como acabamento de um físico já construído e condicionado, não como atalho para criar definição. O uso antigo no câncer de mama não transforma Masteron em anastrozol A drostanolona chegou a ser usada décadas atrás no tratamento de câncer de mama disseminado. Esse passado ajudou a construir sua fama de “antiestrogênico”. Um registro clínico de 1970 documenta esse uso histórico, mas ele não coloca o composto no mesmo papel de um inibidor de aromatase moderno. Masteron não é anastrozol e não deve ser tratado como ferramenta automática para derrubar estradiol. O organismo masculino também precisa desse hormônio para funções ósseas, sexuais, metabólicas e cardiovasculares. Estradiol baixo demais pode causar problemas. A meta clínica não é zerá-lo. Alterar SHBG não libera todos os hormônios SHBG é uma proteína que transporta hormônios sexuais no sangue. Andrógenos podem alterar sua concentração e mudar a relação entre frações ligadas e livres. Isso não significa que adicionar Masteron libere magicamente toda a testosterona ou potencialize todos os outros compostos de maneira previsível. A drostanolona já possui ação androgênica própria. Essa ação pode participar dos resultados, mas também explica parte dos efeitos adversos. Usar a queda de SHBG como sinônimo de benefício ignora a exposição do cabelo, da pele, da próstata e de outros tecidos ao receptor androgênico. Em homens, o custo pode chegar ao eixo hormonal e à fertilidade Introduzir um andrógeno externo reduz os sinais enviados aos testículos para produzir testosterona. A consequência pode incluir supressão do eixo hormonal, redução da produção de espermatozoides e prejuízo da fertilidade. Uma revisão sistemática com 33 estudos e 3.879 participantes encontrou reduções significativas de LH, FSH e testosterona endógena durante o uso de anabolizantes, além de alterações espermáticas e redução do volume testicular. Outros sinais merecem atenção: queda de cabelo acelerada em quem tem predisposição genética à calvície aumento da oleosidade e piora da acne efeitos androgênicos em tecidos como a próstata falsa segurança ao ver pouca retenção e ausência de ginecomastia O espelho mostra pele e aparência muscular. Ele não mostra supressão hormonal nem qualidade do sêmen. Em mulheres, voz e clitóris exigem atenção imediata Mulheres vivem sob exposição fisiológica muito menor a andrógenos. A elevação dessa carga pode produzir virilização, com oleosidade, acne, aumento de pelos, queda de cabelo, alteração do ciclo menstrual e aumento da libido. Voz mais grave e aumento do clitóris são os dois alertas mais delicados porque algumas alterações podem não regredir completamente após a interrupção. Um estudo qualitativo com usuárias descreveu vergonha, arrependimento e impacto social relacionados à mudança vocal, além de efeitos do aumento clitoriano sobre autoestima e sexualidade. A resposta é individual. Duas mulheres com exposições parecidas podem evoluir de formas muito diferentes. Exame de sangue não prevê que a voz ficará mais grave na semana seguinte. Observar mudanças corporais desde o início é indispensável, mas isso também não cria uma garantia de segurança. O que o espelho não mostra: HDL, LDL, pressão e coração Anabolizantes podem reduzir HDL, elevar LDL e piorar a pressão arterial. O usuário pode parecer seco enquanto o risco cardiovascular aumenta. Em uma coorte de 140 homens experientes em musculação, 86 com pelo menos dois anos de uso acumulado de anabolizantes apresentaram fração de ejeção média de 52%, contra 63% entre os 54 não usuários. Também houve maior volume de placas coronarianas no grupo exposto. Esses dados não provam que Masteron isoladamente causou cada alteração. No fisiculturismo, a drostanolona raramente aparece sozinha. Testosterona e outros compostos costumam ser empilhados, o que dificulta separar o efeito de cada substância. Dose acumulada, duração, pressão, dieta, genética e outras drogas entram na mesma conta. Cargas de 500 mg a 1 g por semana não são detalhe A fonte usa 500 mg por semana e 1 g por semana como exemplos de carga total de esteroides que exige atenção. Esses números não são dose sugerida de Masteron, não descrevem um ciclo e não devem ser copiados. Eles ilustram a diferença entre olhar um frasco isolado e calcular toda a exposição androgênica. Quanto mais compostos entram no empilhamento, mais difícil se torna identificar a origem de um sintoma ou alteração laboratorial. O resultado estético pode vir da combinação. O risco também. Exames e sinais que ajudam a reduzir a cegueira Nenhum painel transforma uso não médico em prática segura, mas acompanhamento profissional pode identificar problemas que ainda não chegaram ao espelho. A avaliação citada inclui: testosterona e estradiol hemograma HDL, LDL e demais componentes do perfil lipídico marcadores hepáticos e renais pressão arterial medida regularmente avaliação cardiovascular quando houver indicação clínica O histórico precisa registrar todos os compostos, o tempo de exposição e os sintomas. Alterações de voz, ciclo menstrual, libido, pele, cabelo e fertilidade não podem ser reduzidas a um número isolado. Automedicação e ajustes baseados apenas em aparência aumentam a chance de perder sinais precoces. Conclusão Masteron é um derivado de DHT que não aromatiza e pode favorecer a aparência de densidade e rigidez muscular em físicos já definidos. Ele não queima gordura, não substitui dieta e não funciona como anastrozol. O preço pode aparecer como supressão hormonal, prejuízo da fertilidade, queda de cabelo, acne, virilização, piora dos lipídios, elevação da pressão e alterações cardiovasculares. Voz mais grave e aumento do clitóris merecem atenção especial em mulheres porque podem não regredir completamente. Não existe custo zero. Qualquer exposição exige avaliação médica individualizada e não deve ser iniciada, mantida ou ajustada a partir de conteúdo da internet. FAQ Masteron queima gordura? Não. O composto pode realçar dureza e densidade quando o percentual de gordura já está baixo, mas perda de gordura depende principalmente de balanço energético, dieta e gasto calórico. Masteron aromatiza? Não. Drostanolona não se converte em estrogênio pela aromatase. Isso não elimina supressão hormonal, efeitos androgênicos ou risco cardiovascular. Masteron substitui anastrozol? Não. Seu uso histórico em câncer de mama não o transforma em inibidor de aromatase nem justifica usá-lo para derrubar estradiol. Quais são os principais riscos para homens? Supressão da produção natural de testosterona, redução da espermatogênese, prejuízo da fertilidade, acne, oleosidade, queda de cabelo em predispostos e alterações cardiovasculares estão entre os riscos discutidos. Por que Masteron exige mais cuidado em mulheres? Por ser androgênico, pode provocar virilização. Mudança de voz e aumento do clitóris são particularmente preocupantes porque podem não regredir por completo. Exames tornam o uso seguro? Não. Eles podem revelar alterações hormonais, hematológicas, metabólicas, hepáticas, renais e cardiovasculares, mas não preveem todos os efeitos nem eliminam riscos. Referências EUDELEEUDela. MASTERON (DROSTANOLONA) O PREÇO QUE NINGUÉM FALA. YouTube, 30 ago. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=E5R9HM7_nMM. Acesso em: 7 set. 2026. BROWN, I. G. Treatment of disseminated mammary carcinoma with drostanolone propionate. The Practitioner, 1970. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/5536680/. Acesso em: 7 set. 2026. ANAWALT, Bradley D. Diagnosis and Management of Anabolic Androgenic Steroid Use. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30753550/. Acesso em: 7 set. 2026. CHRISTOU, M. A. et al. Effects of Anabolic Androgenic Steroids on the Reproductive System of Athletes and Recreational Users: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28258581/. Acesso em: 7 set. 2026. BAGGISH, A. L. et al. Cardiovascular Toxicity of Illicit Anabolic-Androgenic Steroid Use. Circulation, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28533317/. Acesso em: 7 set. 2026. BÖRJESSON, A. et al. Anabolic-androgenic steroid use among women: a qualitative study on experiences of masculinizing, gonadal and sexual effects. International Journal of Drug Policy, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32736958/. Acesso em: 7 set. 2026.
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Projeto noiva sarada
Esse tópico terminou sem que a autora recebesse uma única linha sobre dieta ou sobre treino, que era exatamente o que ela veio pedir. Vale destrinchar por que isso aconteceu, porque tem uma parte certa e uma parte que eu discordo. A @Porto chegou com 30 anos, 1,53 m, 58 kg, três meses de treino, sem ficha, sem dieta definida, treinando pelo que um rapaz da academia orientava, e com um casamento no horizonte. Informou no formulário que usava anticoncepcional injetável. A partir dali, o tópico inteiro virou sobre o anticoncepcional, e a ajuda foi condicionada à troca do método. Começo pelo que estava certo, porque tem coisa boa ali. O @Apollo Galeno acertou em dois pontos importantes. O primeiro é que não se abandona um método contraceptivo sem outro no lugar, e ele foi explícito ao dizer para ela manter o que estava usando até a consulta. Isso evitou uma gravidez não planejada e foi a orientação mais responsável da página. O segundo é que ele se recusou a fazer o papel da ginecologista e mandou ela levar a pergunta a quem examina. Está correto. A @FaBHana também trouxe algo real quando citou a amiga que teve trombose. Trombose venosa associada a anticoncepcional combinado existe, é o risco mais sério da classe, e ele não é igual entre as pílulas. E é justamente aí que a orientação de pedir um progestágeno de perfil androgênico faz sentido, embora o motivo dado no tópico não tenha sido o motivo que importa. O progestágeno com menor risco de trombose documentado é o levonorgestrel. Já os progestágenos de perfil antiandrogênico, como o acetato de ciproterona, a drospirenona e o acetato de clormadinona, aparecem consistentemente com risco maior nos estudos. O Belara, que a ginecologista dela receitou, é justamente um combinado com acetato de clormadinona, ou seja, do grupo de risco mais alto para trombose. Isso não significa que a receita esteja errada, porque a escolha depende da indicação. Se a indicação for acne ou pelos, a escolha faz sentido e trocar pode fazer voltar o problema. Mas é uma pergunta que vale a pena ela fazer na consulta: qual o motivo de esse ter sido escolhido, e existe alternativa com levonorgestrel. Agora a parte de que eu discordo, e discordo com números. Foi dito no tópico que o anticoncepcional é uma bomba, que ele antagoniza ganhar um físico legal e que usar é como dirigir um carro puxando um trailer grande. E foi dito também que ele era a causa do insucesso dos resultados dela. Isso não é o que a literatura mostra. Sobre engordar, a revisão sistemática mais conhecida sobre o assunto reuniu os estudos comparativos e não encontrou evidência de que anticoncepcional combinado cause ganho de peso relevante. A sensação de inchaço existe e é retenção de líquido, que é real e incômoda, mas não é gordura e não é o que trava um emagrecimento. Sobre ganhar músculo, os estudos que compararam mulheres usuárias e não usuárias treinando sob o mesmo programa encontram diferenças pequenas e inconsistentes, com trabalhos apontando para os dois lados. Não existe base para chamar isso de trailer, nem para dizer que ele é a causa do insucesso de alguém que treina há três meses sem ficha e sem dieta. E isso importa por uma razão prática, não teórica. Ela tinha três meses de treino, nenhuma orientação alimentar e nenhum registro de carga. Existiam ali três causas óbvias de falta de resultado antes de sobrar qualquer coisa para o hormônio. O anticoncepcional acabou levando a culpa que era do plano que não existia. O argumento forte para revisar o método é o outro: trombose. Esse sim vale a consulta, e vale sozinho. E tem uma coisa no formulário dela que ninguém comentou, que para mim é o ponto clínico mais importante do tópico. No campo de problemas de saúde, ela escreveu que o coração acelera rápido. Ninguém perguntou nada sobre isso. Nem quando acontece, nem se vem com falta de ar, nem se já foi investigado, nem se piorou depois que ela começou a treinar. Palpitação em mulher de 30 anos que usa hormônio combinado e vai começar a treinar merece pelo menos uma pergunta, e provavelmente merece um eletrocardiograma e uma avaliação. Discutiu-se muito a marca da pílula e não se discutiu a queixa cardíaca que estava escrita duas linhas acima. Somando a isso, exame nenhum foi pedido. Hemograma com ferritina, TSH e glicemia respondem muita coisa em quem chega cansada e sem energia, e ferritina baixa é achado comum em mulher que menstrua. E agora o que ela veio buscar, e que eu acho que ela merecia levar daqui. Primeiro, o momento dela é bom. Três meses de treino significa que ela está na fase da vida em que o corpo mais responde. Quem está começando ganha músculo e perde gordura ao mesmo tempo com muito mais facilidade do que quem já treina há anos, e isso combina exatamente com o que ela quer. Segundo, o número que mais importa na alimentação dela é proteína. Com 58 kg, a faixa útil fica entre noventa e cento e quinze gramas por dia, distribuídas ao longo das refeições. Ovo, frango, carne, peixe enlatado, iogurte, leite e feijão com arroz dão conta disso sem nada caro. Terceiro, ela precisa de ficha escrita. Treinar seguindo o que alguém coloca na hora, sem registro, torna impossível saber se houve progressão. Um caderno com exercício, peso e número de repetições resolve, e é o item que mais muda resultado em quem tem pouco tempo de treino. Quarto, sobre o prazo do casamento: com 1,53 m e 58 kg, ela está com índice de massa corporal por volta de 24,8. Se ela quiser perder gordura, o ritmo que preserva músculo fica entre meio e um por cento do peso por semana, ou seja, algo entre trezentos gramas e seiscentos gramas por semana no caso dela. Mais rápido que isso, o que sai junto é justamente o que ela quer manter para a foto. Créditos ao @Foston, que levantou corretamente a existência de outros métodos, à @Ruthynha, à @Helynha, à @Famama e à @Pati.P pela recepção, e à FaBHana por ter perguntado a coisa mais útil do tópico, que era se o uso tinha indicação de saúde ou finalidade contraceptiva. Essa pergunta muda toda a conversa, e foi respondida. Se a Porto estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela. A consulta com a ginecologista vale a pena, e o motivo é trombose, não estética. Enquanto isso, nada impede que ela comece: ficha escrita, registro de carga e proteína suficiente. E aquela história do coração acelerado merece ser contada ao médico antes de aumentar a intensidade dos treinos. Para quem quiser entender como as substâncias hormonais atuam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso. As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.