Saber que um hábito cobra um preço não significa conseguir abandoná-lo. Quando músculos passam a representar reconhecimento, proteção e valor pessoal, diminuir o físico pode parecer uma perda de identidade. É esse conflito que Laércio Refundini expõe em “Por que quero voltar a ser Natural... Mas não consigo”, ao discutir por que desejava interromper os anabolizantes depois de aproximadamente 20 anos de uso.
O depoimento é de fevereiro de 2024. Naquele momento, ele já havia deixado as competições, reduzido o peso de cerca de 120 para 104 kg e mantinha testosterona em uma dose que descrevia como reposição. O desejo de parar ainda não era uma interrupção concluída. Sua dificuldade principal era aceitar um corpo menor sem sentir que também se tornaria uma pessoa menor. [1]
Quando o campeonato deixou de compensar
Durante a fase competitiva, o troféu ocupava o centro das decisões. Dificuldades que prejudicavam a rotina pareciam toleráveis porque estavam subordinadas à preparação. Com o tempo, essa balança se inverteu: o custo de manter o físico passou a pesar mais que a próxima disputa.
Os exemplos pessoais são concretos. Ele descreve dificuldade para calçar meias por causa do tamanho corporal, falta de ar ao subir escadas, desconforto para permanecer em pé e dores nas articulações. A aparência que impressionava no palco não se traduzia, necessariamente, em facilidade para realizar tarefas comuns.
O desgaste também alcançava as relações e o trabalho. Segundo seu relato, a então esposa não gostava dos períodos de preparação, e ele passou a reconhecer que podia ficar mais difícil de conviver. Como personal trainer, percebia uma perda de alunos durante essas fases e uma recuperação depois das competições. Essa sequência descreve sua experiência, mas não permite atribuir cada mudança de comportamento exclusivamente aos hormônios.
A decisão de recusar uma nova preparação ganhou força em uma conversa com o gerente de operações, também amigo próximo. O recado foi que, quando entrava em preparação, a equipe deixava de poder contar com ele. Havia projetos em andamento que precisavam de sua participação. Continuar competindo significava prejudicar responsabilidades que já haviam se tornado mais importantes.
Parar de competir, porém, não foi o mesmo que parar de usar testosterona. Primeiro veio a saída dos palcos. Depois, a manutenção de um físico menor com uso hormonal ainda presente. Só então a possibilidade de abandonar também essa etapa passou a ser discutida.
De 120 para 104 kg: a meta passou a ser viver melhor
Com 1,80 m de altura, o peso informado no depoimento era de aproximadamente 104 kg, depois de já ter chegado a 120 kg. São cerca de 16 kg de diferença entre os dois marcos, sem informação suficiente para separar quanto dessa mudança correspondeu a músculo, gordura ou água.
A meta pessoal era ficar abaixo de 100 kg. Não porque esse número seja uma fronteira universal entre saúde e doença, mas porque ele associava pesos menores a uma rotina mais confortável. Calçar uma meia, caminhar, subir escadas e dormir melhor haviam ganhado importância em relação ao tamanho máximo possível.
O IMC de 32,1 não conta a história inteira
Para 104 kg e 1,80 m, o cálculo de peso dividido pela altura ao quadrado resulta em IMC de aproximadamente 32,1 kg/m². Numericamente, o valor está na faixa de obesidade grau I do índice. Isso não basta, isoladamente, para diagnosticar excesso de gordura em uma pessoa muito musculosa.
O CDC esclarece que o IMC não distingue gordura, músculo e massa óssea. A avaliação individual precisa considerar também histórico, exame físico e outros dados clínicos. Logo, não é correto concluir que 104 kg formados por diferentes proporções de tecidos representam necessariamente o mesmo risco. [2]
Também não é correto usar a musculatura para descartar sintomas. Falta de ar, dor e sono comprometido merecem investigação, independentemente da aparência. A meta abaixo de 100 kg pertence à experiência descrita, não a uma regra segundo a qual o corpo humano não poderia ultrapassar esse peso.
Apneia e CPAP: o sono entrou na conta
Outro motivo para desejar a redução corporal era o sono. Laércio afirmou ter apneia do sono e dormir com uma máscara conectada a um CPAP. O aparelho fornece pressão positiva contínua para ajudar a manter as vias aéreas abertas durante o sono. Não é um recurso para aumentar músculos, mas um tratamento respiratório. [1, 3]
Na apneia obstrutiva, a passagem de ar pode se estreitar ou bloquear durante o sono. Obesidade, características do pescoço, língua e amígdalas, idade e outros fatores podem contribuir. Reduzir a explicação a “músculos do pescoço que pesam e fecham a garganta” deixa de fora a complexidade do problema. [4]
O ponto relevante para a decisão pessoal era simples: um físico valorizado esteticamente podia coexistir com uma necessidade concreta de tratamento. Querer dormir melhor passou a fazer parte da comparação entre manter o tamanho e reduzir o peso. Emagrecer ou se sentir melhor não é motivo para abandonar o CPAP por conta própria. A necessidade e os ajustes do tratamento devem ser reavaliados pelo profissional responsável. [3]
Usar menos testosterona não resolve toda a questão
A dose de testosterona durante a fase competitiva era descrita como maior que a utilizada no momento do depoimento. Ele também dizia ter conhecido pessoas que usavam três ou quatro vezes o que ele usava. Essa comparação não estabelece uma dose segura: o fato de alguém usar mais não comprova que a exposição menor esteja livre de efeitos adversos.
Não foram informados miligramas, frequência de aplicação ou exames que permitam avaliar o esquema individual. A expressão “dose de TRT” é a descrição pessoal de uma terapia de reposição de testosterona, não uma confirmação independente de indicação clínica. A comparação com homens de 50 ou 60 anos que fazem reposição também não transforma idade em critério suficiente para tratamento.
Na diretriz da Endocrine Society, o diagnóstico de hipogonadismo exige sinais ou sintomas compatíveis e concentrações de testosterona consistentemente baixas, com confirmação laboratorial. A decisão de tratar envolve investigar a causa e acompanhar a resposta e os efeitos adversos. Não é apenas escolher uma dose menor que a de um ciclo. [5]
A mesma diretriz recomenda não iniciar testosterona em homens com apneia obstrutiva grave não tratada, entre outras situações. Isso reforça a importância de avaliar o sono, mas não permite julgar a indicação individual de alguém que relata usar CPAP e não apresenta seus exames. [5]
O medo de perder músculos pode ser medo de perder quem se é
O tamanho corporal não era apenas um resultado de treinamento. Ele havia se tornado uma maneira de ser reconhecido. A imagem do personal muito grande ajudava a definir como os outros o viam e, progressivamente, como ele próprio se enxergava.
Ramon Dino, Zancanelli e Rafael Brandão aparecem como exemplos de atletas cuja imagem pública é fortemente associada ao físico. Isso ilustra uma associação profissional, não autoriza concluir o que esses atletas sentem ou diagnosticar sua relação com o corpo. A pergunta útil é outra: quando o reconhecimento depende do tamanho, o que acontece com a autoestima se esse tamanho diminui?
Em sua trajetória, a identificação chegou ao ponto de preferir uma vida mais curta com um corpo grande a uma vida longa com menos músculos. Ele rejeita essa antiga prioridade ao reconsiderar o preço que estava disposto a pagar. O problema não era desconhecer racionalmente a importância da saúde, mas sentir que abrir mão da musculatura ameaçava algo central em sua vida.
Três funções que o físico assumiu na vida dele
O trabalho em análise o levou a interpretar a própria trajetória por três caminhos:
Identidade: o físico passou a ocupar o lugar da pessoa. Ter músculos e ser alguém de valor pareciam a mesma coisa.
Proteção: o tamanho funcionava, em sua percepção, como uma barreira contra o mundo. Intimidar outras pessoas oferecia uma sensação de defesa diante das próprias inseguranças.
Reconhecimento: ser grande e subir ao palco ajudava a atrair o olhar que desejava receber. Ele relaciona parte dessa busca à falta que sentia da atenção do pai na infância e à vontade de demonstrar conquistas por meio de troféus.
Essa é uma interpretação pessoal construída em seu processo de análise. Não significa que todo fisiculturista tenha a mesma história familiar, use músculos como defesa ou compita para compensar uma carência. A imagem do palco elevado, com luzes e plateia voltadas ao atleta, ajuda a explicar o significado que ele atribuiu à própria busca por visibilidade, não a causa universal de uma modalidade esportiva.
Separar o que se tem, o que se faz e quem se é
Ser professor, produzir conteúdo e competir são atividades. Ter um corpo musculoso é uma característica. Nenhuma delas, sozinha, precisa resumir a identidade de uma pessoa.
A comparação com um violinista ajuda a entender essa distinção. É possível organizar grande parte da vida em torno de uma atividade e encontrar realização nela. O conflito ganha outra dimensão quando preservar essa identidade passa a exigir uma exposição farmacológica que a própria pessoa deseja abandonar.
A mudança descrita era gradual. Mesmo depois de reduzir o peso, ele admitia sentir algum incômodo ao encontrar alguém maior. Antes, isso vinha acompanhado da necessidade de alcançar aquele tamanho. Reconhecer que a comparação ainda existia fazia parte do processo, em vez de anunciar uma superação completa.
Imagem corporal e dependência: sem diagnóstico à distância
Preocupação com o tamanho muscular e uso de anabolizantes podem estar associados, mas não são sinônimos. Em um estudo de 2006 com 89 homens que treinavam com pesos, sendo 48 usuários e 41 não usuários de anabolizantes, o grupo de usuários apresentou mais sintomas de dismorfia muscular. Como a pesquisa era transversal, não estabeleceu se essas preocupações causaram o uso ou resultaram dele. [6]
Dependência também não pode ser presumida apenas pela aparência. Um estudo de 2009 avaliou separadamente 20 homens com critérios adaptados de dependência de anabolizantes, 42 usuários sem dependência e 72 não usuários. A própria distinção entre grupos é importante: nem todo usuário tem o mesmo padrão de comportamento ou o mesmo quadro clínico. [7]
O relato pessoal permite discutir medo de perder volume, dificuldade de mudança e reconhecimento social. Não fornece uma avaliação clínica suficiente para diagnosticar dependência ou dismorfia muscular no autor, muito menos nos outros atletas mencionados. Ainda assim, quando o desejo de interromper o uso entra em conflito com o medo de diminuir, esse sofrimento merece atenção profissional.
O que avaliar antes de começar ou tentar parar
A reflexão mais prática não é procurar a menor dose capaz de manter o mesmo corpo a qualquer custo. É identificar qual problema se espera resolver com os músculos e o que já está sendo sacrificado para preservá-los.
Reconhecimento: se o tamanho deixasse de chamar atenção, quais relações, atividades e qualidades continuariam sustentando a autoestima?
Comparação: encontrar alguém maior provoca apenas admiração ou gera uma pressão para aumentar novamente o corpo e o uso de substâncias?
Funcionamento diário: calçar meias, subir escadas, permanecer em pé e dormir estão sendo prejudicados? Esses sinais devem ser levados à avaliação clínica, não normalizados como preço obrigatório do físico.
Relações e trabalho: pessoas próximas e colegas percebem um afastamento durante as preparações? O episódio com o gerente mostra por que ouvir esse retorno pode alterar prioridades.
Mudança acompanhada: o cuidado médico contempla a exposição hormonal e o sono? Há espaço para trabalhar o medo de perder tamanho com um profissional de saúde mental?
Essas perguntas organizam uma reflexão, não um teste diagnóstico. Tampouco substituem uma avaliação para decidir se, quando e como modificar um tratamento hormonal.
Interromper anabolizantes não garante recuperação hormonal imediata. No estudo prospectivo HAARLEM, que acompanhou 100 homens, a testosterona se normalizou em até três meses após a interrupção na maioria dos participantes, enquanto a recuperação da produção de espermatozoides levou mais tempo. Esses resultados não permitem prever o que acontecerá com alguém após cerca de 20 anos de uso. Não são um calendário de retirada nem justificam montar uma terapia pós-ciclo por conta própria. [8]
Conclusão
A dificuldade de parar os anabolizantes pode envolver muito mais que aceitar a perda de alguns quilos. No caso de Laércio Refundini, a musculatura estava ligada à identidade, à sensação de proteção e ao desejo de reconhecimento. Rever essa relação exigia considerar o sono, a mobilidade, os vínculos e a presença no trabalho, não apenas o espelho.
Ao expor o conflito, ele disse buscar dois resultados: ajudar outras pessoas a refletir e enfrentar o próprio processo. A mudança central era aprender que ter um físico menor não significa valer menos. O depoimento não anuncia uma interrupção concluída e não oferece um protocolo para copiá-la. Trata-se de uma reflexão pessoal que reforça a importância de acompanhamento médico e de saúde mental. Esta matéria é informativa e não substitui avaliação individual.
FAQ
Por que pode ser difícil parar de usar anabolizantes?
Além das questões hormonais, pode haver medo de perder tamanho, reconhecimento e autoestima. Esses fatores variam entre pessoas e devem ser avaliados sem reduzir a dificuldade a falta de força de vontade.
Uma dose chamada de TRT é automaticamente segura?
Não. Reposição de testosterona exige indicação clínica, investigação e acompanhamento. Uma dose menor que a usada em competição não comprova, por si só, necessidade de tratamento ou ausência de riscos. [5]
Um fisiculturista com IMC alto tem necessariamente excesso de gordura?
Não. O IMC não separa gordura, músculo e osso. Ele precisa ser interpretado com outros dados, sem servir para diagnosticar excesso de gordura nem para ignorar sintomas em pessoas musculosas. [2]
Reduzir o peso permite abandonar o CPAP?
Não automaticamente. A necessidade do CPAP deve ser reavaliada pelo profissional responsável. Melhorar o peso ou a percepção do sono não comprova que a apneia tenha desaparecido. [3]
Quem para anabolizantes recupera a produção natural de testosterona imediatamente?
Não há garantia de recuperação imediata ou de um prazo igual para todos. O histórico de exposição e a avaliação clínica importam. Resultados observados em um grupo de pesquisa não substituem o acompanhamento individual. [8]
Referências
REFUNDINI, Laércio. Por que quero voltar a ser Natural... Mas não consigo. [S. l.], 5 fev. 2024. YouTube, 15 min 31 s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Mn-DeDYoq9k. Acesso em: 3 set. 2026.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. BMI Frequently Asked Questions. [S. l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.cdc.gov/bmi/faq/index.html. Acesso em: 3 set. 2026.
NATIONAL HEART, LUNG, AND BLOOD INSTITUTE. Sleep Apnea: Treatment. Bethesda, 9 jan. 2025. Disponível em: https://www.nhlbi.nih.gov/health/sleep-apnea/treatment. Acesso em: 3 set. 2026.
NATIONAL HEART, LUNG, AND BLOOD INSTITUTE. Sleep Apnea: Causes and Risk Factors. Bethesda, 9 jan. 2025. Disponível em: https://www.nhlbi.nih.gov/health/sleep-apnea/causes. Acesso em: 3 set. 2026.
ENDOCRINE SOCIETY. Testosterone Therapy for Hypogonadism Guideline Resources. [S. l.], 19 mar. 2018. Disponível em: https://www.endocrine.org/clinical-practice-guidelines/testosterone-therapy. Acesso em: 3 set. 2026.
KANAYAMA, Gen et al. Body image and attitudes toward male roles in anabolic-androgenic steroid users. American Journal of Psychiatry, v. 163, n. 4, p. 697–703, 2006. DOI: 10.1176/ajp.2006.163.4.697. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16585446/. Acesso em: 3 set. 2026.
KANAYAMA, Gen et al. Features of men with anabolic-androgenic steroid dependence: a comparison with nondependent AAS users and with AAS nonusers. Drug and Alcohol Dependence, v. 102, n. 1–3, p. 130–137, 2009. DOI: 10.1016/j.drugalcdep.2009.02.008. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19339124/. Acesso em: 3 set. 2026.
SMIT, D. L. et al. Disruption and recovery of testicular function during and after androgen abuse: the HAARLEM study. Human Reproduction, v. 36, n. 4, p. 880–890, 2021. DOI: 10.1093/humrep/deaa366. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33550376/. Acesso em: 3 set. 2026.
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