Interromper testosterona depois de cinco anos não significa apenas deixar de aplicar uma dose semanal. A produção hormonal própria pode permanecer suprimida, a fertilidade pode demorar a se recuperar e sintomas como cansaço, queda de libido e perda de desempenho podem aparecer durante a transição. Em “After 5 Years on TRT, I’m Quitting”, o criador do canal How to Beast expõe essa decisão depois de ter dois filhos, passar por uma cirurgia na coluna e rever o peso que o fisiculturismo ocupa em sua vida.
O caso chama atenção porque ele não começou com hipogonadismo evidente. Aos 30 anos, após nove anos de treino natural, sua testosterona total estava pouco acima de 500 ng/dL. Ele próprio reconhece que o valor não era clinicamente baixo e relata que a curiosidade sobre ganhos físicos também influenciou a decisão.
A tentativa de interrupção inclui hCG, redução gradual da testosterona e três meses de enclomifeno. Essa sequência é um relato pessoal, não um protocolo que possa ser copiado. O uso por cinco anos, a ausência de doses informadas para dois dos medicamentos e a resposta imprevisível do eixo hormonal exigem acompanhamento médico e exames seriados.
De 200 para 120 mg por semana
A dose inicial foi de 200 mg de testosterona por semana. Com resultados laboratoriais considerados inadequados, ela caiu para 140 mg e depois para 120 mg por semana, divididos em aplicações a cada três dias. Nessa dose mais baixa, a testosterona circulante permanecia próxima ao limite superior da faixa de referência, por vezes um pouco acima ou abaixo.
Os primeiros 12 meses trouxeram aproximadamente 10 lb de ganho corporal, equivalentes a 4,5 kg. Parte teria sido músculo e parte, retenção hídrica. Ombros, trapézios e peitoral superior ficaram mais cheios, mas o físico se estabilizou nos anos seguintes. A experiência não produziu ganhos ilimitados depois que o corpo se adaptou ao novo nível hormonal.
Esse histórico ajuda a separar duas situações. Reposição hormonal trata homens com sintomas e deficiência confirmada. Usar testosterona com níveis naturais pouco acima de 500 ng/dL para ampliar o físico se aproxima de aprimoramento de desempenho, ainda que exista prescrição, controle laboratorial e doses menores que as de ciclos competitivos.
Um exame isolado não diagnostica baixa testosterona
A Endocrine Society recomenda diagnosticar hipogonadismo somente quando existem sinais ou sintomas compatíveis e concentrações de testosterona total ou livre inequivocamente e consistentemente baixas. A confirmação deve usar nova coleta matinal em jejum. LH e FSH ajudam a distinguir falha testicular de supressão hipofisária ou hipotalâmica.
Portanto, um resultado na faixa dos 500 ng/dL não justifica sozinho uma reposição. Horário da coleta, sono, déficit calórico, obesidade, medicamentos, doença aguda e variação do laboratório podem alterar o número. A decisão deve partir do diagnóstico e da causa, não da comparação com o extremo superior do intervalo.
Hematócrito e pressão arterial mudaram a avaliação de risco
O hematócrito e a contagem de hemácias subiam ao longo do tratamento. Para controlar essa alteração, ele doava sangue uma ou duas vezes por ano. Também percebeu pressão arterial discretamente elevada e passou a considerar que a testosterona poderia contribuir para o problema.
A testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos. A diretriz da American Urological Association orienta medir hemoglobina e hematócrito antes de iniciar a terapia. Um hematócrito acima de 50% pede investigação antes da prescrição. Durante o tratamento, 54% ou mais exige intervenção.
Doar sangue pode reduzir temporariamente o hematócrito, mas não substitui a revisão da dose, do intervalo, da formulação e de causas como tabagismo, apneia do sono ou doença pulmonar. Repetir flebotomias sem corrigir a origem também pode reduzir os estoques de ferro.
Em 2025, a FDA retirou das bulas a advertência em caixa sobre aumento de infarto e acidente vascular cerebral após revisar o ensaio TRAVERSE. Ao mesmo tempo, determinou a inclusão de advertências sobre aumento da pressão arterial nos produtos que demonstraram esse efeito em estudos ambulatoriais. Medir a pressão corretamente continua fazendo parte do acompanhamento.
O que o TRAVERSE respondeu e o que permaneceu aberto
O TRAVERSE randomizou 5.246 homens entre 45 e 80 anos, todos com sintomas e duas medidas de testosterona abaixo de 300 ng/dL. Eles também apresentavam doença cardiovascular ou risco elevado. Durante seguimento médio de 33 meses, eventos cardiovasculares maiores ocorreram em 7,0% do grupo testosterona e 7,3% do placebo. A razão de risco foi 0,96, atendendo ao critério de não inferioridade.
Fibrilação atrial, lesão renal aguda e embolia pulmonar apareceram com maior frequência no grupo testosterona. Esses sinais secundários exigem atenção, mas não transformam o estudo em prova de que toda reposição cause doença cardíaca.
O desenho também não resolve o risco de um homem que iniciou aos 30 anos, sem testosterona abaixo de 300 ng/dL, e pretende permanecer exposto por décadas. O resultado mais honesto é que o risco de eventos maiores foi semelhante ao placebo na população estudada, enquanto pressão arterial, hematócrito e efeitos fora do desfecho principal ainda precisam de monitoramento individual.
Ter dois filhos durante a TRT não garante recuperação
Dois filhos foram concebidos durante o uso de testosterona. Ele reduziu a dose de 140 para 120 mg por semana e acrescentou hCG, medicamento que age como o LH e estimula as células de Leydig nos testículos. O resultado pessoal mostra que havia produção espermática suficiente naquele período, mas não oferece garantia para outros homens.
A testosterona externa reduz LH e FSH por retroalimentação hormonal. Com menos testosterona dentro dos testículos, a formação de espermatozoides pode cair muito e chegar à azoospermia. Por isso, diretrizes desaconselham testosterona isolada para homens que desejam fertilidade atual ou futura.
Paternidade durante o tratamento também não prova que o eixo voltará a produzir testosterona normalmente após a suspensão. Espermatogênese, concentração sérica de testosterona, desejo sexual e bem-estar são resultados relacionados, mas não equivalentes.
Quanto tempo a produção de espermatozoides pode levar
Uma análise retrospectiva acompanhou 66 homens com infertilidade associada à testosterona após suspensão e tratamento com hCG combinado a um modulador seletivo do receptor de estrogênio. Em até 12 meses, 46 homens, ou 70%, atingiram contagem total de mais de 5 milhões de espermatozoides móveis.
Idade maior e maior duração do uso atrasaram a recuperação. Entre homens que começaram sem espermatozoides detectáveis, 64,8% alcançaram o critério em 12 meses. Entre aqueles com concentração extremamente baixa, mas não zerada, o resultado chegou a 91,7%.
Esses números não preveem o resultado individual. O estudo não foi randomizado, avaliou homens que procuraram uma clínica de infertilidade e combinou medicamentos. Ele mostra que três meses podem ser insuficientes para julgar recuperação espermática depois de anos de exposição.
O protocolo pessoal de interrupção
A sequência anunciada tem três etapas:
- Reintrodução do hCG: iniciada cerca de um mês antes da retirada da testosterona para estimular diretamente os testículos.
- Redução da testosterona: uma última semana com 120 mg, seguida de uma semana com metade da dose e então suspensão completa.
- Enclomifeno por três meses: iniciado após a testosterona, com o objetivo de elevar o sinal de LH e FSH produzido pelo próprio organismo.
As doses de hCG e enclomifeno não foram informadas. Isso torna o esquema incompleto até como descrição e perigoso como modelo. Momento de início, duração, risco de aumento de estradiol, alterações de humor, cefaleia, eventos tromboembólicos e resposta testicular precisam ser avaliados individualmente.
Ensaios com enclomifeno oferecem contexto, mas não validam esse protocolo. Em dois estudos de fase 3 com homens acima do peso, hipogonadismo secundário e testosterona de até 300 ng/dL, 16 semanas de enclomifeno aumentaram testosterona, LH e FSH e preservaram a concentração de espermatozoides. A testosterona em gel aumentou o hormônio circulante, mas reduziu LH, FSH e espermatogênese. Esses participantes não estavam necessariamente saindo de cinco anos de testosterona injetável.
Exames que mostram partes diferentes da recuperação
A avaliação médica precisa responder perguntas separadas:
- Testosterona total matinal: mostra a concentração circulante e deve ser repetida para confirmar um resultado baixo.
- Testosterona livre e SHBG: ajudam quando o total não combina com sintomas ou quando a proteína transportadora pode estar alterada.
- LH e FSH: indicam se hipófise e hipotálamo retomaram o sinal para os testículos.
- Hemograma e hematócrito: acompanham a normalização das hemácias e o risco de eritrocitose.
- Pressão arterial: testa se a elevação observada muda depois da retirada.
- Espermograma: é necessário quando a pergunta envolve fertilidade. Testosterona no sangue não substitui contagem e motilidade dos espermatozoides.
Um exame feito enquanto hCG ou enclomifeno ainda está ativo mostra a resposta ao medicamento. Para saber se o eixo se sustenta sem apoio farmacológico, o momento da coleta deve ser definido pelo médico depois da retirada, respeitando a meia-vida de cada substância.
Sintomas e físico podem mudar na transição
Energia, libido, função erétil, humor, força e composição corporal podem piorar enquanto a produção endógena permanece baixa. O sono já menos previsível com filhos pequenos e a rotina de trabalho podem acentuar sintomas sem que todos sejam causados apenas pela testosterona.
Parte dos 4,5 kg adquiridos no primeiro ano pode não permanecer. Redução de água e glicogênio altera rapidamente a aparência, enquanto perda real de massa muscular depende de treino, alimentação, duração da supressão e nível hormonal recuperado. Creatina pode ajudar a sustentar desempenho no treinamento, mas não reinicia o eixo hormonal.
A decisão de retornar à dose menor caso os exames fiquem ruins aparece como plano alternativo. Três meses, porém, não são um prazo universal. Voltar ou permanecer sem testosterona deve considerar sintomas, medidas repetidas, causa original, fertilidade, pressão, hematócrito e preferência informada.
O que este caso ensina antes de começar
- Confirme o diagnóstico: sintomas e testosterona baixa em pelo menos duas coletas matinais são mais importantes que buscar o topo da faixa.
- Discuta fertilidade antes da primeira dose: testosterona externa pode reduzir ou interromper a produção de espermatozoides.
- Registre valores basais: testosterona, LH, FSH, hemograma, pressão arterial e espermograma podem ser essenciais para interpretar mudanças futuras.
- Não trate a dose como fixa: 200 mg por semana geraram marcadores menos favoráveis neste caso, e a redução para 120 mg não eliminou todas as dúvidas.
- Planeje também a saída: anos de uso podem tornar a recuperação mais lenta e incerta.
- Separe reposição de aprimoramento: começar com testosterona acima de 500 ng/dL para melhorar o físico é diferente de corrigir hipogonadismo confirmado.
Conclusão
Depois de cinco anos, a tentativa de parar a TRT reúne motivos pessoais e clínicos concretos: dois filhos, cirurgia na coluna, pressão arterial discretamente elevada, hematócrito em ascensão e um físico que deixou de ser prioridade absoluta. A dose passou de 200 para 140 e então 120 mg por semana, mas a exposição continuou exigindo monitoramento.
hCG seguido de enclomifeno pode fazer parte de estratégias médicas para estimular o eixo e recuperar fertilidade, porém a resposta não é garantida. Em homens tratados por infertilidade associada à testosterona, 70% atingiram mais de 5 milhões de espermatozoides móveis em até 12 meses. O resultado dependeu da idade, da duração do uso e da condição inicial.
A principal lição vem antes da primeira aplicação. Diagnóstico correto, discussão de fertilidade, pressão arterial, hematócrito e um plano de acompanhamento importam tanto quanto a dose. Quem já usa testosterona não deve interromper, acrescentar hCG ou iniciar enclomifeno por conta própria.
FAQ
É possível recuperar a testosterona natural depois de cinco anos de TRT?
É possível, mas não garantido. Idade, função testicular antes do tratamento, duração do uso, causa do hipogonadismo e medicamentos usados na transição influenciam o resultado.
Reduzir a dose antes de parar evita sintomas?
Não existe garantia. A redução pode mudar a queda hormonal, mas a testosterona externa continua suprimindo LH e FSH. A estratégia precisa ser definida e acompanhada por médico.
hCG mantém a fertilidade durante a TRT?
Pode preservar a produção intratesticular em alguns homens, mas não funciona para todos. Ter concebido filhos durante o uso não garante espermograma normal nem recuperação futura.
Enclomifeno reinicia o eixo hormonal?
Ele pode elevar LH, FSH e testosterona em homens com hipogonadismo secundário. As evidências não permitem prometer recuperação permanente depois de cinco anos de testosterona injetável.
Doar sangue resolve o hematócrito alto?
Pode reduzir o valor temporariamente. A causa precisa ser investigada e a dose, o intervalo e a formulação podem precisar de ajuste. Hematócrito de 54% ou mais exige intervenção segundo a diretriz urológica americana.
TRT aumenta o risco de infarto?
No TRAVERSE, eventos cardiovasculares maiores ocorreram em 7,0% com testosterona e 7,3% com placebo. O estudo avaliou homens de 45 a 80 anos com hipogonadismo confirmado e risco cardiovascular elevado, portanto não responde a todas as formas de uso.
Referências
- HOW TO BEAST. After 5 years on TRT, I'm quitting. YouTube, 3 set. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BevzQ0_F6ag. Acesso em: 7 set. 2026.
- ENDOCRINE SOCIETY. Testosterone Therapy for Hypogonadism Guideline Resources. 2018. Disponível em: https://www.endocrine.org/clinical-practice-guidelines/testosterone-therapy. Acesso em: 7 set. 2026.
- AMERICAN UROLOGICAL ASSOCIATION. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. Disponível em: https://www.auanet.org/documents/Guidelines/PDF/Testosterone-Deficiency-JU.pdf. Acesso em: 7 set. 2026.
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