A ereção melhora, mas a pressão continua alta. A disposição volta, mas o sono segue ruim. Quando testosterona e tadalafila viram respostas automáticas para cansaço, menos desejo sexual e aumento da barriga, o alívio pode encerrar uma investigação que nem começou.
Em “Testosterona e Tadalafila: O Perigo de Esconder a Causa Real”, a nutricionista Lua Ferrari chama atenção para esse atalho. O problema não é a existência dos tratamentos, e sim confundir controle do sintoma com recuperação da saúde. Entender essa diferença exige separar reposição hormonal de uso estético, ereção de desejo e aparência muscular de saúde cardiovascular.
Testosterona não é diagnóstico para todo homem cansado
Perda de disposição, estresse, sono ruim e dificuldade sexual merecem avaliação. Às vezes, quem convive com o homem percebe essas mudanças antes dele. Isso pode ajudar a iniciar uma conversa, mas não revela sozinho a origem do problema.
Passar dos 40 anos não comprova deficiência hormonal. Querer mais músculos também não. A indicação de reposição depende da combinação entre sintomas, exames e contexto clínico, com investigação das causas da testosterona baixa.
Há uma diferença decisiva entre repor um hormônio em quem tem deficiência confirmada e administrar doses elevadas a um homem saudável para mudar o físico. Ciclos, misturas de substâncias e implantes usados para finalidade estética não se tornam reposição apenas porque recebem esse nome.
No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes para finalidade estética, ganho de massa muscular estético e desempenho esportivo. A norma preserva indicações médicas para tratar doenças. [1]
O que o estudo com 5.246 homens permite concluir
O ensaio TRAVERSE avaliou 5.246 homens de 45 a 80 anos, com sintomas de hipogonadismo, duas dosagens de testosterona abaixo de 300 ng/dL e doença cardiovascular ou risco elevado. O tratamento foi gel de testosterona ajustado e monitorado, comparado com gel placebo. [2]
Durante acompanhamento médio de 33 meses, o desfecho composto de morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal ocorreu em 7,0% do grupo testosterona e 7,3% do grupo placebo. A reposição não foi inferior ao placebo quanto a esse desfecho. Houve, porém, maior incidência de fibrilação atrial, lesão renal aguda e embolia pulmonar no grupo tratado. [2]
Esses resultados não demonstram segurança de ciclos em um homem de 25 anos com testosterona normal, nem de doses altas ou combinações de anabolizantes. A população, a exposição e o acompanhamento são diferentes.
Em 2025, a FDA retirou a linguagem sobre aumento de eventos cardiovasculares da advertência destacada dos produtos de testosterona após avaliar o TRAVERSE. Ao mesmo tempo, exigiu alertas sobre aumento da pressão arterial e manteve a limitação de uso para queda hormonal relacionada à idade. A mudança não equivale a declarar o hormônio livre de riscos. [3]
Anabolizantes: os riscos cardiovasculares encontrados em 11 anos
Uma coorte dinamarquesa publicada em 2025 comparou 1.189 homens identificados por uso de anabolizantes em um programa antidoping com 59.450 controles da população geral. O acompanhamento médio foi de 11 anos. As razões de risco ajustadas foram: [4]
- Infarto agudo do miocárdio: 3,00 vezes.
- Tromboembolismo venoso: 2,42 vezes.
- Arritmias: 2,26 vezes.
- Insuficiência cardíaca: 3,63 vezes.
- Cardiomiopatia: 8,90 vezes.
Essas medidas comparam a ocorrência dos eventos ao longo do acompanhamento. Não significam que nove em cada dez usuários desenvolverão cardiomiopatia. Como o estudo é observacional, descreve associações e não elimina todos os possíveis fatores de confusão. Ainda assim, seus resultados impedem equiparar abuso de anabolizantes à reposição acompanhada do TRAVERSE. [4]
Ter braços grandes não informa como o músculo cardíaco está funcionando. A aparência também não revela pressão arterial, circulação ou capacidade de produzir espermatozoides.
Fertilidade: a decisão aos 27 pode afetar os planos aos 35
Imagine um homem que começou testosterona aos 27 anos para melhorar o físico, chegou aos 30 e pretende ser pai aos 35. É um exemplo hipotético, mas expõe uma pergunta concreta: a fertilidade entrou na decisão antes da primeira aplicação?
A testosterona externa reduz os sinais hormonais que estimulam os testículos. É semelhante a uma fábrica que diminui a atividade porque está recebendo o produto pronto de fora. A produção interna cai, e a de espermatozoides pode diminuir muito ou parar. [5]
Esse efeito foi explorado em pesquisas de contracepção hormonal masculina. Isso não torna o uso de testosterona por conta própria um método anticoncepcional confiável. Ensaios controlados também não garantem o mesmo desfecho para quem mistura substâncias durante anos. [6]
A diretriz AUA/ASRM recomenda não prescrever testosterona exógena a homens interessados em fertilidade atual ou futura. A recuperação da produção de espermatozoides após interromper o tratamento pode levar meses e, raramente, anos. Alguns homens não recuperam completamente essa produção. Planejamento reprodutivo e avaliação especializada devem anteceder a escolha do tratamento, sem interrupções ou tentativas de “recuperação” por conta própria. [5]
Tadalafila melhora a resposta erétil, mas não produz desejo
A tadalafila favorece o relaxamento vascular e a entrada de sangue no pênis quando há estímulo sexual. Não é reposição de testosterona nem um gerador automático de desejo. Entre suas indicações estão disfunção erétil e sintomas da hiperplasia prostática benigna. [7]
Usar o comprimido como garantia de desempenho, inclusive antes de cada relação sem diagnóstico, pode fazer uma dificuldade recorrente parecer resolvida. Usá-lo como pré-treino tampouco corresponde a uma indicação aprovada para ganhar músculos. A Anvisa alertou sobre uso recreativo e estético desses medicamentos e sobre produtos irregulares que os apresentam como gomas ou suplementos. [8]
Efeitos adversos e a combinação perigosa com nitratos
Dor de cabeça, congestão nasal, vermelhidão no rosto, desconforto digestivo ou refluxo, dores musculares e lombares estão entre os efeitos adversos possíveis. Também há relatos raros de ereção prolongada e alterações súbitas de visão ou audição. [7]
Tadalafila não deve ser combinada com nitratos, usados por alguns pacientes cardíacos, devido ao risco de queda perigosa da pressão. Informe todos os medicamentos utilizados ao profissional responsável. Ereção que ultrapassa 4 horas exige atendimento de emergência. Perda súbita de visão ou audição também requer avaliação imediata. [7]
A falha de ereção pode anteceder a doença cardiovascular
As artérias penianas são pequenas, e alterações vasculares podem prejudicar a ereção antes de a doença cardiovascular se tornar clinicamente evidente. O consenso Princeton IV descreve uma antecedência de 2 a 5 anos em parte dos homens. Esse intervalo é um sinal para investigar, não uma previsão de quando alguém terá um infarto. [9]
Isso não significa que toda dificuldade erétil resulte de artérias doentes. Fatores emocionais, alterações hormonais, medicamentos e doenças neurológicas também podem participar. A resposta ao comprimido, isoladamente, não distingue essas causas.
O homem de 38 anos que melhora e deixa de investigar
Considere outro exemplo hipotético: aos 38 anos, um homem começa a ter falhas frequentes, toma tadalafila e volta a ter ereções satisfatórias. Se ele encerra a avaliação nesse ponto, continua sem saber por que a função mudou. O tratamento do sintoma pode ocorrer junto da investigação, sem que um substitua o outro.
Na consulta, vale organizar estas informações para orientar a avaliação individual:
- Circulação e metabolismo: pressão arterial, glicemia, fatores associados à resistência à insulina e aumento da gordura abdominal.
- Rotina: alimentação, sedentarismo, atividade física, tabagismo e consumo de álcool.
- Sono: qualidade do descanso, ronco e suspeita de apneia.
- Substâncias: medicamentos, hormônios e produtos usados para desempenho sexual ou físico.
- Saúde sexual e emocional: quando a dificuldade começou, em quais situações aparece, mudanças no desejo e fatores psicológicos.
Essa lista não é um pedido de exames por conta própria. Ela ajuda a evitar que a consulta termine apenas com a renovação da receita. A avaliação cardiovascular é especialmente relevante quando há suspeita de origem vascular. [9]
Gordura abdominal e testosterona: tratar o metabolismo também importa
A obesidade pode interferir no eixo entre cérebro e testículos e nas proteínas que transportam hormônios. Resistência à insulina, inflamação e apneia do sono podem coexistir e afetar a saúde sexual. Em alguns homens, a testosterona baixa faz parte de um hipogonadismo funcional associado à obesidade, sem exigir uma lesão permanente do testículo como explicação.
Uma meta-análise de 24 estudos encontrou aumento da testosterona após perda de peso por restrição calórica ou cirurgia bariátrica. A magnitude do emagrecimento se associou à melhora hormonal. Isso sustenta investigar e tratar o excesso de peso, mas não significa que todo homem com testosterona baixa normalizará os exames apenas emagrecendo. [10]
Alimentação e treino: propostas que precisam de contexto
Lua Ferrari propõe comida de verdade, proteína animal suficiente, retirada de açúcar e farinha, menor exposição a ultraprocessados, recuperação da saciedade, sono adequado e redução da gordura visceral. Também defende low carb, cetogênica e carnívora como ferramentas possíveis e chega a sugerir treino de força todos os dias.
Essas escolhas não formam uma prescrição universal. Treinar força diariamente exige considerar distribuição do esforço, condição clínica e recuperação. Excluir farinha ou adotar uma dieta carnívora também não é requisito demonstrado pela meta-análise sobre perda de peso. Ela avaliou emagrecimento, não comprovou um efeito específico da alimentação carnívora sobre a testosterona. [10]
A aplicação prática é avaliar quais mudanças ajudam aquele homem a controlar a ingestão, manter alimentação adequada, reduzir o excesso de gordura e sustentar uma rotina de atividade física e sono. A estratégia alimentar deve ser individualizada. Carne não substitui urologista, e mudar a dieta não autoriza suspender uma reposição prescrita.
Conclusão
Testosterona e tadalafila têm espaço no tratamento de condições bem avaliadas. O erro é usar a melhora da ereção, da disposição ou do físico como prova de que a saúde inteira está resolvida. Antes de transformar um sintoma em dependência de soluções automáticas, é preciso esclarecer a indicação, avaliar circulação e metabolismo e conversar sobre fertilidade. Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional.
FAQ
Tadalafila aumenta a testosterona ou a libido?
Ela atua principalmente na resposta vascular da ereção e depende de estímulo sexual. Não deve ser usada como reposição hormonal nem como tratamento automático para falta de desejo.
Se a ereção melhorou, ainda preciso investigar?
Sim, quando a dificuldade é recorrente. A resposta ao medicamento não identifica a causa nem exclui fatores cardiovasculares, metabólicos, hormonais ou emocionais.
Reposição hormonal e ciclo de anabolizantes têm o mesmo risco?
São exposições diferentes. Os resultados do TRAVERSE, com reposição monitorada em homens com deficiência, não podem ser transferidos para doses altas, combinações ou uso estético em pessoas com testosterona normal.
Quem deseja ter filhos deve discutir fertilidade antes da testosterona?
Sim. A testosterona externa pode suprimir os espermatozoides, e a recuperação é variável. O plano de ter filhos precisa fazer parte da avaliação antes de iniciar o tratamento.
Emagrecer pode melhorar a testosterona?
Pode, sobretudo quando o excesso de peso participa da alteração hormonal. A resposta não é garantida, e a evidência não transforma uma dieta específica em substituta da investigação médica.
Referências
- CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. CFM divulga nota para esclarecimento sobre a proibição da prescrição de esteroides e anabolizantes. Brasília, 27 abr. 2023. Disponível em:
https://portal.cfm.org.br/noticias/cfm-divulga-nota-para-esclarecimento-sobre-a-proibicao-da-prescricao-de-esteroides-e-anabolizante. Acesso em: 29 set. 2026. - LINCOFF, A. Michael et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. The New England Journal of Medicine, v. 389, n. 2, p. 107–117, 2023. DOI: 10.1056/NEJMoa2215025. Disponível em:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37326322/. Acesso em: 29 set. 2026. - UNITED STATES FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. FDA issues class-wide labeling changes for testosterone products. 28 fev. 2025. Disponível em:
https://www.fda.gov/drugs/drug-alerts-and-statements/fda-issues-class-wide-labeling-changes-testosterone-products. Acesso em: 29 set. 2026. - WINDFELD-MATHIASEN, Josefine et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation, v. 151, n. 12, p. 828–834, 2025. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117. Disponível em:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39945117/. Acesso em: 29 set. 2026. - AMERICAN UROLOGICAL ASSOCIATION. AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline. 2020. Atualização de 2024. Disponível em:
https://www.auanet.org/documents/Guidelines/PDF/2024%20Guidelines/Male%20Infertility%20Unabridged%20Final.pdf. Acesso em: 29 set. 2026. - LIU, Peter Y. et al. Rate, extent, and modifiers of spermatogenic recovery after hormonal male contraception: an integrated analysis. The Lancet, v. 367, n. 9520, p. 1412–1420, 2006. Disponível em:
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https://www.youtube.com/watch?v=CsqcwpDFbR8. Acesso em: 29 set. 2026.
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