Edgard Corona entrou no negócio de academias perto dos 40 anos, depois de vender jeans, trabalhar mais de uma década numa usina de açúcar e machucar a perna numa pista de esqui. Hoje é o fundador e presidente do conselho do Grupo Smart Fit, que em junho de 2026 tinha 2.170 academias em 16 países, e a Venezuela entrou depois disso. É a maior rede de academias da América Latina.
Ele contou essa trajetória em quase duas horas de conversa no episódio “COMO A SMART FIT SE TORNOU A MAIOR REDE DE ACADEMIAS DO BRASIL? (com Edgard Corona) | Os Sócios #319”. A história explica por que a academia barata, perto de casa e cheia de máquinas virou o padrão no Brasil.
Quem é Edgard Corona
Edgard Gomes Corona é engenheiro químico formado pela FAAP em 1979. Fundou a Bio Ritmo em 1996 e a Smart Fit entre 2008 e 2009. Em fevereiro de 2026, a empresa anunciou que o filho dele, Diogo Corona, assumiria como CEO a partir de 2 de março, e que Edgard passaria a presidir o conselho de administração. Diogo entrou no grupo como estagiário em 2010.
Pela conta dele, a participação na empresa caiu de 50% para cerca de 15% ao longo das rodadas de investimento. A Smart Fit tem ações na bolsa brasileira, a B3, desde julho de 2021.
Jeans, açúcar e o primeiro negócio
O primeiro negócio veio ainda na faculdade, por volta de 1977 e 1978. Com amigos, ele montou uma confecção de roupas. O estilista contratado às vezes não tinha vontade de criar, as peças não vendiam, e uma loja na Rua Rocha Azevedo, em São Paulo, ficava num ponto sem estacionamento, onde ninguém parava.
A virada veio com uma dívida corrigida pela inflação, tomada com o aval do pai, para abrir lojas no minishopping do Iguatemi e no Shopping Ibirapuera. A forma de criar também mudou. Os sócios passavam pelas vitrines do corredor e, quando a mesma peça aparecia em quatro lojas, era sinal de que estava na moda. Compravam o tecido na Rua 25 de Março, com 90 dias para pagar, e, segundo ele, chegaram a vender 120 a 130 camisetas por dia.
Em 1979, um irmão teve câncer, e o pai foi acompanhar o tratamento nos Estados Unidos. Edgard vendeu sua parte na confecção e foi trabalhar na usina da família em Guariba, cidade de cerca de 20 mil habitantes perto de Ribeirão Preto, onde passou a morar depois de casar. Pela conta dele, foram 15 anos cuidando de lavoura, transporte de cana, produção e venda de açúcar no Brasil e no exterior.
Ele saiu quando o real se valorizou e o custo da tonelada de açúcar, medido em dólar, praticamente dobrou de um dia para o outro. Os bancos passaram a ver a usina como inviável, a terceira geração da família começou a entrar no negócio, e ele decidiu não viver a política familiar que viria junto.
O acidente de esqui e a academia que nunca deu lucro
Antes da Bio Ritmo, Edgard era sócio de uma pequena academia na Avenida Santo Amaro, que ele mesmo chama de erro. A ligação com o negócio ficou mais forte por acaso. Ele conta que nunca tinha esquiado até os 37 anos. Na primeira temporada, foi posto num grupo avançado, caiu num salto e perdeu músculos da perna direita, numa cirurgia complicada.
A fisioterapia foi feita na própria academia, e de perto os problemas apareceram. O vestiário masculino tinha chuveiros sem divisória, o estacionamento era pequeno e o público do bairro, de renda boa, era econômico. Quando o preço subia, ninguém pagava. Quando baixava, o estacionamento lotava. A academia nunca deu lucro.
Bio Ritmo: a academia que não parecia academia
A Bio Ritmo começou pelo visual. Edgard chamou o arquiteto João Armentano, que nunca tinha projetado uma academia, e pediu um lugar com cara de restaurante sofisticado. A primeira unidade abriu em 1996, em Santo Amaro, e a segunda em 1997, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.
Depois veio a venda. Numa feira do setor, ele assistiu a duas horas de aula de uma consultora americana e a contratou no intervalo, sem consultar o sócio. Trinta funcionários aprenderam a conduzir a visita do interessado com perguntas: há quanto tempo pensava em treinar, se a decisão era só dele, qual horário preferia. No fim, se a pessoa dizia que precisava pensar, o vendedor lembrava que ela já pensava havia seis meses e oferecia devolver o dinheiro se não gostasse.
Por último, a conta do espaço. Com o trânsito de São Paulo piorando, a academia precisava ficar perto de casa ou do trabalho, com musculação, aeróbico, duas salas de aula e uma de bike. Pela conta dele, em 2008 a Bio Ritmo colocava 1,3 cliente por metro quadrado, contra 0,4 das academias de alto padrão da época. Com três vezes mais gente no mesmo espaço, dava para cobrar menos pela mesma estrutura.
Planet Fitness: a viagem que virou Smart Fit
Edgard visitava academias e feiras no exterior três vezes por ano. Em 2007, entrou num grupo de donos de academias americanas que se reuniam em mesas-redondas. Os outros passavam os primeiros 40 minutos reclamando da Planet Fitness, que cobrava US$ 10 por mês e, segundo ele, já tinha 800 unidades.
Ele foi até Dover, em New Hampshire, conhecer a sede da rede. Pelo relato que ouviu do dono, a primeira academia não decolava numa cidade de 20 mil habitantes, até um recepcionista sugerir cobrar US$ 10 por mês. Metade da cidade se matriculou. A maior parte quase não aparecia, mas continuava pagando, e o modelo se sustenta com esse aluno que paga e quase não vai. A unidade era feia de propósito, para não lotar.
O preço de US$ 10 durou de 1998 a 2024, quando subiu para US$ 15 para novos clientes. No fim de 2025, a rede americana tinha cerca de 21 milhões de membros.
R$ 49 por mês e 2.400 alunos em 300 m²
A primeira Smart Fit ocupou o imóvel de uma academia que tinha quebrado em frente ao Shopping Jardim Sul, em São Paulo. Para cobrar R$ 50 por mês e pagar as contas, a unidade precisava de cerca de 3.500 alunos, e uma Bio Ritmo tinha de 1.300 a 1.600. Ninguém sabia se esse público existia, e a única forma de descobrir era abrir. O projeto foi feito por um especialista em varejo, com a ordem de ser simples para poder repetir.
Não existia no Brasil um sistema de cobrança recorrente no cartão, e dois jovens de 20 anos o criaram em um mês. Uma unidade planejada como Bio Ritmo em Brasília virou Smart Fit quando uma concorrente abriu ao lado. Os planos saíram por R$ 49 e R$ 69, o Black. Segundo ele, foram 300 matrículas no primeiro dia no Morumbi e 500 em Brasília.
A unidade de Copacabana, com 300 m², chegou a 2.400 alunos pela conta dele, cerca de oito por metro quadrado, quando a Smart Fit costumava ter de 1,7 a 1,8. Quando um sócio contou esse número a um dono de academia concorrente, ouviu que só podia ser brincadeira. Desde então, sempre que alguém do grupo quer divulgar resultado, ele repete a mesma frase: “esconda a sua força e aguarde sua vez”.
Metade da empresa por R$ 70 milhões
O modelo deu certo rápido demais para o caixa. O dinheiro acabou, os impostos foram parcelados, e Edgard temia que concorrentes mais ricos copiassem a ideia. A rede já tinha passado de 4 para 11 unidades quando, em 2010, o fundo Pátria entrou com R$ 70 milhões por metade da empresa, o suficiente, segundo ele, para cerca de 30 academias. A condição dele foi continuar decidindo a operação. Nos anos seguintes, vieram 18 e depois 27 novas academias.
Em 2012, com juros e dívida pública subindo no Brasil, ele levou a rede ao México para diversificar o risco. A primeira leva teve uma academia em bairro rico, uma em bairro médio e uma em bairro pobre. Segundo ele, a do bairro pobre ficava na maior favela urbana do país e abriu com 4.500 alunos.
Para crescer em vários países, ele seguiu uma ideia que leu num livro do empresário Norberto Odebrecht, de 1983: poucos níveis de chefia, foco no cliente e times pequenos com autonomia. Cada país recebia dois ou três profissionais experientes, com contabilidade local. Hoje, pela conta dele, 60% da receita do grupo vem de fora do Brasil, e um país compensa o outro quando a economia piora.
Em 2019, a empresa preparou a estreia na bolsa, mas o Pátria achou o momento ruim. Em vez disso, o fundo vendeu parte da sua fatia a novos investidores, e entrou dinheiro na empresa. Nessa rodada, ele pediu uma liberação extra para dar ações a cerca de 40 funcionários antigos. Um deles chorou: ia conseguir pagar a escola que queria para a filha.
A pandemia e a abertura de capital
Em fevereiro de 2020, de férias no Marrocos, Edgard viu na televisão os hospitais da Itália lotados e mandou a equipe vender o máximo possível antes do fechamento. Por decisão dele, a dívida estava baixa: pela conta dele, 1,7 vez o Ebitda, que é quanto a operação gera de caixa num ano. A explicação: o que quebra empresa é errar o cenário.
O fechamento durou muito mais que os 60 dias previstos. Pela conta dele, foram renegociações com cerca de mil proprietários de imóveis, e foi preciso injetar R$ 500 milhões na empresa. Em janeiro de 2021, com tudo fechado de novo, ele achou que a empresa ia quebrar. Chegou a propor uma Spac, empresa criada só para comprar outra e levá-la à bolsa americana, mas os investidores recusaram.
A saída foi abrir o capital, vendendo ações na bolsa. Fundos que já eram sócios garantiram a compra de uma parte das ações antes da oferta, e as apresentações aos investidores foram feitas a distância, o que, segundo ele, obrigava a ouvir a história inteira. A Smart Fit estreou na B3 em 14 de julho de 2021 e captou R$ 2,3 bilhões, a R$ 23 por ação. Pela conta dele, os investidores quiseram comprar R$ 32 bilhões em ações, e a empresa chegou em 2025 aos resultados que tinha prometido em 2019.
Preço, frequência e academias demais
O aluno de academia barata é sensível a poucos reais. Numa unidade do Ceará, a mensalidade subiu de R$ 99 para R$ 109, e um cliente avisou que ia cancelar porque os R$ 10 não cabiam no orçamento. Ao contrário da Planet Fitness, os alunos da Smart Fit vão: pela conta dele, 85% aparecem pelo menos uma vez no mês, e quem fica três meses sem ir acaba cancelando.
Ele estima que só 2% a 3% dos brasileiros pagavam academia em 1996 e que hoje são 7% a 8%, números sem estatística oficial que os confirme. O crescimento veio da mensalidade mais barata, com redes como a Smart Fit e os aplicativos pagos pela empresa, como o Wellhub e o TotalPass, e da academia perto de casa onde antes não havia nenhuma.
Para ele, agora há academias demais. Franquias com equipamento importado financiado a 3% ao mês se espalharam, as apostas on-line e os juros apertaram a renda de quem paga mensalidade baixa, e a oferta passou da procura. A conta de quem quer abrir uma está na matéria sobre quanto custa montar uma academia de bairro, e o modelo da rede, na do modelo de negócios da Smart Fit.
Nation e o treino de costas perto dos 70 anos
A Nation, academia de performance do grupo, nasceu para fisiculturistas, mas o sócio que tocaria o projeto não pôde entrar. Edgard ficou com a academia montada e decidiu treinar nela com um dos professores. Ele contou que se machucava sempre que treinava ombro. O personal explicou que o ombro estava “rodado para frente” de tanto treinar peito, como acontece com muitos homens, e mandou fortalecer as costas.
Com o treino de costas, ele ficou mais reto e com o corpo mais definido. A conclusão foi abrir a Nation para o público comum. Hoje, segundo ele, metade dos alunos é de mulheres, metade das máquinas é para pernas e glúteos, e só para glúteo são cerca de 15 aparelhos diferentes. A mensalidade fica entre R$ 399 e R$ 499.
O preço maior se explica pelas máquinas. Na máquina de anilha, cada aluno carrega e descarrega os pesos e ocupa o aparelho por mais tempo. A máquina de placas é mais fácil para quem não quer manusear anilhas de 15 ou 20 kg. Com mensalidade muito baixa e muita gente, o revezamento transforma um treino de uma hora em duas. Edgard treina na Nation e diz trocar uma máquina por dia, num laboratório que depois vai para a Bio Ritmo e a Smart Fit.
As unidades novas também estão ganhando uma área de recuperação com sauna infravermelha e sala fria. A ideia foi evitar a banheira de gelo, que, para ele, joga fora o treino de musculação. A matéria sobre banheira de gelo depois do treino confere essa afirmação com os estudos.
Os dois arrependimentos
Perguntado sobre o maior erro, Edgard citou dois arrependimentos. O primeiro foi não ter estudado numa escola bilíngue, como o pai, para ter acesso a boas universidades fora do país. O segundo foi de gestão: ele levou da usina para as academias um estilo de comando e controle, centralizou as decisões, e a empresa travou.
A mudança veio com um curso de liderança da Metanoia, de Tranjan, baseado em perguntas em vez de respostas prontas. Edgard passou a pôr a equipe para discutir os problemas antes de dar a própria opinião. Também distribuiu cerca de 30 exemplares, comprados em sebos, de um livro de Tom Peters com 163 pequenas atitudes que fazem diferença. A primeira é sobre o banheiro de um restaurante de estrada: se o banheiro é cuidado, a comida também é.
O último módulo do curso terminava num cemitério, diante de um túmulo com o nome de cada participante, e pedia que escrevessem como gostariam de ser lembrados. Ele conta que não soube o que escrever. Foi a partir daí que decidiu prestar atenção às pessoas da empresa, e não só aos números.
Conclusão
Edgard Corona errou primeiro, copiou o que funcionava fora do país e apostou alto com sócios financeiros. A academia de R$ 49, perto de casa e cheia de gente, saiu de uma conta feita em 2008 e de uma visita à sede da Planet Fitness, em New Hampshire. Perto dos 70 anos, ele passou a gestão ao filho e aponta, entre os arrependimentos, ter demorado a trocar o comando e controle pelo cuidado com as pessoas.
Perguntas frequentes
Edgard Corona é dono da Smart Fit?
É o fundador e acionista. Como a Smart Fit tem ações na bolsa desde 2021, a empresa tem muitos donos, entre fundos de investimento e investidores comuns. Desde março de 2026, Edgard preside o conselho de administração.
Quem é o CEO da Smart Fit?
Diogo Corona, filho de Edgard. Ele entrou no grupo como estagiário em 2010 e assumiu como CEO em 2 de março de 2026, quando o pai foi para a presidência do conselho.
Quem é dono da Bio Ritmo?
O Grupo Smart Fit. A Bio Ritmo foi a primeira academia de Edgard Corona, aberta em 1996, e hoje é a marca de alto padrão do grupo, ao lado da Nation.
Qual a formação de Edgard Corona?
Engenharia Química, pela FAAP, em 1979. Ele começou a empreender ainda na faculdade, com uma confecção de jeans e camisetas.
Edgard Corona trabalhou em usina de açúcar?
Sim. Depois de vender a confecção, em 1979, foi trabalhar na usina da família em Guariba, no interior de São Paulo. Ficou lá até a valorização do real tirar a competitividade do açúcar e a terceira geração da família chegar ao negócio.
O que é a Nation?
É a academia de performance do Grupo Smart Fit, com muitas máquinas para cada músculo. Foi pensada para fisiculturistas e acabou aberta ao público comum, com foco em treino de pernas e glúteos.
O TotalPass é da Smart Fit?
Sim. O TotalPass é o aplicativo de academias pago pelas empresas aos funcionários, criado e operado pelo Grupo Smart Fit no Brasil e no México.
Quantos filhos tem Edgard Corona?
Cinco, de dois casamentos, segundo ele: quatro filhas e Diogo, o CEO da Smart Fit. Duas das filhas estudam em universidades dos Estados Unidos.
Referências
- BIO RITMO. Edgard Corona. [S. l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.bioritmo.com.br/pages/edgard-corona. Acesso em: 30 out. 2026.
- CERULLO, Megan. Planet Fitness raises membership fee for first time since 1998. CBS News. New York, 9 maio 2024. Disponível em: https://www.cbsnews.com/news/planet-fitness-raises-membership-fee-for-first-time-since-1998. Acesso em: 30 out. 2026.
- DRSKA, Moacir. Na Smart Fit, Edgard Corona passa o bastão para o filho e assume presidência do Conselho. NeoFeed. São Paulo, 10 fev. 2026. Disponível em: https://neofeed.com.br/negocios/na-smart-fit-edgard-corona-passa-o-bastao-para-o-filho-e-assume-presidencia-do-conselho/. Acesso em: 30 out. 2026.
- FORBES BRASIL. SmartFit precifica IPO a R$ 23 por ação. São Paulo, 13 jul. 2021. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2021/07/smartfit-precifica-ipo-a-r-23-por-acao/. Acesso em: 30 out. 2026.
- OS SÓCIOS PODCAST. COMO A SMART FIT SE TORNOU A MAIOR REDE DE ACADEMIAS DO BRASIL? (com Edgard Corona) | Os Sócios #319. [S. l.], 9 out. 2026. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pbPDFVURR0Q. Acesso em: 30 out. 2026.
- PLANET FITNESS, INC. Planet Fitness, Inc. announces fourth quarter and year-end 2025 results. Hampton, 24 fev. 2026. Disponível em: https://investor.planetfitness.com/investors/press-releases/press-release-details/2026/Planet-Fitness-Inc--Announces-Fourth-Quarter-and-Year-End-2025-Results/default.aspx. Acesso em: 30 out. 2026.
- SMARTFIT ESCOLA DE GINÁSTICA E DANÇA S.A. Informações trimestrais: 30 de junho de 2026. São Paulo, 4 ago. 2026. Disponível em: https://api.mziq.com/mzfilemanager/v2/d/757d3905-6a2d-496a-bbb0-32ddd17de6a0/e6ace007-95e4-6270-6e1f-a5f49597a415?origin=2. Acesso em: 30 out. 2026.
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