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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Rafael Brandão: ego controlado, plano claro e palco no momento certo

Quatro campeonatos em um ano, o protocolo do Olympia lido em voz alta, a dieta em gramas, a finalização com sal e água e o preço que aparece nos exames.

Quatro campeonatos em doze meses, uma filha nascida no meio da preparação e um oitavo lugar no Mr. Olympia que ele mesmo se recusa a comemorar. Foi assim a temporada de Rafael Brandão, e em "RAFAEL BRANDÃO - ABRINDO A CAIXA DE PANDORA", do Monster Cast, ela é destrinchada até o fundo: calendário, dieta em gramas, finalização, protocolo hormonal lido em voz alta, exames alterados, cirurgia marcada e a briga com o próprio treinador. Poucas vezes um atleta de Open desse nível expõe a operação inteira com tanta precisão.

O que segue é o inventário dessa temporada. Nada aqui é receita, e boa parte é matematicamente perigosa fora do contexto em que foi aplicada. A leitura útil é outra: entender o custo real da categoria mais extrema do fisiculturismo, contado por quem está entre os dez melhores do mundo nela.

Quatro campeonatos em doze meses

A preparação começou em novembro do ano anterior, com o off-season conduzido por Neil Hill, e nunca mais parou. Arnold Classic Ohio primeiro, depois Arnold Classic Brasil com apenas sete dias de descanso entre um palco e outro, na sequência o Mr. Olympia e, para fechar, o Romênia Pro. Um ano inteiro de preparação encadeada.

O saldo justifica a insistência. Top 3 no Arnold Classic Ohio, algo que nenhum brasileiro tinha feito. Bicampeonato no Arnold Classic Brasil. Oitavo lugar no Olympia, duas posições acima do ano anterior. Bicampeonato no Romênia Pro. Vale o contexto de raridade: em toda a história da Open no Mr. Olympia, só existem dois anos com um brasileiro dentro do top 10, 2022 e 2024, e os dois são dele. Antes disso foram mais de três décadas sem sequer um brasileiro classificado na categoria.

O calendário seguinte inverte a lógica. Depois de uma carreira inteira emendando competições, 2025 tem um alvo só, o Olympia, com preparação exclusiva pela primeira vez. O ano seguinte é que volta a ter agenda cheia, com New York Pro, California State e o Pittsburgh, que passa a ter categoria Open.

O convite de Praga e a regra de dizer não

A polêmica da temporada foi não subir em Praga contra Chris Bumstead. O promotor sondou várias vezes, antes mesmo do anúncio público do evento, oferecendo passagem e hotel. A resposta foi não, e a explicação é operacional antes de ser emocional: seria o quinto campeonato seguido, com uma única semana entre uma finalização e outra, e nenhum físico responde bem a isso.

O raciocínio vale para qualquer atleta que negocia calendário: subir a 80% ou 90% do próprio potencial contra alguém em condição plena não é uma aposta, é uma derrota agendada. O plano B, aliás, existia e era outro. Se o Romênia não garantisse a vaga, o alvo seria o Big Man na Espanha, quatro semanas depois, justamente porque esse intervalo permitiria uma semana mais folgada seguida de três semanas de finalização de verdade.

Há também uma regra prática de negociação que ele adotou depois de se queimar: diante de um convite fora do planejamento, dizer não primeiro. Um sim precipitado vira cobrança, e desistir depois custa relacionamento. É mais fácil converter um não em sim do que o contrário.

A filha que nasceu no meio da preparação

Mariana nasceu no miolo da preparação para o Olympia, e o efeito no físico foi imediato. Uma semana inteira no hospital sem dormir, com a mãe em recuperação de cesárea, seguida de outra semana em casa em estado de alerta permanente. Na primeira semana a babá foi flagrada cochilando com a recém-nascida no colo, o que basicamente encerrou qualquer chance de sono tranquilo.

Sem sono, o corpo não responde ao que está sendo feito. Treino em dia e dieta em dia não sustentam nada quando a recuperação não acontece, e a primeira coisa a cair é a imunidade. A resposta do treinador foi ajustar em vez de insistir: mais calorias, menos cardio, refeições livres pontuais espaçadas a cada três dias. Isso protegeu a saúde e o volume muscular, mas cobrou o preço previsível no condicionamento, e ele subiu ao palco de Las Vegas mais cheio e menos detalhado do que costuma competir.

Houve ainda uma escolha deliberada que atravessa a parte farmacológica. A trembolona só entrou duas semanas depois do parto, totalizando quatro ou cinco semanas de uso naquela preparação, contra o ciclo completo que ele faria normalmente. O motivo é humano e ele não disfarça: queria estar emocionalmente presente no nascimento da filha, e trembolona e sensibilidade emocional não convivem. O custo competitivo dessa decisão apareceu no palco, e mesmo assim ele a manteve.

Um detalhe do próprio percurso ajuda a interpretar o resultado. Ele é um atleta de reta final, cujo físico muda muito no último mês. A contrapartida é cruel: quem muda muito no último mês precisa chegar bem nesse último mês, porque a mesma alavanca que transforma um físico já afiado apenas deixa razoável um físico atrasado.

O que mudou quando ele trocou de treinador

A virada da carreira não foi um exercício novo nem uma droga nova. Foi comida. Trabalhando com Chris Aceto, a rotina incluía até duas horas de cardio e dias de carboidrato zerado. Com Neil Hill, o cardio caiu para trinta minutos e o piso de carboidrato passou a ser 300 g por dia, o equivalente a cerca de 1.200 g de arroz cozido. Houve dias de preparação com 1.000 g de carboidrato.

A desconfiança inicial foi grande, e ela é compreensível para quem passou anos associando corte a privação. Mas o físico secou comendo, e o resultado foi o pacote que ele considera o melhor da carreira, o de Ohio, com músculo cheio e condicionamento simultâneos. A diferença entre os dois métodos aparece com clareza na filosofia de finalização, tratada mais adiante.

Vale registrar o critério de planejamento que Neil impõe: estar pronto duas semanas antes da data do campeonato, não no dia. As duas últimas semanas viram administração e ajuste fino, não corrida contra o relógio.

Tilápia, batata e um exame de fezes de R$ 3.500

Depois do Olympia, com três semanas até o Romênia, o objetivo era recuperar condicionamento sem tempo hábil para nada elaborado. A estratégia foi radical e monótona: nenhuma refeição livre, ciclo de quatro dias de carboidrato baixo e três de alto, e um cardápio reduzido a aveia, ovo, tilápia, batata e uma refeição de carne vermelha.

A troca de frango por tilápia é o ponto técnico dessa fase. Mantendo a mesma quantidade de proteína, a substituição derruba cerca de 600 calorias diárias vindas da gordura, o que ao longo de uma semana produz um déficit relevante sem mexer em porções nem gerar fome adicional. O número exato depende do corte e da quantidade, mas a direção é real e explica por que atletas de reta final tratam peixe magro como ferramenta de condicionamento, e não como preferência gastronômica. Na Romênia não havia tilápia disponível, e a solução foi cozinhar o frango três vezes para extrair o máximo de gordura.

A batata também entrou no lugar do arroz na finalização, por dois motivos: deixa o físico mais denso e é mais fácil de digerir. Digestão, aliás, é o eixo escondido de toda essa história. Um exame de microbiota chamado Copromax, que exige coleta de fezes por três a quatro dias, envio do material para análise na Europa e custa cerca de R$ 3.500 sem cobertura de convênio, apontou um problema com histamina. Cortados os alimentos que faziam mal, o quadro intestinal se estabilizou e a absorção melhorou a ponto de mudar a conta do off-season: antes ele comia muito e absorvia pouco, agora come menos e aproveita mais.

A finalização: o sal que não sai e a água que entra

Aqui está a diferença mais concreta entre as duas escolas que ele viveu. Neil Hill não retira sódio em momento nenhum. O padrão é fixo, dez rodadas de moedor por refeição, com ajustes finos pontuais para cinco rodadas em uma ou outra refeição e retorno imediato às dez. A hiper-hidratação chegou a 10 litros, caiu para 6 litros no dia anterior e, no dia do evento, virou goles de 250 mL a cada refeição.

A lógica de leitura do atleta durante a finalização é simples de entender e difícil de executar. Se o carboidrato entrou e o músculo não está cheio, não é falta de glicogênio nem de sódio, porque ambos estão presentes. É falta de água. Aí se coloca água, se espera, e o músculo enche.

Os diuréticos entraram tarde e em dose baixa. Espironolactona a 12,5 mg pela manhã e 12,5 mg à noite, com hidroclorotiazida aparecendo apenas no dia anterior e no dia da competição. A comparação com o método anterior é direta: mudanças mais abruptas, retirada de sal, água derrubada com força e mais dias de diurético entregam pele muito colada, mas sem volume suficiente para empurrar essa pele e criar o aspecto tridimensional.

Há ainda a parte que ninguém filma. Restringir água resseca o intestino, e o final dele trava. Enzimas digestivas, abacaxi, glutamina e, quando necessário, supositório entram como estratégia para resolver isso antes do palco. Ele é literal ao dizer que evacuar bem na manhã da competição é um dos melhores indicadores de que o vácuo abdominal vai sair.

A caixa aberta: o protocolo relatado para o Olympia

Este é o trecho que dá nome ao encontro, e ele foi lido em voz alta, item por item. Antes dos números, o enquadramento honesto: trata-se do protocolo de um profissional de Open acompanhado por treinador experiente, com exames periódicos, medicação contínua de pressão e uma estrutura de suporte que praticamente ninguém que lê isto possui. Não é modelo, não é referência de dose e não deve ser copiado em nenhuma fração.

  • Segunda, quarta e sexta: 100 mg de propionato de testosterona, 100 mg de masteron e 100 mg de trembolona, somando 300 mg por dia de aplicação e 900 mg na semana.
  • Terça e quinta: 250 mg de sustanon e 100 mg de primobolan.
  • Pré-treino: 20 mg de estanozolol somados a 20 mg de um segundo oral, cujo nome não é possível identificar com segurança na fala.
  • Mesterolona entre 45 mg e 50 mg por dia, divididos em duas tomadas.
  • Anastrozol 1 mg em dias alternados.
  • Hormônio de crescimento a 6 UI por dia nas semanas finais.
  • T3 a 12,5 mcg com T4 a 50 mcg, depois ajustado para 100 mcg de T4.
  • Nas duas últimas semanas, sustanon e primobolan saem e propionato, masteron e trembolona sobem de 100 mg para 150 mg cada.

O total semanal foi estimado por ele mesmo em torno de 2 g, contando os orais. O primeiro ciclo da carreira, para efeito de contraste, foram 10 ampolas de durateston e 30 mL de estanozolol distribuídos em cerca de cinco semanas, com duas aplicações de durateston por semana.

Um detalhe operacional atravessa tudo isso e é o mais transferível para qualquer pessoa que use qualquer coisa injetável: volume por ponto de aplicação. Três mililitros em um único ponto inflamam, e a solução adotada é distribuir 1 mL por ponto, o que multiplica o número de aplicações no dia. Vale lembrar que 1 cc equivale a 1 mL, e que volume não é dose — a quantidade em miligramas depende inteiramente da concentração declarada de cada produto.

A qualidade do insumo aparece como o problema central no Brasil, e não a dose. Ele trocou de marca várias vezes durante a preparação do Olympia, e os exames de testosterona oscilavam para cima e para baixo sem explicação, o que inviabiliza qualquer leitura séria do que está funcionando. O único produto de comportamento previsível era o de farmácia. Uma marca específica inflamava o ponto de aplicação a ponto de exigir dexametasona junto.

Por que ele usa menos hormônio de crescimento do que se imagina

A parte mais contraintuitiva da conversa é a dose de GH. 6 UI por dia nas semanas finais, com 12 UI divididas em duas tomadas como teto histórico recente. E não é falta de acesso: ele comprou vinte canetas para a preparação.

A justificativa é fisiológica e vale mais que o número. Ele já usou 16, 18, 20, 25, 30 e até 36 UI em outras fases da carreira. Em preparação, com déficit calórico instalado e hormônio tireoidiano em uso, a dose alta "puxa" demais e o atleta definha em vez de encher. O mesmo raciocínio explica a moderação com T3: com Aceto chegou a usar 75 mcg e o resultado era um físico impossível de preencher, preso num vaivém de esvaziar e encher que atrapalha a finalização. Os 12,5 mcg atuais são calibrados por exame, mirando o limite superior da faixa natural, e não acima dela.

Marca também importa por causa de retenção. Saizen retinha menos, Hormotrop retém mais, e uma apresentação de 30 UI que ele testou retém bastante e sobe a pressão. Como já há retenção vinda da dieta e dos demais hormônios, o GH que retém menos é preferível. E existe um relato antigo que serve de alerta sobre excesso: numa fase em que tomava uma caixa inteira de GH por dia, comprada muito barata, ele perdeu força de preensão e derrubou dois copos seguidos numa padaria, sem conseguir fechar a mão. A dose foi reduzida.

Sobre IGF-1, a avaliação é morna e comercialmente inconveniente: usou até uma semana antes e depois no carb-up, mas considera que a diferença aparece na primeira tomada e não sustenta o custo de uma preparação inteira. Clembuterol foi usado com cetotifeno na preparação do Olympia, pouco na do Romênia, e a retirada foi feita sem nenhum manipulado para conter rebote.

A conta que aparece nos exames

O preço não é abstrato e ele não o esconde. O HDL está zerado. A pressão arterial já era naturalmente mais alta antes de qualquer hormônio, e por isso ele usa medicação anti-hipertensiva de forma contínua e preventiva, com a justificativa correta de que pressão alta é silenciosa e vai danificando órgãos sem sintoma até o dia em que o estrago está feito. Depois de um ano ininterrupto de preparação, a avaliação sobre o fígado é resignada, na linha de que só houve ataque e nenhuma defesa.

Há também limites individuais que ele respeita. Oximetolona é intolerável para ele, com impacto claro no fígado e no estômago, e nem a versão sublingual passou de quatro ou cinco dias seguidos. Cipionato nunca entrou na rotina, que se resume a durateston, propionato e enantato.

É justamente por isso que a fase de recuperação existe. Doze semanas com testosterona em 500 mg por semana e nada além, treinando quatro vezes por semana, com o objetivo declarado de recuperar articulações e órgãos. Não é fase de ganho, é fase de manutenção, com dieta em torno de 500 g de carboidrato e 350 g de proteína para segurar o peso em cerca de 125 kg antes de abrir o off-season.

Sobre o off, a meta mudou de natureza. No anterior ele bateu 136 kg, mas não sustentou o número, oscilando para baixo no dia seguinte. O objetivo agora é manter acima de 130 kg por uns três meses para consolidar massa de verdade, e ele já descarta a corrida por 140 kg por não enxergar vantagem.

Fecha o quadro clínico uma cirurgia marcada para 10 de janeiro. A primeira intervenção no septo falhou, a cartilagem enxertada não aderiu e hoje as duas narinas fecham, com o osso restringindo o fluxo de ar. A reconstrução exige quebrar e reestruturar, com cerca de dez dias de recuperação, e ainda depende de um tratamento prévio para afinar a pele do nariz, que não aderiu ao osso e vive inchando. O motivo declarado é performance pura: ele respira pela boca, acorda com a garganta seca e não conseguiu sustentar o vácuo abdominal no palco do Olympia porque, ao puxar o ar com força, a passagem fecha.

O treino, e a crítica que não colou

A estrutura de trabalho tem três camadas. Neil Hill orienta à distância e aprova tudo, Jorlan Vieira puxa os treinos e escolhe parte dos exercícios, e Rodrigão executa o apoio na academia. As orientações do treinador para aquela fase foram específicas: mais pico de contração, mais drop-set e mais intensidade dentro da série.

Isso responde à crítica que viralizou, de que ele chegava à academia sem saber o que ia treinar e portanto não poderia ser profissional. Os exercícios já eram os mesmos de sempre, a orientação vinha de fora e a conversa na chegada decidia variação, não estrutura. A comparação que ele faz com a própria história é ainda mais desconfortável para a plateia da periodização: a fase em que mais evoluiu foi treinando com Flex Wheeler, em séries de trinta repetições ou mais, sem nenhuma periodização formal, com Neil Hill supervisionando e pedindo ainda mais repetição.

A divisão da fase de recuperação tem quatro dias. Segunda com peito e tríceps, terça com perna completa, quarta de descanso, quinta com costas e bíceps, sexta com ombro, fim de semana livre. E há um achado prático relevante para quem tem braço estagnado: enquanto treinava braço em dia isolado, ele patinava. Quando bíceps passou a acompanhar costas e tríceps passou a acompanhar peito, o braço voltou a crescer. A explicação é de gestão de volume, já que o braço trabalha praticamente todos os dias como músculo auxiliar em stiff, remada, puxada e supino.

No ombro, a ordem é deliberada: começa sempre com dois exercícios de lateral, porque a porção lateral responde pela largura, depois um ou dois de frontal e um ou dois de posterior. Ele evita insistir na porção anterior porque o treino de peito já a ativa bastante, e valoriza a posterior pelo desenho que ela dá ao ombro visto de lado. Panturrilha é treinada três vezes por semana, alternando em pé e sentado, com uma semana enfatizando carga e outra enfatizando alongamento.

Para aprofundar cortes na perna na reta final, o recurso preferido é pico de contração na cadeira extensora, com sustentação real na contração, além de séries em escada e mais repetições, com a ressalva de que escada em excesso pode consumir musculatura. E existe uma hérnia lombar no meio disso, que ele aprendeu a contornar: com o movimento certo e aquecimento prévio, treina como se não existisse, e um episódio de recusa a pegar carga sem aquecer virou até briga pública com terceiros que assistiram à cena pela metade.

Doze mãos de tinta

Um dos trechos mais úteis e menos glamourosos é o protocolo de pintura, que ele trata como fator decisivo e não como detalhe cosmético. Tinta errada esconde detalhe e apaga quatro ou cinco meses de preparação.

A sequência começa com preparação de pele dois dias antes. Não é preciso esfoliação agressiva, e um banho com detergente já remove a gordura da pele, que é o que realmente importa. Estar desidratado ajuda, porque a pele puxa a tinta para dentro e ela deixa de sair. A mistura usada combinou dois produtos de competição com dois de base, mais um de espuma para o acabamento escuro.

A aplicação foi feita com esponja bem encharcada, esfregando e espalhando, com cerca de trinta minutos de intervalo entre as mãos, na sexta à noite, no sábado e no domingo de manhã. No total, entre dez e doze mãos. O detalhe que faz a diferença é o banho entre as sessões: ele lava e tira o excesso antes de aplicar de novo, porque o objetivo é que a camada final seja fina. Tinta grossa escorre com o suor no palco.

Joelhos e cotovelos ficam propositalmente sem tinta até a última demão do domingo, porque essas regiões absorvem muito mais pigmento e escurecem demais sob a luz. Nas fotos do pré-julgamento a diferença é visível, e rendeu piada de que ele teria sido pintado de quatro.

O que separa a Open de todo o resto

Um dos pontos que ele mais faz questão de martelar é que a Open não é uma versão maior das outras categorias, é outro esporte. A diferença não é ganhar 10 kg, é uma escala inteiramente diferente de genética, alimentação e substância. E existe um agravante estrutural: nas categorias com limite de peso há um parâmetro, na Open não há nenhum. Aparece um atleta com 140 kg secos no palco e a régua muda no mesmo dia.

Sobre a leitura de resultado, ele oferece um argumento que costuma passar despercebido. Perdeu para dois campeões do Olympia naquele palco. Posição não está sob controle do atleta, porque depende de quem mais chegou bem e de julgamento subjetivo. O que está sob controle é a evolução, e é isso que ele anota. Existe um diário de finalização onde tudo que funcionou e tudo que falhou é registrado para a temporada seguinte, e ele questiona o próprio resultado justamente para achar o erro, não para se consolar.

A régua de tempo também merece atenção de quem tem pressa. Samson Dauda ganhou o primeiro Olympia aos 38 anos. Shawn Rhoden ganhou aos 43. Os campeões precoces são a exceção, não a regra. E existe um enquadramento que ele usa contra quem menospreza a colocação: qual médico, nutricionista ou piloto brasileiro é o oitavo melhor do mundo na própria profissão?

Coach, energia e o custo invisível da equipe

Neil Hill é descrito como metódico ao extremo. Foto às 8 horas significa 8 horas, não 8h01, e ao longo do dia chegam áudios cobrando quantos litros de água já foram bebidos. É desgastante, e ele admite que teve dias de não querer responder o treinador. Mas a lógica é coerente: o nome de quem prepara vai junto no palco.

Esse nível de atenção impõe um limite matemático ao tamanho da lista de atletas. Ele viu o treinador administrando quatro ou cinco atletas e já achou difícil. Um coach com quinze atletas de ponta numa mesma Olympia inevitavelmente deixa alguém para trás. Serve de critério para quem escolhe profissional: portfólio grande não significa atenção disponível, e nome famoso não substitui presença na reta final. Um caso concreto ilustra a exigência, com Felipe Franco perdendo a parceria por não enviar os registros diários de dois minutos que o método exige.

Mas a passagem mais dura é sobre o treinador anterior, Pinduca. A evolução técnica foi real e ele faz questão de dizer que o conhecimento do outro é enorme. O problema foi energético. Manter aquela parceria funcionando exigia sustentar emocionalmente o próprio treinador, a ponto de custear terapia para ele. Havia ainda um problema de comunicação que corroía a credibilidade do trabalho: um profissional que fala o tempo todo de si mesmo, transformando cada orientação em anedota pessoal, perde autoridade sobre o que está prescrevendo.

A conclusão que ele tira é aplicável muito além do fisiculturismo. Em fase de esforço máximo, a pessoa não pode ser a única do grupo puxando todo mundo para cima. É preciso ter ao lado alguém disponível para puxá-la quando ela cair.

Conclusão

A caixa aberta mostra que quase nada ali é segredo farmacológico. O protocolo, nas palavras dele, é arroz com feijão, e o que os atletas de ponta usam varia menos do que a internet imagina. O que decide é a soma de coisas menos vendáveis: acertar a comida, resolver o problema digestivo que estava sabotando a absorção, dormir, calibrar a finalização com sal presente e água manejada, distribuir o volume das aplicações, medir pressão, tratar o septo que impede o vácuo e registrar por escrito o que funcionou.

Vale o aviso, e ele não é decorativo. As doses relatadas aqui pertencem a um atleta profissional de Open com acompanhamento, exames e décadas de adaptação, e mesmo nesse cenário aparecem HDL zerado, pressão controlada por medicação contínua e um fígado que ele mesmo descreve como no limite. Fora desse contexto, esses números produzem dano cardiovascular, hepático e endócrino com muito mais facilidade do que produzem físico. Qualquer decisão envolvendo hormônios exige avaliação, exames e acompanhamento de profissional habilitado.

FAQ

Quantos campeonatos ele fez na temporada e com que resultado?

Quatro, com um ano inteiro de preparação encadeada. Top 3 no Arnold Classic Ohio, bicampeonato no Arnold Classic Brasil, oitavo lugar no Mr. Olympia e bicampeonato no Romênia Pro. Recusou um quinto palco em Praga por entender que não conseguiria subir em condição plena.

Quanto carboidrato ele come em preparação?

O piso é 300 g por dia, o equivalente a cerca de 1.200 g de arroz cozido, com dias chegando a 1.000 g de carboidrato. O cardio ficou em trinta minutos. É o oposto da estratégia anterior, que combinava até duas horas de cardio com dias de carboidrato zerado.

Por que ele usa apenas 6 UI de hormônio de crescimento?

Por experiência própria com doses de 16 a 36 UI em outras fases. Em preparação, com déficit calórico e hormônio tireoidiano em uso, a dose alta consome o atleta e impede o preenchimento muscular. A escolha da marca também pesa, porque as que retêm mais líquido somam retenção à que já vem da dieta e sobem a pressão.

O que ele faz de diferente na finalização?

Não retira sódio em momento algum, mantendo um padrão fixo por refeição. Faz hiper-hidratação chegando a 10 litros, reduz para 6 litros no dia anterior e passa a beber 250 mL por refeição no dia. Os diuréticos entram tarde e em dose baixa, com a tiazida aparecendo só no último dia.

Qual foi o problema de saúde que mudou os resultados dele?

Uma alteração intestinal ligada a histamina, identificada por um exame de microbiota que exige dias de coleta e análise no exterior, com custo em torno de R$ 3.500. Depois de cortar os alimentos envolvidos, a absorção melhorou a ponto de ele passar a comer menos e aproveitar mais.

Como é feita a pintura de palco?

Entre dez e doze mãos aplicadas da sexta ao domingo, com cerca de trinta minutos entre elas, sobre pele desengordurada com detergente dois dias antes. Entre as sessões ele toma banho para tirar o excesso, porque camada grossa escorre com o suor. Joelhos e cotovelos só recebem tinta na última demão, já que absorvem pigmento demais.

Referências

  1. MONSTER CAST. RAFAEL BRANDÃO - ABRINDO A CAIXA DE PANDORA. YouTube, 22 nov. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/live/tkxxrvZQSlY. Acesso em: 31 jul. 2026.

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