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Cluster set é bom para hipertrofia? Para quem o método serve

No cluster set, você faz pausas curtas no meio da série. O treino cansa menos e você fica forte do mesmo jeito. Mas para ganhar músculo, não há vantagem.

Imagine uma série de 8 repetições de agachamento. Em vez de fazer as 8 de uma vez, você faz 4, apoia a barra, respira por alguns segundos e faz as outras 4. Isso é o cluster set. O treino fica menos cansativo e você continua ficando mais forte. A pergunta que interessa a quem treina para ganhar músculo e perder gordura é outra: esse conforto ajuda ou atrapalha?

Um estudo alemão publicado em 2026, com 36 pessoas que já treinavam, ajuda a responder. O professor Paulo Gentil explicou os resultados em "Quer crescer e secar? A Ciência explica o erro desse método", e a conclusão é clara: o cluster funciona muito bem para algumas pessoas, mas não é a melhor escolha para quem treina por estética.

O que é cluster set

Na série comum, você faz todas as repetições sem parar. No cluster set, você faz o mesmo número de repetições, só que dividido em pedaços, com uma pausa curta entre eles. As 8 repetições podem virar 4 + 4, ou 2 + 2 + 2 + 2, por exemplo.

A ideia é simples. Quando você faz muitas repetições seguidas, o músculo começa a queimar, o coração acelera, a pressão sobe e a respiração fica pesada. Grande parte desse cansaço vem do fato de não parar. Com pausas curtas no meio da série, o cansaço não chega a se acumular tanto.

Como foi o estudo

Participaram 21 homens e 15 mulheres que treinavam musculação havia pelo menos um ano. Para entrar, os homens precisavam agachar pelo menos 1,25 vez o próprio peso, e as mulheres, pelo menos o próprio peso. Os dois grupos foram montados com a mesma proporção de homens e mulheres e com força parecida.

Durante 6 semanas, todos fizeram 12 treinos de agachamento livre, com a mesma carga, o mesmo número de repetições e 3 minutos de descanso entre as séries. A única diferença é que um grupo fazia a série inteira de uma vez e o outro parava 30 segundos no meio dela. A carga começou em 70% e terminou em 85% da carga máxima (1RM):

Treinos

Carga

Séries × repetições

Como o grupo cluster dividia a série

1 a 3

70% de 1RM

3 × 8

4 + 4, 2 + 2 + 2 + 2, 3 + 2 + 3

4 a 6

75% de 1RM

4 × 6

3 + 3, 2 + 2 + 2

7 a 9

80% de 1RM

4 × 4

2 + 2, 1 + 1 + 1 + 1, 1 + 1 + 2

10 a 12

85% de 1RM

4 × 3

2 + 1, 1 + 1 + 1

Em alguns treinos, o peso também mudava dentro da série. No terceiro treino, por exemplo, o primeiro pedaço de 3 repetições era feito com 67,5% da carga máxima, o do meio com 75% e o último de novo com 67,5%. Se você não sabe qual é a sua carga máxima, a calculadora de 1RM faz essa estimativa a partir de uma série que você já consegue fazer.

O que acontece durante o treino

Com as pausas, o treino cansou menos. O grupo cluster conseguiu subir a barra mais rápido com o mesmo peso, perdeu menos velocidade de uma repetição para outra, produziu menos lactato e achou o treino mais leve. A série comum foi mais cansativa em todas as medições.

O resultado depois de 6 semanas

Os dois grupos ficaram mais fortes, e na mesma medida:

  • Carga máxima no agachamento: quem fez cluster passou de 107,8 kg para 116,8 kg, um aumento de 9,1 kg. Quem fez a série comum passou de 104,6 kg para 111,9 kg, um aumento de 7,4 kg. Pela estatística, essa diferença entre os grupos não conta. Os dois ganharam o mesmo.

  • Resistência: com 60% da carga máxima, o grupo cluster passou de 31,2 para 36,5 repetições, e o da série comum, de 31,7 para 36,2.

  • Força parada e salto: nenhum dos grupos melhorou no teste de força isométrica nem no salto vertical.

Sobre a resistência, vale um cuidado. Neste estudo deu empate, mas uma revisão que juntou 17 pesquisas encontrou vantagem para a série comum nesse ponto. Faz sentido: quem quer aguentar muitas repetições seguidas precisa treinar fazendo muitas repetições seguidas.

Onde o cluster levou vantagem

A única diferença real apareceu na velocidade. Depois das 6 semanas, quem treinou com cluster passou a levantar os pesos mais altos com mais velocidade. Quem treinou com a série comum melhorou a velocidade com pesos leves, mas quase nada com os pesados. Em outras palavras, parar no meio da série ensina o corpo a ser explosivo com carga alta.

Homens e mulheres responderam de forma parecida. As mulheres só sentiram o treino um pouco mais leve e produziram menos lactato.

Cluster set serve para hipertrofia?

O estudo alemão não mediu o tamanho dos músculos. Mas duas revisões grandes mediram. A primeira juntou 29 pesquisas e concluiu que o músculo cresce o mesmo com cluster ou com série comum. A segunda, com 17 pesquisas, chegou à mesma conclusão. Nessas pesquisas, os dois grupos costumam fazer o mesmo número de séries e repetições.

Então, se você fizer o mesmo treino com ou sem pausas, vai crescer o mesmo tanto. O cluster não faz o músculo crescer mais, apesar de muita gente vender o método como segredo da hipertrofia.

Existe ainda um motivo para não usar o cluster quando o objetivo é crescer. Treinar perto do cansaço e sentir o músculo queimar são sinais ligados ao crescimento muscular. O cluster foi feito justamente para evitar esse cansaço. E se você levar cada pedaço da série até cansar de verdade, o cluster deixa de fazer sentido.

Fica uma dúvida que ainda ninguém testou: o fôlego que o cluster economiza poderia ser usado para fazer mais séries e, assim, crescer mais? Por enquanto, não há estudo sobre isso.

E para emagrecer?

A musculação ajuda a emagrecer menos pelas calorias que você gasta durante o treino e mais pelo que acontece depois dele. Um treino puxado deixa o corpo gastando mais energia nas horas e até nos dias seguintes, e boa parte dessa energia vem da gordura. Quanto mais o treino cansa, maior esse gasto extra.

Como o cluster cansa menos, o corpo tende a gastar menos depois. O estudo não mediu gordura, mas os dados de cansaço e lactato apontam nessa direção. Para quem quer ganhar músculo e perder gordura ao mesmo tempo, a matéria sobre quando a recomposição corporal funciona ajuda a decidir o que priorizar.

Para quem o cluster set vale a pena

Quem tem pressão alta ou problema no coração

Em mulheres idosas, trocar 10 repetições seguidas por 5 repetições, uma pausa de 5 a 10 segundos e mais 5 repetições diminuiu o esforço do coração durante o exercício. Um estudo espanhol com 50 mulheres depois da menopausa, algumas com pressão alta, encontrou algo parecido: com o mesmo total de repetições, séries mais curtas deixaram os batimentos mais baixos durante o treino.

Quem está em quimioterapia ou com a imunidade baixa

Pacientes com leucemia que fazem quimioterapia todos os dias podem ficar vários dias cansados depois de um treino com séries seguidas, e o corpo deles não tem energia sobrando para isso. Dividir as séries permite treinar e ir para casa sem ficar esgotado. O mesmo vale para quem está com a imunidade baixa, até mesmo durante uma gripe.

Iniciantes e quem tem dor crônica

Quem está começando, quem se incomoda muito com o desconforto do exercício ou quem tem dor crônica, como na fibromialgia, pode começar com o cluster. A pessoa sai do treino bem, se acostuma e depois passa para as séries comuns.

Idosos que treinam para ganhar agilidade

Dois estudos com mulheres idosas compararam séries de 8 repetições seguidas com séries em que elas paravam 30 segundos a cada 2 repetições. No Chile, depois de 12 semanas, o grupo com pausas melhorou mais em velocidade de caminhada, em levantar da cadeira e em qualidade de vida. No Brasil, com 66 mulheres de 61 anos em média, os dois grupos melhoraram por igual.

Lutadores de judô, wrestling e jiu-jitsu, e levantadores de peso

Esses atletas precisam ser explosivos contra muito peso: derrubar um adversário tão pesado quanto eles ou levantar a barra mais pesada que conseguem. É exatamente o que o cluster melhora. E, como o método não faz o músculo crescer além do normal, ajuda quem precisa se manter na mesma categoria de peso.

Quem treina musculação e outro esporte no mesmo dia

Se você faz musculação de manhã e treina luta, corrida ou outro esporte à tarde, precisa chegar descansado ao segundo treino. O cluster ajuda porque deixa menos cansaço acumulado. Veja como organizar esse tipo de rotina em treino híbrido ou separado: o que muda na força e na perda de gordura.

Para quem o cluster set não vale a pena

  • Quem treina para ganhar músculo ou emagrecer: o músculo cresce o mesmo e o gasto de calorias depois do treino tende a ser menor.

  • Atletas que precisam de velocidade sem carga pesada: corredores, saltadores, arremessadores e lutadores de boxe ou muay thai, que movimentam só o próprio corpo, os braços ou as pernas. Para eles, tanto faz usar cluster ou não, a não ser pelos motivos de saúde e cansaço citados acima.

Como fazer cluster set

  1. Escolha o peso com base na sua carga máxima. No estudo, ficou entre 70% e 85% dela.

  2. Divida as repetições da série em pedaços de 1 a 4. Quanto mais pesado, menores os pedaços.

  3. Descanse 30 segundos entre os pedaços, com o peso apoiado, e 3 minutos entre uma série e outra.

  4. Suba cada repetição o mais rápido que conseguir, mantendo a técnica.

  5. Se você tem pressão alta, doença no coração ou faz tratamento contra câncer, fale antes com seu médico e treine com acompanhamento profissional.

Esses números vieram de treinos de agachamento livre. Em máquinas e exercícios como rosca ou cadeira extensora, a ideia de dividir a série e pausar é a mesma, mas o estudo não testou esses exercícios.

Conclusão

O cluster set deixa você tão forte quanto a série comum, com um treino menos cansativo, e ainda melhora a explosão com pesos altos. Por isso é ótimo para quem precisa poupar o corpo, como hipertensos e pessoas em tratamento, e para atletas que precisam de força rápida. Para ganhar músculo e perder gordura, ele não traz vantagem: o músculo cresce igual e o gasto de energia depois do treino tende a ser menor. Se o seu objetivo é estético, continue com as séries comuns, levadas perto do seu limite.

FAQ

Cluster set é bom para hipertrofia?

Funciona, mas não é melhor que a série comum. Duas revisões de pesquisas mostram que, fazendo o mesmo número de séries e repetições, o músculo cresce o mesmo tanto. Para quem só quer hipertrofia, a série comum continua sendo o caminho mais simples.

Quanto tempo de descanso usar no cluster set?

No estudo de 2026, foram 30 segundos de pausa no meio da série e 3 minutos entre uma série e outra. Nos estudos com idosas, também foram 30 segundos a cada 2 repetições.

Quando usar cluster set?

Quando você quer ficar mais explosivo com pesos altos, quando precisa estar descansado para outro treino no mesmo dia ou quando tem uma condição que exige cansar menos, como pressão alta, problema no coração ou quimioterapia.

Cluster set funciona para ganhar força?

Funciona tão bem quanto a série comum. Em 6 semanas de agachamento, a carga máxima subiu 9,1 kg em quem fez cluster e 7,4 kg em quem fez a série comum, o que a estatística considera empate. A vantagem do cluster está em levantar pesos altos com mais velocidade.

Referências

  1. GENTIL, Paulo. Quer crescer e secar? A Ciência explica o erro desse método. [S. l.], 26 set. 2026. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jCuookaIDC0. Acesso em: 30 set. 2026.

  2. HOBEIN, E. et al. Acute Responses and Chronic Adaptations to Cluster Versus Traditional Set Resistance Training in Males and Females. European Journal of Sport Science, v. 26, n. 4, e70160, 2026. DOI: 10.1002/ejsc.70160. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41832049/. Acesso em: 30 set. 2026.

  3. JUKIC, I. et al. The Effects of Set Structure Manipulation on Chronic Adaptations to Resistance Training: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine, v. 51, n. 5, p. 1061-1086, 2021. DOI: 10.1007/s40279-020-01423-4. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33417154/. Acesso em: 30 set. 2026.

  4. DAVIES, T. B. et al. Chronic Effects of Altering Resistance Training Set Configurations Using Cluster Sets: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine, v. 51, n. 4, p. 707-736, 2021. DOI: 10.1007/s40279-020-01408-3. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33475986/. Acesso em: 30 set. 2026.

  5. RÚA-ALONSO, M. et al. Set configuration influences cardiovascular responses to resistance exercise in postmenopausal females in a randomized crossover trial from the CARE project. Scientific Reports, v. 15, 28373, 2025. DOI: 10.1038/s41598-025-14379-0. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40760080/. Acesso em: 30 set. 2026.

  6. RAMIREZ-CAMPILLO, R. et al. High-speed resistance training in elderly women: effects of cluster training sets on functional performance and quality of life. Experimental Gerontology, v. 110, p. 216-222, 2018. DOI: 10.1016/j.exger.2018.06.014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29909049/. Acesso em: 30 set. 2026.

  7. DIAS, R. K. N. et al. Cluster-sets resistance training induce similar functional and strength improvements than the traditional method in postmenopausal and elderly women. Experimental Gerontology, v. 138, 111011, 2020. DOI: 10.1016/j.exger.2020.111011. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32592830/. Acesso em: 30 set. 2026.

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