O Mounjaro® aumenta testosterona? Em homens com obesidade, pode aumentar, e os estudos mostram isso. Mas a alta vem sobretudo do emagrecimento e da melhora da insulina, não de uma ação de hormônio da caneta, e aparece sobretudo em quem tinha a testosterona baixa por causa do excesso de gordura. Com a fertilidade é parecido: perder peso ajuda algumas mulheres a engravidar, mas a tirzepatida ainda não tem estudo próprio que mostre mais gravidez.
A crítica a essas promessas é do médico Samuel Dalle Laste, em “O que ninguém te contou sobre o MOUNJARO® (A manipulação revelada)”. Ele conta ter visto, um mês antes de gravar, um anúncio dizendo que a caneta melhora a fertilidade e, uma semana antes, outro dizendo que ela melhora a libido e a ereção e aumenta a testosterona. Para ele, é apelo de marketing: "o que aumenta a testosterona não é usar o Mounjaro®, é emagrecer e fazer exercícios físicos".
Da carta ao clique: por que a promessa cola
Há uns 200 anos, quem sentia fome esperava a comida e quem queria falar com alguém mandava uma carta e esperava a volta. Hoje quase tudo é rápido, e a comida pronta está na geladeira. Com essa mudança vieram doenças ligadas ao estilo de vida, e comer bem passou a ser algo que precisa ser ensinado.
Nesse ambiente, a forma de vender pesa. Um produto de R$ 299 parece mais barato que um de R$ 300, porque o primeiro algarismo engana. Truques assim são estudados na programação neurolinguística, a PNL, e o mesmo jeito de convencer aparece em anúncios e reportagens de saúde. A tirzepatida custa caro e já é vendida também em versão do Paraguai, falsa e manipulada. Cada manchete nova empurra quem ainda está em dúvida.
Quais hormônios o Mounjaro® ativa
A tirzepatida age nos receptores de dois hormônios do intestino, o GIP e o GLP-1. Com isso, aumenta a saciedade, reduz a fome, deixa o estômago e o intestino mais lentos e melhora a ação da insulina. Não é testosterona nem age como um hormônio sexual. É da mesma família da semaglutida, o princípio ativo do Ozempic® e do Wegovy®. No Brasil, o Mounjaro® é aprovado para diabetes tipo 2 e para controle do peso em adultos com IMC (índice de massa corporal) a partir de 30, ou a partir de 27 com alguma doença ligada ao peso.
Por que a obesidade derruba a testosterona
A síndrome metabólica, puxada pela resistência à insulina e pelo aumento da circunferência abdominal, tende a ser a principal causa da queda de testosterona nesses homens. Os testículos funcionam, mas recebem menos estímulo do LH e do FSH, hormônios da hipófise (uma glândula na base do cérebro) que mandam o testículo produzir testosterona e espermatozoides. Além disso, a gordura converte parte da testosterona em estradiol, o principal estrogênio. É o que os médicos chamam de hipogonadismo funcional ou metabólico.
Uma meta-análise, revisão que juntou 24 estudos, mostrou que perder peso sobe a testosterona total e a livre, baixa o estradiol e aumenta o LH e o FSH. A alta foi maior após a cirurgia bariátrica (cerca de 252 ng/dL, ou 8,73 nmol/L) do que com dieta (cerca de 83 ng/dL, ou 2,87 nmol/L), e o que mais explicou o ganho foi a quantidade de peso perdido.
O que os estudos com tirzepatida mostraram
O estudo mais citado pelas manchetes é italiano. Foram 83 homens de cerca de 55 anos, com obesidade e testosterona baixa de origem metabólica, todos com dieta de poucas calorias e 20 minutos de caminhada por dia. Um grupo usou tirzepatida (2,5 mg no primeiro mês e 5 mg no segundo), outro ficou sem remédio e o terceiro usou testosterona em gel. Em 2 meses, o grupo da tirzepatida perdeu mais peso e gordura e terminou com testosterona total e livre mais altas, LH e FSH mais altos e estradiol mais baixo que os outros dois, inclusive o do gel.
É um estudo piloto e curto, e os grupos não foram sorteados: começaram diferentes em cintura, massa magra e LH, o que pode pesar no resultado. Ele mostra que a tirzepatida, ao fazer emagrecer, pode tirar parte desses homens da faixa baixa, sem separar o efeito do remédio do efeito do peso perdido.
Um levantamento da Clínica Mayo, apresentado em 2026 num congresso americano de urologia, reuniu 1.629 homens que usaram semaglutida ou tirzepatida e tinham exame antes e depois. O valor do meio do grupo foi de 320 para 419 ng/dL. Pela divulgação, a alta não acompanhou de perto o peso perdido, o que deixa aberta a chance de outros caminhos além do emagrecimento. É uma análise retrospectiva, sem grupo de comparação e com coleta em horários diferentes, e por isso não prova causa.
Uma revisão sistemática de 2026 juntou o que existe sobre essas canetas e a testosterona em homens com hipogonadismo funcional. A alta média ficou entre 2,5 e 5,2 nmol/L, cerca de 72 a 150 ng/dL, em ensaios pequenos, de 12 a 24 semanas. Para os autores, o efeito vem em grande parte da perda de peso e da melhora da resistência à insulina.
Não é reposição de testosterona
A diferença prática está no LH e no FSH. A testosterona aplicada de fora desliga esses dois hormônios, e por isso pode baixar a produção de espermatozoides. Nos estudos com as canetas, o LH e o FSH ficaram iguais ou subiram, sinal de que o próprio corpo passou a produzir mais.
A alta de testosterona com a caneta aparece sobretudo em quem a tinha baixa por causa do peso. Em quem tem lesão nos testículos ou na hipófise, ou já tem a testosterona normal, não há motivo para esperar alta. E nem todo homem com obesidade normaliza: há quem emagreça pouco com a caneta e continue com a testosterona baixa.
Em quem essas queixas vêm do excesso de peso, emagrecer, com ou sem Mounjaro®, costuma melhorar testosterona, sono, disposição e qualidade de vida. Rinite, sinusite e dermatite às vezes entram na mesma lista de promessas, mas a ligação delas com o peso é bem menos medida que a da testosterona.
Pode tomar Mounjaro® com testosterona?
A bula não lista interação entre a tirzepatida e a testosterona, e um estudo piloto italiano usou as duas juntas. Nele, 10 homens com obesidade e testosterona baixa tinham perdido menos de 5% do peso em 3 meses de tirzepatida. Metade seguiu só com a caneta e metade recebeu também testosterona injetável. Seis meses depois, o grupo com testosterona tinha perdido mais gordura e recuperado massa magra.
Cinco homens por grupo não bastam para recomendar a combinação. A reposição tem indicação própria, exige exame que confirme a testosterona baixa e pode reduzir a produção de espermatozoides, e quem usa as duas deve ter as duas acompanhadas pelo médico. O cuidado com a massa muscular durante o tratamento está em Mounjaro® e perda de músculo.
Libido e ereção: dados para os dois lados
Uma meta-análise de 2026 com 7 estudos e 237 homens viu o escore de ereção subir 2,73 pontos com as canetas, junto com a testosterona total. É um questionário em que mais pontos indicam ereção melhor. Os estudos eram pequenos, e os autores pedem ensaios maiores.
No sentido oposto, um estudo com prontuários de 3.094 homens de 18 a 50 anos, sem diabetes, que receberam semaglutida para emagrecer encontrou mais diagnóstico novo de disfunção erétil ou receita de remédio para ereção do que num grupo parecido sem o remédio: 1,47% contra 0,32%, cerca de 4,5 vezes mais. O diagnóstico de testosterona baixa também foi mais comum, 1,53% contra 0,80%. É uma associação com outra caneta, não prova de causa.
Com dados apontando para os dois lados, não dá para prometer melhora da libido. Mudança de libido ou de ereção durante o tratamento é motivo para conversar com o médico.
Fertilidade: o que há de prova
A ideia de que sobrepeso, gordura visceral e barriga grande reduzem a fertilidade não é nova, e a pesquisa confirma em parte. Numa revisão de ensaios em que as participantes foram sorteadas, mulheres com sobrepeso ou obesidade e infertilidade que fizeram dieta e exercício tiveram chance quase duas vezes maior de engravidar e mais de duas vezes maior de ter um bebê nascido vivo que as que tiveram pouca ou nenhuma orientação. O efeito sumiu quando o grupo de comparação ia direto para a reprodução assistida, e não houve ensaio elegível em homens.
Na síndrome dos ovários policísticos, a liraglutida e a semaglutida têm sinais iniciais de mais concepção natural. A tirzepatida ainda não tem estudo próprio nessa síndrome. Nos homens, uma revisão de 2026 não achou nenhum estudo controlado com tirzepatida que medisse sêmen, gravidez ou nascimento e concluiu que essas canetas devem ser usadas nas indicações metabólicas, não como tratamento de infertilidade masculina.
Pílula e gravidez: o cuidado que a bula pede
Para quem não quer engravidar, há um detalhe que as manchetes de fertilidade não contam. A tirzepatida deixa o estômago mais lento, sobretudo nas primeiras doses, e pode reduzir o efeito da pílula anticoncepcional. Depois de uma dose de 5 mg, o pico do estrogênio da pílula no sangue caiu 59%, e a quantidade total absorvida, 20%, o que pode diminuir a proteção contra a gravidez.
A bula brasileira recomenda trocar a pílula por um método que não seja oral, ou somar um método de barreira, como a camisinha, nas 4 primeiras semanas e por 4 semanas depois de cada aumento de dose. Como a dose costuma subir de 4 em 4 semanas até chegar à de manutenção, esse cuidado pode durar meses. Métodos hormonais que não passam pelo estômago, como anel, adesivo, injeção, implante e DIU hormonal, não devem ser afetados.
Para quem quer engravidar, a bula brasileira manda parar o Mounjaro® pelo menos 1 mês antes da gravidez planejada e não usar a caneta para perder peso durante a gestação. Pela bula americana, faltam dados em humanos, e houve alterações nos filhotes de ratas. Uma revisão de 2026 sugere uma folga maior, de 8 semanas, e o prazo deve ser combinado com o médico.
O número de 94% e o reganho
Outra afirmação é que o tratamento só funciona enquanto se usa: "a cada 100 pessoas que emagrecem com Mounjaro®, 94 vão engordar de novo", o que seria "um fracasso total". Esse número não aparece nos estudos de manutenção do peso.
O reganho é real, mas o dado medido é outro. No SURMOUNT-4, ensaio da fabricante sobre parar o remédio, 670 adultos que tinham perdido em média 20,9% do peso em 36 semanas foram sorteados para continuar ou trocar por placebo. Nas 52 semanas seguintes, o peso de quem continuou caiu mais 5,5%, e o de quem parou subiu 14%. Ao final, 89,5% de quem continuou manteve pelo menos 80% da perda, contra 16,6% de quem parou. A maioria de quem parou perdeu boa parte do resultado, mas o estudo não mediu 94 em cada 100 voltando a engordar tudo.
Uma meta-análise de 2026 com 37 estudos e 9.341 pessoas que pararam remédios variados para emagrecer estimou reganho médio de 0,4 kg por mês. Parar sem plano favorece voltar a engordar. Obesidade é doença crônica, e o tratamento costuma precisar de manutenção.
Vesícula, intestino lento e anestesia
O alerta mais concreto vem do consultório. Um casal começou o Mounjaro® 45 a 60 dias antes da consulta, os dois com ultrassom anterior normal, feito num check-up. Vieram as dores, tomadas por gastrite, e um novo ultrassom mostrou pedra na vesícula nos dois, em cerca de 4 meses. Coincidência é possível, mas o mesmo quadro tem sido relatado em outros pacientes de consultório.
Dois pacientes não provam causa, mas o risco está na bula. Nos ensaios controlados, doença aguda da vesícula, como pedra, cólica biliar ou retirada da vesícula, apareceu em 0,6% de quem usou Mounjaro® e em nenhum paciente do placebo. Dor forte na parte de cima do lado direito da barriga, febre, vômito ou pele amarelada pedem avaliação médica, sem parar no rótulo de gastrite. Os outros efeitos colaterais da caneta estão em efeitos colaterais do Mounjaro®.
O intestino também fica mais lento. Nos ensaios de diabetes tipo 2 da bula americana, a prisão de ventre apareceu em 6% a 7% de quem usou Mounjaro®, contra 1% no placebo, e depois da aprovação houve relatos de prisão de ventre grave e de obstrução intestinal.
Outra afirmação é que "nenhum anestesista" anestesia quem usa a caneta e que todos pedem 3 semanas sem a aplicação. O risco existe: com o estômago mais lento, pode sobrar comida, que pode voltar e ir para o pulmão na anestesia. Mas a orientação de 2024 de cinco sociedades médicas, entre elas a americana de anestesiologia, diz que a maioria pode continuar a caneta. Para quem tem mais risco, a saída é ficar 24 horas sem comida sólida, só com líquidos claros até 2 horas antes, fazer ultrassom do estômago no dia ou, mais raramente, adiar o procedimento.
A regra prática é avisar o cirurgião, o anestesista e quem receitou a caneta, sem suspender por conta própria nem seguir um prazo tirado da internet. Pela bula americana, ainda não há dados para dizer se suspender a caneta ou mudar o jejum reduz esse risco.
Pancreatite: rara, mas séria
A pancreatite também entra na lista de riscos. Nos estudos da bula americana, houve 14 casos confirmados em 13 pessoas com Mounjaro®, cerca de 2 casos por 1.000 pessoas a cada ano de uso, o dobro dos grupos que usaram placebo ou outro remédio. Em fevereiro de 2026, a Anvisa emitiu um alerta para toda a classe: de 2020 a dezembro de 2025, foram 145 notificações de suspeita no Brasil e 6 suspeitas com morte. Notificação não prova que o remédio causou cada caso, e a agência manteve a avaliação de que os benefícios superam os riscos no uso aprovado.
Dor forte e contínua na barriga, que pode ir para as costas, com náusea e vômito, pede pronto atendimento.
Paraguai, manipulada e falsa
O risco aumenta quando a caneta não é a registrada. Desde junho de 2025, a receita dessas canetas fica retida na farmácia. Em 2026, a Anvisa mandou apreender lotes falsificados de Mounjaro® e proibiu o Tirzec®, produto sem registro e de fabricante não identificado. Só no segundo semestre de 2025, entraram no país mais de 100 kg de insumos para essas canetas, o bastante para cerca de 20 milhões de doses. Em 2026, a agência já fez 11 inspeções e 8 interdições ligadas à importação e à manipulação.
Num injetável, produto irregular soma ao risco do remédio o de contaminação, dose errada e substância trocada. O caso das canetas do Paraguai está em Tirzepatida no Paraguai.
Conclusão
O Mounjaro® pode subir a testosterona de homens com obesidade e testosterona baixa de origem metabólica, e o motor principal é o emagrecimento, que o treino ajuda a alcançar. Perder peso ajuda algumas mulheres a engravidar, mas a tirzepatida ainda não foi testada para isso, e a caneta não é reposição de testosterona nem tratamento de infertilidade. Quem usa precisa conhecer o que a propaganda não conta: a pílula pode falhar nas primeiras semanas e após cada aumento de dose, a caneta deve parar antes de uma gravidez planejada, e vesícula, intestino, anestesia e pancreatite pedem atenção.
Perguntas frequentes
Quais hormônios o Mounjaro® ativa?
Os receptores de dois hormônios do intestino, o GIP e o GLP-1. Eles aumentam a saciedade, deixam o estômago mais lento e melhoram a ação da insulina. A tirzepatida não é testosterona e não age como hormônio sexual.
O Mounjaro® aumenta a testosterona?
Em homens com obesidade e testosterona baixa por causa do peso, sim: nos estudos, a alta média ficou entre cerca de 72 e 150 ng/dL. O efeito vem sobretudo do emagrecimento e da melhora da insulina. Em quem tem a testosterona normal ou baixa por outra causa, não há motivo para esperar alta.
O Mounjaro® baixa a testosterona?
Nos estudos com homens com obesidade, a testosterona média subiu. Um estudo de prontuários com semaglutida viu um pouco mais de diagnóstico de testosterona baixa em quem usou a caneta (1,53% contra 0,80%), mas é uma associação, sem prova de causa. Sintomas de testosterona baixa durante o tratamento devem ser investigados com exame.
O Mounjaro® aumenta a testosterona na mulher?
Não há estudo mostrando isso. Na síndrome dos ovários policísticos, em que a mulher tem andrógenos em excesso, o que se espera do emagrecimento é o contrário, e a liraglutida tem sinais iniciais de benefício nos andrógenos. A tirzepatida ainda não tem estudo próprio nessa síndrome.
Pode usar Mounjaro® e testosterona juntos?
A bula não aponta interação, e um estudo piloto com 10 homens usou as duas. Não há regra de horário ou de dia. A reposição só faz sentido com testosterona baixa confirmada em exame, e as duas devem ser acompanhadas pelo médico.
O Mounjaro® tira ou aumenta a libido?
Os dados vão para os dois lados. Uma meta-análise pequena viu melhora da ereção com as canetas, e um estudo de prontuários com semaglutida viu mais disfunção erétil nova. Não há prova de que a caneta melhore ou piore a libido de todo mundo, e mudanças devem ser contadas ao médico.
O Mounjaro® aumenta a fertilidade?
Perder peso ajuda mulheres com obesidade e infertilidade a engravidar, e as canetas mais antigas têm sinais disso na síndrome dos ovários policísticos. A tirzepatida não tem estudo próprio que mostre mais gravidez, nem em homens. Ela não é tratamento de infertilidade e deve parar pelo menos 1 mês antes de uma gravidez planejada.
O Mounjaro® atrapalha a fertilidade?
Não há estudo em homens mostrando que a tirzepatida reduza a fertilidade, e nos testes com ratos da bula americana ela não alterou os espermatozoides nem a fertilidade dos machos. Nas mulheres, o cuidado é outro: a caneta pode reduzir o efeito da pílula nas primeiras semanas e após cada aumento de dose, e não deve ser usada na gravidez.
O que mais aumenta a testosterona?
Em quem a tem baixa por causa do peso, emagrecer, com o treino ajudando a perder gordura. Na meta-análise de 24 estudos, a alta foi maior quanto mais peso a pessoa perdeu. O remédio que sobe a testosterona diretamente é a reposição, indicada só com testosterona baixa confirmada em exame e sintomas.
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