O Ozivy chegou às farmácias com uma promessa difícil de ignorar: oferecer semaglutida produzida no Brasil por um preço menor que o das marcas importadas. A economia é real, mas a comparação exige cuidado. O produto não é um Ozempic genérico, não tem indicação aprovada para obesidade e precisa permanecer refrigerado até durante o uso.
Em “Ozivy: NOVO Ozempic nacional BARATO é SEGURO?”, o cardiologista Gustavo Lenci Marques analisa por que a nova caneta custa menos, como ela é fabricada e o que sua entrada pode fazer com a concorrência. A resposta curta sobre segurança é esta: o Ozivy foi aprovado pela Anvisa após avaliação de qualidade, eficácia e segurança para diabetes tipo 2. Isso não transforma o medicamento em opção sem risco, nem autoriza automedicação para emagrecer.
O que o Ozivy realmente é
O Ozivy contém semaglutida na concentração de 1,34 mg/mL, a mesma substância ativa presente no Ozempic. A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1 que aumenta a liberação de insulina quando a glicose está elevada, reduz a secreção de glucagon e retarda o esvaziamento do estômago.
A Anvisa registrou o produto em 26 de maio de 2026 como medicamento novo e análogo sintético de um produto biológico. Portanto, três descrições comuns estão erradas:
não é genérico do Ozempic.
não é medicamento similar.
não é biossimilar, porque sua semaglutida é obtida por síntese química.
Em julho de 2026, o Ozivy entrou na Lista de Medicamentos de Referência da Anvisa para a semaglutida sintética de 1,34 mg/mL. Isso significa que futuros concorrentes sintéticos poderão usá-lo como parâmetro regulatório. Não significa que sua indicação tenha sido ampliada.
A indicação aprovada é diabetes tipo 2, não obesidade
A bula autoriza o Ozivy para adultos com diabetes mellitus tipo 2 insuficientemente controlado, sempre como complemento à dieta e ao exercício. Ele pode ser usado sozinho quando a metformina é inadequada por intolerância ou contraindicação, ou associado a outros medicamentos para diabetes.
Perda de peso aparece entre os efeitos observados da semaglutida, mas o Ozivy não recebeu registro específico para tratamento da obesidade. Essa diferença importa porque a dose semanal de semaglutida estudada e aprovada para obesidade em outras apresentações pode ser maior que o teto de 1 mg do Ozivy. Comprar a caneta de diabetes e improvisar um protocolo para emagrecer é uso fora da bula e exige decisão médica individualizada.
Mounjaro também não é equivalente ao Ozivy. O Ozivy contém semaglutida e atua no receptor de GLP-1. O Mounjaro contém tirzepatida e atua nos receptores de GIP e GLP-1. São moléculas, esquemas e registros diferentes.
As doses aprovadas na bula
O esquema de Ozivy para diabetes tipo 2 começa devagar para melhorar a tolerância gastrointestinal:
Semanas 1 a 4: 0,25 mg uma vez por semana.
A partir da semana 5: 0,5 mg uma vez por semana.
Se a glicemia continuar sem controle adequado: o médico pode elevar para 1 mg uma vez por semana.
A aplicação é subcutânea no abdômen, na parte anterior das coxas ou na parte superior do braço. Pode ser feita a qualquer hora, com ou sem refeição, preferencialmente no mesmo dia de cada semana. A injeção não deve ser aplicada na veia nem no músculo.
Para trocar o dia semanal, precisam ter transcorrido pelo menos três dias desde a última aplicação. Quando o atraso é de até cinco dias, a bula orienta aplicar assim que lembrar e manter a próxima dose na data planejada. Passados mais de cinco dias, a dose esquecida deve ser pulada. Nunca se deve aplicar uma dose extra para compensar.
Essas informações descrevem a bula e não substituem prescrição. A dose não deve ser aumentada porque a fome voltou, porque o peso parou de cair ou porque outra pessoa tolerou uma quantidade maior.
O detalhe da geladeira muda a rotina
O Ozivy precisa ficar entre 2 °C e 8 °C antes e durante o tratamento. Depois de aberto, permanece válido por oito semanas, equivalentes a 56 dias, desde que continue refrigerado, protegido da luz e sem congelar.
Essa exigência é diferente da conservação do Ozempic, que pode permanecer por até seis semanas em temperatura de até 30 °C após o início do uso. Para o Ozivy, deixar a caneta na bolsa, no carro ou sobre a pia pode comprometer o produto.
Em viagens, a bula recomenda proteção térmica contra mudanças bruscas de temperatura, luz e vibração. A caneta não deve ser despachada na bagagem do avião, pois o compartimento pode atingir temperaturas capazes de congelá-la. Se a solução deixar de ser límpida, incolor e sem partículas, não deve ser usada.
Por que o Ozivy ficou mais barato
A patente brasileira da semaglutida expirou em 20 de março de 2026. Isso abriu espaço para novos fabricantes e para uma disputa de preços que não existia quando o mercado dependia de poucas marcas.
Há também uma diferença industrial. A semaglutida do Ozempic é produzida por processo biotecnológico com DNA recombinante. A do Ozivy é montada por síntese química. O método sintético evita a etapa com microrganismos modificados, mas cria seus próprios desafios, como controle de resíduos de solventes, catalisadores metálicos, moléculas estruturalmente parecidas, agregados e imunogenicidade. Esses riscos de fabricação fazem parte da avaliação regulatória e não são algo que o consumidor possa julgar pela aparência da caneta.
O produto final é fabricado em Hortolândia, no interior de São Paulo. O insumo farmacêutico ativo usado no início da produção vem da chinesa Sinopep-Allsino, empresa que recebeu da Anvisa a documentação de adequação para fornecer semaglutida à EMS. A companhia brasileira informa ter um processo de transferência de tecnologia para internalizar etapas da produção. Portanto, “produzido no Brasil” descreve a fabricação local, mas não significa que toda a cadeia já seja nacional.
Quanto custa e até onde o preço pode cair
No lançamento, a caneta para as doses iniciais de 0,25 mg e 0,5 mg apareceu a partir de aproximadamente R$ 452. A apresentação de manutenção de 1 mg foi anunciada por cerca de R$ 498. O programa de adesão da fabricante ofereceu um pacote para os três primeiros meses por R$ 863,23, o equivalente a aproximadamente R$ 287,74 por mês naquele pacote.
Esses valores podem variar por estado, farmácia, impostos, disponibilidade e programa de desconto. Também não devem ser confundidos com o Preço Máximo ao Consumidor da CMED, que é um teto regulatório e não necessariamente o preço praticado no balcão.
Antes da nova concorrência, uma caneta de semaglutida de marca importada custava perto de R$ 900 em muitas farmácias. A redução já é relevante. A aposta de que uma caneta de 1 mg poderá custar entre R$ 130 e R$ 150 em julho de 2027 é apenas uma projeção. Não existe garantia de que esse valor será alcançado.
A pressão competitiva, porém, é concreta. Em abril de 2026, a Anvisa informou que havia oito processos de semaglutida em análise, sete sintéticos e um biológico, além de outros nove aguardando o início da avaliação. Após o registro do Ozivy, a Agência ainda contabilizava cinco sintéticos e um biológico em análise. Mais produtos aprovados podem reduzir preços, mas cada fabricante precisa demonstrar qualidade, eficácia e segurança antes de vender.
Ozivy é seguro?
O registro da Anvisa é a evidência regulatória de que o produto atendeu aos requisitos exigidos para sua indicação. A via sintética não torna a caneta automaticamente mais perigosa nem mais segura que a biológica. Ela apenas muda os pontos que precisam ser controlados na fabricação.
Na prática, a segurança depende de quatro fatores: indicação correta, produto regularizado, conservação adequada e acompanhamento médico. Comprar de origem desconhecida, usar caneta manipulada sem rastreabilidade, deixar o produto fora da geladeira ou aumentar a dose por conta própria elimina parte das garantias que sustentaram a aprovação.
Náusea e diarreia aparecem na bula como reações muito comuns, acima de 1 em cada 10 usuários. Vômito, indigestão, refluxo, dor abdominal, distensão, prisão de ventre, cálculo biliar, tontura, cansaço, perda de apetite e dor de cabeça aparecem como reações comuns, em até 1 em cada 10 pessoas.
O risco de hipoglicemia aumenta quando a semaglutida é combinada com insulina ou sulfonilureia. Nesses casos, o médico pode precisar ajustar as outras medicações e intensificar o controle da glicose.
Sinais que exigem atendimento médico
Alguns sintomas não devem ser tratados como “efeito normal da caneta”:
dor abdominal intensa e persistente, com possível irradiação para as costas, náuseas e vômitos, que pode indicar pancreatite.
piora súbita ou rápida da visão.
inchaço de rosto, lábios, língua ou garganta, dificuldade para respirar ou engolir.
prisão de ventre grave acompanhada de distensão, dor e vômitos.
vômitos ou diarreia persistentes com sinais de desidratação.
A semaglutida não deve ser usada durante a gravidez. Quem planeja engravidar deve conversar com o médico para interromper o tratamento pelo menos dois meses antes. Gastroparesia, retinopatia diabética, uso de insulina, doença renal terminal e histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2 exigem avaliação cuidadosa.
Conclusão
O Ozivy é uma semaglutida sintética brasileira aprovada para diabetes tipo 2, com concentração de 1,34 mg/mL e dose semanal máxima de 1 mg na bula atual. Ele não é genérico do Ozempic, não é Mounjaro e não tem indicação aprovada para obesidade.
Seu preço menor pode ampliar o acesso e pressionar todo o mercado de GLP-1. A vantagem econômica, porém, só existe de verdade quando o produto é prescrito para a pessoa certa, comprado em canal regular e mantido entre 2 °C e 8 °C. Fora dessas condições, a economia pode virar tratamento ineficaz ou risco desnecessário.
FAQ
Ozivy é o genérico do Ozempic?
Não. A Anvisa registrou o Ozivy como medicamento novo e análogo sintético de um produto biológico. Ambos contêm semaglutida, mas são fabricados por processos diferentes.
Ozivy é aprovado para emagrecer?
Não na bula atual. A indicação aprovada é o tratamento de adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado. Uso para obesidade é fora da bula e depende de decisão médica individualizada.
Qual é a dose do Ozivy?
A bula começa com 0,25 mg uma vez por semana por quatro semanas, passa para 0,5 mg semanal e permite aumento médico para 1 mg semanal se a glicemia continuar sem controle adequado.
Ozivy pode ficar fora da geladeira?
Não. A orientação aprovada exige armazenamento entre 2 °C e 8 °C antes e durante o uso. Depois de aberta, a caneta vale por até 56 dias nessas condições.
Ozivy e Mounjaro são a mesma coisa?
Não. Ozivy contém semaglutida e age no receptor de GLP-1. Mounjaro contém tirzepatida e atua nos receptores de GIP e GLP-1.
Quanto custa o Ozivy?
No lançamento, os preços anunciados partiram de cerca de R$ 452 para a apresentação inicial e R$ 498 para a caneta de 1 mg. Valores reais variam por farmácia, estado e programa de desconto.
Referências
MARQUES, Gustavo Lenci. Ozivy: NOVO Ozempic nacional BARATO é SEGURO? [S. l.], 28 jul. 2026. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mGk84lWh3ak. Acesso em: 2 ago. 2026.
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Anvisa aprova primeira caneta de semaglutida sintética análoga ao Ozempic para diabetes. Brasília, 26 maio 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-aprova-primeira-caneta-de-semaglutida-sintetica-analoga-ao-ozempic-para-diabetes/. Acesso em: 2 ago. 2026.
EMS S/A. Ozivy®: semaglutida 1,34 mg/mL. Bula do paciente aprovada pela Anvisa em 26 maio 2026. Disponível em: https://bulas-ecommerce.s3.sa-east-1.amazonaws.com/ozivy.bula_46739bbe-50f9-47dc-b126-4c1de23c1699.pdf. Acesso em: 2 ago. 2026.
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Anvisa anuncia novas medidas de combate a irregularidades na importação e manipulação de canetas emagrecedoras. Brasília, 6 abr. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-anuncia-novas-medidas-de-combate-a-irregularidades-na-importacao-e-manipulacao-de-canetas-emagrecedoras. Acesso em: 2 ago. 2026.
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Anvisa emite alerta para risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de canetas emagrecedoras. Brasília, 9 fev. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-emite-alerta-para-risco-de-pancreatite-aguda-associada-ao-uso-indevido-de-canetas-emagrecedoras. Acesso em: 2 ago. 2026.
CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA. Anvisa inclui semaglutida nacional na lista de medicamentos de referência. Brasília, 15 jul. 2026. Disponível em: https://site.cff.org.br/noticia/Noticias-gerais/15/07/2026/anvisa-inclui-semaglutida-nacional-na-lista-de-medicamentos-de-referencia. Acesso em: 2 ago. 2026.
Comentários Recomendados
Crie uma conta ou entre para comentar