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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Semaglutida e artrose: o remédio regenera a cartilagem do joelho?

Semaglutida e artrose: num estudo pequeno, a cartilagem do joelho engrossou 17% em quem tomou o remédio. Veja o que isso prova e o que ainda é hipótese.

Semaglutida e artrose viraram assunto por causa de um número: 17%. Foi quanto a cartilagem do joelho engrossou, na ressonância, em quem tomou o remédio num estudo chinês publicado em fevereiro de 2026. A parte feita em humanos era um estudo piloto, um teste pequeno e inicial: começou com 20 pessoas e terminou com 14.

O caminho até esse número é contado pelo médico Gabriel Azzini em "Peptídeo conhecido pode ter recuperado a cartilagem com artrose. Cresceu cartilagem?". A história começa no veneno de um lagarto do deserto americano, e ele chama o achado de primeira rachadura numa regra de quase três séculos. O próprio Azzini avisa que aquilo "é entusiasmo, não é conclusão".

A resposta curta: um sinal na cartilagem, ainda sem prova de cura

PerguntaResposta
A semaglutida reduz a dor no joelho de quem tem obesidade e artrose?Sim, na dose de 2,4 mg. Num ensaio grande, de 68 semanas, a dor caiu mais com o remédio do que com placebo, junto com a perda de peso.
A semaglutida aumentou a espessura da cartilagem em humanos?Num estudo piloto, a espessura medida na ressonância subiu cerca de 17% em 24 semanas.
Isso prova que a cartilagem se regenerou?Ainda não. A ressonância mede espessura, e não a qualidade do tecido nem quanto tempo ele dura.
O efeito vem do remédio ou do emagrecimento?Em camundongos, o remédio protegeu a cartilagem com a mesma perda de peso do grupo sem remédio. Em humanos, as duas coisas ainda não foram separadas.
A semaglutida é aprovada para artrose?Não. No Brasil, as indicações são diabetes tipo 2 e obesidade ou sobrepeso.

A regra de 1743: cartilagem destruída não volta

Em 1743, o cirurgião escocês William Hunter publicou na revista da Royal Society, em Londres, um estudo sobre a cartilagem das articulações, o tecido liso que reveste a ponta dos ossos. Ele registrou o que os cirurgiões repetiam desde Hipócrates: quando destruída, a cartilagem "nunca se recupera". Hunter anotou o consenso da época, e a frase atravessou os séculos nos livros de medicina.

A artrose do joelho, ou osteoartrite, é justamente o desgaste dessa cartilagem. Um remédio que fizesse o tecido voltar a engrossar mudaria o tratamento, e por isso o número de 17% chamou tanta atenção.

Do veneno do monstro-de-gila ao Ozempic®

A semaglutida descende de uma molécula achada no veneno do monstro-de-gila, um lagarto venenoso do deserto americano que come poucas vezes por ano e mantém a glicose estável no intervalo. No começo dos anos 1990, o endocrinologista John Eng, do hospital de veteranos do Bronx, em Nova York, encomendou veneno seco de um serpentário de Utah para estudar esse controle. Eng tinha trabalhado com Rosalyn Yalow, prêmio Nobel de 1977 pelo método que mede quantidades mínimas de hormônio no sangue.

Em 1992, Eng descreveu no veneno a exendina-4, com 53% de semelhança com o GLP-1. O GLP-1 é o hormônio do intestino que manda o pâncreas soltar insulina quando o açúcar sobe. O humano dura menos de 2 minutos no sangue, e a versão do lagarto dura horas, o que permitia um remédio de efeito longo.

O hospital não quis patentear a molécula, e Eng depositou a patente em nome próprio em 1993. Depois de um pôster no congresso da Associação Americana de Diabetes, a pequena Amylin licenciou a patente. Em abril de 2005, a FDA aprovou a exenatida (Byetta®), primeiro remédio da família, com duas injeções por dia e perda de 1 a 8 kg nos estudos.

Cada geração durou mais no corpo. A liraglutida (Victoza®) chegou em 2010, com uma dose por dia, e a semaglutida (Ozempic®), em 2017, com uma por semana. Em 2021, a semaglutida de 2,4 mg (Wegovy®) foi aprovada para obesidade, depois de um ensaio em que o peso caiu 14,9% em 68 semanas, contra 2,4% com placebo.

Efeitos que o peso sozinho não explica

Num ensaio com 17.604 pessoas com doença cardiovascular e sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, a semaglutida reduziu em 20% o risco do conjunto infarto, AVC e morte cardiovascular. Numa análise posterior do mesmo ensaio, essa proteção não dependeu de quanto peso a pessoa perdeu.

Nos rins, em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal, o conjunto de falência renal, perda grande da função dos rins e morte por causa renal ou cardiovascular foi 24% menor. Juntando três grandes ensaios, os autores escreveram que o benefício nos rins talvez não se explique só pelo efeito no açúcar e no peso. A matéria sobre benefícios do Ozempic® além do emagrecimento detalha esses resultados.

Num levantamento com veteranos americanos com diabetes, quem começou um remédio da família teve 18% menos risco de transtorno por uso de álcool, 20% menos de nicotina e 25% menos de opioides que quem começou outro remédio para diabetes. Esse tipo de estudo acompanha pessoas sem sorteio, e por isso mostra associação, sem provar causa.

Os pesquisadores também acharam o receptor de GLP-1, a "fechadura" onde o hormônio age, fora do pâncreas e do intestino. Ele aparece até na cartilagem e na membrana do joelho, em pessoas com artrose e em camundongos.

Artrose: emagrecer já alivia o joelho

Quando pacientes em tratamento com semaglutida começaram a contar que o joelho doía menos, a explicação óbvia era o peso. Num estudo com 142 idosos com artrose, cada quilo perdido tirou do joelho uma carga de cerca de 4 kg a cada passo.

O STEP 9, publicado em 2024, testou a semaglutida de 2,4 mg por semana em 407 pessoas com obesidade e artrose do joelho, durante 68 semanas. O peso caiu 13,7% com o remédio e 3,2% com placebo. No questionário de dor WOMAC, de 0 a 100 pontos, a dor caiu 41,7 pontos contra 27,5, e a função física também melhorou mais. Abandonaram o tratamento por efeito colateral 6,7% de quem tomou o remédio e 3% do placebo.

Esse ensaio mediu dor, função e peso, e não a cartilagem. Para muitos médicos, o caso estava encerrado: o joelho melhorava porque a pessoa emagrecia.

Os camundongos que separaram o remédio do emagrecimento

Pesquisadores de Shenzhen, na China, desenharam um teste para isolar as duas coisas. Camundongos obesos com artrose foram divididos em dois grupos: um recebeu semaglutida, e o outro teve a comida restrita na medida exata para perder o mesmo peso. Se a melhora viesse só do emagrecimento, os dois grupos terminariam iguais.

Não terminaram. Com o mesmo peso, os camundongos da semaglutida tiveram menos desgaste da cartilagem, menos esporões ósseos (osteófitos), menos inflamação na membrana da articulação e sinais de menos dor, como aguentar mais um estímulo doloroso antes de reagir.

A explicação proposta está na energia dos condrócitos, as células que fabricam e mantêm a cartilagem. Na artrose, elas ficam presas a um jeito pouco eficiente de produzir energia, como uma fábrica ligada a um gerador que falha: dá para manter a luz acesa, mas não para reconstruir nada. Nos camundongos, a semaglutida ativou o receptor de GLP-1 nessas células e as fez trocar essa via por outra, na mitocôndria, que produz muito mais energia.

O piloto dos 17%: como foi feito

O mesmo grupo testou a ideia em gente. Vinte pessoas de 50 a 75 anos, com sobrepeso ou obesidade (IMC a partir de 28) e artrose no joelho, foram divididas em dois grupos de dez. Todas receberam injeção de ácido hialurônico no joelho, uma por semana durante 5 semanas. Um dos grupos também recebeu semaglutida: 0,25 mg na primeira semana, 0,375 mg na segunda e 0,5 mg por semana dali em diante.

Essas doses são do protocolo de pesquisa, bem abaixo dos 2,4 mg usados contra a obesidade, e não uma orientação de uso. Ao fim de 24 semanas, 6 pessoas do grupo do ácido hialurônico e 8 do grupo com semaglutida tinham concluído, e quem saiu antes ficou fora da análise.

A cartilagem foi medida em 21 regiões do joelho, com cada medida repetida três vezes. No grupo da semaglutida, a espessura média subiu cerca de 17%, contra menos de 1% no grupo só com ácido hialurônico. O índice de massa corporal caiu cerca de 8% com a semaglutida e ficou praticamente igual no outro grupo.

E a dor no piloto?

No mesmo questionário WOMAC, a parte de função do joelho melhorou mais com a semaglutida: 32,75 pontos, contra 16,2 no outro grupo. Na dor e na rigidez, a diferença entre os grupos não teve significância estatística. Com 14 pessoas, isso quer dizer que o estudo não conseguiu mostrar um efeito na dor, e não que o efeito não exista.

A redução da dor com a semaglutida tem base no STEP 9, na dose de 2,4 mg. Os dois estudos se completam, mas nenhum mediu as duas coisas ao mesmo tempo: o grande mediu a dor, e o pequeno mediu a cartilagem.

Os limites do estudo

Os próprios autores pedem cautela e estudos maiores, com imagem de mais resolução. A cartilagem tem poucos milímetros, e a ressonância usada fazia cortes de 3,5 a 4 mm, com a medida feita à mão. Espessura maior pode ser cartilagem nova, mas também pode ser água retida no tecido ou variação da medida. O estudo também não diz se o ganho dura um ou dois anos.

Há quem afirme que a avaliação das imagens não foi cega, ou seja, que quem mediu sabia quem tomou o remédio. O protocolo previa avaliação cega: pacientes e médicos saberiam o grupo, e quem avaliasse os resultados e analisasse os dados, não. Ele também previa uma medida semiautomática por radiologistas, e o artigo relata a medida manual, sem detalhar como o cegamento foi mantido nessa etapa.

O desenho humano também mistura remédio e emagrecimento. Faltou um grupo só com semaglutida e uma injeção de placebo no lugar dela, e só um dos grupos emagreceu. A ideia de um efeito que não depende do peso se apoia nos camundongos. O grupo de comparação, por sua vez, recebeu ácido hialurônico, injeção que a diretriz de artrose do NICE, órgão de saúde do Reino Unido, não recomenda, então o controle não recebeu um tratamento de eficácia comprovada.

Os participantes tinham excesso de peso e artrose ligada ao metabolismo. O resultado não vale automaticamente para quem é magro, para artrose depois de lesão ou cirurgia, desvio de alinhamento ou doença inflamatória.

Semaglutida está aprovada para artrose?

Não. No Brasil, o Ozempic® é registrado para diabetes tipo 2 e o Wegovy®, para obesidade e sobrepeso. Nos EUA, a bula do Wegovy® cobre peso, prevenção de eventos do coração e uma doença do fígado, sem citar artrose. Na Europa, o STEP 9 aparece nas informações do produto como resultado de estudo, sem virar indicação.

Desde 23 de junho de 2025, as farmácias brasileiras retêm a receita dos remédios da família. Usar a semaglutida só "para fazer a cartilagem crescer" seria uso fora da bula, apoiado num piloto. A decisão passa pelo médico, pela indicação e pelos riscos de cada pessoa.

O que fazer hoje com artrose no joelho

Enquanto não existe remédio comprovado para a cartilagem, a diretriz de artrose do NICE recomenda:

  • Exercício para todos: fortalecimento dos músculos em volta do joelho e condicionamento, ajustados a cada pessoa.
  • Perda de peso para quem tem sobrepeso: qualquer quilo ajuda, e perder 10% do peso tende a ser melhor que 5%.
  • Anti-inflamatório em gel no joelho como primeira opção de remédio.
  • Sem injeção de ácido hialurônico para tratar artrose.

Para quem já tem indicação de tratar a obesidade, a caneta ajuda o joelho pelo peso que tira, mas não faz o papel do treino. Quem só toma o remédio emagrece sem ganhar fôlego, como mostra a matéria sobre caneta sem exercício.

Conclusão

A regra de 1743 ainda está de pé. O ensaio grande mostrou que a semaglutida na dose de obesidade reduz peso, dor e limitação em quem tem obesidade e artrose do joelho. O aumento de 17% na espessura da cartilagem apareceu num piloto pequeno e ainda precisa de confirmação.

Nos camundongos, a proteção da cartilagem não dependeu do peso, e isso faz da ideia uma hipótese a testar na artrose ligada ao metabolismo. Para virar tratamento, falta um estudo grande, longo e cego, desenhado para medir a cartilagem.

Perguntas frequentes

A semaglutida regenera a cartilagem do joelho?

Ainda não está provado. Num piloto chinês, a espessura da cartilagem subiu cerca de 17% na ressonância em 24 semanas, com 14 pessoas avaliadas, e a medida não distingue cartilagem nova de água ou erro de medida. Em camundongos, o remédio protegeu a cartilagem.

Semaglutida serve para artrose?

Ajuda a dor de quem tem obesidade e artrose do joelho: num ensaio com 407 pessoas, a dor caiu 41,7 pontos com o remédio e 27,5 com placebo. Artrose não é indicação aprovada, e o uso parte de uma indicação reconhecida, como obesidade.

A semaglutida melhora a dor no joelho?

Na dose de 2,4 mg por semana, a do Wegovy®, sim, em quem tem obesidade e artrose, junto com uma perda de 13,7% do peso. No piloto que mediu a cartilagem, com dose menor, a diferença na dor não chegou a ser significativa.

A cartilagem do joelho se regenera?

Pelo que a medicina aceita há séculos, não. A ideia de que a cartilagem destruída não volta vem desde Hipócrates e foi registrada por William Hunter em 1743. O piloto com semaglutida mostrou aumento de espessura num grupo pequeno, e o achado ainda precisa ser confirmado.

Tem algum remédio que regenera a cartilagem?

Nenhum tem esse efeito comprovado e aprovado. A semaglutida virou candidata por causa de um piloto pequeno e de estudos em camundongos. Hoje a artrose é tratada para aliviar dor e melhorar a função.

Como regenerar a cartilagem do joelho?

Não há hoje um tratamento comprovado para isso. Para a dor e os movimentos, o que tem base é fortalecer os músculos em volta do joelho, emagrecer quando há sobrepeso e usar anti-inflamatório em gel no joelho.

O que desinflama a artrose?

O anti-inflamatório em gel no joelho é o primeiro remédio da diretriz do NICE. A injeção de corticoide alivia por pouco tempo, de 2 a 10 semanas, e entra como complemento de exercício e perda de peso.

Referências

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