Emagrecer não significa automaticamente ganhar fôlego, mobilidade ou força. Em ‘Canetinhas emagrecedoras: informações valiosas’, Paulo Gentil usa um ensaio dinamarquês para mostrar essa diferença. Depois de uma perda média de 13,1 kg, a liraglutida ajudou a segurar e ampliar a redução do peso, mas a melhora objetiva para subir escadas e pedalar até o limite apareceu nos grupos que fizeram exercício estruturado.
O resultado mais importante não é uma disputa simplista entre remédio e academia. Liraglutida e exercício fizeram trabalhos diferentes. A medicação favoreceu o controle do peso. O exercício melhorou capacidade cardiorrespiratória e desempenho físico. A combinação entregou a maior queda de peso com melhora funcional. E há uma correção necessária: o estudo não demonstrou que a caneta derrubou a força absoluta.
O experimento começou com 800 kcal por dia durante oito semanas
O estudo S-LiTE incluiu 193 adultos de 18 a 65 anos, com IMC entre 32 e 43 kg/m², sem diabetes e sem doença crônica grave conhecida. Antes da comparação entre remédio e exercício, todos passaram por oito semanas de dieta de baixa caloria.
O plano usou quatro substitutos de refeição por dia, somando aproximadamente:
800 kcal por dia
15 g de gordura
110 g de carboidratos
56 g de proteína
Para entrar na fase randomizada, era necessário perder pelo menos 5% do peso inicial. A perda média foi muito maior: 13,1 kg em oito semanas. Essa etapa não usou caneta emagrecedora. Foi uma intervenção alimentar intensa, acompanhada pela equipe do estudo.
A restrição produziu um número forte na balança, mas também reduziu ligeiramente o VO₂ de pico absoluto e a tolerância ao exercício. Quando o VO₂ foi ajustado ao peso ou à massa livre de gordura, alguns indicadores melhoraram. Portanto, não é correto resumir a primeira fase como ‘toda a função física piorou’. Houve respostas diferentes conforme a variável analisada.
Quatro grupos separaram o efeito da liraglutida e do exercício
Depois do emagrecimento inicial, os participantes foram distribuídos por 52 semanas em quatro grupos:
Grupo | Medicação | Atividade |
|---|---|---|
Placebo | Injeção placebo | Atividade habitual |
Exercício | Injeção placebo | Programa estruturado |
Liraglutida | Liraglutida diária | Atividade habitual |
Combinação | Liraglutida diária | Programa estruturado |
Todos receberam 12 consultas programadas sobre manutenção do peso, escolhas alimentares de maior ou menor saciedade e mudança de hábitos. Isso importa porque o grupo placebo não ficou completamente abandonado. A comparação foi feita sobre uma base comum de aconselhamento dietético.
A dose foi de 0,6 mg até 3,0 mg de liraglutida por dia
A medicação estudada foi liraglutida, e não semaglutida ou tirzepatida. A aplicação começou em 0,6 mg uma vez ao dia. A dose subiu 0,6 mg por semana até atingir 3,0 mg diários. Quem não tolerava 3,0 mg permanecia na maior dose tolerada, definida com a equipe médica.
Entre os participantes avaliados, 85% do grupo liraglutida e 89% do grupo combinado atingiram média diária entre 2,4 e 3,0 mg. A dose descrita serve para identificar o protocolo científico. Não é recomendação para copiar, ajustar ou iniciar tratamento sem prescrição.
O treino não foi apenas ‘faça atividade física’
O programa começou com seis semanas de adaptação e progressão. Da semana 7 até a 52, a meta era atingir pelo menos 150 minutos semanais de atividade moderada, 75 minutos de atividade vigorosa ou uma combinação equivalente.
A prescrição encorajava duas sessões supervisionadas e duas sessões individuais por semana. Cada encontro em grupo tinha:
30 minutos de ciclismo indoor intervalado, buscando média de pelo menos 80% da frequência cardíaca máxima
15 minutos de circuito, normalmente com três voltas de cinco exercícios
40 segundos de trabalho e 20 segundos de intervalo em cada exercício
O circuito combinava elíptico, remo, corrida ou caminhada rápida, giro de braços, step e boxe no saco com agachamentos, avanços, elevação pélvica, abdominais, prancha, flexões, remadas, chest press e kettlebell swing. Nas sessões individuais, as escolhas mais comuns foram bicicleta, corrida, caminhada rápida e circuitos. Relógios esportivos e monitores de frequência cardíaca registraram duração e intensidade.
Na prática, a adesão ficou abaixo da prescrição nominal de quatro sessões. A mediana foi de 2,65 sessões por semana e 108 minutos semanais de exercício moderado a vigoroso. Desses, 71 minutos foram vigorosos. Essa diferença entre o plano e o que realmente foi executado é essencial para interpretar o resultado.
A combinação perdeu mais peso, enquanto o placebo recuperou 5,9 kg
Nas 52 semanas posteriores à dieta, as mudanças observadas no peso foram:
Grupo | Mudança no peso após a randomização |
|---|---|
Placebo | +5,9 kg |
Exercício | +1,7 kg |
Liraglutida | -1,4 kg |
Liraglutida + exercício | -3,7 kg |
Como todos já haviam perdido 13,1 kg, o sinal positivo não significa que o grupo de exercício voltou ao ponto inicial. Significa que, durante a manutenção, ele recuperou em média 1,7 kg. O placebo recuperou 5,9 kg, enquanto a combinação ainda perdeu mais 3,7 kg.
No relatório principal do ensaio, a perda total desde antes da dieta até o fim do ano foi de 6,7% no placebo, 10,9% no exercício, 13,4% na liraglutida e 15,7% na combinação. A estratégia combinada também reduziu o percentual de gordura quase duas vezes mais do que cada intervenção isolada.
Na escada, exercício venceu com e sem liraglutida
O teste funcional exigia subir e descer duas vezes uma escada de 11 degraus, o mais rápido possível. Após 52 semanas, exercício isolado completou a tarefa 1,36 segundo mais rápido do que liraglutida isolada. A combinação foi 1,24 segundo mais rápida do que liraglutida isolada, uma melhora equivalente a 8,6%.
Liraglutida sem exercício não superou significativamente o placebo. A diferença foi de 0,46 segundo a favor do placebo, com intervalo de confiança entre -0,16 e 1,08 segundo. Como o intervalo inclui zero, não há base para afirmar que a liraglutida piorou a escada. A conclusão sustentada é outra: perder peso com o medicamento não acrescentou melhora funcional mensurável nesse teste.
O VO₂ de pico melhorou por causa do exercício
A capacidade cardiorrespiratória foi medida em bicicleta ergométrica até a exaustão. Mulheres começaram com estágios de 40 e 80 watts. Homens começaram com 50 e 100 watts. Depois, a carga subiu 20 watts por minuto para mulheres e 25 watts por minuto para homens.
Em comparação com liraglutida isolada, o VO₂ de pico ajustado à massa livre de gordura foi:
3,8 mL/min/kg maior com exercício isolado
3,0 mL/min/kg maior com liraglutida mais exercício
Contra placebo, as diferenças foram de 6,1 mL/min/kg para exercício e 5,3 mL/min/kg para a combinação. A liraglutida isolada não apresentou melhora estatisticamente significativa sobre o placebo. O grupo combinado melhorou 4,2 mL/min/kg dentro do próprio grupo, equivalente a 10,3%.
A associação com dose de treino foi mensurável. Cada acréscimo de 10 minutos semanais de exercício moderado a vigoroso esteve associado a aumento de 0,33 mL/min/kg no VO₂ de pico e redução de 0,057 segundo no teste da escada. É uma associação dentro do estudo, não uma garantia linear para qualquer pessoa.
A caneta não derrubou a força absoluta
A força foi testada no extensor de joelho com cinco contrações isométricas máximas de cinco segundos, separadas por 60 segundos de descanso. O melhor pico de torque foi usado na análise.
Não houve mudança significativa na força absoluta em nenhum dos quatro grupos, e nenhuma comparação entre grupos foi estatisticamente significativa. Por isso, a interpretação de que a liraglutida prejudicou a função neuromuscular ou fez o grupo combinado perder força vai além do que os dados demonstram.
A força relativa ao peso corporal contou uma história mais favorável. Contra queda de 7,8% no placebo, os resultados foram:
-0,4% com exercício
+1,0% com liraglutida
+3,3% com liraglutida e exercício
Os grupos ativos pesavam menos e preservaram a força absoluta. A relação entre força e peso, portanto, melhorou em comparação com o placebo. O circuito do estudo também não foi desenhado para maximizar hipertrofia ou 1RM. Não havia progressão baseada em zonas de repetição máxima, e o teste foi isométrico. Esses detalhes impedem transformar o resultado em previsão direta sobre carga no supino ou no leg press.
O estudo não testou Mounjaro
Mounjaro contém tirzepatida, um agonista dos receptores de GIP e GLP-1 aplicado uma vez por semana. O ensaio dinamarquês usou liraglutida, agonista de GLP-1 aplicado diariamente. As duas medicações reduzem ingestão e peso, mas não têm a mesma molécula, potência, dose ou esquema. Os resultados de escada, VO₂ e força não podem ser atribuídos automaticamente à tirzepatida.
Uma subanálise do SURMOUNT-1 avaliou 160 participantes por DXA durante 72 semanas. Com tirzepatida, o peso caiu 21,3%, a massa de gordura 33,9% e a massa magra 10,9%. Aproximadamente 75% do peso perdido veio de gordura e 25% de massa magra, proporção semelhante à observada no placebo. Essa análise mediu composição corporal, não reproduziu o programa estruturado nem os testes objetivos do S-LiTE.
Também existe diferença entre massa magra e músculo contrátil. O DXA inclui água, órgãos e outros tecidos livres de gordura. A redução de massa magra não prova, sozinha, perda proporcional de força ou incapacidade física. Para responder isso, são necessários testes de desempenho e força como os usados no estudo com liraglutida.
O protocolo prático que pode ser extraído sem copiar a medicação
O ensaio não entrega uma receita universal de treino, mas oferece uma estrutura concreta para discutir com médico, nutricionista e profissional de educação física:
Não avaliar o tratamento apenas pelo peso. Acompanhar também desempenho em tarefas diárias, capacidade cardiorrespiratória e força.
Usar uma fase inicial de adaptação. No estudo, ela durou seis semanas.
Combinar sessões supervisionadas e autônomas, com monitoramento de duração e intensidade.
Buscar progressivamente pelo menos 150 minutos moderados, 75 vigorosos ou combinação equivalente, ajustados à condição clínica.
Incluir treino resistido progressivo. O circuito leve do ensaio preservou força, mas não foi construído para maximizar hipertrofia.
Manter acompanhamento alimentar. Todos os grupos tiveram 12 consultas durante o ano.
Pessoas com obesidade podem precisar de adaptação de máquinas, amplitude, impacto, posição corporal e volume. Náusea, vômitos, desidratação, ingestão muito baixa, hipoglicemia em combinações medicamentosas, dor no peito, tontura ou queda anormal de desempenho exigem avaliação, não insistência cega no treino.
Conclusão
A liraglutida ajudou a manter e ampliar a perda de peso, mas não melhorou sozinha o teste de escada nem o condicionamento cardiorrespiratório. O exercício fez isso com e sem a medicação. A combinação produziu a maior redução de peso e preservou a força absoluta enquanto melhorava a função física.
O estudo também impede dois exageros opostos. Canetinha não substitui treinamento, porque emagrecer não cria automaticamente condicionamento. Mas os dados também não autorizam dizer que a liraglutida derrubou força ou bloqueou a resposta ao exercício. O resultado mais honesto é concreto: 108 minutos semanais de exercício moderado a vigoroso, em mediana, foram suficientes para melhorar escada e VO₂ durante a manutenção do emagrecimento.
FAQ
Qual canetinha foi usada no estudo?
Liraglutida diária, iniciada em 0,6 mg e aumentada semanalmente em 0,6 mg até 3,0 mg ou a maior dose tolerada. O estudo não usou Mounjaro.
Quem usou liraglutida sem exercício perdeu peso?
Sim. Depois da perda inicial de 13,1 kg, o grupo perdeu mais 1,4 kg em 52 semanas. O grupo combinado perdeu mais 3,7 kg, enquanto o placebo recuperou 5,9 kg.
A canetinha melhorou o condicionamento físico?
Liraglutida isolada não melhorou significativamente o teste de escada nem o VO₂ de pico sobre o placebo. Os ganhos apareceram com exercício isolado e com exercício combinado à medicação.
A liraglutida fez os participantes perderem força?
Não foi isso que a análise estatística mostrou. A força absoluta não mudou significativamente em nenhum grupo. A força relativa ao peso ficou melhor nos três tratamentos ativos do que no placebo.
Quanto exercício os participantes realmente fizeram?
A mediana foi de 2,65 sessões e 108 minutos semanais de intensidade moderada a vigorosa. Desses, 71 minutos foram vigorosos. O plano nominal recomendava duas sessões supervisionadas e duas individuais.
Os resultados valem para Mounjaro?
Não diretamente. Mounjaro contém tirzepatida semanal, enquanto o estudo testou liraglutida diária. A conclusão geral de que exercício melhora aptidão é plausível, mas os efeitos numéricos não podem ser transferidos de uma molécula para outra.
Referências
GENTIL, Paulo. Canetinhas emagrecedoras: informações valiosas. YouTube, 9 ago. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OwYnVwqr0oc. Acesso em: 9 ago. 2026.
JENSEN, Simon Birk Kjær et al. Physical Fitness with Exercise and GLP-1 Receptor Agonist Treatment Alone or Combined After Diet-Induced Weight Loss: A Secondary Analysis of a Randomized Controlled Trial in Adults with Obesity. Sports Medicine, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s40279-025-02386-0. Acesso em: 9 ago. 2026.
LUNDGREN, Julie R. et al. Healthy Weight Loss Maintenance with Exercise, Liraglutide, or Both Combined. The New England Journal of Medicine, v. 384, p. 1719-1730, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2028198. Acesso em: 9 ago. 2026.
LOOK, Michelle et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 27, n. 5, p. 2720-2729, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39996356/. Acesso em: 9 ago. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour: at a glance. 2020. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240014886. Acesso em: 9 ago. 2026.
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