O corpo musculoso virou sinal de disciplina, sucesso e desejo. O problema começa quando essa imagem passa a exigir uma química que o coração não foi feito para aguentar. Em "O que explica explosão de mortes ligadas a anabolizantes", da BBC News Brasil, a discussão parte de um ponto incômodo: esteroides anabolizantes existem há quase um século, mas o consumo recente ganhou outra escala por causa das redes sociais, do mercado ilegal e de padrões estéticos cada vez mais extremos.
A pauta também revisita a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, encontrado morto em maio de 2026, aos 22 anos, e inclui entrevista com Rodrigo Góes. O caso é importante não porque permita transformar uma história individual em sentença médica automática, mas porque expõe uma pergunta que muita gente evita: quanto risco cardiovascular está sendo normalizado em nome de tamanho, definição e aparência?
O problema não é só "tomar bomba"
Falar em anabolizantes como se tudo fosse uma substância única é uma simplificação perigosa. O termo costuma envolver testosterona em doses suprafisiológicas, derivados sintéticos, combinações entre compostos, ciclos longos, uso sem acompanhamento e, muitas vezes, produtos clandestinos sem controle real de dose ou pureza.
O risco cresce quando o uso deixa de ser episódico e vira identidade. A pessoa não usa apenas para competir, tratar uma condição clínica ou atravessar uma fase específica. Ela passa a depender do físico hormonizado para se reconhecer no espelho, produzir conteúdo, receber validação e sustentar uma imagem pública. A academia vira vitrine, o corpo vira currículo e o coração vira a parte silenciosa da conta.
Essa é a diferença entre discutir hormônios com seriedade e romantizar abuso farmacológico. O músculo aparece. A pressão arterial, o colesterol, o ventrículo esquerdo, a placa coronariana e a arritmia podem ficar escondidos até o dia em que deixam de ficar.
Por que o coração entra no centro da discussão
O coração também é músculo, mas não é um bíceps. Quando submetido por tempo prolongado a pressão alta, alterações de lipídios, retenção, apneia do sono, estimulantes, diuréticos, drogas recreativas, excesso de peso corporal e doses suprafisiológicas de hormônios, ele pode remodelar de um jeito perigoso.
O estudo de Baggish e colaboradores, publicado na Circulation, comparou levantadores experientes usuários e não usuários de esteroides anabolizantes. Entre os usuários, apareceram sinais de pior função sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo, além de maior volume de placas coronarianas. A fração de ejeção média foi menor nos usuários, 52% contra 63% nos não usuários, e pior ainda nos que estavam em uso ativo no momento da avaliação.
Isso ajuda a entender por que a conversa não pode ficar limitada a fígado, acne, queda de cabelo, testosterona baixa no pós-ciclo ou fertilidade. Esses pontos importam, mas a fronteira mais assustadora é cardiovascular. O coração pode aumentar, perder eficiência, irrigar pior o próprio músculo e se tornar mais vulnerável a eventos graves.
O dado que deveria assustar quem acha que é exagero
Um trabalho recente no European Heart Journal analisou 20.286 atletas homens que competiram em eventos da IFBB entre 2005 e 2020. Foram identificadas 121 mortes durante o acompanhamento. Dessas, 73 foram consideradas mortes súbitas e 46 foram classificadas como mortes súbitas cardíacas. Entre atletas que ainda competiam, a média de idade nos casos de morte súbita cardíaca foi de 34,7 anos.
O mesmo estudo encontrou um padrão preocupante nas autópsias disponíveis: cardiomegalia e hipertrofia ventricular. Em linguagem simples, coração grande demais e parede ventricular espessada demais. Para quem vive no ambiente do fisiculturismo, isso conversa com algo que já aparece há anos em relatos de mortes precoces: o problema não costuma ser um único fator isolado, mas a soma de tamanho extremo, estratégias agressivas e abuso de substâncias.
A versão feminina desse debate também começou a ganhar literatura específica. Outro artigo do mesmo grupo avaliou 9.447 atletas mulheres em eventos internacionais e registrou 32 mortes em 16 anos. Os autores tratam os achados com cautela, mas deixam claro que fatores como treinamento extremo, manipulação drástica de peso e uso de substâncias para melhora de performance também atravessam o fisiculturismo feminino.
Parar pode ajudar, mas não apaga tudo automaticamente
A ideia confortável seria imaginar que basta interromper o uso para tudo voltar ao normal. Em alguns marcadores, isso pode acontecer parcialmente. Em outros, a história é menos simples.
Um estudo de 2024 no JAMA Network Open avaliou homens com uso atual, uso prévio e controles sem histórico de esteroides. A reserva de fluxo miocárdico apareceu mais comprometida tanto em usuários atuais quanto em ex-usuários, e o tempo acumulado de exposição aumentou o risco de alteração entre quem já havia parado. A interpretação prática é dura: parte do dano na microcirculação coronariana pode persistir anos depois da cessação.
Isso não significa que parar seja inútil. Significa o contrário. Quanto mais tempo se mantém a exposição, maior pode ser a chance de empilhar alterações. A interrupção precisa vir acompanhada de avaliação clínica, exames, controle de pressão, lipídios, sono, função cardíaca e revisão de tudo que foi associado ao ciclo.
Redes sociais mudaram o tamanho do problema
O uso de anabolizantes sempre existiu em esportes de força, performance e estética. A mudança atual é a escala de sedução. Antes, o usuário comparava o próprio corpo com atletas de revista, competidores ou colegas de academia. Hoje, ele se compara com um feed infinito de físicos editados, iluminados, hormonizados e monetizados.
Essa pressão atinge especialmente homens jovens. O sujeito de 18, 20 ou 22 anos ainda está construindo identidade, carreira, autoestima e repertório de treino. Quando entra cedo em doses altas, sem maturidade e sem acompanhamento, troca anos de adaptação por um atalho que pode cobrar juros biológicos.
O mais cruel é que o resultado visual pode chegar antes da percepção de risco. O físico muda em semanas. A pressão arterial pode subir sem dor. O HDL pode cair sem aviso. O ventrículo pode engrossar sem sintoma. A placa coronariana não aparece no espelho.
Mercado ilegal adiciona uma camada de roleta
Mesmo quando a pessoa acha que sabe o que está usando, ela pode não saber. Produto clandestino pode vir subdosado, superdosado, contaminado ou trocado por outra substância. A embalagem bonita não garante esterilidade, concentração ou composição.
Isso torna qualquer cálculo caseiro ainda mais frágil. Um usuário pode acreditar que está fazendo um ciclo "leve" e receber concentração maior do que imagina. Outro pode aumentar dose porque não sente efeito e estar apenas reagindo a um produto falso. Em ambos os cenários, o corpo vira laboratório sem controle.
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina proibiu a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora de desempenho esportivo. Essa regra não elimina o mercado paralelo, mas deixa claro que a normalização estética desses compostos não é prática médica aceitável.
O que deveria ser monitorado
Quem já usou ou está usando precisa sair da lógica de "sentir-se bem". Sintoma não é um marcador confiável de segurança cardiovascular. Um protocolo sério de redução de dano não transforma abuso em conduta segura, mas pelo menos tira a pessoa do escuro.
Pressão arterial medida de forma consistente, inclusive fora do consultório.
Perfil lipídico, com atenção a HDL muito baixo e LDL elevado.
Hemograma, especialmente hematócrito e hemoglobina.
Função hepática, renal e marcadores metabólicos.
Eletrocardiograma e ecocardiograma quando houver indicação clínica.
Avaliação de sono, apneia, uso de estimulantes, diuréticos e outras drogas.
Histórico familiar de morte súbita, arritmia, cardiomiopatia e doença coronariana precoce.
O erro é tratar exame como escudo mágico. Exame bom hoje não autoriza abuso amanhã. Ele apenas mostra uma fotografia parcial daquele momento. A decisão mais segura continua sendo não usar esteroides anabolizantes para estética e performance fora de indicação médica legítima.
O jovem forte que parece invencível
A imagem do jovem fisiculturista é poderosa justamente porque mistura potência e vulnerabilidade. Por fora, ele parece no auge. Por dentro, pode estar lidando com pressão alta, disfunção ventricular, espessamento cardíaco, apneia, ansiedade, dependência psicológica e medo de perder o físico que construiu.
O anabolizante promete controle: mais músculo, menos gordura, mais presença, mais atenção. Mas esse controle pode virar dependência estética. A pessoa para de escolher livremente e passa a administrar medo: medo de murchar, medo de parecer comum, medo de perder seguidores, medo de voltar ao corpo anterior.
É aí que a discussão deixa de ser moralista. Não basta dizer "não use". É preciso entender por que tanta gente usa, por que continua usando mesmo conhecendo riscos e por que a cultura do shape extremo transforma alerta médico em ruído de fundo.
Conclusão
Anabolizantes não matam todo usuário, mas também não são um detalhe inofensivo escondido atrás do treino pesado. A literatura aponta associação com disfunção cardíaca, aterosclerose, microcirculação coronariana comprometida e maior preocupação com morte súbita em fisiculturistas competitivos.
O ponto central é simples: músculo visível não prova saúde invisível. Quanto mais jovem o usuário, mais triste fica a troca. Ganhar alguns anos de aparência extrema não pode custar décadas de vida, coração e autonomia.
FAQ
Anabolizantes podem causar morte súbita?
Podem aumentar fatores associados a morte súbita, especialmente quando há abuso, uso prolongado, pressão alta, alterações cardíacas, arritmias, cardiomegalia, dislipidemia e combinação com outras drogas. Não é possível reduzir todo caso a uma causa única sem investigação médica.
O coração aumentado em fisiculturista é sempre perigoso?
Nem toda adaptação cardíaca ao exercício é doença. O problema é hipertrofia intensa, disfunção, fibrose, cardiomegalia exagerada ou alteração associada a uso de substâncias. A diferença exige avaliação médica e exames adequados.
Parar de usar esteroides reverte todos os danos?
Algumas alterações podem melhorar, mas não há garantia de reversão completa. Estudos recentes sugerem que prejuízos na microcirculação coronariana podem persistir mesmo após a cessação em parte dos usuários.
Existe uso seguro de anabolizantes para estética?
O uso para ganho de massa, estética ou desempenho fora de indicação médica não deve ser tratado como seguro. No Brasil, o CFM veda a prescrição dessas terapias com finalidade estética, de ganho muscular ou melhora esportiva.
Quais sinais exigem atenção urgente?
Dor no peito, falta de ar fora do esperado, desmaio, palpitações persistentes, pressão muito alta, queda importante de desempenho, inchaço e sintomas neurológicos exigem avaliação médica imediata.
Referências
BBC NEWS BRASIL. O que explica explosão de mortes ligadas a anabolizantes. [S. l.], 19 jul. 2026. YouTube. Disponível em: https://youtu.be/ql2p-n1vehM. Acesso em: 20 jul. 2026.
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