Com 5 anos de musculação e quase 1 de hormônio, o fisiculturista Mahhtla saiu de uma consulta de cardiologia com a pressão alta na medida do consultório, as artérias mais rígidas que o esperado e um recado do médico: não existe dose segura de anabolizante. Um dos exames da bateria foi o ecocardiograma com strain, uma versão mais sensível do ultrassom do coração, que mede como o músculo se deforma a cada batida.
Ele mostrou a avaliação em “FIZ OS EXAMES DO CORAÇAO”, no próprio canal. O strain interessa a quem usa anabolizante porque pode mostrar alterações do músculo cardíaco antes que caia a fração de ejeção, o número clássico do eco comum, que diz quanto sangue o coração bombeia.
O ecocardiograma com strain
Ao contrair, o coração se comprime e se torce como uma mola. Treino de força, hormônios e pressão alta mudam essa mecânica e deixam o músculo cardíaco mais rígido. Num bíceps, isso não tem problema. No coração, que precisa contrair e relaxar sem parar, rigidez é ruim. O strain mede essa deformação. O médico recomenda fazer o exame antes de começar a usar hormônio, para separar doenças prévias ou hereditárias do efeito da droga, e repetir a cada 4 meses.
O eco foi repetido durante uma isometria: Mahhtla apertou um aparelho de preensão com a mão na força máxima, que marcou 42, e depois manteve cerca de 30% disso enquanto as imagens mostravam como o coração responde ao aumento de pressão, como numa série pesada. A contração continuava boa.
Pressão de 16 por 6 e artérias mais rígidas
No meio do eco, a pressão marcou 16 por 6 (160 por 60 mmHg), alta para um jovem. Foi uma medida só, e o próprio Mahhtla lembrou que fica nervoso ao medir, o chamado efeito do jaleco branco. Por isso o médico sugeriu um aparelho para medir em casa, que custa menos de R$ 200. Ele também ronca, e a apneia do sono é comum entre fisiculturistas. Para o cardiologista, a pressão sobe com o conjunto do esporte: ganho de peso, treino pesado, sono ruim e hormônio.
Num estudo dinamarquês que mediu a pressão por 24 horas seguidas, com um aparelho preso ao braço, a máxima média de quem estava usando anabolizante foi de 132 mmHg, contra 124 de quem treinava sem usar. A média esconde os extremos: metade dos usuários tinha pressão alta, contra 17% dos não usuários.
O resultado que veio alterado foi o da velocidade de onda de pulso, que mede a rigidez das artérias pela velocidade com que a onda de cada batida percorre o corpo. Artéria mais dura conduz a onda mais rápido. As artérias envelhecem como o resto do corpo, e álcool, cigarro, pressão alta, diabetes sem controle e anabolizantes aceleram esse processo. No caso do Mahhtla, a rigidez deu aumentada, o que o médico chamou de um dos primeiros efeitos do uso e da preparação. No estudo dinamarquês, a aorta de quem usava e de quem já tinha parado era cerca de 21% menos elástica que a de quem nunca usou.
Para o médico, quem acompanha a saúde só com exame de sangue se engana: laboratório normal e eco comum normal não garantem que o coração está bem. Uma lista do que pedir de rotina está em exames para quem usa anabolizantes.
Coração de atleta ou coração hormonizado?
Quem faz musculação desenvolve um coração um pouco mais espesso. É o "coração de atleta", uma adaptação que mantém a eficiência do músculo cardíaco. O coração de quem usa hormônio também engrossa, e o eco comum pode tratar as duas coisas como normais. No caso do Mahhtla, o eco mostrou uma alteração esperada para 5 anos de treino de força, numa fase do uso de hormônio que o médico chama de provável "lua de mel", quando as alterações mais graves ainda não costumam aparecer.
Os estudos sugerem que a "lua de mel" pode ser mais curta do que parece. Numa revisão de 2026 com 40 estudos e quase 2 mil atletas de força, quem usava anabolizante tinha fração de ejeção cerca de 3 pontos menor, strain pior e ventrículo mais pesado. O espessamento do septo, a parede entre os ventrículos, já aparecia em quem usava havia menos de 6 meses. Quem usava havia mais de 6 anos tinha a maior diferença na fração de ejeção. Mas são comparações entre grupos diferentes, e não o acompanhamento da mesma pessoa, e o strain não variou com o tempo de uso.
Em usuários mais velhos e de mais tempo, a diferença é maior. Num estudo americano com levantadores de 34 a 54 anos e pelo menos 2 anos de uso, a fração de ejeção média dos usuários era 52%, contra 63% dos que não usavam, e eles tinham mais placa nas artérias do coração. O cardiologista chama de "doença do body" o coração engrossado e rígido do fisiculturista. Ele usa o nome cardiopatia hipertrófica, que na medicina costuma designar uma doença genética, mas diz que essa forma é adquirida. Para ele, ela normalmente está ligada à carga de pressão do treino somada ao estímulo hormonal.
Começar cedo, sofrer cedo
A preocupação do cardiologista é a idade. Os campeões antigos chegaram ao topo mais velhos, e ele duvida que tenham começado a usar hormônio tão cedo. Quanto antes começa a hormonização, antes o coração sofre, e a carreira precisa ter fim: depois do palco vêm o casamento e os filhos. Na conclusão da consulta, foi taxativo: não existe dose segura, quem usa anabolizante vai ter dano, e o acompanhamento serve para conter o estrago, o que às vezes já não é possível. "Não existe almoço grátis", resumiu.
Os estudos que acompanharam usuários ao longo do tempo vão na mesma direção, com mais nuance. O estudo holandês HAARLEM, que seguiu usuários amadores antes, durante e depois dos ciclos, viu que a maior parte dos efeitos de curto prazo volta ao normal quando o uso para. Mas a piora da pressão, do colesterol, do hematócrito (a proporção de glóbulos vermelhos no sangue, que, quando alta, engrossa o sangue) e da estrutura do coração é o caminho provável para placas nas artérias e para a doença do músculo cardíaco em quem usa por anos. Somando três estudos que acompanharam usuários e não usuários, quem usou anabolizante morreu cerca de 2,5 vezes mais, por qualquer causa, embora os autores lembrem que outros hábitos podem explicar parte disso.
O cardiologista também separa reposição de anabolização. A reposição de testosterona é para quem tem testosterona baixa e sintomas. Levar uma testosterona normal, de 300 ou 350 ng/dL, para 900 é anabolização, ainda que chamada de reposição, e nenhum estudo mostra que isso seja seguro. O efeito dos anabolizantes no coração, de autópsias a estudos, está em anabolizante faz mal ao coração?.
Os outros exames: gasto calórico e cardio
A bateria começou pela calorimetria indireta, que mede pela respiração quanto o corpo gasta em repouso e de onde vem a energia, gordura ou carboidrato. A taxa basal deu 2.300 kcal, e o exame não mostrou doença metabólica. O médico disse que era o resultado esperado numa preparação, e Mahhtla concluiu que não estava errando a dieta. A ressalva foi o combustível: o corpo ainda usava gordura e carboidrato em proporção parecida, o típico de quem acabou de sair do período fora de dieta, porque a decisão de competir veio em cima da hora e as calorias tinham caído pela metade. No próximo exame, o esperado é que a gordura passe a predominar.
Por fim, um teste cardiopulmonar na esteira, com máscara, mostrou as faixas de batimento para o cardio, da zona 2, de queima de gordura, à zona 4, de alta performance. O cardio dele na preparação era de 50 minutos de esteira e 10 de escada.
O que fazer se você usa
A orientação que sai da consulta é fazer uma avaliação do coração antes de começar a usar e repeti-la a cada 4 meses, com exames específicos, e não só laboratório e eco comum, por toda a vida, inclusive depois do palco. Medir a pressão em casa ajuda a separar a pressão alta de verdade do nervosismo no consultório. E vale conhecer os sinais de problemas no coração que pedem investigação. O próprio Mahhtla descreveu a ida ao consultório como contenção de danos e um alerta de que o assunto não é brincadeira.
Conclusão
Com quase 1 ano de hormônio, o coração do Mahhtla ainda mostrava uma alteração esperada para quem treina força, mas as artérias já estavam mais rígidas, e a pressão medida no consultório estava alta. O ecocardiograma com strain e a velocidade de onda de pulso olham para o que o eco comum e o exame de sangue não mostram. Nos estudos, o coração dos usuários já aparece mais espesso nos primeiros meses de uso, e a função é pior entre os usuários, com a maior diferença em quem usava havia mais de 6 anos. São comparações entre grupos, e não o acompanhamento da mesma pessoa. Para o cardiologista, não existe dose segura, e quem usa precisa de acompanhamento contínuo.
Perguntas frequentes
Para que serve o ecocardiograma com strain?
Para ver como o músculo do coração se deforma ao contrair e relaxar, e não só o tamanho e o volume bombeado. Ele pega alterações antes de a fração de ejeção cair, por isso é usado para acompanhar quem usa anabolizante.
Como é feito o ecocardiograma com strain?
Como um eco comum: deitado de lado, com o aparelho de ultrassom no peito. Um programa acompanha o movimento do músculo nas imagens e calcula a deformação. No exame do Mahhtla, as imagens foram repetidas enquanto ele apertava um aparelho com a mão, para ver como o coração responde ao aumento de pressão.
Qual o valor normal do strain?
O strain global longitudinal normal fica perto de -20%. Numa revisão de 24 estudos com 2.597 pessoas saudáveis, a média de cada estudo variou de -15,9% a -22,1%, e a média geral foi -19,7%. Quanto mais perto de zero, pior a deformação, e a pressão arterial influencia o resultado.
Coração de atleta é bom ou ruim?
É bom: é uma adaptação ao treino que preserva a eficiência do coração. O cuidado é não confundir com o coração de quem usa anabolizante, que também fica mais espesso, mas com função pior nos estudos. Por isso o médico pede exames além do eco comum.
Como se mede a velocidade de onda de pulso?
Com um aparelho que mede a pressão em pontos do corpo e calcula a velocidade com que a onda de cada batida percorre as artérias. A pessoa fica sentada, sem falar e sem cruzar as pernas, porque isso altera a medida. Artéria mais rígida conduz a onda mais rápido.
Referências
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