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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

GH de cadáver (grorm): a história e os riscos no fisiculturismo

O que era o grorm, por que o GH de cadáver saiu do mercado em 1985, o caso de Luiz Otávio de Freitas e o que se sabe sobre Arnold e a acromegalia.

Até 1985, praticamente todo hormônio do crescimento usado em tratamento vinha de gente morta. O GH de cadáver, também chamado de GH de defunto, GH de morto ou grorm, era extraído da hipófise retirada em necropsias, e por isso era raro e caro. Ele saiu do mercado quando se descobriu que transmitia uma doença cerebral fatal, e virou parte da história do fisiculturismo pelo estrago atribuído a ele no corpo de alguns atletas.

Um dos casos mais lembrados no Brasil é o de Luiz Otávio de Freitas, o primeiro brasileiro a subir no palco do Mr. Olympia. Quem conta a história é Bráulio Pinduca, instrutor de musculação desde os 16 anos e um dos primeiros personal trainers do país, em dois podcasts sobre o GH de cadáver: um corte do IronBerg Podcast publicado pelo CarianiTV e o Monster Cast do canal do fisiculturista Julio Gorila, que também conta a própria experiência com GH. Uma homenagem do canal Snap Maromba ao Luiz Otávio completa o retrato.

O que era o GH de cadáver (grorm)

O hormônio do crescimento é produzido pela hipófise, uma glândula pequena presa à base do cérebro. Antes da engenharia genética, a única forma de obter GH humano era retirar essa glândula de cadáveres e purificar o hormônio em laboratório. O primeiro paciente tratado assim foi relatado em 1958, e vários países montaram programas de coleta de hipófises nos anos seguintes.

A quantidade era sempre pequena. Cada glândula rendia pouco hormônio, e o estoque mal dava para as crianças com deficiência de GH, que eram a prioridade. Nos Estados Unidos, uma agência nacional coordenou a coleta e o tratamento de 1963 a 1985. Nesse período, cerca de 7.700 crianças americanas e 27.000 no mundo receberam GH de hipófise.

O apelido grorm vem de um produto real. Grorm era a preparação de GH de hipófise vendida pelo laboratório Serono na Itália. Uma análise de 1980 mostrou que só 50% a 60% do frasco era o hormônio na forma que funciona. O resto eram moléculas maiores e menores misturadas a ele. Dos 21 pacientes tratados com Grorm no estudo, 6 (28,6%) produziram anticorpos contra o GH, e os dois com anticorpos mais fortes cresceram menos.

No fisiculturismo brasileiro, o grorm era coisa de poucos. Era tão caro e tão difícil de conseguir por aqui que até quem trabalhava como instrutor nas academias da época conta que nunca chegou a usar.

Por que o GH de cadáver saiu do mercado

Em 1985, médicos americanos diagnosticaram doença de Creutzfeldt-Jakob em jovens que tinham recebido GH de hipófise na infância. É uma doença cerebral causada por príons, proteínas defeituosas que destroem os neurônios e levam à morte. Algumas hipófises coletadas vinham de pessoas que tinham a doença sem diagnóstico, e o hormônio purificado carregava o agente infeccioso.

A resposta foi rápida. Em 19 de abril de 1985, os Estados Unidos suspenderam a distribuição do GH de hipófise, e os outros países pararam em seguida. A conta final, publicada em 2012, chegou a 226 casos de Creutzfeldt-Jakob ligados ao GH de cadáver: 119 na França, 65 no Reino Unido e 29 nos Estados Unidos, entre outros. O Brasil também teve casos, com hormônio preparado nos Estados Unidos.

O que torna esses casos assustadores é a demora. A doença apareceu em média 17 anos depois do tratamento, com casos entre 5 e 42 anos depois. Uma pessoa tratada em 1980 podia adoecer nos anos 2000.

Ligação com Alzheimer: o que se sabe

Em 2024, o centro britânico de doenças por príon publicou na Nature Medicine o caso de oito pessoas tratadas com GH de cadáver na infância. Cinco delas tinham demência precoce compatível com Alzheimer. Os autores propuseram que o hormônio também levava sementes da proteína que se acumula no cérebro de quem tem a doença, e deixaram claro que o Alzheimer não passa de uma pessoa para outra no convívio diário.

A conclusão foi contestada no mesmo ano por pesquisadores dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e de universidades americanas. Para eles, os casos não preenchiam os critérios de Alzheimer, faltavam as alterações no cérebro e nos exames que confirmam a doença, e havia outras explicações para o declínio cognitivo. Em 2026, o grupo britânico publicou mais quatro casos, um deles com necropsia mostrando as alterações típicas do Alzheimer. Esse caso trouxe a alteração que os críticos cobravam, a proteína tau em grande quantidade, mas é um só, do mesmo grupo, e ainda sem confirmação independente.

O risco de Creutzfeldt-Jakob, esse sim, é consenso. E ele continua relevante para quem compra GH no mercado paralelo: uma revisão de 2011 sobre doping registra que GH extraído de hipófise ainda circulava no mercado negro, e o exame antidoping principal da época nem conseguia diferenciá-lo do hormônio do próprio corpo.

Acromegalia: o que o excesso de GH faz com os ossos

Enquanto a pessoa ainda está crescendo, as pontas dos ossos longos têm uma cartilagem de crescimento, chamada epífise. Com as epífises abertas, o GH faz o osso crescer no comprimento, e a pessoa fica mais alta. Depois que as epífises fecham, o excesso de GH continua agindo, só que o osso passa a crescer na espessura.

É aí que entram as mudanças que ficaram associadas ao fisiculturismo pesado. A acromegalia é a doença de quem produz GH demais, e os sinais são conhecidos: mãos e pés maiores, a ponto de a pessoa trocar de anel e de número de calçado, nariz e maçãs do rosto mais grossos, testa projetada, mandíbula para frente e dentes que se separam. A dor nas articulações aparece em 30% a 70% dos pacientes, inclusive nos ombros, e o raio-x pode mostrar bicos ósseos, os osteófitos.

Na articulação do ombro, a cabeça do úmero é lisa. Com o osso engrossando, ela começa a formar pontas, e cada movimento passa a espremer as estruturas em volta. Segundo quem conviveu com Luiz Otávio de Freitas, foi esse o quadro que encerrou a carreira dele, contada na próxima seção.

No meio do fisiculturismo, a explicação corrente é que o grorm dava muito mais acromegalia que o GH sintético, e também que o efeito no músculo devia ser muito maior, por ser hormônio humano. Não há evidência de nenhuma das duas diferenças. O GH sintético é o próprio hormônio humano, na sua forma principal, e nenhum estudo comparou as duas origens. A análise do Grorm, aliás, mostra uma preparação impura, e não mais potente. As mudanças nos ossos dependem de quanto GH a pessoa recebe e por quanto tempo, e a revisão sobre doping lista dor articular, retenção de líquido e resistência à insulina entre os problemas que podem aparecer em quem abusa de GH em grande quantidade, qualquer que seja a origem. O risco que era só do GH de cadáver é o Creutzfeldt-Jakob.

Luiz Otávio de Freitas: o brasileiro do Olympia de 1988

Antes do fisiculturismo, Luiz Otávio de Freitas foi nadador universitário nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, foi campeão paulista e campeão de levantamento básico, com um recorde de supino que ficou 20 anos sem ser batido. Depois dos títulos nacionais de fisiculturismo, passou a disputar o Mundial amador na categoria acima de 100 kg, uma das primeiras participações brasileiras nesse campeonato.

O título veio em 1987, em Madri, nos pesos-pesados. A vitória dava vaga no profissional, e em 10 de setembro de 1988 ele subiu ao palco do Mr. Olympia, em Los Angeles. Ficou em 19º entre 20 atletas, na edição vencida por Lee Haney. Foi a única vez dele no Olympia. Naquele ano fez dez provas profissionais, e o melhor resultado foi um 10º lugar.

Luiz Otávio de Freitas no palco com uma medalha no peito, braços abertos e punhos cerrados, nos anos 80

Luiz Otávio morava na Califórnia e treinava na Gold's Gym, com Mike Christian como parceiro de treino. O treinador da fase amadora deixou de acompanhá-lo quando ele virou profissional, com o argumento de que agora os dois eram concorrentes.

Tentando ganhar uma prova profissional para voltar ao Olympia, ele começou a sentir dores fortes no ombro durante o treino. O diagnóstico relatado foi crescimento ósseo na cabeça do úmero, que os amigos atribuem ao grorm usado naqueles anos, quando o GH de hipófise era o que existia (e que, mesmo depois de 1985, seguiu circulando no mercado paralelo). Ele veio ao Brasil e fez uma cirurgia grande e aberta, numa época em que as cirurgias por pequenos cortes ainda não eram comuns. Ficou três meses parado, voltou a treinar e não conseguiu retomar a carreira.

Os amigos da época lembram de outras mudanças que atribuem ao GH. A cabeça, a mandíbula e a testa cresceram. O pé chegou ao número 46 ou 47, segundo os relatos, e a mão ficou do tamanho da de Arnold Schwarzenegger, comparação que surgiu quando Luiz Otávio voltou ao Brasil com uma foto ao lado de Arnold e um anel que ganhou dele.

Anos depois, já fora das competições, Luiz Otávio resumiu o que aprendeu numa conversa no clube Hebraica, em São Paulo: o segredo é fazer mais com menos. Se pudesse voltar atrás, não teria feito tudo o que fez, porque teria conquistado o mesmo usando muito menos. Em 2020 ele mandou um abraço aos fãs brasileiros de Hermosa Beach, na Califórnia, e um relato de 2022 diz que ele mantém uma academia na cidade.

Arnold Schwarzenegger usou GH de cadáver?

A história de que Arnold usou grorm circula há décadas, e entre os sinais apontados estão o espaço entre os dentes da frente, a mandíbula, a testa e as mãos grandes. Também se diz que nos anos 70 e 80 o único GH disponível era o de cadáver, o que é verdade: até 1985, não havia outra fonte.

Nada disso, porém, sustenta a história. Arnold venceu o Mr. Olympia de 1970 a 1975, se aposentou e voltou para vencer em 1980. Nos anos 70, o GH de hipófise mal dava para as crianças com deficiência hormonal, e o registro publicado mais antigo de GH como recurso para atletas é um manual que circulou na Califórnia no início de 1982, o Underground Steroid Handbook. Isso não prova que ninguém usou antes, mas não existe diagnóstico de acromegalia de Arnold nem relato documentado de que ele tenha usado GH.

Também não dá para diagnosticar acromegalia por foto. A confirmação exige exame de sangue: o GH medido depois de um teste de tolerância à glicose e o IGF-1. Um espaço entre os dentes ou uma mandíbula forte, sozinhos, não provam nada.

Arnold Schwarzenegger jovem, sem camisa, sorrindo e contraindo o bíceps ao ar livre, com o espaço entre os dentes da frente visível

Do grorm ao GH sintético

O GH produzido por engenharia genética já estava em desenvolvimento quando o escândalo estourou. A primeira versão, da Genentech, foi aprovada às pressas nos Estados Unidos em 1985 para crianças com deficiência grave de GH. Nos anos 90, segundo quem viveu a época, o Humatrope®, da Lilly, era o GH que todo mundo usava nas academias brasileiras.

Quem usou Humatrope® naquela época descreve a diferença como brutal. Um treinador que aplicou ampolas de 4 unidades por um mês e meio conta que o metabolismo acelerou de um jeito que nunca mais sentiu: no off-season, bastava não bater as calorias do dia para acordar mais leve na manhã seguinte.

Outra história da transição envolve outro GH sintético, o Saizen®. Nas academias, conta-se que as primeiras versões dele levavam crianças a produzir anticorpos e a crescer menos do que o esperado, até a fabricação mudar. Nenhuma das referências consultadas confirma esse caso. O que está documentado é o problema dos anticorpos nas preparações de hipófise, como o Grorm.

O GH vale a pena? O que os atletas contam e o que os estudos mostram

Entre quem usou, a resposta é "sim e não". O GH potencializa quem já faz dieta certa, treina bem, tem disciplina e usa testosterona. Sem isso, não faz milagre. Para quem defende essa visão, o ganho de verdade é de longo prazo, com o metabolismo acelerando mais depois de uns seis meses, e há atletas brasileiros que usaram por mais de dez anos.

Um atleta que só teve dinheiro para usar GH tarde na carreira descreve a experiência assim: abriu um novo patamar de corpo, mas não fez milagre. O metabolismo ficou mais rápido, ele digeria mais depressa e conseguia comer mais. No mesmo peso, parecia maior, mais cheio e com mais qualidade, e a pele e o cabelo melhoraram. Antes do GH, ele já tinha vencido todos os campeonatos que disputou, menos o Olympia, e resume a lógica numa frase: se o GH queimasse gordura sozinho, a obesidade já teria acabado.

Outro relato vem de um treinador. A perna dele era a última parte a secar na dieta, depois do abdômen. Com 4 unidades de GH durante uma preparação, a ordem se inverteu, e até hoje a perna seca primeiro. Entre os alunos dele que usaram GH com acompanhamento médico, os médicos mediam o IGF-1 para decidir a hora de parar.

O IGF-1 não aparece aí por acaso. O GH age no músculo em parte de forma direta e em parte estimulando o IGF-1, responsável por boa parte do efeito anabólico. Ao mesmo tempo, o GH age contra a insulina, e o uso em doses altas pode levar à resistência à insulina e ao diabetes.

Os estudos controlados confirmam uma parte desses relatos e contrariam outra. Mesmo sozinho, o GH muda a composição corporal. Uma revisão sistemática de 2008, com 303 jovens saudáveis tratados por cerca de 20 dias em média, encontrou 2,1 kg a mais de massa magra, mas nenhum ganho de força ou de resistência, e mais inchaço e cansaço. Uma meta-análise de 2017, com tratamentos de semanas a meses, chegou ao mesmo quadro: mais massa magra, menos gordura e força igual.

O ensaio mais próximo da realidade das academias, publicado em 2010, deu GH a 96 atletas recreacionais por oito semanas, e nos homens também testou testosterona, sozinha ou junto com o GH. O GH reduziu a gordura e aumentou a massa magra, mas boa parte desse ganho era água fora das células. A única melhora de desempenho foi no sprint: subiu 3,9% com GH e 8,3% nos homens que receberam GH e testosterona juntos, e voltou ao normal seis semanas depois de parar. A dose do estudo foi menor que a usada por atletas de competição, o que limita a comparação. Os efeitos, a dose e os colaterais da somatropina estão no orientador de fármacos, e o básico sobre o hormônio está na matéria GH: hormônio do crescimento.

Conclusão

O GH de cadáver foi praticamente o único hormônio do crescimento disponível até 1985, e saiu do mercado porque transmitia Creutzfeldt-Jakob, com 226 casos no mundo e sintomas que apareciam anos ou décadas depois. A suspeita de que também tenha levado Alzheimer a algumas pessoas ainda está em discussão.

As mudanças nos ossos atribuídas ao grorm em atletas como Luiz Otávio de Freitas, se vieram do GH, vieram do excesso por tempo demais, e o GH sintético em dose alta pode causar o mesmo. O próprio Luiz Otávio, olhando para trás, concluiu que dava para conquistar tudo com muito menos. É a mesma conta de quem usou GH e não viu milagre: o hormônio só soma para quem já faz o trabalho.

Esta matéria nasceu de uma sugestão de @Pokoyô, participante ativo do fórum. Quem cogita usar GH precisa de médico, de exames de IGF-1 e glicose e de um produto de origem conhecida.

FAQ

O que é GH de cadáver?

É o hormônio do crescimento purificado a partir da hipófise de pessoas mortas. Foi a fonte de GH dos anos 50 até 1985, usada sobretudo em crianças com deficiência hormonal, e foi abandonada depois dos casos de Creutzfeldt-Jakob.

Qual era o nome do GH de cadáver?

No Brasil, o apelido que pegou foi grorm. Ele vem do Grorm, o GH de hipófise do laboratório Serono vendido na Itália, e passou a designar qualquer GH de cadáver.

Como era feito o GH de cadáver?

Médicos retiravam a hipófise durante a necropsia, e laboratórios extraíam e purificavam o hormônio do tecido. Como o rendimento por glândula era baixo, a produção dependia de programas nacionais de coleta.

O GH era tirado do cérebro do cadáver?

Não. Ele vinha da hipófise, a glândula que fica logo abaixo do cérebro e produz o hormônio do crescimento.

Quais eram os efeitos colaterais do GH de cadáver?

O pior era a transmissão de Creutzfeldt-Jakob, doença cerebral fatal que pode surgir décadas depois. Em excesso, ele também causava os efeitos de qualquer GH em dose alta, como dor nas articulações, retenção de líquido, resistência à insulina e crescimento de mãos, pés e mandíbula.

Arnold Schwarzenegger usou GH de cadáver?

Não há prova. Os títulos dele no Olympia vieram nos anos 70 e em 1980, quando o GH de hipófise era escasso e destinado quase só a crianças, e nunca houve diagnóstico de acromegalia. Foto não serve para diagnosticar a doença, que exige exame de sangue.

O GH de hoje ainda vem de cadáver?

Não. O GH de farmácia é feito por engenharia genética desde 1985. O perigo está no mercado paralelo, onde já circulou GH extraído de hipófise.

Quem é Luiz Otávio de Freitas?

É o primeiro fisiculturista brasileiro a competir no Mr. Olympia, onde ficou em 19º em 1988. Ele chegou lá depois de vencer o Mundial amador dos pesos-pesados de 1987, em Madri, e parou de competir por causa de um problema no ombro.

Onde está Luiz Otávio de Freitas hoje?

Pelos registros mais recentes, na Califórnia. Em 2020 ele apareceu numa homenagem gravada em Hermosa Beach, e um relato de 2022 diz que ele tem uma academia lá.

Referências

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