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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Marcão dos Venenos e os rins: o que ele usou e como está hoje

Marcão dos Venenos culpou três produtos veterinários pelos rins em 2024 e esperava se recuperar em 3 meses. O que se sabe de cada um e como ele está hoje.

Marcão dos Venenos foi ao próprio canal, em maio de 2024, contar o que ele achava que tinha levado os rins dele à beira da falência. A culpa, disse, não era só dos anabolizantes. Eram três produtos veterinários usados na busca pelo cartão profissional (o pro card): uma creatina injetável para cavalos, um suplemento de performance para cavalos de corrida e um GH de equino. O relato está em “Marcao dos Venenos revela o que causou sua falência renal”, publicado por Marcos Dumont no canal MARCAO DOS VENENOS.

Ele previa recuperar os rins em uns três meses de hemodiálise. Não foi o que aconteceu. Em julho de 2026, contou ao UOL que tem falência renal crônica, faz hemodiálise três vezes por semana e passou a atribuir o quadro a mais de 20 anos de anabolizantes. Abaixo, o que ele disse em 2024, o que se sabe de cada produto e o que mudou desde então.

O que Marcão contou em 2024

Quando gravou, Marcão estava sem usar nada e esperava exames para decidir, com um endocrinologista, se voltaria com reposição de testosterona (TRT). Disse que a testosterona dele estava “lá no 60”, sem dizer a unidade. Se o número for em ng/dL, fica muito abaixo da faixa de referência de homens jovens saudáveis, que vai de 264 a 916 ng/dL. A trajetória dele até ali, do garoto de 50 kg ao título mundial amador, está em Marcão dos Venenos: base, treino pesado e o resultado que aparece.

Muita gente na internet culpou o abuso de hormônios. Ele admitiu que os anabolizantes podem ter contribuído “de certa forma”, mas disse que não foram a causa principal. O argumento vinha dos médicos: se fosse só o protocolo hormonal, o fígado e o coração também estariam comprometidos. Os exames de fígado e coração, com imagem e ultrassom, vieram normais. Só os rins estavam doentes.

Ele disse ter escondido os produtos até ali para não influenciar ninguém a usá-los. Usou porque queria o pro card a qualquer custo e, nas palavras dele, colocou o shape na frente da saúde. O pedido que repetiu foi um só: que ninguém use esses produtos.

Os três produtos veterinários

Produto veterinário, pela lei brasileira, é o que se destina a prevenir, diagnosticar ou tratar doenças de animais, e a eficácia e a segurança comprovadas no registro valem para os animais. Não há estudo desses produtos em pessoas. Marcão não mostrou rótulo nem número de registro, então o que se sabe da composição de cada um é o que ele contou.

Creatina injetável para cavalos

O primeiro parecia o mais inocente. Era, segundo ele, creatina comum com alguns aminoácidos, só que injetável e diluída em sorbitol, que ele chamou de “altamente tóxico, principalmente para nós humanos”. Um médico já o tinha alertado sobre o sorbitol, e ele usou mesmo assim.

A creatina tomada pela boca tem boa base de segurança para os rins. Uma revisão de 2026, que juntou 20 ensaios, não encontrou mudança na ureia (medida em 12 deles) nem na filtração estimada dos rins (medida em 8). Só a creatinina do sangue subiu um pouco, 0,13 mg/dL em média. Os autores ainda pedem ensaios de mais de um ano. A creatinina é o resíduo que o exame comum usa para estimar como os rins filtram, e a creatina se transforma nela. Por isso, quem toma creatina pode parecer filtrar pior no exame sem ter lesão. Não há estudo da versão injetável em pessoas, e na Anvisa nenhum medicamento com creatina tem registro ativo. As dúvidas da creatina comum e dos rins estão em creatina monohidratada: dose, benefícios, rins e queda de cabelo.

O sorbitol, por sua vez, é um açúcar-álcool usado como adoçante e até como estabilizante de remédios humanos aplicados na veia, como os anticorpos purificados (imunoglobulinas). Nas formulações sem sacarose, entre elas as com sorbitol, problemas nos rins foram raros, bem menos comuns que nas com sacarose. O perigo grave documentado é para quem tem intolerância hereditária à frutose, uma doença genética que pode passar sem diagnóstico até a vida adulta: um homem de 28 anos morreu de falência do fígado e dos rins depois de receber 50 g de sorbitol na veia numa cirurgia. Fora dessa doença, o sorbitol não explica sozinho um rim parado. O risco maior do produto é ninguém saber o que mais havia nele, nem em que dose.

Oxygen, o “pré-treino” de cavalo de corrida

O segundo, chamado Oxygen, é da Lavizoo, a mesma marca de um clembuterol veterinário. Marcão o descreveu como parecido com o clembuterol, mas sem ser clembuterol: um produto para melhorar a performance de cavalos de corrida, com dimetilglicina (DMG, um derivado de aminoácido), ATP (a molécula de energia da célula), vitaminas e outras substâncias em doses altas. Tomava quase todos os dias como pré-treino. Segundo ele, o produto ajudava um pouco no treino, mas fazia mal.

Ele comparou o Oxygen ao Potenay, outro produto veterinário famoso nas academias, que “dá muito gás” mas causaria dependência. Os produtos dele, disse, não viciam, mas “atacam muito os rins”. A bula e o registro do Oxygen não estão disponíveis ao público, e nenhum estudo mediu o efeito dessa mistura no rim de pessoas, então a afirmação vale como experiência dele. Os riscos do clembuterol, com o qual o Oxygen costuma ser confundido, estão em clembuterol: o segredo para o emagrecimento rápido e perigoso.

GH de equino

O terceiro foi uma tentativa de ter GH mais barato. Marcão pesquisou antes, comprou um GH de equino e disse que o produto também levava sorbitol, que o corpo não consegue usar esse GH e que ele não funciona como o GH de farmácia. A conclusão dele: não dá resultado e ainda causa problema de saúde.

A parte do “não funciona” tem base sólida. O receptor de GH do ser humano só reconhece o GH de primatas. Um estudo de 1995 mostrou que um único aminoácido do receptor humano, uma arginina, não encaixa no GH das outras espécies. No cavalo, o GH equino funciona: num estudo com cavalos puro-sangue, ele elevou o IGF-1, o hormônio que o GH faz o fígado produzir, a 270% do valor inicial. Antes do GH sintético, o GH usado em pessoas era extraído de hipófises humanas, história contada em GH de cadáver (grorm): a história e os riscos no fisiculturismo.

Por que ele culpou os produtos e não os hormônios

Os produtos veterinários entraram num corpo que usava anabolizantes havia anos. Numa gravação que circulou em maio de 2024, quando ele já estava na UTI, o próprio Marcão listava o que vinha usando: enantato de testosterona, acetato de trembolona, enantato de Primobolan®, boldenona e deca, aos quais depois se somaram GH, Dianabol® e Hemogenin®.

O raciocínio de 2024 tinha duas partes. A primeira: o médico que o acompanhava conhecia o protocolo e não via motivo para os rins pararem só por causa dele, já que fígado e coração estavam bem. A segunda: os rins “já vinham ruins”, e o resto virou uma bola de neve. Somaram-se os produtos veterinários, a finalização para o campeonato, o treino pesado e uma dengue que veio com pneumonia.

Fígado e coração normais, porém, não inocentam os anabolizantes. Um estudo de 2010 acompanhou 10 fisiculturistas que usaram anabolizantes por muito tempo. Em 9, a biópsia mostrou cicatrizes nos filtros dos rins (glomeruloesclerose segmentar e focal), com perda grande de proteína pela urina e creatinina média de 3,0 mg/dL. Um deles chegou à fase de diálise. Quem parou os anabolizantes estabilizou ou melhorou, e um que voltou a usar piorou de novo.

Os autores atribuem a lesão à sobrecarga de filtrar para um corpo muito musculoso, somada a um possível efeito tóxico direto. E alertam que o problema passa despercebido, porque a creatinina alta de quem tem muito músculo costuma ser vista como normal. Por que os rins de fisiculturistas crescem tanto é o tema de barriga de fisiculturista não é só inchaço: rins eram mais de 50% maiores.

Uma revisão de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará descreve três caminhos de lesão em quem usa anabolizantes: efeito tóxico direto, filtração acima do normal e excesso de cálcio no sangue, este ligado às injeções de vitaminas A, D e E, que Marcão não citou. A dengue também pesa: numa revisão de 37 estudos com 21.764 pacientes, 8% dos casos tiveram lesão aguda nos rins. Com tantos fatores ao mesmo tempo, não há como apontar um culpado único.

De agudo a crônico: o que aconteceu depois

A diferença entre os dois termos decide o resto da história. Lesão aguda é a que aparece de repente e pode regredir. Doença crônica é a perda de função que se instala e não volta. Em 2024, Marcão insistia que o caso dele era agudo. O plano era fazer hemodiálise e ir diminuindo as sessões conforme o rim voltasse, num prazo de uns três meses, com restrição de comida e de líquido e nada de treino pesado. Encarava esses meses como mais uma preparação de campeonato.

Dias antes do relato no canal, numa gravação feita no hospital, ele já tinha contado que uma biópsia mostrara o rim funcionando “praticamente metade”, e que por isso precisaria da hemodiálise até o rim voltar. O exame sangrou além do esperado, e ele voltou para a UTI para retirar coágulos da bexiga.

Numa entrevista exibida em abril de 2025, a explicação já era outra. Marcão contou que tinha parado de fazer exames a partir de 2022, confiante porque nunca tivera colateral. Na corrida pelo pro card, passou a treinar duas vezes por dia, mais pesado, usou os produtos veterinários e emendou três ou quatro preparações seguidas, com desidratação e diurético. Os primeiros sinais, como a falta de apetite, ele achou que eram do estômago, e seguiu comendo muita proteína e treinando.

Já falava em transplante. Na hemodiálise, podia beber cerca de 1 litro de líquido por dia: 500 mL fixos mais o que ainda urinava. Com um rim transplantado, poderia chegar a uns 3 litros. Numa gravação sobre a volta aos treinos, disse que a testosterona natural estava na casa de 500 e que cogitava usar testosterona para levá-la a cerca de 1.000. O 60 de 2024 foi medido em plena falência renal e logo depois de parar tudo. Num estudo com 100 atletas amadores, a testosterona voltou ao normal em cerca de 3 meses na maioria, mas 11% seguiam abaixo do normal depois de um ano, e quem usou mais e por mais tempo tende a se recuperar pior.

Em julho de 2026, ao UOL, Marcão, que segue como personal trainer, falou em falência renal crônica depois de mais de 20 anos de anabolizantes, que ele começou a usar aos 18. Contou que ficou 45 dias internado, 30 deles na UTI, que faz hemodiálise três vezes por semana e que a doença encerrou a carreira nos palcos. Segundo ele, o problema avançou em silêncio e já era irreversível quando os sintomas apareceram.

A ideia de que o agudo sempre volta tem limite. Numa revisão de 2025 com 70 estudos e mais de 1,8 milhão de pessoas, 25,8% de quem teve lesão aguda nos rins desenvolveu doença renal crônica, contra 8,7% de quem não teve. Precisar de diálise na fase aguda foi um dos fatores ligados a mais risco. Uma revisão anterior, de 2012, encontrou risco 8,8 vezes maior de doença crônica depois da lesão aguda, e maior quanto mais grave a lesão.

O que o caso ensina

A primeira lição é que ausência de sintoma não é ausência de dano. Marcão parou os exames porque nada aparecia, e o rim piorou sem dar sinal claro. Em fisiculturista, a creatinina do exame comum sobe com a massa muscular e com a creatina, e a lesão pode passar por “normal para quem é grande”. No estudo de 2010, todos perdiam proteína pela urina, em média 10 g por dia, sinal que o exame de urina mostra.

A segunda é que produto veterinário não é atalho barato para remédio humano. O GH de cavalo praticamente não se liga ao receptor humano, e da creatina injetável e do pré-treino de cavalo não se sabe nem a composição exata. A terceira é que a causa raramente é uma só: anabolizantes por anos, preparações seguidas com desidratação, treino dobrado e uma infecção grave somaram-se no mesmo rim.

Conclusão

A explicação de Marcão mudou junto com o desfecho. Em 2024, os vilões eram três produtos de cavalo, e o rim voltaria. Em 2025, a lista cresceu: exames suspensos, treino dobrado e preparações seguidas. Em 2026, com a doença crônica confirmada, os anabolizantes ficaram no centro. Dos três produtos, o GH de cavalo é o único sobre o qual a ciência dá resposta clara, e ela é que ele não deve funcionar em gente. O fecho que ele deu ao relato continua de pé: cada escolha tem um preço, e ele pagou o dele.

Quem usa anabolizantes precisa de acompanhamento médico, com exames de sangue e de urina para os rins, inclusive quando tudo parece bem.

Perguntas frequentes

Como está o Marcão dos Venenos hoje?

Em hemodiálise. Na entrevista de julho de 2026, ele contou que tem falência renal crônica e faz três sessões por semana. Largou os palcos e trabalha como personal trainer. Em 2025, já falava em transplante.

Marcão dos Venenos morreu?

Não há notícia de morte. Ele deu entrevista ao UOL em julho de 2026, já em hemodiálise. O momento mais grave foi a internação, que ele conta ter durado 45 dias, 30 deles na UTI.

O que aconteceu com os rins do Marcão dos Venenos?

Entraram em falência em 2024. Na época, ele culpou três produtos veterinários, somados à finalização, ao treino pesado e a uma dengue com pneumonia. Em 2025, incluiu os exames suspensos, o treino dobrado e as preparações seguidas. Em 2026, pôs os anabolizantes no centro, e a lesão que esperava reverter já era crônica.

Marcão dos Venenos faz hemodiálise?

Sim, três vezes por semana, segundo a entrevista de 2026. Começou em 2024 achando que seria por uns três meses. Com a hemodiálise, bebe só cerca de 1 litro de líquido por dia.

Existe creatina injetável para humanos?

Não com registro. Na base de medicamentos da Anvisa, o único produto com creatina como princípio ativo está com o registro inativo. A creatina estudada em pessoas é a de tomar pela boca.

Para que serve a creatina injetável?

É vendida como suplemento para cavalos. Para pessoas, não há indicação: a segurança de um produto veterinário só é avaliada nos animais a que ele se destina. Quem quer creatina tem a versão em pó, que não piorou a filtração estimada dos rins nos 8 ensaios que a mediram.

O Oxygen da Lavizoo é clembuterol?

Pelo relato de quem usou, não. Marcão o apresentou como irmão do clembuterol de cavalo, da mesma marca, mas com outra fórmula: DMG, ATP e vitaminas. A bula e o registro não estão disponíveis ao público.

Para que serve o Oxygen da Lavizoo?

É vendido para dar desempenho a cavalos de corrida. Marcão usava como pré-treino diário e o pôs na lista dos produtos que, para ele, prejudicaram os rins. Ninguém testou se é eficaz ou seguro em gente.

GH veterinário funciona em humano?

Não como GH. O receptor humano praticamente só aceita o hormônio de primatas, e o GH de outras espécies quase não se liga a ele. Quem aplica fica sem o efeito e com um produto sem segurança estudada em pessoas.

Referências

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