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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

Barriga de fisiculturista não é só inchaço: rins eram mais de 50% maiores

Ressonância comparou 45 homens e encontrou coração, fígado, baço e rins maiores no grupo que usava fármacos de performance.

Um fisiculturista pode subir ao palco com gordura corporal muito baixa e ainda apresentar o abdômen redondo e projetado. A aparência costuma ser chamada de steroid gut, bubble gut ou palumboísmo. Durante anos, as explicações ficaram entre comida acumulada, retenção, musculatura abdominal espessa, uso de hormônio do crescimento e crescimento dos órgãos internos.

Uma pesquisa publicada em 2026 finalmente mediu parte dessa discussão com ressonância magnética. Menno Henselmans apresentou o estudo em seu canal e destacou o resultado central: entre 45 homens, somente o grupo de fisiculturistas que relatava uso de fármacos para aparência e performance apresentou aumento consistente do coração, fígado, baço e rins.

O achado documenta visceromegalia nesse grupo. Ele não prova que todo abdômen distendido tenha uma única causa, nem permite culpar isoladamente testosterona, GH, insulina ou qualquer outro composto.

O que a ressonância comparou

Os pesquisadores dividiram 45 homens em três grupos de 15 participantes: praticantes recreativos ativos, fisiculturistas naturais competitivos e fisiculturistas competitivos que usavam fármacos para aparência e performance. Todos fizeram ressonância para medir músculos e órgãos. A massa magra foi avaliada por DXA e a alimentação foi registrada durante sete dias.

MedidaAtivos recreativosFisiculturistas naturaisFisiculturistas com uso de fármacos
Idade média29 anos30 anos31 anos
Massa corporal80,9 kg86,1 kg102,4 kg
Gordura corporal17,8%11,7%10,7%
Massa magra62,8 kg72,7 kg87,8 kg
Proteína diária1,4 g/kg2,5 g/kg2,9 g/kg
Treinos por semananão se aplica66

Os dois grupos de fisiculturistas tinham percentual de gordura semelhante. O grupo que usava fármacos carregava, em média, 15,1 kg a mais de massa magra do que os naturais.

Coração, fígado, baço e rins eram maiores

Os fisiculturistas naturais tinham mais massa muscular do que os controles, mas não apresentaram órgãos maiores. O resultado mudou completamente no grupo que usava fármacos.

ÓrgãoAtivos recreativosNaturaisUso de fármacos
Coração0,83 L0,89 L1,20 L
Fígado1,79 L1,82 L2,57 L
Rim esquerdo215 mL219 mL337 mL
Rim direito190 mL210 mL317 mL

Comparado aos naturais, o coração era aproximadamente 35% maior e o fígado 41% maior. A média dos dois rins passou de cerca de 215 mL para 327 mL, uma diferença superior a 50%. O artigo também encontrou aumento do baço e resume as diferenças em cerca de 35% a 40% para coração, fígado e baço, além de mais de 50% para os rins.

Esses números são médias de grupos. Não significam que todo usuário terá a mesma alteração ou que um órgão maior esteja automaticamente doente. O próprio estudo afirma que ainda não está claro se o crescimento representa remodelamento patológico, adaptação à maior demanda metabólica ou uma combinação dos dois.

A proteína alta não explicou a visceromegalia

Uma hipótese antiga é que comer muita proteína obrigaria fígado e rins a crescer. O desenho do estudo permitiu testar essa ideia porque os naturais consumiam 2,5 g/kg por dia e os usuários, 2,9 g/kg por dia. A diferença entre esses dois grupos não foi estatisticamente significativa.

Mesmo com ingestão proteica aproximadamente 80% maior do que a dos controles, os naturais não apresentaram coração, fígado, baço ou rins significativamente maiores. Isso enfraquece a explicação de que musculação e dieta hiperproteica, sozinhas, produziriam o padrão observado.

O estudo não transforma 2,5 ou 2,9 g/kg em meta nutricional. Os autores lembram que ingestões acima de aproximadamente 1,5 g/kg por dia dificilmente oferecem benefício adicional relevante para o condicionamento muscular. O ponto da comparação é outro: a proteína alta estava presente nos dois grupos de fisiculturistas, mas a visceromegalia apareceu apenas entre os usuários.

As doses relatadas estavam longe de uma reposição comum

O grupo relatou uso de fármacos por 6 ± 3 anos. Quatorze dos 15 participantes usavam ésteres de testosterona. A dose média de testosterona era 435 ± 257 mg por semana, com faixa de 131 a 750 mg. Quando todos os andrógenos foram somados, a média chegou a 1.019 ± 760 mg por semana, variando de 58 a 2.100 mg.

O inventário atual era amplo:

  • 93,3% usavam ésteres de testosterona
  • 60% usavam derivados de DHT, como metenolona, drostanolona, oxandrolona e stanozolol
  • 46,7% usavam derivados de 19-nortestosterona, como nandrolona ou trembolona
  • 33,3% usavam inibidores de aromatase
  • 20% usavam GH ou insulina
  • 20% usavam hormônios tireoidianos
  • 20% usavam clenbuterol

Essa mistura impede transformar o estudo em um ranking de culpados. A associação é com o conjunto de fármacos relatados pelo grupo, não com um composto isolado.

GH e insulina explicam o steroid gut?

GH e insulina são frequentemente apontados como a explicação completa para o abdômen distendido dos fisiculturistas modernos. Apenas três dos 15 participantes relataram uso atual de GH ou insulina. Isso torna insuficiente a ideia de que somente esses dois agentes explicariam todos os resultados.

Também não os absolve. O estudo registrou uso atual, não reconstruiu com precisão toda a exposição acumulada e não publicou protocolos individuais por motivos de privacidade. Alguns atletas poderiam ter usado GH ou insulina anteriormente. Outros compostos, doses elevadas de andrógenos, retenção de água e o próprio tamanho corporal podem participar do quadro.

A conclusão cientificamente correta é mais estreita: os usuários apresentaram visceromegalia, mas a pesquisa não consegue atribuir quanto do resultado veio de testosterona, outros esteroides, GH, insulina, hormônios tireoidianos ou combinações.

Órgão maior não é automaticamente órgão melhor

O coração de atleta pode aumentar como adaptação ao treinamento. Isso não permite assumir que qualquer aumento cardíaco em usuários de esteroides seja benigno. No grupo que usava fármacos, a frequência cardíaca de repouso foi 71 batimentos por minuto, contra 58 nos outros dois grupos. A pressão sistólica média chegou a 130 mmHg, contra 117 mmHg nos controles.

Pesquisas anteriores também associam o uso prolongado de esteroides a maior massa ventricular, pior função sistólica e diastólica e doença coronariana. A nova ressonância não mediu sozinha todas essas consequências, mas mostra que o crescimento interno acompanha o crescimento externo e merece investigação clínica.

Fígado e rins maiores também não autorizam diagnóstico pela imagem. O estudo não demonstrou falência desses órgãos e reconhece que faltam dados consistentes para classificar o aumento como dano, adaptação ou ambos. A utilidade prática é impedir que a alteração seja descartada como simples estética.

O que a pesquisa não prova

  • O desenho é transversal e mostra associação, não causalidade
  • Havia apenas 15 homens em cada grupo
  • O uso de fármacos foi autorrelatado e não foi confirmado por exames de sangue
  • Os usuários combinavam substâncias, doses e vias diferentes
  • Retenção de água pode ter aumentado parcialmente as estimativas de tecido
  • A pesquisa mediu órgãos, mas não provou que a visceromegalia seja a única causa visual de todo caso de steroid gut
  • Os resultados não podem ser automaticamente aplicados a mulheres, iniciantes ou pessoas em reposição médica

Conclusão

O steroid gut não deve ser explicado automaticamente como comida, gases ou retenção. Em 15 fisiculturistas que usavam fármacos, a ressonância encontrou coração, fígado e baço cerca de 35% a 40% maiores e rins mais de 50% maiores do que nos fisiculturistas naturais. Os naturais, apesar de mais musculosos e de consumirem 2,5 g/kg de proteína por dia, não apresentaram aumento dos órgãos em relação aos controles.

O estudo ainda não identifica qual substância produz cada alteração nem demonstra que órgãos maiores sejam a única causa da barriga projetada. Ele resolve uma parte importante da discussão: a visceromegalia em fisiculturistas usuários deixou de ser apenas uma hipótese baseada em fotos, relatos e autópsias isoladas. Agora existe medição direta por ressonância, e o resultado não parece benigno o bastante para ser ignorado.

FAQ

Steroid gut é apenas retenção ou excesso de comida?

Não necessariamente. Retenção, conteúdo intestinal, controle abdominal e espessura muscular podem alterar a aparência, mas a ressonância encontrou órgãos internos significativamente maiores no grupo que usava fármacos.

Comer muita proteína aumenta os órgãos?

Não foi o que esta comparação encontrou. Os naturais consumiam 2,5 g/kg por dia e tinham órgãos semelhantes aos controles, que consumiam 1,4 g/kg.

O culpado é o hormônio do crescimento?

O estudo não consegue responder. Somente 20% do grupo relatou uso atual de GH ou insulina, mas não houve reconstrução completa da exposição passada. Vários andrógenos e outros fármacos eram usados ao mesmo tempo.

Mais de 1 g de andrógenos por semana foi a média do grupo?

Sim. A média autorrelatada foi 1.019 mg por semana, com grande variação entre 58 e 2.100 mg. Isso descreve a amostra e não é recomendação de uso.

Órgão maior significa falência do órgão?

Não. Volume maior não determina sozinho a função. O estudo pede novas pesquisas para separar adaptação, estresse e dano. Ainda assim, aumento cardíaco, pressão mais alta e outras evidências sobre esteroides justificam avaliação médica.

Todo fisiculturista com barriga projetada tem visceromegalia?

Não é possível afirmar. A aparência pode ter várias causas e o estudo não examinou todo atleta com esse sinal. A confirmação de volume dos órgãos exige exame de imagem.

Referências

  1. HENSELMANS, Menno. Steroid gut isn’t bloat. It's much worse – MRI study. [S. l.], 18 ago. 2026. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Uu8Brlm2rLs. Acesso em: 23 ago. 2026.
  2. FUCHS, Cas J. et al. When Size Goes Inside: Visceromegaly in Bodybuilders Is Not Attributed to High Protein Intake but More Likely Associated with the Use of Appearance- and Performance-Enhancing Drugs. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2026. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42044299/. Acesso em: 23 ago. 2026.
  3. BAGGISH, Aaron L. et al. Cardiovascular Toxicity of Illicit Anabolic-Androgenic Steroid Use. Circulation, v. 135, n. 21, p. 1991-2002, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28533317/. Acesso em: 23 ago. 2026.
  4. SMIT, Diederik L. et al. Positive and negative side effects of androgen abuse. The HAARLEM study: A one-year prospective cohort study in 100 men. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 31, n. 2, p. 427-438, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33038020/. Acesso em: 23 ago. 2026.

Vídeo no YouTube sobre o tema

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Comentários Recomendados

Pokoyô

Membro

Ótima matéria.

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