A promessa dos SARMs parece perfeita para quem quer ganhar músculo: ativar o receptor androgênico no músculo e no osso, mas poupar próstata, fígado, coração e sistema reprodutor. A ostarina, também chamada de enobosarm ou MK-2866, virou o principal símbolo dessa ideia. Em “Do SARMS Shrink Your Chestnuts?”, o cirurgião Chris Raynor questiona justamente o preço escondido dessa suposta seletividade.
A resposta curta é menos confortável do que a propaganda. A redução do volume dos testículos foi relatada por 20,7% dos usuários em um levantamento com 343 pessoas. Ensaios controlados também demonstraram queda de testosterona total, SHBG e, dependendo do composto e da dose, FSH e testosterona livre. Isso confirma supressão endócrina. Não existe, porém, evidência clínica convincente de que ostarina ou outro SARM encolha o pênis de um homem adulto.
Ostarina é SARM, mas cardarine e MK-677 não são
SARM significa modulador seletivo do receptor androgênico. Essas moléculas se ligam ao mesmo receptor ativado por testosterona e outros andrógenos, mas foram desenhadas para produzir respostas diferentes conforme o tecido. A ostarina foi desenvolvida pela GTx no fim dos anos 1990 para condições como perda muscular e osteoporose. Ela nunca se transformou em medicamento aprovado para uso recreativo ou esportivo.
O mercado coloca substâncias de classes diferentes na mesma prateleira e chama tudo de SARM. Essa mistura atrapalha até a interpretação dos efeitos adversos:
Nome usado no mercado | Identificação | Classe correta |
|---|---|---|
Ostarina | MK-2866, GTx-024 ou enobosarm | SARM |
Ligandrol | LGD-4033 | SARM |
Testolone | RAD-140 | SARM |
Andarine | S4 | SARM |
Cardarine | GW501516 | Agonista de PPAR-delta, não é SARM |
Ibutamoren | MK-677 | Agonista do receptor de grelina e secretagogo de GH, não é SARM |
Essa correção importa porque não existe um “efeito de SARM” único. Misturar ostarina, cardarine e MK-677 numa mesma combinação expõe o usuário a três mecanismos farmacológicos diferentes. Se aparece uma alteração hormonal, hepática ou cardíaca, o rótulo genérico não identifica qual composto a provocou.
Testículos podem diminuir, pênis não foi demonstrado
Os testículos dependem dos sinais enviados pelo hipotálamo e pela hipófise. Quando um agonista do receptor androgênico fornece sinal externo, o organismo pode reduzir a produção de gonadotrofinas e testosterona. Menos FSH e menos testosterona intratesticular podem prejudicar a espermatogênese. Com exposição suficiente, queda de estímulo e de atividade testicular pode se manifestar como redução de volume, queda de libido, piora de ereção e dificuldade reprodutiva.
O dado humano mais direto sobre tamanho vem de uma pesquisa transversal publicada no International Journal of Impotence Research. Foram recebidas 520 respostas e 343 participantes declararam ter usado SARMs. Entre os usuários, 98,5% eram homens e 72,3% tinham de 18 a 29 anos.
Resultado entre 343 usuários | Percentual |
|---|---|
Relataram algum efeito adverso | 54,5% |
Oscilações de humor | 22,4% |
Redução percebida do tamanho dos testículos | 20,7% |
Acne | 15,2% |
Compraram pela internet e não consultaram médico | Mais de 90% |
Relataram mais massa muscular e satisfação com o uso | Mais de 90% |
Esses números são autorrelatados. Não houve ultrassom dos testículos, espermograma ou confirmação química do que cada frasco continha. A pesquisa detecta um sinal importante e compatível com a farmacologia, mas não mede quanto o testículo diminuiu nem prova que todos os casos foram causados por um SARM autêntico.
Para o pênis, a situação é diferente. Os estudos humanos revisados não mediram redução do comprimento ou da circunferência peniana em adultos. Disfunção erétil pode fazer o órgão parecer menor durante a ereção, mas isso não equivale a perda anatômica. A afirmação responsável é, portanto, específica: SARMs podem suprimir o eixo hormonal, afetar função sexual e estar associados a redução testicular. Encolhimento estrutural do pênis não foi demonstrado.
Ligandrol suprimiu hormônios em apenas 21 dias
O ensaio de Basaria e colaboradores randomizou 76 homens saudáveis de 21 a 50 anos para placebo ou LGD-4033 em 0,1 mg, 0,3 mg ou 1 mg por dia. Foram administradas 20 doses ao longo de 21 dias, seguidas por cinco semanas de observação.
A massa magra aumentou de forma dependente da dose. Ao mesmo tempo, testosterona total, SHBG, HDL e triglicerídeos caíram de maneira dependente da dose. Na dose de 1 mg, também houve supressão significativa de testosterona livre e FSH. O LH não apresentou mudança relevante.
Hormônios e lipídios retornaram ao nível inicial até o fim da observação. Isso é tranquilizador para aquele ensaio curto, com produto farmacêutico conhecido, homens selecionados e acompanhamento. Não demonstra recuperação garantida depois de combinações recreativas, concentrações maiores, frascos adulterados ou meses de exposição.
Ostarina: 1,3 kg de massa magra, HDL 27% menor
O estudo clínico mais útil para entender a ostarina acompanhou 120 homens com mais de 60 anos e mulheres na pós-menopausa durante 12 semanas. Os participantes receberam placebo ou GTx-024 em doses de 0,1 mg, 0,3 mg, 1 mg ou 3 mg por dia.
Com 3 mg por dia, o ganho médio de massa magra foi 1,3 kg maior que o placebo. A gordura corporal caiu aproximadamente 0,6 kg em relação ao placebo, sem mudança significativa do peso total. O benefício anabólico existiu, mas veio acompanhado de alterações mensuráveis:
HDL: queda de 17% com 1 mg e de 27% com 3 mg.
Testosterona total nos homens: queda de 6,4 nmol/L com 1 mg e de 7,4 nmol/L com 3 mg em comparação ao placebo.
SHBG nos homens: redução de 61% com 3 mg.
Testosterona livre, LH e FSH nos homens: sem diferença significativa em relação ao placebo naquele estudo.
A queda de testosterona total não pode ser lida isoladamente porque a SHBG também despencou. Ainda assim, o resultado derruba a ideia de neutralidade endócrina. Uma molécula seletiva para músculo e osso continuou alterando hormônios e lipídios em doses estudadas clinicamente.
Essas quantidades pertencem a ensaios clínicos, não são sugestão de ciclo. Os produtos foram fabricados e dosados para pesquisa, os participantes passaram por seleção e os desfechos foram acompanhados. Um frasco vendido pela internet não oferece nenhuma dessas garantias.
O rótulo de ostarina pode esconder outra droga
Em 2017, pesquisadores compraram 44 produtos comercializados na internet como SARMs e analisaram sua composição. O problema não foi apenas diferença pequena de concentração:
O que a análise encontrou | Produtos |
|---|---|
Continha pelo menos um SARM | 23 de 44, ou 52% |
Continha outra droga não aprovada | 17 de 44, ou 39% |
Não continha nenhum composto ativo | 4 de 44, ou 9% |
Continha substância não declarada | 11 de 44, ou 25% |
Quantidade do ativo correspondia ao rótulo | 18 de 44, ou 41% |
Quantidade diferia substancialmente do rótulo | 26 de 44, ou 59% |
Entre os compostos não declarados ou vendidos sob a mesma categoria apareceram ibutamoren, GW501516, SR9009 e até tamoxifeno. Isso muda completamente a pergunta “qual é o efeito da ostarina?”. Sem análise química, o usuário pode estar avaliando um coquetel que o rótulo não revela.
Fígado e colesterol não são efeitos secundários pequenos
Uma revisão sistemática reuniu 33 estudos, sendo 18 ensaios clínicos e 15 relatos ou séries de casos. No total, 1.447 pessoas foram expostas a SARMs. Os relatos incluíram 15 casos de lesão hepática induzida por droga, um caso de ruptura do tendão de Aquiles, um de rabdomiólise e um de elevação reversível de enzimas hepáticas.
Nos ensaios clínicos, a proporção média de participantes com elevação de ALT foi 7,1%, com grande variação entre moléculas, doses e estudos. Também foram recorrentes quedas de HDL e testosterona total. Um relato específico documentou lesão hepática colestática após enobosarm, com sintomas como icterícia e coceira.
Urina escura, pele ou olhos amarelados, coceira intensa, dor abdominal, cansaço desproporcional, dor no peito, falta de ar ou desmaio exigem avaliação médica. Esperar a “terapia pós-ciclo” resolver pode atrasar o diagnóstico. Acrescentar tamoxifeno, clomifeno, testosterona ou inibidor de aromatase por conta própria também adiciona efeitos e interações a uma exposição que talvez nem esteja identificada.
O que avaliar quando há alteração sexual ou testicular
Redução percebida dos testículos, queda persistente de libido, piora de ereção, infertilidade ou ginecomastia merecem investigação clínica. A avaliação costuma começar pela cronologia completa dos produtos, tempo de uso e data da última dose. O rótulo e fotos do frasco ajudam, mas não provam a composição.
Conforme o caso, o médico pode solicitar testosterona total em coleta matinal e repetida, SHBG, testosterona livre calculada ou medida, LH, FSH, estradiol, perfil lipídico, hemograma e painel hepático. Espermograma é o exame que responde à pergunta sobre produção espermática quando fertilidade importa. Ultrassom pode documentar volume testicular se houver assimetria, dor, nódulo ou dúvida no exame físico.
Não existe um exame isolado que declare recuperação completa. Testosterona total pode normalizar antes de libido ou espermatogênese. Um resultado baixo logo após a suspensão também não determina sozinho se o quadro será transitório ou persistente.
No Brasil, SARM não é suplemento regular
A Anvisa informou que não havia medicamento registrado com SARM e publicou a Resolução RE 791/2021. A medida proibiu comercialização, distribuição, fabricação, importação, manipulação, propaganda e uso de produtos que contenham essas substâncias, sejam nacionais ou importados, industrializados ou manipulados.
Nos Estados Unidos, a FDA também não aprovou SARMs e alerta para disfunção sexual, infertilidade, redução testicular, lesão hepática, infarto e acidente vascular cerebral. No esporte, a lista de 2026 da Agência Mundial Antidoping mantém os SARMs na classe S1.2 de agentes anabólicos, proibidos dentro e fora de competição.
Conclusão
Ostarina não é uma versão limpa de esteroide. Em 12 semanas e 3 mg por dia, ela acrescentou 1,3 kg de massa magra em relação ao placebo, mas reduziu HDL em 27%, SHBG em 61% e testosterona total em 7,4 nmol/L nos homens. Outro SARM, o LGD-4033, suprimiu testosterona total de forma dependente da dose e, em 1 mg por dia durante 21 dias, também reduziu FSH e testosterona livre.
A redução dos testículos é um risco coerente com essa supressão e foi percebida por 20,7% dos usuários no maior levantamento citado. A evidência não demonstra encolhimento anatômico do pênis adulto. O risco real está no eixo hormonal, na fertilidade, na função sexual, nos lipídios, no fígado e na incerteza do frasco. Em 44 produtos analisados, só 41% continham a quantidade indicada no rótulo.
FAQ
Ostarina encolhe os testículos?
Pode haver redução testicular associada à supressão do eixo hormonal. Em uma pesquisa com 343 usuários, 20,7% relataram testículos menores. O levantamento não mediu volume por ultrassom, por isso não define frequência causal nem tamanho da redução.
SARM encolhe o pênis?
Não há evidência clínica convincente de redução anatômica do pênis em homens adultos. SARMs podem afetar libido e ereção, o que é diferente de encolhimento estrutural.
Ostarina reduz testosterona?
Sim. Em um ensaio de 12 semanas, a testosterona total caiu 6,4 nmol/L com 1 mg e 7,4 nmol/L com 3 mg em comparação ao placebo. A SHBG também caiu, e a testosterona livre não teve redução significativa naquele estudo.
Cardarine e MK-677 são SARMs?
Não. Cardarine, ou GW501516, é agonista de PPAR-delta. MK-677, ou ibutamoren, é agonista do receptor de grelina e secretagogo de hormônio do crescimento.
Existe ostarina aprovada pela Anvisa?
Não. A Anvisa informou que não havia medicamento registrado com SARM e a RE 791/2021 proibiu comercialização, fabricação, importação, manipulação, propaganda e uso desses produtos.
Parar o uso garante recuperação hormonal?
Não é possível garantir. No ensaio curto com LGD-4033, hormônios e lipídios retornaram ao nível inicial durante cinco semanas de observação. Isso não pode ser extrapolado para produtos adulterados, combinações, doses recreativas ou exposição prolongada.
Referências
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