Não existe uma dose de TRT em miligramas que valha para todo mundo. Para o enantato ou o cipionato, as formas de testosterona injetável mais estudadas, a diretriz da Endocrine Society cita como início típico 75 a 100 mg por semana ou 150 a 200 mg a cada duas semanas, ajustados depois pelo exame de sangue e pelos sintomas. O que define a reposição é haver hipogonadismo confirmado e manter a testosterona na faixa normal, e não o número na seringa.
A mesma dose pode ser tratamento para um homem e problema para outro. Em quem tem a produção normal, doses tão baixas quanto 50 a 100 mg por semana já freiam o eixo, o comando do cérebro sobre o testículo, e derrubam o LH, o FSH e a produção de espermatozoides, sem trazer o ganho de massa que aparece nos estudos com 300 a 600 mg. É o que a expressão "pior dos dois mundos" resume: o eixo desliga e o ganho de massa não vem.
O que é TRT de verdade
TRT é a sigla em inglês para terapia de reposição de testosterona. Ela trata o hipogonadismo, quando o corpo não produz testosterona suficiente. O diagnóstico exige sintomas compatíveis, como libido baixa e cansaço, e testosterona baixa confirmada em pelo menos duas coletas pela manhã, em jejum. A diretriz europeia de urologia (EAU) usa 12 nmol/L, ou 350 ng/dL, como limite para considerar o tratamento em quem tem sintomas. Depois, o LH e o FSH, hormônios da hipófise que comandam o testículo, mostram se o problema está no testículo ou no cérebro.
A dose inicial é só o ponto de partida. A Endocrine Society manda medir a testosterona na metade do caminho entre uma aplicação e a próxima, de 3 a 6 meses após o início, e ajustar a dose ou a frequência se o resultado passar de 600 ng/dL ou ficar abaixo de 350 ng/dL. A diretriz da American Urological Association, de 2018, revista e confirmada em 2024, segue o mesmo critério de testosterona baixa somada a sintomas.
"Ciclo", "cruise" e "blast-and-cruise" são termos de academia, não categorias médicas. Um homem sem hipogonadismo que usa 150 ou 200 mg por semana para ganhar massa não está fazendo TRT, mesmo que alguém chame assim. E manter para sempre uma dose apelidada de "cruise" não transforma o uso em tratamento.
Quanto cada dose suprime o eixo
O eixo é a cadeia de comando entre o hipotálamo, a hipófise e o testículo. Quando entra testosterona de fora, o cérebro reduz o LH e o FSH, e o testículo diminui a própria produção e a de espermatozoides. O estudo clássico sobre esse freio é o de Alvin Matsumoto, de 1990: 51 homens normais receberam placebo ou 25, 50, 100 ou 300 mg de enantato por semana durante seis meses.
Com 50 mg por semana, o LH, o FSH e a contagem de espermatozoides já caíram à metade dos valores do grupo placebo. Com 100 mg, a testosterona no sangue ficou só 1,5 vez a do placebo, mas o eixo já estava bem freado. Com 300 mg, a testosterona triplicou em relação ao placebo e a supressão não aumentou em relação aos 100 mg. O freio do eixo chega perto do máximo com doses baixas.
Outro estudo, de 1997, usou cipionato, éster com registro no Brasil, em 100, 250 ou 500 mg por semana. A produção de espermatozoides caiu em todas as doses. O LH e o FSH ficaram indetectáveis em 2 semanas com 250 e 500 mg, e em 5 a 6 semanas mesmo com 100 mg. Os efeitos se reverteram depois que a testosterona foi suspensa.
200 mg por semana já foram usados como anticoncepcional
Em estudos de anticoncepção masculina, 200 mg de enantato por semana foram dados a homens saudáveis justamente para desligar a produção de espermatozoides. Num deles, com 33 homens de 21 a 41 anos tratados por até 18 meses, 18 (55%) chegaram a zero espermatozoide em 20 semanas, e os outros 15 ficaram com média de 2 milhões por mL, uma contagem muito baixa. O LH e o FSH caíram para menos de 0,5 U/L em quatro semanas e ficaram abaixo do limite de detecção do exame em 12 semanas.
No mesmo estudo, a testosterona antes de cada aplicação ficou 2,5 vezes acima da inicial, e os picos chegaram a 5 vezes. Ou seja, 200 mg por semana não são uma "TRT normal" para quem tinha a produção em ordem: elevam a testosterona acima do natural e suprimem o eixo a fundo. Ao mesmo tempo, 45% dos homens não chegaram a zero espermatozoide, então testosterona também não é um anticoncepcional confiável.
300 e 600 mg: onde aparece o ganho de massa
O estudo de Shalender Bhasin, de 2001, mostra a outra curva. Primeiro, 61 homens de 18 a 35 anos receberam um remédio que desliga a produção própria de testosterona. Depois, tomaram 25, 50, 125, 300 ou 600 mg de enantato por semana durante 20 semanas.
| Dose semanal | Testosterona no vale (média, logo antes da aplicação seguinte) | Massa livre de gordura (tudo menos gordura) em 20 semanas |
|---|---|---|
| 25 mg | 253 ng/dL | sem aumento significativo |
| 50 mg | 306 ng/dL | sem aumento significativo |
| 125 mg | 542 ng/dL | +3,4 kg |
| 300 mg | 1.345 ng/dL | +5,2 kg |
| 600 mg | 2.370 ng/dL | +7,9 kg |
Força no leg press, potência, volume da coxa e hemoglobina subiram junto com a testosterona, e o HDL, o colesterol "bom", caiu conforme a testosterona subia. Como todos começaram com a produção própria desligada, a tabela não mostra quanto cada dose suprimiria sozinha, e não serve como tabela de ciclo.
Num ensaio de 1996, homens saudáveis tomaram 600 mg de enantato por semana durante dez semanas. Com treino de musculação, ganharam em média 6,1 kg de massa livre de gordura, 22 kg no supino e 38 kg no agachamento. Sem treino, também ganharam músculo e força.
Esses estudos duraram de 10 a 20 semanas e mostram o efeito, não a segurança. Não há uma dose que marque o começo do ciclo nem uma duração de ciclo comprovadamente segura.
Onde está o pior dos dois mundos
Juntando as duas curvas: o eixo é muito mais fácil de suprimir do que é fácil ganhar massa com testosterona. Com 50 mg, o LH, o FSH e os espermatozoides já caem pela metade. Com 100 mg, o LH e o FSH podem sumir em algumas semanas. De 100 para 300 mg, a supressão quase não muda. O que muda é a testosterona no sangue, que dobra, e com ela a exposição aos efeitos colaterais.
O pior dos dois mundos é o do homem que tinha a produção normal e mantém, sem indicação, uma dose que zera o LH e o FSH mas fica longe dos ganhos dos estudos de 300 a 600 mg. Ele tende a perder a produção própria, a prejudicar a fertilidade e a depender das aplicações, além de precisar vigiar o hematócrito, sem estar tratando nenhuma doença. Subir a dose não resolve: o eixo continua desligado, e o hematócrito, o HDL e os outros efeitos acompanham a testosterona mais alta.
Para quem tem hipogonadismo de verdade, a expressão não se aplica. Nesse homem, 75 a 100 mg por semana podem repor uma produção que já faltava, melhorar os sintomas e manter a testosterona na faixa normal. A supressão do LH e do FSH pesa menos, porque o testículo já não produzia o suficiente, a não ser que ele queira ter filhos.
Fertilidade: o que cai e quanto demora para voltar
A testosterona dentro do testículo é muito mais alta que a do sangue e é ela que sustenta a produção de espermatozoides. Num estudo com 200 mg de enantato por semana, o LH e o FSH caíram para 5% e 3% dos valores iniciais em três semanas, e a testosterona dentro do testículo caiu 94%. Doses baixas de hCG, que imita o LH, mantiveram essa testosterona interna, mas o estudo não mediu espermatozoides, e hCG não garante fertilidade normal.
A recuperação costuma vir, mas leva meses. Uma análise de 30 estudos de anticoncepção masculina, com 1.549 homens, mostrou a contagem voltando a pelo menos 20 milhões por mL em 67% dos homens em 6 meses, 90% em 12 meses, 96% em 16 meses e em todos em 24 meses. Tratamentos mais longos e preparações de testosterona de ação mais longa atrasaram a volta.
Esses números não valem como garantia para quem usa esteroides. Os voluntários usaram remédio conhecido, com acompanhamento médico, por tempo limitado. Anos de uso, mistura de várias substâncias e produto clandestino são outra situação. Num estudo dinamarquês com 33 ex-usuários de anabolizantes, que tinham parado havia 2,5 anos em média, 27% ainda estavam com a testosterona abaixo do normal. Quem quer ter filhos precisa de espermograma, e não de palpite pelo LH e pelo FSH. O papel do hCG e dos remédios da TPC (terapia pós-ciclo) está em hCG não religa o eixo: o papel de clomifeno e tamoxifeno na TPC.
Hematócrito, coração e o que mudar na dose
A testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos, e o hematócrito sobe. A diretriz da EAU, na versão de 2026, manda intervir quando ele passa de 54% durante o tratamento, com pausa, redução da dose ou troca de formulação, e pede exames aos 3, 6 e 12 meses e depois uma vez por ano. Num estudo com 263 homens, entre os que começaram com hematócrito abaixo de 54%, 100 mg por semana levaram menos gente acima desse limite do que 200 mg a cada duas semanas (1% contra 8%), com a mesma testosterona média aos seis meses. Aplicar mais vezes, em doses menores, é o tema de Fracionar Durateston® reduz picos e vales?.
O estudo TRAVERSE acompanhou 5.246 homens de 45 a 80 anos com hipogonadismo confirmado e risco cardiovascular alto. O gel de testosterona, ajustado para manter a faixa normal, não aumentou infarto, AVC e morte cardiovascular somados em relação ao placebo, mas houve mais fibrilação atrial (um tipo de arritmia), embolia pulmonar (coágulo no pulmão) e lesão renal aguda. O resultado vale para reposição acompanhada, não para 300 a 600 mg por semana nem para mistura de esteroides. Palpitação nova, falta de ar, dor no peito ou inchaço em uma perna só pedem avaliação médica rápida em qualquer dose, porque podem indicar fibrilação atrial ou embolia.
TRT ou uso para performance: as perguntas que separam
| Pergunta | TRT com indicação | Uso para performance chamado de TRT |
|---|---|---|
| Havia deficiência antes da primeira aplicação? | Sintomas e testosterona baixa em duas coletas pela manhã | Testosterona normal, exame feito já durante o uso ou nenhum exame antes |
| Qual é o objetivo? | Tratar sintomas e manter a testosterona na faixa normal | Ganhar massa, perder gordura ou manter o físico entre ciclos |
| Como a dose é ajustada? | Pelos sintomas, pela testosterona dosada no momento certo e pelo hematócrito | Pela dose que o objetivo físico pede, sem alvo de exame definido |
| A fertilidade foi discutida? | Sim, antes de começar | Muitas vezes, só quando aparece dificuldade para ter filhos |
| Há acompanhamento? | Testosterona, hematócrito, pressão e próstata conforme a idade | Exames sem horário nem frequência definidos |
Um homem que mede testosterona baixa e LH e FSH zerados enquanto já aplica testosterona não provou que precisa de TRT. Ele só mostrou o efeito esperado da testosterona que está usando. O exame que vale é o de antes da primeira aplicação. No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 proíbe o médico de prescrever esteroides anabolizantes para estética, ganho de massa ou desempenho esportivo.
Conclusão
A dose de TRT é a que mantém a testosterona normal num homem com hipogonadismo confirmado, e costuma começar em 75 a 100 mg por semana de enantato ou cipionato. Em quem tinha a produção normal, essa mesma faixa já derruba o eixo e a fertilidade, e 200 mg por semana foram usados como anticoncepcional. Nos estudos, os ganhos maiores vieram com 300 a 600 mg por semana, e com eles veio outro patamar de exposição e de risco. A pergunta certa não é quantos miligramas ainda contam como TRT, e sim se havia doença, se o nível ficou normal e se há acompanhamento.
Perguntas frequentes
Qual a dose de TRT?
Não há um número fixo. Para enantato ou cipionato, a Endocrine Society cita como início típico 75 a 100 mg por semana ou 150 a 200 mg a cada duas semanas. Depois, o médico ajusta pela testosterona dosada no meio do intervalo e pelos sintomas, buscando a faixa normal.
Qual a dose de Durateston® para TRT?
A bula do Durateston® traz como posologia usual 1 mL a cada 3 semanas, ajustada pelo médico, com controle de hematócrito e PSA. Cada mL mistura quatro formas de testosterona, que agem por tempos diferentes, por isso não dá para converter direto para miligramas por semana de enantato ou cipionato.
100 mg de testosterona por semana é TRT?
Pode ser, num homem com hipogonadismo confirmado, se mantiver a testosterona normal e melhorar os sintomas. Num homem com produção normal, 100 mg por semana já zeraram o LH e o FSH em 5 a 6 semanas e prejudicaram a produção de espermatozoides.
200 mg de testosterona por semana zeram o eixo?
Em homens saudáveis, 200 mg de enantato por semana foram usados como anticoncepcional masculino: pouco mais da metade chegou a zero espermatozoide em 20 semanas, o LH e o FSH ficaram abaixo do limite de detecção em 12 semanas e a testosterona ficou 2,5 vezes acima da inicial antes de cada aplicação. Para quem tinha a produção normal, essa dose não é reposição.
Quais sinais mostram que a dose está alta demais?
Os exames são o sinal mais objetivo: testosterona acima de 600 ng/dL no meio do intervalo e hematócrito acima de 54% pedem ajuste. Na bula do Durateston®, aparecem entre as reações acne, retenção de líquidos, pressão alta e aumento de hematócrito.
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