Fracionar Durateston® é dividir a mesma quantidade em aplicações menores e mais próximas, como 0,5 mL por semana no lugar de 1 mL a cada 15 dias. O objetivo é diminuir os picos e vales da testosterona no sangue. A curva tende a ficar mais estável, mas o tamanho desse ganho varia entre os estudos. E a bula manda aplicar a ampola logo depois de aberta, o que complica guardar metade para a semana seguinte.
O mecanismo é explicado pelo urologista e médico do esporte Claudio Guimarães, em “FRACIONAR TESTOSTERONA: NINGUÉM TE CONTA ISSO!”, no canal dele. A pergunta de partida é de quem aplica uma ampola de 1 mL a cada 7, 15 ou 21 dias e sente a montanha-russa da reposição hormonal (TRT). A quantidade total de testosterona importa, mas a frequência da aplicação também muda o que acontece no sangue. Ele termina calculando quanto hormônio uma ampola por semana representa.
O que tem em 1 mL de Durateston®
Uma ampola de Durateston® tem 1 mL de óleo com 250 mg de quatro ésteres de testosterona: 30 mg de propionato, 60 mg de fempropionato, 60 mg de isocaproato e 100 mg de decanoato. A mistura junta velocidades diferentes de liberação. Quanto mais longo o éster, mais devagar ele solta o hormônio, e o decanoato é o mais longo dos quatro.
O éster é uma “cauda” química presa à testosterona, e é ela que define quanto tempo o hormônio dura. Os 250 mg incluem o peso dessas caudas. Pela bula, a testosterona de fato em cada mL é de 176 mg. O veículo é óleo de amendoim com álcool benzílico, e por isso a bula contraindica o remédio para quem tem alergia a amendoim ou a soja.
Por que a ampola inteira dá picos e vales
Depois da injeção no músculo, o óleo forma um depósito. Dali os ésteres vão sendo quebrados aos poucos e soltam a testosterona na corrente do sangue. Quando entra uma dose alta de uma vez e passa muito tempo até a próxima, a testosterona sobe muito no começo e vai caindo devagar. É a montanha-russa da reposição: pico, queda e vale.
A bula dá o tamanho dessa subida. Uma dose única de Durateston® leva a testosterona total a perto de 2.000 ng/dL entre 24 e 48 horas depois da aplicação. Em cerca de 21 dias, o nível volta ao limite de baixo do normal. Para comparar, o estudo de 52 semanas do autoinjetor semanal de enantato considerou normal a faixa de 300 a 1.100 ng/dL.
Com o enantato acontece algo parecido. Num estudo italiano com 10 atletas com testosterona muito baixa, metade ficou acima do normal até sete dias depois de uma injeção de 250 mg. A diretriz da Endocrine Society, a sociedade americana de endocrinologia, descreve o mesmo desenho para enantato e cipionato. O nível passa do normal logo depois da injeção e cai até a faixa baixa no fim do intervalo, e esses picos e vales podem vir com sintomas que sobem e descem junto.
1 mL a cada 15 dias ou 0,5 mL por semana?
A discussão vale sobretudo para os ésteres de duração intermediária, como o enantato e o cipionato, e também para o decanoato, o éster mais longo do Durateston®. Imagine dois pacientes que recebem a mesma quantidade de testosterona num mês. O primeiro toma uma dose grande e espera bastante até a próxima. O segundo toma doses menores, mais perto uma da outra. No exemplo, é 1 mL de Durateston® a cada 15 dias contra 0,5 mL a cada 7 dias.
A quantidade no período é parecida, mas as curvas ficam diferentes: quanto maior o intervalo, maior a distância entre o pico e o vale. Em algumas formulações, doses menores e mais frequentes fazem a testosterona oscilar menos, dentro de uma faixa mais estreita.
A conta do exemplo é aproximada: 1 mL em 15 dias dá cerca de 0,47 mL por semana, um pouco menos que 0,5 mL. A bula prevê 1 mL a cada 3 semanas, o que daria um terço da ampola por semana, cerca de 83 mg de ésteres.
O estudo clássico sobre intervalo é de 1980. Homens com hipogonadismo primário (o testículo que não produz) usaram enantato em quatro esquemas com a mesma dose semanal média: 100 mg por semana, 200 mg a cada 2 semanas, 300 mg a cada 3 semanas e 400 mg a cada 4 semanas, por 12 a 16 semanas cada. Nos quatro, a testosterona oscilou em grande parte dentro da faixa normal. O nível médio entre uma aplicação e a seguinte foi o mais alto no esquema semanal e o mais baixo no de 4 semanas. Este último também não conseguiu normalizar o LH, o hormônio da hipófise que comanda o testículo.
O estudo não mediu a distância entre pico e vale de cada esquema, só o nível médio e a resposta do LH. Os autores consideraram 200 mg a cada 2 semanas e 300 mg a cada 3 semanas os esquemas mais práticos, porque normalizaram o LH com menos injeções. Os estudos de intervalo usaram ésteres isolados, e nenhum dos citados aqui testou a ampola de Durateston® dividida.
Fracionar diminui o hematócrito?
Uma dúvida comum é se a curva mais lisa traz menos efeito colateral. Num levantamento com 263 homens em três centros dos Estados Unidos, a testosterona injetável no músculo foi comparada em dois esquemas com a mesma dose: 100 mg por semana e 200 mg a cada 2 semanas. Entre quem começou com hematócrito (a proporção de glóbulos vermelhos no sangue) abaixo de 54%, passaram desse limite 1 de 102 homens no esquema semanal e 4 de 51 no de 15 dias. Os autores ligaram a diferença ao nível médio de testosterona mais alto ao longo do intervalo no esquema de 15 dias.
Uma revisão de 2025 reuniu 18 estudos sobre tipo de testosterona e hematócrito em homens trans e foi na mesma direção: os ésteres de duração intermediária, como enantato e cipionato, subiram o hematócrito mais que o undecilato de longa duração (o do Nebido®). A própria revisão avisa que os estudos são observacionais, retrospectivos e pequenos, que os resultados sobre hematócrito alto são conflitantes e que todas as formas de testosterona sobem o hematócrito.
A outra linha vem de um acompanhamento de 1.073 homens trans na Holanda, seguidos por até 20 anos. Ali, uma mistura de ésteres de 250 mg aplicada a cada 2 a 4 semanas, do mesmo tipo do Durateston®, teve chance de hematócrito acima de 50% parecida com a do gel. O undecilato de longa duração teve quase o triplo da chance do gel. No corte mais alto, de 52%, nenhuma das injeções diferiu do gel. Também é um estudo observacional, sem sorteio dos tratamentos. E no estudo de um ano com um autoinjetor semanal de enantato, que oscila pouco e não teve grupo de comparação, 30 de 150 homens pararam por hematócrito alto, pressão alta ou PSA (exame da próstata) alto.
Contra o gel, a injeção dá mais hematócrito alto. Num estudo de Houston, o hematócrito passou de 50% em 66,7% dos homens com injeção, contra 12,8% com gel e 35,1% com implante. O grupo da injeção, porém, era mais jovem e já começou com hematócrito mais alto. Em qualquer intervalo, quem usa injeção precisa do exame de controle. Os valores que pedem atenção estão em hematócrito e pressão nos esteroides.
Dá para guardar metade da ampola?
A vantagem da curva não quer dizer que todo paciente precise fracionar, muito menos por conta própria. Antes de dividir uma ampola de Durateston® ou de Deposteron®, é preciso pesar a formulação, a esterilidade, a estabilidade do remédio depois de aberto, a via e a dose.
A bula do Durateston® é direta: a aplicação deve ser feita logo depois de abrir a ampola, para manter a garantia de que a solução está estéril. A bula não traz dado de estabilidade para guardar o resto na ampola ou numa seringa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também prefere o frasco de dose única sempre que possível e manda descartar o frasco de várias doses se a esterilidade estiver comprometida. O Deposteron® vem em ampola de 2 mL com 200 mg de cipionato, também em óleo de amendoim, e é só para uso no músculo.
Com as ampolas vendidas no Brasil, aplicar menos e mais vezes significa abrir uma ampola a cada aplicação e descartar a sobra. No exemplo de 0,5 mL por semana, isso dobra o número de ampolas. Guardar a ampola aberta, ou a seringa já carregada, para a semana seguinte expõe a solução a contaminação, um risco que a bula não cobre. Agulha, frasco e ampola têm outros cuidados, reunidos em o que a injeção de testosterona pede de cautela.
Xyosted®: o enantato feito para aplicação semanal
A curva estável que o fracionamento procura existe num produto americano. O Xyosted® é um enantato de testosterona desenvolvido e aprovado para aplicação subcutânea, na gordura, uma vez por semana. Vem em autoinjetor com 50, 75 ou 100 mg, cada dose em 0,5 mL de óleo de gergelim, e a dose é ajustada pelo exame.
Os estudos do autoinjetor mostram o efeito de doses pequenas e semanais. Num ensaio com 39 homens, 50 e 100 mg por semana mantiveram a testosterona média dentro do normal nas 168 horas entre as aplicações, com variação menor que a da injeção de 200 mg no músculo. No estudo de 52 semanas com 150 homens, 92,7% tinham a média entre 300 e 1.100 ng/dL na 12ª semana, 91,3% tiveram pico abaixo de 1.500 ng/dL e ninguém passou de 1.800 ng/dL. Os autores descrevem oscilações pequenas entre pico e vale.
Esses números não valem automaticamente para o Durateston® ou o Deposteron®. O Xyosted® tem concentração, volume, aplicador e via próprios, e um remédio registrado só para uso no músculo continua sem indicação subcutânea. O Xyosted® também não tem registro na Anvisa, e nenhum enantato injetável tem registro ativo no Brasil. A comparação completa está em Xyosted® contra Deposteron® e Durateston®, e o que se sabe da aplicação na gordura está em testosterona subcutânea ou intramuscular.
Quanto é dose de reposição por semana?
Para a reposição, a referência seria algo como 70 a 100 mg por semana, que seria mais ou menos o que o corpo produz. Uma ampola de Durateston® por semana são 250 mg de ésteres, ou 176 mg de testosterona, duas vezes e meia esse valor. Concentrar tanto hormônio em pouco tempo está errado para uma reposição.
A produção natural medida é menor que 70 a 100 mg. Num estudo que mediu a produção com testosterona marcada em laboratório, ela foi de 9,1 mg por dia em homens jovens brancos e de 7,2 mg em jovens asiáticos, cerca de 64 e 51 mg por semana. Em homens brancos de meia-idade, caiu para 3,9 mg por dia, perto de 27 mg por semana. Por essa medida, 176 mg por semana ficam perto de três vezes a produção de um jovem.
A faixa de 70 a 100 mg lembra outro número: a dose inicial típica de enantato ou cipionato na diretriz da Endocrine Society, de 75 a 100 mg por semana ou 150 a 200 mg a cada 2 semanas. Esse número inclui o peso do éster. Uma ampola por semana equivale a 2,5 vezes o topo dessa faixa, enquanto a posologia da bula dá cerca de 83 mg de ésteres por semana. O que muda para quem usa 1 Durateston® por semana está explicado em outra matéria.
Como o médico decide o intervalo
Dose e intervalo são individuais: dependem do tamanho da pessoa, de como o remédio se distribui no corpo dela e da formulação usada. A diretriz da Endocrine Society dá o roteiro para enantato e cipionato. A testosterona é dosada no meio do intervalo entre duas aplicações, de 3 a 6 meses depois do início. Se ficar acima de 600 ng/dL ou abaixo de 350 ng/dL, ajusta-se a dose ou a frequência. Para o Durateston®, a diretriz não traz regra própria.
O hematócrito é medido antes do início, de 3 a 6 meses depois e uma vez por ano. Acima de 54%, a terapia para até o valor baixar e volta com dose menor.
Uma revisão prática publicada em 2026 resume quando mexer no intervalo. A aplicação semanal costuma funcionar bem. Duas ou mais por semana ficam como opção para quem continua com sintomas que vão e voltam no ciclo, como acne e pele oleosa no começo e cansaço e libido baixa no fim, ou com hematócrito e pressão subindo. Se o esquema semanal já está estável, mais injeções só aumentam o trabalho.
O dia do exame também muda o resultado. Dosar a testosterona dois dias depois da ampola mostra o pico, e não a média do intervalo. O gerador de protocolo hormonal pede os exames antes de começar e sugere os de controle durante a reposição.
Conclusão
A frequência da aplicação muda a curva da testosterona. Com a mesma quantidade no período, doses menores e mais próximas tendem a diminuir picos e vales. A diretriz descreve os picos e vales do enantato e do cipionato, e o autoinjetor semanal oscilou menos que a injeção de 200 mg no músculo. Esses dados vêm de ésteres isolados e de outro produto, e não podem ser copiados direto para o Durateston® ou o Deposteron®.
O ganho de fracionar tem limites. No estudo de 1980, os quatro intervalos ficaram em grande parte dentro do normal, e o efeito no hematócrito divide os estudos. Pela bula, fracionar a ampola é descartar a sobra. A dose semanal conta junto com a distribuição: uma ampola por semana fica acima da dose de reposição e da produção natural. Mudar dose, intervalo ou apresentação é decisão do médico, com os exames de controle.
Perguntas frequentes
Posso fracionar o Durateston®?
Pode, quando o médico prescreve e a sobra é descartada. Doses menores e mais próximas tendem a diminuir a distância entre pico e vale, mas os estudos de intervalo usaram ésteres isolados, e não a ampola de Durateston® dividida. Como a bula manda aplicar a ampola logo depois de aberta, guardar metade para a semana seguinte vai contra a orientação.
Como fracionar a ampola de Durateston®?
Aplicando só a parte prescrita logo depois de abrir e descartando o resto. No esquema de 0,5 mL por semana, isso gasta uma ampola por aplicação. A bula não prevê guardar ampola aberta nem seringa carregada.
O que é fracionar a testosterona?
É dividir a mesma dose em aplicações menores e mais próximas, como 100 mg por semana no lugar de 200 mg a cada 2 semanas. Sem fracionar, a dose inteira entra de uma vez, e a testosterona sobe mais no começo e cai mais até a próxima aplicação.
Como fracionar o cipionato de testosterona?
A diretriz da Endocrine Society cita 75 a 100 mg por semana ou 150 a 200 mg a cada 2 semanas como doses iniciais de cipionato ou enantato. O Deposteron® vem em ampola de 2 mL com 200 mg, de uso no músculo. Num levantamento com 263 homens, o esquema semanal teve menos hematócrito alto que o de 15 dias, com a mesma dose.
Como fracionar o enantato de testosterona?
No Brasil, nenhum enantato injetável tem registro ativo na Anvisa. Nos estudos, o enantato foi usado de 100 mg por semana a 400 mg a cada 4 semanas, e o esquema semanal deu o nível médio mais alto entre as aplicações. O Xyosted®, aprovado nos Estados Unidos, aplica de 50 a 100 mg por semana na gordura do abdômen.
Quantos mL tem uma ampola de Durateston®?
1 mL. Nesse mililitro há 250 mg de quatro ésteres, que correspondem a 176 mg de testosterona.
Quantos dias o Durateston® fica no corpo?
O efeito de uma ampola dura cerca de três semanas. O pico vem de 24 a 48 horas depois da aplicação, e em cerca de 21 dias a testosterona volta ao limite de baixo do normal. Por isso a bula prevê 1 mL a cada 3 semanas.
Em quantos dias o Durateston® faz efeito?
O nível no sangue sobe em 1 a 2 dias, mas os efeitos demoram mais. Numa revisão de estudos de reposição, o desejo sexual começou a melhorar em cerca de 3 semanas, o humor em 3 a 6 semanas, e a massa muscular e a força mudaram entre 12 e 16 semanas. O hematócrito sobe a partir de 3 meses, com o máximo entre 9 e 12 meses.
Referências
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