Testosterona subcutânea funciona. Aplicada na gordura logo abaixo da pele, com agulha curta, ela chega ao sangue em níveis parecidos com os da aplicação no músculo, e a aplicação costuma doer menos. É o que mostram os estudos de reposição hormonal (TRT). Eles não sustentam a promessa de nunca mais ter reação ou infecção no local, e nenhum testou as doses de um ciclo.
Essa promessa vem do treinador Fadi Hussain, do Reino Unido, em “The Safest Way to Inject Steroids | Sub Q vs Intramuscular” (“O jeito mais seguro de injetar esteroides”). Ele conta a própria história, das agulhas lixadas na academia à seringa de insulina com 0,5 mL por ponto, e garante que quem fizer assim nunca mais vai se preocupar com abscesso ou infecção. Cada passo dessa história está abaixo, com o que a pesquisa encontrou.
Como se aplicava anabolizante na academia
No começo, a ideia corrente era que o anabolizante injetável era melhor e mais seguro que o oral. Quem vendia a droga entregava também o pacote de agulhas, e ninguém sabia nada sobre seringa ou calibre.
A cena que abre a história é de por volta de 2006. Um competidor da academia injetava 1 mL de Sustanon® e 1 mL de deca antes do treino, três vezes por semana (segunda, quarta e sexta). A seringa parecia velha, e a agulha verde já tinha sido usada muitas vezes. Antes de aplicar, ele lixava a ponta com uma lixa, porque achava que a borracha do frasco cegava a agulha. Depois, injetava os 2 mL direto no bíceps.
No escritório, colegas tiravam seringas de 2,5 mL já carregadas e pediam para alguém aplicar no deltoide posterior. Uma vez, a agulha foi lançada como um dardo e ficou pendurada no ombro antes de o óleo entrar. Havia quem aplicasse 35 a 40 mL de óleo por semana e tomasse analgésico para aguentar a dor. Acostumar-se com isso, na avaliação de quem viu, não combina com uma vida longa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) pede uma agulha e uma seringa novas para cada aplicação, proíbe trocar só a agulha para reaproveitar a seringa e recomenda frasco de dose única sempre que possível. Lixar uma agulha usada é o oposto disso.
O improviso aparece também nas pesquisas com usuários. Num questionário com 500 usuários de anabolizantes, até 13% contaram que reutilizavam agulha, dividiam agulha ou dividiam frasco multidose. Num estudo com 395 homens atendidos em programas de troca de seringas na Inglaterra e no País de Gales, 9% já tinham dividido material de injeção, 1,5% tinham HIV e 5% tinham anticorpos da hepatite C.
A primeira aplicação no glúteo
A primeira autoaplicação seguiu o roteiro que vinha com o pacote: agulha verde para puxar o óleo, agulha azul para aplicar, no alto do glúteo. O lugar provavelmente estava errado. Foi uma semana mancando e inventando desculpas para os amigos. Depois disso, a saída foi pedir a outros usuários que aplicassem, e a dor continuou.
A dor e a dependência de outra pessoa são as desvantagens da via intramuscular que a revisão de 2022 sobre testosterona subcutânea aponta: ela é difícil de aplicar sozinho e incomoda. Na subcutânea, a agulha é menor, a dor costuma ser menor e não existe o risco de atingir o nervo ciático, que passa pelo glúteo. Antes de aplicar testosterona sozinho, vale conhecer o que mais essa decisão exige.
Seringa de insulina: dá para usar?
A busca seguinte foi por uma agulha menor. Nas clínicas de troca de seringas do Reino Unido, feitas para usuários de heroína, as agulhas eram escolhidas pela cor do canhão: verde era a maior, depois vinha a azul, e a laranja era a menor. A seringa grande, que entra no deltoide ou no bíceps como um arpão, ficou descartada de vez.
Depois veio a seringa de insulina, e outro problema. Puxar o óleo do frasco com a agulha fininha dela é quase impossível, ainda mais com óleos grossos como o de rícino. A saída foi o backload: puxar o óleo com outra seringa e passá-lo para a de insulina por trás, pela abertura do êmbolo. A aplicação ficava lenta, e o truque final foi aquecer a seringa carregada por cerca de cinco minutos debaixo do braço antes de aplicar.
O óleo é o veículo da testosterona injetável: gergelim, semente de chá, rícino ou algodão, com um pouco de álcool benzílico. A grossura do óleo, o volume e o local mudam a velocidade com que o hormônio sai do depósito. Nos estudos de testosterona subcutânea, a aplicação foi feita com seringa de 1 mL com rosca, que evita que a agulha se solte com a pressão do óleo grosso. A agulha tinha calibre de 20 a 25G (quanto maior o número, mais fina a agulha) e cerca de 16 mm. Os autores da revisão de 2022 usam 23G sem dificuldade.
A seringa de insulina também já foi testada. Num estudo canadense publicado em 2006, 22 homens com testosterona baixa aplicaram doses semanais pequenas de enantato com seringa de insulina de 0,5 mL. Todos ficaram com a testosterona na faixa normal, aplicaram com facilidade e ninguém teve reação no local. O backload não aparece em nenhum desses estudos. Outra dúvida comum é se dá para misturar dois anabolizantes na mesma seringa.
A testosterona na gordura chega ao sangue
Os colegas de academia garantiam que a subcutânea não funcionava para anabolizante, porque todo frasco diz “uso intramuscular”. Mesmo assim, testosterona e boldenona foram para a gordura, e o efeito apareceu. Depois de três ou quatro meses, o exame de sangue mostrou níveis como os de quem aplicava no músculo.
Para a testosterona, os estudos confirmam o exame. Num ensaio com 39 homens, 50 e 100 mg de enantato por semana na subcutânea levaram a médias de 422 e 895 ng/dL, proporcionais à dose (a faixa de referência usada nesses estudos vai de 300 a 1.100 ng/dL). Num estudo de um ano com 150 homens, 92,7% estavam dentro dessa faixa na 12ª semana, com doses de 50 a 100 mg por semana, e mais de 95% disseram que a aplicação não doía. Em 63 homens trans, doses de 50 a 150 mg de cipionato ou enantato colocaram todos na faixa masculina normal. Em 36 jovens trans, com média de 46 mg de cipionato por semana, 91,4% chegaram lá.
O nível também fica estável entre uma aplicação e outra. Em 11 pacientes com aplicação semanal, a testosterona ficou em média em 627 ng/dL nas oito dosagens da semana. A revisão de 2022 resume: com doses parecidas, a subcutânea chega aos mesmos níveis médios da intramuscular, mas os dados ainda são limitados. Os ésteres estudados (a “cauda” presa à testosterona que define quanto tempo ela dura) foram o enantato, o cipionato, que é o do Deposteron®, e o undecilato. Nenhum estudo encontrado testou o Durateston®, mistura de quatro ésteres, nem a boldenona na subcutânea.
O “uso intramuscular” do frasco tem exceção. Nos Estados Unidos, o Xyosted® é um enantato de testosterona aprovado para aplicação subcutânea, num autoinjetor de 0,5 mL com 50, 75 ou 100 mg, só no abdômen e uma vez por semana. Ele não tem registro na Anvisa. As testosteronas injetáveis registradas no Brasil são o cipionato (Deposteron® e outros), o undecilato (Nebido® e outros) e o Durateston®. Vale ler a comparação do Xyosted® com Deposteron® e Durateston®.
Quem tem mais gordura absorve mais devagar?
Há quem diga que, em quem é muito gordo, o hormônio aplicado na gordura demora mais para se espalhar pelo corpo. Na TRT, isso seria até bom, porque a ideia é que a testosterona entre devagar. E, conforme a pessoa emagrece, o efeito continuaria o mesmo, porque o corpo já estaria acostumado a receber o hormônio por essa via.
O estudo com 63 homens trans não mediu a velocidade de absorção, mas mostra que a gordura extra não atrapalhou o resultado. A subcutânea funcionou de um índice de massa corporal (IMC) de 19 a 49,9, e a dose necessária para chegar à faixa normal não mudou com o IMC. Segundo a revisão de 2022, o que deixa a absorção mais estável é a irrigação: a gordura tem menos vasos que o músculo, e o fluxo de sangue e de linfa ali quase não muda quando a pessoa treina. No músculo, a contração acelera a drenagem, e a absorção varia mais.
Essa estabilidade pode aparecer no exame de sangue. Num estudo com 234 homens em TRT, 100 mg por semana de cipionato no músculo e 100 mg de enantato na subcutânea, por autoinjetor, subiram a testosterona da mesma forma. O grupo da subcutânea ficou com estradiol menor e com hematócrito (a proporção de glóbulos vermelhos no sangue) menor. Como o estudo comparou ésteres e aplicadores diferentes, a via sozinha pode não explicar a diferença.
Subcutânea nunca dá infecção?
A promessa mais forte é a de que a subcutânea acaba com o problema. Desde a troca, nenhum abscesso, inchaço, dor depois da aplicação ou infecção, nem nos clientes da consultoria. Pela pesquisa médica, pegar infecção na subcutânea seria “muito raro, quase impossível”. O exemplo dado é que daria até para deixar a agulha cair, pegar de volta e aplicar, seguido do aviso: “não façam isso”.
Nos estudos com remédio de farmácia, a infecção foi de fato rara, mas aconteceu. No estudo dos 63 homens trans, treinados por enfermeira, houve 1 celulite, uma infecção da pele que melhorou sozinha. As outras reações não foram infecção: 4 pessoas tiveram nódulos pequenos que sumiram em dois dias, 2 tiveram urticária e 2, inflamação passageira. No estudo de um ano com 150 homens, foram 31 casos de vermelhidão, 11 de endurecimento e 11 de hematoma no local. As reações foram leves, mas contrariam o “nunca inchaço nem dor”.
Entre usuários de anabolizantes, que aplicam fora de estudo e muitas vezes com produto de origem incerta, os números são maiores. Num levantamento com 366 homens na Inglaterra e no País de Gales, 42% já tinham tido vermelhidão, inchaço e dor no local da injeção, e 6,8% já tinham tido abscesso ou ferida aberta. Esse levantamento não separa a via, e nesse perfil a maioria aplica no músculo: num estudo parecido, 88% injetavam no músculo e 39% na subcutânea. Um relato de caso de 1999, que resume as infecções já descritas com anabolizante injetável, liga os abscessos sobretudo a técnica não estéril e a material compartilhado. Um caroço depois da aplicação merece atenção, porque estar duro não descarta abscesso.
Por que 0,5 mL por ponto
A regra prática é não passar de 0,5 mL de óleo por ponto de aplicação na subcutânea, com tolerância até 0,6 mL. O motivo tem duas partes. A agulha da seringa de insulina é curta e, em geral, fica na gordura, mas em quem tem pele fina e pouca gordura ela pode chegar ao músculo ou bem perto dele. E acima de 0,5 mL haveria líquido demais logo abaixo da pele, seja a pessoa gorda ou magra.
As medidas por ultrassom confirmam a primeira parte. A pele tem cerca de 2 mm, e a gordura embaixo dela tem em média cerca de 10 a 11 mm no braço e na coxa, 14 mm no abdômen e 15 mm na nádega, com 5 mm a mais nas mulheres. Agulhas de 8 mm ou mais, entrando retas, podem atingir o músculo nos braços e nas coxas de homens e de quem tem IMC abaixo de 25. As de 4 a 5 mm ficam na gordura em quase todo mundo, e a agulha mais curta de seringa de insulina tem 6 mm. Esses estudos de testosterona não informam o ângulo usado com as agulhas de 16 mm.
O limite de 0,5 mL não vem de estudo, mas é o volume da dose do Xyosted®. Quando um estudo aplicou 4 mL de undecilato na gordura do abdômen, a dor 24 horas depois foi maior do que no músculo, e 11 de 20 pacientes preferiram a intramuscular.
Ciclo pesado dividido em várias aplicações
Em ciclos de dose alta, aplicar 2,5 mL de uma vez no músculo é mais fácil. Mesmo assim, a preferência é dividir um ciclo de 5 mL por semana em várias aplicações de 0,5 mL pelo corpo, porque o risco de colocar tanto óleo num ponto só não compensaria. A recomendação vem com a ressalva de que a ideia não é incentivar ciclos altos.
Volume grande de óleo no músculo tem um risco conhecido. Com o undecilato, aplicado em 3 a 4 mL, parte do óleo pode cair na circulação e chegar ao pulmão (a microembolia oleosa pulmonar), o que causa tosse logo após a injeção. É rara: uma revisão de dados de venda contou 223 casos em mais de 3,1 milhões de aplicações, quase todos resolvidos sozinhos em até uma hora. A revisão de 2022 sugere que a subcutânea, por ter menos vasos, poderia diminuir esse risco.
Dividir a dose muda o volume por ponto, e não a quantidade de hormônio que chega ao corpo. Os estudos de testosterona subcutânea usaram doses de reposição, de cerca de 25 a 150 mg por semana. Mesmo nessas doses, o estudo de um ano viu hematócrito alto, pressão alta e PSA (exame da próstata) alto, com 30 de 150 homens parando o tratamento. A bula do Xyosted® traz alerta de aumento de pressão. Com as doses de um ciclo, esses efeitos dependem da quantidade de hormônio, qualquer que seja a agulha. Para agulha, frasco e ampola, veja o que a injeção de testosterona pede de cuidado.
Conclusão
A subcutânea com seringa de insulina, 0,5 mL por ponto, é apresentada como o jeito mais seguro de aplicar testosterona e anabolizantes. Para a testosterona em dose de reposição, os estudos, ainda limitados, dão razão a boa parte disso: ela chega ao sangue nos mesmos níveis, fica estável, dói menos, é mais fácil de aplicar sozinho depois de treino e não arrisca o nervo ciático. O volume de 0,5 mL é o mesmo do produto aprovado nos Estados Unidos.
O que não se sustenta é a promessa de nunca mais se preocupar com infecção ou dor. Reação no local acontece até em estudo com remédio de farmácia, infecção é rara mas existe, e o abscesso entre usuários de anabolizantes está ligado sobretudo à técnica e ao material. Também não há estudo com as doses de um ciclo. O que mais protege é agulha e seringa novas a cada aplicação, frasco sem compartilhar e produto de origem conhecida. Testosterona, em qualquer via, exige exame de sangue e acompanhamento médico.
Perguntas frequentes
Pode aplicar testosterona subcutânea?
Pode. A via foi estudada em reposição hormonal com enantato, cipionato e undecilato, em doses semanais de cerca de 25 a 150 mg dos dois primeiros, aplicadas no abdômen ou na coxa. Os estudos treinaram os pacientes antes de aplicarem sozinhos e acompanharam a testosterona no exame de sangue.
Testosterona subcutânea funciona?
Funciona para subir a testosterona. Num estudo com 150 homens, 92,7% chegaram à faixa de 300 a 1.100 ng/dL na 12ª semana com aplicação semanal. Nenhum estudo comparou ganho de músculo entre as vias. O que se mediu foi o nível no sangue, parecido com o da intramuscular na mesma dose.
Qual testosterona pode ser aplicada na subcutânea?
Enantato e cipionato (o éster do Deposteron®) são os mais estudados. O undecilato só foi testado em 4 mL, com mais dor no dia seguinte e a maioria preferindo o músculo. O Durateston® não foi testado. Um produto feito para a via é o Xyosted®, autoinjetor vendido nos Estados Unidos, sem registro na Anvisa.
Pode usar seringa de insulina para aplicar testosterona?
Já foi usada em estudo. Em 2006, 22 homens aplicaram enantato na subcutânea com seringa de insulina de 0,5 mL, e todos ficaram na faixa normal, sem reação no local. Os estudos mais recentes usaram seringa de 1 mL com rosca e agulha de 20 a 25G.
Qual agulha usar na testosterona subcutânea?
Com seringa comum, os estudos usaram agulhas de 20 a 25G com cerca de 16 mm, e o autoinjetor dos estudos de enantato usa 27G. Em pessoas magras, agulhas de 8 mm ou mais, entrando retas, podem chegar ao músculo do braço e da coxa. A gordura do abdômen costuma ser mais grossa.
Onde aplicar a testosterona subcutânea?
No abdômen, de 3 a 5 cm ao lado do umbigo, ou na gordura da coxa, que são os locais usados nos estudos. O Xyosted® é aprovado só para o abdômen. A revisão de 2022 recomenda que todo paciente seja treinado por um profissional de saúde antes de aplicar sozinho.
O que acontece se aplicar testosterona subcutânea?
O hormônio sai devagar da gordura e chega ao sangue em níveis parecidos com os da aplicação no músculo, mais estáveis ao longo da semana. No local, podem aparecer vermelhidão, nódulo, endurecimento ou hematoma, em geral leves e passageiros.
Qual a diferença entre injeção intramuscular e subcutânea?
É a profundidade. A intramuscular atravessa a pele e a gordura e deposita o remédio dentro do músculo, com agulha mais longa. A subcutânea para na camada de gordura, com agulha curta. Como a gordura tem menos vasos, o remédio sai de forma mais lenta e regular.
Testosterona subcutânea tem efeitos colaterais?
Tem os efeitos da testosterona, já que o nível no sangue é parecido. No estudo de um ano com 150 homens, os mais comuns foram hematócrito alto, pressão alta e PSA alto, e 30 pararam o tratamento por causa deles. Num estudo com 234 homens, a subcutânea teve hematócrito e estradiol menores que a intramuscular, com ésteres diferentes.
Testosterona subcutânea serve para quê?
Para tratar a testosterona baixa (hipogonadismo) e para a hormonização de homens trans, que são as indicações estudadas. É uma forma de fazer a reposição (TRT) com aplicação mais fácil e menos dolorosa que a intramuscular.
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