Sete meses depois de começar a treinar musculação de verdade, Alex dos Anjos já estava num palco. Entrou com 78 kg, terminou em quinto entre 12 atletas e ficou uma posição à frente de um veterano que treinava havia 15 anos. O resultado não virou atalho. Abriu uma carreira marcada por genética rara, treino básico, erros de preparação, punições esportivas, cirurgia na coluna e uma ausência que ainda pesa: ele nunca chegou ao Mr. Olympia.
Em "Os Honoráveis - Episódio #4 Alex dos Anjos", do canal Alessandro Valentim, quatro pessoas participam da conversa. Para não misturar opiniões, esta matéria usa como relato de Alex apenas respostas dirigidas a ele, passagens em primeira pessoa e blocos cuja continuidade deixa o autor identificável. Comentários de Alessandro Valentim, Renato Ventura e Samuel Vieira não foram convertidos em declarações do atleta.
O corpo começou no esporte, antes da academia
Alex atribui parte importante de sua resposta muscular à família. A mãe e o pai já exibiam musculatura incomum sem rotina de academia. Segundo ele, as costas da mãe ainda mostravam separações musculares aos 70 e poucos anos, embora ela nunca tivesse treinado musculação.
A genética, porém, encontrou um corpo que já vinha do esporte. Antes do fisiculturismo, ele passou por atletismo, prova de 100 metros, handebol e futsal. A musculação séria começou apenas aos 23 anos, em 9 de novembro de 2000. Um mês depois, a manga de um quimono novo que chegava ao punho já parava no meio do antebraço.
Alex também recorda ter começado o supino com cerca de 30 kg de cada lado. O número é um relato pessoal, não um teste padronizado, mas ajuda a dimensionar por que treinadores perceberam rapidamente que havia ali uma resposta fora da curva.
Sete meses de treino, uma semana de dieta e o primeiro palco
A estreia aconteceu após apenas sete meses de musculação. Alex havia começado perto de 80 kg, chegou a aproximadamente 83 kg durante o período e subiu ao palco com 78 kg. A preparação alimentar durou uma semana.
Marco | Dado relatado por Alex |
|---|---|
Início da musculação | 9 de novembro de 2000, aos 23 anos |
Primeira competição | Após 7 meses de treino |
Dieta para a estreia | 1 semana |
Peso antes da preparação | Cerca de 83 kg |
Peso no palco | 78 kg |
Resultado | 5º lugar entre 12 atletas |
Fernando Sardinha ficou em segundo naquela disputa. O detalhe que fixou a convicção de Alex foi ver um homem que treinava havia cerca de 15 anos terminar em sexto, logo atrás dele. A genética havia acelerado o começo, mas ainda faltavam estrutura, conhecimento e anos de maturidade muscular.
O erro de 2008: retirar todo o sal e perder o físico
O episódio mais concreto sobre preparação ocorreu no Brasileiro de 2008. Alex havia sido campeão brasileiro em 2007 e tentou aprimorar a finalização eliminando completamente o sal. O frango era cozido duas vezes, o arroz integral saía sem sal e a dieta ficou cada vez mais restritiva.
O resultado foi o oposto do esperado. Ele perdeu volume muscular, reteve água sob a pele e não conseguiu recuperar o aspecto cheio com a recarga de batata. Terminou em quarto e chorou depois da competição.
Na semana seguinte, voltou a comer normalmente. Houve lasanha e vinho no domingo, depois arroz, feijão e comida cotidiana. O físico respondeu com mais volume e aparência mais seca. O relato não prova que lasanha ou vinho sejam técnicas de finalização. Mostra que uma intervenção extrema, aplicada sem domínio do mecanismo, pode destruir em poucos dias o visual construído durante meses.
Retirar sódio indiscriminadamente não garante menos água sob a pele. Sódio, ingestão de água, carboidrato, glicogênio, estresse e resposta renal interagem. Copiar a restrição feita por outro atleta sem conhecer contexto, exames e cronograma é transformar palco em experimento.
Mais recursos não substituem treino, comida e ambiente
Alex afirma ter começado a usar recursos farmacológicos depois de dois anos de treino, pressionado pela ideia de que ficaria para trás. Ele descreve uma fase com mais comprimidos, poucos injetáveis e baixo volume de aplicação, próximo de 1 mL. Também diz que só usou GH pela primeira vez em 2011.
Essas informações não formam um protocolo hormonal. O volume de 1 mL não revela dose. Para converter mililitros em miligramas seria necessário conhecer substância, concentração em mg/mL, frequência, duração e combinação com outros compostos. Nada disso aparece de forma completa. Portanto, não é possível reconstruir ciclo, calcular dose semanal nem apresentar o relato como recomendação.
A lição prática de Alex é outra: a estrutura da academia, a qualidade do treino, a alimentação e o descanso tiveram mais peso em sua evolução do que simplesmente acrescentar substâncias. Ele critica a inversão comum de treinar com menos intensidade, flexibilizar cada vez mais a dieta e tentar compensar com mais fármacos. Para ele, o recurso farmacológico é a cereja, não o bolo.
O treino que construiu sua densidade muscular era básico, pesado e baseado em pesos livres. O crescimento não veio em semanas. Alex descreve um acúmulo lento, grão por grão, até que o físico adquirisse maturidade.
A coluna obrigou a trocar exercícios, não a abandonar o treino
Depois de lesão e cirurgia na coluna, alguns movimentos deixaram a rotina regular. Agachamento livre, remada curvada e levantamento terra saíram porque exigiam sustentação lombar que o corpo já não tolerava da mesma forma.
As substituições são concretas:
leg press e cadeira extensora continuam no treino de pernas
supinos, exercícios de ombro e puxadas permanecem possíveis
rosca para bíceps passou a ser feita sentado, reduzindo a exigência de estabilização lombar
glúteos e posteriores de coxa continuam recebendo trabalho específico
o agachamento frontal com halter provocou dor e foi substituído pelo agachamento sumô, executado sem o mesmo desconforto
levantamento terra muito leve e hiperextensão lombar com anilha aparecem apenas ocasionalmente
Isso não transforma a lista em prescrição para quem tem dor lombar. A utilidade está no princípio: após uma lesão importante, preservar o padrão que não dói pode ser mais inteligente do que insistir no exercício que virou símbolo de identidade.
103 kg agora, 110 kg como meta e um palco perto de 100 kg
Na fase atual, Alex relata estar com 103 kg. O plano é chegar a aproximadamente 110 kg antes de voltar a reduzir, com a expectativa de competir entre 98 e 100 kg.
A divisão 212, cujo limite é cerca de 96,2 kg, cobra uma redução que prejudica principalmente suas pernas. Por isso, ele considera a possibilidade de competir na Masters Pro ou em uma categoria sem o mesmo corte de peso. Não é uma promessa de retorno. É a maneira como ele tenta compatibilizar o corpo atual, a idade, as limitações e a vontade de voltar ao palco.
As punições que interromperam a rota para o Olympia
Alex conta que apareceu em um evento de outra federação para distribuir suplementos, tirou a camisa e posou. Três semanas antes do Arnold Ohio, recebeu a notícia de que estava punido por um ano e não poderia competir.
Quando a suspensão terminou, preparou-se em cerca de um mês. A primeira semana foi extrema, seguida por recarga de carboidratos. Venceu categoria e overall em Minas Gerais e repetiu categoria e overall no Brasileiro de Ribeirão Preto.
Depois, um controle antidoping no Mundial realizado em Brasília gerou nova suspensão, agora de dois anos e meio. Outra hérnia exigiu cirurgia. Somadas as interrupções, ele calcula aproximadamente três anos longe do percurso competitivo.
É nesse ponto que aparece o maior arrependimento esportivo. Alex acredita que, sem a lesão de 2003 e as interrupções seguintes, poderia ter chegado ao Mr. Olympia. Foi campeão brasileiro e vice-campeão do Mr. Universo, mas nunca pisou no palco que inspirou seu começo ao assistir Ronnie Coleman.
A rotina nos Estados Unidos ainda começa antes do amanhecer
Hoje ele vive em Orlando e trabalha como personal trainer. Acorda por volta das 4h20, chega à academia às 6h e retorna para casa aproximadamente às 21h30. Leva as refeições e atende sessões de uma hora em sequência.
A rotina ajuda a corrigir uma leitura confortável da carreira: o físico não foi mantido por inspiração episódica. Mesmo depois de títulos, cirurgia e mudança de país, o cotidiano continua organizado em torno de horário, comida preparada, atendimento e treino.
A recusa em fazer qualquer coisa por alcance
Alex diz que não aceita produzir conteúdo fora de seus valores apenas para atingir um milhão de seguidores. Prefere uma audiência menor e fiel a transformar a própria imagem em personagem viral.
Essa escolha tem custo comercial, mas também funciona como filtro. Para alguém cuja carreira já foi atravessada por pressão competitiva, punições e necessidade de provar valor, recusar a próxima performance vazia pode ser uma forma de preservar identidade.
Depressão, crise e o pedido de ajuda
O trecho mais delicado da trajetória não envolve colocação nem carga. Alex relata episódios graves de depressão e crises suicidas. Em momentos de risco, a esposa Fabiana interveio e permaneceu ao lado dele durante cirurgia, recuperação e retorno ao treino. Ele também afirma fazer acompanhamento com psicólogo.
A lição que ele retira não é motivacional. É prática: pedir perdão e pedir ajuda não são sinais de fraqueza. Também aconselha demonstrar afeto antes que a pessoa saia de casa, porque o arrependimento de não ter dito ou feito algo pode permanecer quando já não existe oportunidade de reparar.
Se houver pensamento de suicídio ou risco imediato, não deixe a pessoa sozinha. O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188. CAPS e unidades básicas de saúde podem iniciar o cuidado. Em tentativa em curso ou emergência, ligue para o SAMU 192 ou procure UPA e pronto-socorro.
Conclusão
A carreira de Alex dos Anjos não cabe na frase “boa genética”. A genética aparece no começo veloz, mas não explica a dieta errada de 2008, a decisão de mudar de ambiente, os anos interrompidos, a cirurgia, as substituições no treino, a rotina de 17 horas fora de casa nem a disposição de procurar ajuda psicológica.
O que permanece é uma combinação menos glamourosa e mais útil: estrutura, repetição, adaptação e tempo. Sete meses bastaram para entrar no primeiro campeonato. Não bastaram para construir a carreira. Essa exigiu décadas.
FAQ
Quanto tempo Alex dos Anjos treinou antes da primeira competição?
Ele relata ter competido após sete meses de musculação. Fez uma semana de dieta, entrou com 78 kg e terminou em quinto entre 12 atletas.
Qual foi o erro de preparação que ele cometeu em 2008?
Alex retirou completamente o sal, passou a comer frango cozido duas vezes e arroz integral sem sal, perdeu volume muscular e reteve água sob a pele. Terminou em quarto no Brasileiro.
Alex revelou seu ciclo de esteroides?
Não. Ele citou início após dois anos de treino, predominância de comprimidos, poucos injetáveis, cerca de 1 mL de volume e primeiro uso de GH em 2011. Sem substância, concentração, frequência e duração, não existe dose semanal calculável nem protocolo reproduzível.
Quais exercícios ele retirou após a cirurgia na coluna?
Agachamento livre, remada curvada e levantamento terra deixaram a rotina habitual. Ele manteve exercícios tolerados e adaptou outros, como rosca sentada e agachamento sumô.
Qual é a meta de peso atual?
Partindo de 103 kg, Alex pretende chegar perto de 110 kg e depois avaliar um retorno ao palco entre 98 e 100 kg, possivelmente na Masters Pro ou em categoria sem o corte da 212.
Onde buscar ajuda em uma crise suicida?
O CVV atende gratuitamente pelo 188. CAPS e unidades básicas de saúde oferecem cuidado. Em risco imediato ou tentativa em curso, ligue para o SAMU 192 ou procure UPA e pronto-socorro.
Referências
VALENTIM, Alessandro. Os Honoráveis - Episódio #4 Alex dos Anjos. [S. l.], 7 dez. 2025. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vH75kB8bGwE. Acesso em: 22 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Suicídio: prevenção. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao. Acesso em: 22 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/samu-192. Acesso em: 22 ago. 2026.
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