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Imagem sintética e meramente ilustrativa. Não é uma foto real.

José Alvarenga: de 103 kg ao palco e por que desistiu do fisiculturismo

De 103 kg ao palco, com três colocações na estreia, crises às 3h30 e cardio em dobro: a trajetória que levou José Alvarenga a parar.

O melhor físico de sua vida veio acompanhado de uma rotina que já não parecia vida. Houve dias com 1 hora e 20 minutos de cardio pela manhã, musculação e uma segunda sessão aeróbica depois do treino. Faltavam carboidratos, energia para trabalhar e espaço para conviver com amigos. Em “A VERDADE POR TRÁS DE EU DESISTIR DO FISICULTURISMO...”, José Alvarenga reconstrói a própria passagem de 103 kg ao palco e explica por que duas competições bastaram.

A história não termina em derrota nem em arrependimento. Ela começa com baixa autoestima, passa por uma transformação física radical, inclui resultados expressivos logo na estreia e chega a uma escolha consciente: manter saúde, trabalho e vida social pesou mais do que insistir em um projeto que exigia abdicações que ele já não queria fazer.

De 103 kg a 76 kg depois de dois exames de testosterona

Em 2020, o ponto de partida combinava ganho de gordura, falta de libido e autoestima tão baixa que ele evitava ser fotografado. O peso chegou a 103 kg. A investigação médica começou com um exame de testosterona por volta de 100 e um segundo resultado de 60, valores relatados sem unidade. Depois da repetição do teste, recebeu prescrição de Deposteron e iniciou reposição de testosterona, academia, cardio e mudança de hábitos alimentares.

Esse detalhe clínico exige precisão. Diretrizes da Endocrine Society recomendam que o diagnóstico de hipogonadismo seja feito apenas quando existem sintomas compatíveis e concentrações de testosterona inequivocamente baixas em duas coletas matinais, além de avaliação da causa. O relato contém os sintomas e dois exames, mas não informa horário, unidade, método laboratorial nem investigação etiológica. Portanto, ele descreve uma decisão tomada por seu médico, não um protocolo que possa ser reproduzido por outra pessoa.

A primeira grande transformação terminou em 76 kg. Ele afirma ter perdido 23 kg, mas os dois pesos citados, 103 kg e 76 kg, produzem uma diferença aritmética de 27 kg. Sem registros completos, não é possível saber se um dos pesos foi arredondado, se as medições pertenciam a datas diferentes ou se houve um lapso na fala. O resultado visual devolveu autoestima e atraiu mais de 1 milhão de visualizações para a publicação em que mostrou a mudança.

76 kg, uma escada na pandemia e a primeira finalização

O projeto competitivo começou no início de 2021, com acompanhamento de Manu, treinador que o guiaria até o primeiro palco. Durante a pandemia, o cardio era feito subindo e descendo escadas em casa. Em Trancoso, na Bahia, o abdômen já aparecia. Depois da mudança para Salvador, veio a primeira simulação de finalização, com redução de gordura, treino de poses e uma carga de carboidratos para observar como o corpo responderia.

Na manhã daquela finalização ele pesava 76 kg, com abdômen profundo, veias aparentes e pouca massa muscular para o padrão da Classic Physique. Pernas e posteriores já apareciam como pontos fortes. Braços, costas e execução das poses ainda estavam atrás. O primeiro período de ganho de massa levou o peso a cerca de 88 kg sem retenção excessiva, seguido por novo cutting e outra simulação na casa do treinador, em Curitiba.

A tentativa serviu também para errar antes do palco. Uma tinta comprada pela internet deixou a pele escura e irregular, enquanto a estratégia de finalização reduziu a plenitude muscular. As fotos sem tinta pareciam melhores. Em vez de esconder o teste ruim, ele o manteve como registro do que não repetir.

O braço chegou a 47 ou 48 cm antes da estreia

O ganho de massa seguinte produziu o maior braço que ele diz ter alcançado, entre 47 e 48 cm. A foto feita no elevador marcou o auge desse período. Depois veio o corte para competir de verdade, com redução progressiva do volume do braço, treino de vácuo abdominal e contratação de um professor de poses.

A evolução do posing foi tão importante quanto a mudança corporal. A base das pernas ficou mais aberta, o sartório passou a aparecer, a cintura ganhou aparência afunilada e os quartos de volta ficaram mais simétricos. Um dia antes da estreia, em Itajaí, treinador e atleta ajustavam refeição e água passo a passo. Depois de cada refeição, ele posava para decidir quanto ainda deveria comer e beber.

No palco, a dificuldade foi sustentar o vácuo depois de comer. Posar por dez segundos já era exaustivo, e a cintura não ficou tão estreita quanto nos treinos. Mesmo assim, a estreia de 2022 rendeu três colocações: segundo lugar na Novice, terceiro entre estreantes e quarto na Open. Naquele confronto ele ficou à frente de Mateus Menegate, que anos depois chegaria ao top 7 mundial, e perdeu a Novice para um atleta chamado Giovani.

Chorar por um pão não era falta de disciplina

As fotos de palco escondiam o que decidiu a carreira. Dieta restritiva, muito treino e cardio prolongado produziram lentidão cognitiva, letargia, ansiedade e episódios depressivos. Em um momento, ele chorou depois de comer um pão. Em outro, ligou para o treinador às 3h30 durante uma crise de ansiedade porque precisava conversar com alguém.

A relação com comida tornava o corte ainda mais difícil. Em uma transmissão anterior, ele havia comido dez Big Macs de uma vez. Conseguir comer muito não ajudava quando o objetivo exigia fazer exatamente o contrário. Próximo da competição, a manhã podia começar com 1 hora e 20 minutos de cardio, seguida por dieta com quase nenhum carboidrato, musculação e mais cardio depois do treino.

O quadro é coerente com o que já foi observado em atletas de fisiculturismo, embora a experiência de uma pessoa não permita diagnosticar outra. Um estudo de caso com um fisiculturista natural acompanhou aumento acentuado da perturbação de humor, queda de testosterona e redução de força durante seis meses de preparação. O consenso do Comitê Olímpico Internacional sobre deficiência relativa de energia no esporte também reconhece que baixa disponibilidade energética prolongada pode prejudicar funções psicológicas, metabólicas, reprodutivas e cardiovasculares em homens e mulheres.

O corpo melhorava enquanto a vida encolhia

A preparação exigia recusar encontros, bebida e refeições com amigos. Trabalhando com gravações de comida e morando com pessoas que saíam para comer, ele permanecia com a própria marmita. Não havia energia para passear, socializar ou aproveitar o físico que estava construindo. Algumas das melhores fotos ficaram guardadas justamente como lembrete dessa contradição.

O retorno financeiro era praticamente inexistente. Subir no palco aumentava a credibilidade de quem trabalhava como influenciador do segmento, mas não pagava diretamente pelo esforço. A combinação entre isolamento, sofrimento mental, uso de hormônios e ausência de remuneração transformou a preparação em um projeto difícil de justificar fora da imagem.

Isso não apaga o orgulho. Chegar ao palco e apresentar um físico competitivo foi tratado como vitória mesmo sem primeiro lugar. O limite apareceu quando a conquista passou a exigir uma vida inteira organizada em torno de treino, comida e cardio.

106 kg antes da segunda competição

Em 2023, ele decidiu competir novamente porque o evento cairia em seu aniversário. No período de ganho de massa chegou a 106 kg, com aparência que descreve como grande e retida. Depois do cutting, considerou aquele o melhor equilíbrio entre volume e definição de sua trajetória, especialmente nas fotos com cintura estreita, dorsal aberta e separação das pernas.

Uma semana antes do campeonato, já em Santa Catarina, começou a vomitar, não conseguia segurar comida e passou dias tentando se recuperar. Na reta final, o treinador ficou sem internet e a comunicação falhou. Sem o acompanhamento presencial que havia funcionado na estreia, ele subiu flat, com musculatura menos cheia do que pretendia.

A organização juntou atletas de alturas diferentes na categoria amadora, segundo o relato, colocando-o diante de competidores muito mais pesados. Ele subiu uma vez, não avançou à final e foi avisado de que poderia ir embora. Pagou R$ 700 por fotos e filmagens que diz nunca ter recebido. A última competição aconteceu em 3 de setembro de 2023, exatamente no aniversário dele.

Duas competições, três anos e uma escolha de vida

O encerramento da carreira competitiva não veio de uma única derrota. Foi a soma de restrição alimentar, cardio, crises emocionais, perda de vida social, uso de doses suprafisiológicas de hormônios, retorno financeiro baixo e uma segunda experiência de palco frustrante. Ele calcula que mais dois, três ou quatro períodos de ganho e corte poderiam ter produzido um físico realmente competitivo em 2026. Preferiu não pagar esse preço.

Hoje relata fazer exames a cada três meses e manter testosterona que varia entre 1.000, 1.200 e 1.500, conforme o momento da coleta. Ele próprio questiona se uma estratégia levemente suprafisiológica pode ser chamada de reposição. A ressalva é correta. Reposição busca níveis fisiológicos sob indicação médica. Valores isolados não demonstram segurança, e exames de fígado e rim dentro da faixa não excluem efeitos cardiovasculares, reprodutivos ou psiquiátricos dos esteroides anabolizantes.

Revisões médicas associam o uso crônico e suprafisiológico de esteroides a alterações de pressão, colesterol, coagulação, estrutura cardíaca, função do coração, fígado e rins. O risco depende de substância, dose, duração e características individuais. Acompanhamento reduz incerteza, mas não transforma uso supraterapêutico em prática sem risco.

A porta para um retorno não foi fechada por completo. Com rotina mais tranquila, ele admite que poderia pensar em subir outra vez. No presente, porém, considera mais valioso manter bom físico, saúde monitorada, trabalho, relacionamento e convivência social. A decisão não é abandonar a musculação. É recusar que o palco volte a ocupar tudo.

Conclusão

A transformação de 103 kg até a estreia mostra disciplina, resposta física e capacidade de aprender. Os resultados de segundo, terceiro e quarto lugares logo na primeira competição confirmam que havia potencial. O que encerrou a trajetória foi perceber que potencial não cria obrigação.

O dado mais importante não está no peso, no braço de 48 cm nem na colocação. Está na ligação feita às 3h30 durante uma crise de ansiedade e na manhã com 1 hora e 20 minutos de cardio antes de todo o restante. Um físico de palco pode ser uma conquista legítima. Quando ele passa a consumir saúde mental, vínculos e trabalho, desistir também pode ser uma decisão de desempenho: escolher uma vida que continue funcionando fora da competição.

FAQ

Quanto peso José Alvarenga perdeu na primeira transformação?

Ele afirma ter perdido 23 kg, mas também diz que saiu de 103 kg para 76 kg, diferença de 27 kg. Como os números entram em conflito, o correto é registrar os pesos e a perda declarada sem escolher arbitrariamente um deles.

Quando ele começou a se preparar para competir?

O trabalho competitivo começou no início de 2021. A primeira competição ocorreu em 2022, depois de ciclos de ganho de massa, cutting, simulações de finalização e treino específico de poses.

Quais foram as colocações na estreia?

Segundo lugar na Novice, terceiro entre estreantes e quarto na Open. Na mesma competição, ele ficou à frente de Mateus Menegate.

Por que ele desistiu do fisiculturismo competitivo?

Pela soma de dieta extrema, cardio prolongado, isolamento social, letargia, crises de ansiedade, episódios depressivos, uso de hormônios e retorno financeiro praticamente inexistente. A segunda competição também terminou sem vaga na final e sem o material audiovisual pelo qual havia pago.

Qual foi o maior peso alcançado durante a fase competitiva?

Ele relata 106 kg no período de ganho de massa antes da segunda competição, em 2023. Antes disso, o primeiro ganho havia chegado a cerca de 88 kg.

Ele pretende competir novamente?

Não descarta completamente a possibilidade, mas afirma que hoje está satisfeito com o físico, a saúde monitorada, o trabalho e a vida social. No momento, voltar ao palco não é prioridade.

Referências

  1. ALVARENGA CULTURISMO. A VERDADE POR TRÁS DE EU DESISTIR DO FISICULTURISMO... YouTube, 30 ago. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZGJT2iYhC_o. Acesso em: 9 set. 2026.

  2. BROOKS, K. A. et al. Biopsychosocial effects of competition preparation in natural bodybuilders. The Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34401005/. Acesso em: 9 set. 2026.

  3. MOUNTJOY, M. et al. 2023 International Olympic Committee’s consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). British Journal of Sports Medicine, v. 57, p. 1073-1097, 2023. Disponível em: https://bjsm.bmj.com/content/57/17/1073. Acesso em: 9 set. 2026.

  4. BHASIN, S. et al. Testosterone therapy in men with hypogonadism: an Endocrine Society clinical practice guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 103, n. 5, p. 1715-1744, 2018. Disponível em: https://academic.oup.com/jcem/article/103/5/1715/4939465. Acesso em: 9 set. 2026.

  5. NIESCHLAG, E.; VORONA, E. Doping with anabolic androgenic steroids (AAS): adverse effects on non-reproductive organs and functions. Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders, v. 16, n. 3, p. 199-211, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26373946/. Acesso em: 9 set. 2026.

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