A maior empresa de carne do mundo abriu em Florianópolis um centro de pesquisa capaz de fazer carne sem boi. Carne sem boi, aqui, quer dizer carne animal de verdade, feita de células de boi multiplicadas dentro de um tanque de aço. Hambúrguer de ervilha e soja ficam de fora: isso é carne vegetal, outra coisa. A carne cultivada da JBS ainda não está à venda, porque nenhum produto desse tipo foi aprovado pela Anvisa.
A nutricionista Lua Ferrari, que há cinco anos come carne de produtor conhecido e publica os próprios exames, contou essa história em "A JBS Está Fazendo CARNE SEM BOI !! E Eu Sei Como Isso Termina." e separou o que é fato do que é opinião dela. Os fatos são o centro de pesquisa, o dinheiro e a regra da Anvisa. A opinião é que o caminho lembra o da margarina, que a carne de verdade não precisa de substituto e que ela não vai comer carne de biorreator, mesmo aprovada. Ela também deixa claro que não afirma que a carne cultivada faz mal, porque não tem como provar isso.
O que é carne cultivada?
Carne cultivada, também chamada de carne de laboratório ou carne de células, é tecido animal produzido fora do animal. Os técnicos tiram uma pequena amostra de células de um boi vivo (ou usam células guardadas em banco), multiplicam essas células em grande quantidade e fazem com que elas virem músculo e gordura. O boi da biópsia continua vivo, e o produto final é carne de boi no sentido biológico.
O tanque onde isso acontece se chama biorreator: um recipiente de aço fechado, com temperatura, oxigênio e nutrientes controlados.
Como é feita a carne de laboratório
No boi, quem fabrica o músculo é o próprio corpo: circulação, metabolismo, hormônios, microbiota do intestino, movimento, pasto e sol. No biorreator, essa fisiologia não existe, e tudo o que a célula precisa é colocado à mão:
- meio de cultura: o líquido em que as células vivem, com aminoácidos, vitaminas, sais e uma fonte de energia
- fatores de crescimento: proteínas-sinal que mandam a célula se multiplicar e, depois, virar músculo ou gordura
- suporte físico (scaffold): uma estrutura comestível onde as células se prendem e se organizam como tecido
O relatório da FAO e da Organização Mundial da Saúde divide a produção em quatro etapas: obter as células (de biópsia ou de um banco de células já caracterizado), fazê-las crescer no biorreator, colher a massa e processá-la em alimento.
O que a JBS inaugurou em Florianópolis
O JBS Biotech Innovation Center foi inaugurado em 1º de abril de 2026, no Sapiens Parque, em Florianópolis. Tem mais de 4.000 m² e mais de 20 laboratórios, e até o fim de 2026 a empresa terá investido US$ 37 milhões nele. Quando anunciou as obras, em 2023, a JBS falava em US$ 22 milhões para o centro e uma planta-piloto, e em até US$ 62 milhões se o plano chegasse a uma unidade de demonstração em escala industrial.
Na inauguração, a empresa apresentou o centro como um laboratório de "superproteínas": além de carne cultivada, ele trabalha com saúde animal, nutrição de precisão e proteínas funcionais. O prédio está de pé e funcionando como centro de pesquisa com planta-piloto. Bife cultivado à venda ainda não sai de lá.
O tamanho de quem está por trás ajuda a entender a aposta. A JBS fechou 2025 com receita líquida recorde de US$ 86,2 bilhões, perto de meio trilhão de reais no câmbio do ano, e é a maior empresa de proteína animal do planeta. Em novembro de 2021, ela comprou 51% da BioTech Foods, empresa de San Sebastián, na Espanha, especializada em carne cultivada em biorreator. A fábrica espanhola, cuja construção começou em 2023, foi planejada para mais de 1.000 toneladas por ano e também não tem produto à venda, porque a União Europeia ainda não aprovou nenhuma carne cultivada.
Quem mais faz carne cultivada no Brasil
A JBS não está sozinha. Em 2021, a BRF, dona da Sadia e da Perdigão, fechou parceria com a israelense Aleph Farms para desenvolver carne cultivada e distribuí-la no Brasil. Em janeiro de 2024, a Aleph recebeu de Israel a primeira autorização do mundo para vender carne bovina cultivada. Em agosto de 2026, Singapura deu a ela a segunda.
A Embrapa, a empresa pública de pesquisa agropecuária, também trabalha com cultivo celular. O projeto dela usa microcarreadores vegetais (pequenas esferas comestíveis onde as células crescem) para fazer um tipo de linguiça com células de boi, porco e frango. A película comestível que envolve essa linguiça tem protótipo previsto para 2027.
A Anvisa já aprovou carne cultivada?
Não. Circula na internet que a Anvisa liberou a carne de laboratório no Brasil em 2023, e isso está errado. O que aconteceu foi a publicação da RDC 839, de dezembro de 2023, que entrou em vigor em 16 de março de 2024. Ela define como novos alimentos e ingredientes, entre eles os produzidos a partir de culturas de células, precisam provar que são seguros antes de chegar ao mercado.
A resolução cria o caminho, mas não entrega o produto. Cada empresa precisa pedir autorização para cada produto, com composição, processo de fabricação e estudos de segurança. Até outubro de 2026, nenhuma carne cultivada foi aprovada para venda no Brasil.
Onde a carne cultivada já é vendida e onde foi proibida
Singapura foi o primeiro país a autorizar a venda, em 2020, com o frango cultivado da GOOD Meat. Os Estados Unidos vieram em 2023, com frango da UPSIDE Foods e da GOOD Meat, e depois liberaram salmão e gordura de porco. Israel aprovou a carne bovina da Aleph em 2024, e Austrália e Nova Zelândia aprovaram em 2025 uma codorna cultivada da empresa Vow. No Reino Unido, só a ração para pets foi liberada até agora.
No sentido oposto, a Itália proibiu produzir e vender carne cultivada no fim de 2023. Nos Estados Unidos, a Flórida proibiu a venda em 2024, e o Texas aprovou em 2025 uma proibição temporária, válida até 2027.
Margarina: a gordura que o Brasil baniu em 2023
Em 1º de janeiro de 2023, entrou em vigor no Brasil a proibição de produzir, importar, usar e vender óleos e gorduras parcialmente hidrogenados em alimentos. A regra é da Anvisa, de 2019 (Resolução 332, hoje incorporada a uma norma de 2022). Essa gordura era o ingrediente principal da margarina de antigamente e a principal origem da gordura trans industrial nos alimentos. A margarina continua no mercado, feita por outros processos. O Brasil proibiu o ingrediente, e proibiu de vez, sem só limitar a quantidade.
Contada como uma sequência de quatro passos, a história da margarina fica assim:
- Um substituto mais barato: a margarina nasce em 1869, na França, quando o químico Hippolyte Mège-Mouriès responde a um prêmio de Napoleão III por um substituto barato da manteiga. A primeira receita, aliás, era de sebo de boi com leite desnatado. Ela nasceu pelo preço.
- Uma narrativa científica: décadas depois, ganha força a ideia de que a gordura saturada é a grande culpada da doença do coração. A manteiga vira vilã, e o óleo vegetal hidrogenado vira solução.
- O selo das instituições: cartilha, campanha, recomendação oficial e pirâmide alimentar passam a indicar a margarina como escolha de quem cuida do coração. Uma geração de brasileiros ouviu isso em casa e no consultório.
- A conta chega: mais tarde, fica claro que a gordura trans industrial faz mal ao coração. Em junho de 2015, a agência americana FDA decide que os óleos parcialmente hidrogenados deixam de ser reconhecidos como seguros. O Brasil bane o ingrediente em janeiro de 2023.
Do primeiro passo ao último, passaram-se mais de 100 anos, e durante décadas muita gente comeu margarina tranquila, porque tinha selo.
A comparação tem limite. A margarina é quimicamente diferente da manteiga desde o primeiro dia, e a carne cultivada começa de célula animal de verdade. O paralelo proposto é institucional, e não químico. O que se repetiria é o processo de decisão: a indústria desenvolve o substituto, a narrativa de saúde chega junto, a instituição carimba e o consumidor descobre depois. A lição tirada da margarina é que aprovado hoje não é sinônimo de seguro para sempre.
Carne cultivada faz mal à saúde?
Ninguém pode afirmar que faz mal, porque não há dado mostrando dano. E ninguém pode garantir o longo prazo, porque esse dado ainda não existe.
Para se multiplicar sem parar dentro de um tanque, a célula precisa de uma característica que a célula comum do corpo não tem. Várias empresas usam linhagens imortalizadas, ou seja, células que continuam se dividindo indefinidamente. No frango da UPSIDE Foods, por exemplo, isso veio da seleção em cultura ou da inserção de um gene da própria galinha, o da telomerase, enzima que impede a célula de "envelhecer" a cada divisão. A carne bovina da Aleph usa células sem modificação genética.
Os órgãos reguladores avaliam essas linhagens, e até agora o entendimento é de que elas não representam risco no consumo. A FDA analisou o frango da UPSIDE e aceitou a conclusão de que ele é seguro para comer. O relatório da FAO e da OMS, de 2023, lista o que precisa ser controlado em cada etapa: contaminação por microrganismos durante o cultivo, identidade e estabilidade da linhagem, resíduos do meio de cultura, alergênicos que entram pelo suporte e pelos ingredientes e o efeito do processamento final.
O ponto que fica é de tempo. A carne cultivada tem histórico de consumo humano medido em anos, e a carne de boi e de outros ruminantes, em milênios. Ausência de dado é diferente de prova de segurança. Cada pessoa decide com o que existe hoje, sem esperar o que talvez apareça em 2050.
Carne cultivada tem os mesmos nutrientes da carne?
No boi, o alimento é uma matriz. No tanque, é uma formulação. Matriz, aqui, é o conjunto de nutrientes que o corpo do animal já organizou dentro do músculo. Na formulação, tudo o que estiver na carne cultivada está lá porque alguém decidiu colocar, e o que faltar falta porque alguém decidiu não colocar ou porque ninguém percebeu que faltava.
O bife traz vitamina B12, ferro heme (a forma de ferro que o corpo absorve melhor), zinco, colina, creatina, taurina e carnosina, além de coenzima Q10 e um pouco de vitamina K2. Esses compostos chegam ao bife pelo organismo do animal: alguns ele fabrica, como a creatina e a carnosina, e outros ele acumula da alimentação, como o ferro e o zinco. A ciência ainda está catalogando outros, e a matriz de um alimento real funciona como um sistema.
Quem quer entender o peso do ferro e da B12 da carne numa dieta sem ela encontra os números em outra matéria do site. A carne também fornece creatina, em quantidade pequena perto da dose usada como suplemento.
Na carne cultivada, a composição é decidida na formulação: depende da linhagem, do meio de cultura, do suporte, da proporção de músculo e gordura e de eventual fortificação. As revisões científicas de 2020 e 2023 sobre o tema concluem que dá para ajustar gordura, ferro ou B12 para cima ou para baixo, mas ainda faltam análises do produto pronto. A carne cultivada só pode ser chamada de equivalente ao bife depois de medida.
"Livre de gordura saturada": o argumento que pode voltar no rótulo
Quando a carne cultivada chegar à prateleira, é fácil imaginar o rótulo: inovação, sustentabilidade, tecnologia, sem antibiótico, sem abate. No verso, talvez "livre de gordura saturada, livre de colesterol". Para quem vê a gordura saturada como vilã injustiçada, é o mesmo argumento da margarina numa embalagem nova.
A evidência mais forte vai em outra direção. A revisão Cochrane de 2020, que juntou 15 ensaios com 56.675 pessoas, concluiu que reduzir a gordura saturada diminuiu em 17% os eventos cardiovasculares somados (infartos, derrames e outros problemas do coração e das artérias), sobretudo quando ela foi trocada por gordura poli-insaturada. A mesma revisão não encontrou efeito claro sobre a mortalidade. Uma linha minoritária, representada por uma revisão narrativa publicada no JACC em 2020, defende julgar o alimento inteiro, porque laticínios integrais e carne não processada não aparecem associados a mais risco nos estudos observacionais.
A matéria sobre gordura saturada e LDL detalha esses estudos. Para a carne cultivada, a conclusão prática é simples: "sem gordura saturada" diz o que o produto não tem, mas não diz nada sobre o que ele perdeu em relação ao bife.
Boi não se patenteia: a questão da concentração
A diferença entre o boi e o biorreator vai além da biologia: muda quem produz. O Brasil tem mais de 2,5 milhões de estabelecimentos rurais com gado bovino, segundo o Censo Agropecuário de 2017. É uma produção espalhada e difícil de concentrar.
O biorreator depende de patente, capital, planta industrial, licença sanitária e insumos técnicos. Isso é descrição de mercado: mercado com barreira de entrada alta tende a concentrar. Quando a produção concentra, a decisão concentra junto. O que vai estar na prateleira, a que preço e com qual formulação deixa de ser disputa entre milhões de produtores e passa a ser decisão de poucas empresas.
Se o alimento original existe, funciona e está disponível, por que investir dezenas de milhões de dólares só em Florianópolis, fora a fábrica espanhola, para construir um substituto? Uma resposta possível cabe em duas frases. Boi não se patenteia. Célula em biorreator, sim.
Carne sem boi: fato ou boato?
| Afirmação | Veredito | O que dá para dizer |
|---|---|---|
| A JBS abriu em Florianópolis um centro para fazer carne sem boi | Fato | Inaugurado em 1º de abril de 2026, com mais de 4.000 m², mais de 20 laboratórios e US$ 37 milhões de investimento até o fim de 2026 |
| A JBS já vende carne cultivada no Brasil | Falso | O centro é de pesquisa, com planta-piloto, e nenhum produto foi aprovado |
| A Anvisa liberou a carne de laboratório em 2023 | Falso | A RDC 839/2023, em vigor desde março de 2024, criou a regra de avaliação. Cada produto precisa de autorização própria |
| O Brasil proibiu a margarina em 2023 | Meia verdade | Proibiu a gordura parcialmente hidrogenada, o ingrediente da margarina antiga. A margarina feita por outros processos continua à venda |
| Carne cultivada já é vendida em algum país | Fato | Singapura (desde 2020), Estados Unidos (desde 2023), Israel, Austrália e Nova Zelândia já aprovaram produtos |
| Carne cultivada tem os mesmos nutrientes do bife | Não demonstrado | A composição depende da formulação e precisa ser medida no produto pronto |
| Carne cultivada faz mal | Não demonstrado | Não há dado de dano, e também não há histórico de consumo de longo prazo |
Conclusão
Há duas perguntas diferentes nessa história. A primeira é se dá para fabricar carne sem boi. Dá, e o feito é impressionante, com gente brilhante trabalhando nisso, inclusive no Brasil. A segunda é por que trocar o alimento original pelo substituto. Quem aposta na carne cultivada responde com o fim do abate e com promessas ambientais, que ainda dependem de escala e custo para se provar. Quem fica com o boi responde que a carne alimentou a humanidade até aqui e não é um problema que precisa de solução.
No Brasil, hoje, a escolha nem está na prateleira. Quando estiver, a decisão é de cada leitor. Quem prefere continuar no boi, comprando de açougue e de produtor que consegue olhar no olho, pode ver um caso real de cinco anos de dieta carnívora com os exames abertos. Para quem fez essa escolha, uma aprovação futura não muda a resposta.
FAQ
Carne sem boi da JBS é verdade?
É verdade que a JBS abriu um centro de pesquisa para isso. Ele fica em Florianópolis, foi inaugurado em abril de 2026 e tem mais de 20 laboratórios. A carne, porém, ainda não está à venda.
Carne cultivada faz mal?
Não há estudo mostrando dano. Também não há histórico de consumo de longo prazo, só de alguns anos. Os reguladores avaliam cada produto, com atenção à linhagem de células, à contaminação e aos resíduos do meio de cultura.
Como é feita a carne sem boi?
Com células tiradas de um boi vivo por biópsia. Elas se multiplicam num tanque de aço com meio de cultura e fatores de crescimento, viram músculo e gordura sobre um suporte comestível e depois são colhidas e processadas.
O que é carne cultivada em biorreator?
É o nome técnico da carne sem boi. Biorreator é o tanque fechado onde as células crescem, com temperatura e oxigênio controlados. Carne de laboratório, de células e de tanque são outros nomes para o mesmo produto.
O que é uma fazenda de carne cultivada?
É uma fábrica com biorreatores grandes, em vez de pasto. A planta da BioTech Foods na Espanha, controlada pela JBS, foi projetada para mais de 1.000 toneladas por ano.
Carne cultivada já existe?
Sim. Ela é vendida em poucos lugares, como Singapura e Estados Unidos, em quantidades pequenas. No Brasil existe só em pesquisa.
A carne cultivada foi aprovada pela Anvisa?
Ainda não. A Anvisa criou em 2023 a regra para avaliar novos alimentos, inclusive os de cultivo celular, mas até outubro de 2026 nenhum produto foi autorizado.
Como identificar carne de laboratório?
No Brasil, por enquanto, não há o que identificar, porque nenhuma carne cultivada está à venda. Qualquer produto desse tipo vai precisar de autorização própria da Anvisa antes de chegar ao mercado.
Qual foi o primeiro país a aprovar carne cultivada?
Singapura, em 2020, com um frango cultivado. A primeira carne bovina cultivada foi aprovada em Israel, em janeiro de 2024.
Carne cultivada é vegana?
Não. Ela é feita de células animais e, biologicamente, é carne. O hambúrguer de ervilha ou soja é que é vegetal.
Carne cultivada é saudável?
Ainda não dá para dizer. O valor nutricional depende do que vai no meio de cultura e de eventual fortificação, e as revisões pedem análise do produto pronto antes de compará-lo ao bife.
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- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução RDC nº 839, de 14 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a comprovação de segurança e a autorização de uso de novos alimentos e novos ingredientes. Anvisa Legis. Brasília, DF, 14 dez. 2023. Disponível em: https://anvisalegis.datalegis.net/action/ActionDatalegis.php?acao=abrirTextoAto&link=S&tipo=RDC&numeroAto=00000839&seqAto=000&valorAno=2023&orgao=RDC%2FDC%2FANVISA%2FMS&cod_modulo=310&cod_menu=8542. Acesso em: 7 out. 2026.
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