Uma máquina diferente não se torna útil apenas por facilitar a montagem da carga. Na aula “Essa máquina é um lixo”, Paulo Gentil analisa uma elevação pélvica em pé na qual o praticante fica entre um apoio anterior sobre a pelve ou parte alta das coxas e um apoio posterior nas pernas. A carga entra por braços laterais abastecidos com anilhas, enquanto o tronco se desloca para cima e para a frente.
A crítica tem dois níveis. O primeiro questiona a elevação pélvica como escolha principal para hipertrofia dos glúteos. O segundo é específico deste aparelho: o fêmur pode ser empurrado para trás enquanto a perna permanece limitada pelo rolete posterior, combinação que, em tese, aumenta a translação anterior da tíbia em relação ao fêmur e exige mais do ligamento cruzado anterior, o LCA.
Essa hipótese merece atenção, mas não deve ser vendida como diagnóstico pronto. Não há estudo biomecânico publicado que tenha medido forças no LCA nesta máquina específica, nem levantamento de incidência capaz de provar que ela rompe ligamentos. O alerta é uma análise do mecanismo, não uma sentença científica sobre todo usuário e toda execução.
Como funciona a elevação pélvica em pé
O aparelho analisado não é uma elevação pélvica tradicional com as costas apoiadas em um banco. O praticante entra em uma estrutura alta, segura os pegadores à frente e posiciona a pelve contra dois rolos acolchoados. Outro rolete fica atrás das pernas. Os pés permanecem nas plataformas inferiores e um pequeno assento limita a posição mais baixa.
Os braços carregados com anilhas giram ao redor de um pivô. Ao estender o quadril, o praticante desloca os apoios e levanta a carga. O equipamento reduz o trabalho de montar barra, banco e proteção para a pelve, mas cria um caminho guiado e pontos fixos de contato que precisam combinar com as proporções do usuário.
É justamente essa restrição que diferencia a máquina de um agachamento, afundo ou levantamento terra. Nos exercícios com os pés apoiados no chão e o corpo livre para se organizar, quadril, joelho e tornozelo distribuem o movimento. Na elevação pélvica em pé, o apoio anterior e o rolete posterior determinam onde as forças entram.
Por que o LCA entrou na discussão
O LCA ajuda a limitar a translação anterior da tíbia em relação ao fêmur e participa do controle rotacional do joelho. Na prática, mover o fêmur para trás enquanto a tíbia fica relativamente presa produz o mesmo movimento relativo de levar a tíbia para a frente. Essa é a preocupação levantada para a elevação pélvica em pé.
O ponto crítico aparece quando três condições se combinam:
- o apoio anterior recebe carga elevada sobre a pelve ou a parte alta das coxas
- o rolete posterior limita o deslocamento da perna
- o caminho do aparelho não permite que joelho, quadril e pés se reorganizem livremente
A literatura sobre o LCA confirma que o cisalhamento anterior da tíbia é um mecanismo primário de carregamento do ligamento. Força do quadríceps, compressão articular, rotação e posição do joelho também alteram essa carga. Isso dá fundamento anatômico à cautela, mas não quantifica o que ocorre neste equipamento.
Uma repetição aparece acompanhada de um estalo interpretado como ruptura ligamentar. Sem exame clínico, imagem e diagnóstico médico, porém, não é possível saber pelo som se houve lesão do LCA, de outra estrutura ou apenas um ruído articular. O episódio ilustra o risco percebido, mas não comprova o mecanismo sozinho.
Agachamento e coativação muscular
Gentil compara o aparelho ao agachamento para defender que o corpo lida melhor com cargas distribuídas em cadeia cinética fechada. Um modelo biomecânico publicado por Shelburne e Pandy encontrou carga no LCA entre a extensão completa e 10 graus de flexão durante o agachamento. Acima de 10 graus, o ligamento cruzado posterior passou a receber a carga prevista pelo modelo. A coativação dos posteriores da coxa foi o principal determinante da redução da carga no LCA, enquanto o aumento da carga externa teve efeito relativamente pequeno.
Isso não significa que alguém possa agachar “uma tonelada” sem risco, expressão usada de forma retórica na aula. Técnica, fadiga, amplitude, histórico de lesão e capacidade individual continuam importantes. O dado útil é mais específico: agachamentos bem controlados distribuem forças entre articulações e grupos musculares e são considerados relativamente seguros para o LCA em ângulos adequados.
Também não se pode concluir que qualquer máquina ou movimento novo seja automaticamente perigoso. O critério correto é verificar trajetória, ajustes, pontos de aplicação da força, estabilidade e compatibilidade com o objetivo do praticante.
Agachamento ganhou de 9,4% a 3,7% em um estudo
Em 2020, Barbalho e colaboradores compararam 12 semanas de agachamento livre e elevação pélvica com barra em mulheres treinadas. O grupo do agachamento aumentou a espessura do glúteo máximo em 9,4%, contra 3,7% no grupo da elevação pélvica. O quadríceps aumentou 12,2% com agachamento e 2% com elevação pélvica. A força de 1RM no agachamento subiu 35,9% no grupo que treinou agachamento e 4,3% no grupo que treinou elevação pélvica.
Esses números sustentam a crítica de que a elevação pélvica não precisa ocupar o centro de todo treino de glúteos. O estudo, porém, avaliou uma versão com barra, não a elevação pélvica em pé desta matéria. Também mediu espessura muscular por ultrassom em pontos específicos e descreveu de forma limitada alguns detalhes técnicos, limitações destacadas em revisões posteriores.
Outro protocolo encontrou hipertrofia semelhante
Em 2023, Plotkin e colaboradores chegaram a um resultado diferente. Trinta e quatro participantes concluíram nove semanas de treinamento com agachamento ou elevação pélvica. Depois da primeira semana, foram realizadas duas sessões semanais. O volume progrediu de 3 séries na primeira semana para 4 na segunda, 5 entre a terceira e a sexta e 6 séries da sétima à nona. As séries tinham de 8 a 12 repetições e eram levadas à falha voluntária com técnica controlada.
A ressonância magnética mostrou hipertrofia semelhante nas regiões superior, média e inferior do glúteo máximo. O agachamento produziu mais crescimento de quadríceps e adutores. A força também respeitou a especificidade: o grupo do agachamento ganhou cerca de 14 kg a mais no teste de 3RM do agachamento, enquanto o grupo da elevação pélvica ganhou cerca de 26 kg a mais no teste de 3RM da própria elevação.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 reuniu 12 estudos e concluiu que diferentes exercícios de extensão do quadril podem aumentar o glúteo máximo. Agachamentos paralelos ou profundos são eficazes e desenvolvem mais grupos musculares. A elevação pélvica pode ser escolhida quando o objetivo é enfatizar o glúteo com menos hipertrofia de coxa. Portanto, “agachamento sempre vence” e “elevação pélvica é obrigatória” são simplificações que a evidência atual não sustenta.
Ativação alta não garante mais hipertrofia
A elevação pélvica costuma apresentar alta atividade eletromiográfica do glúteo máximo, principalmente perto da extensão completa do quadril. Um estudo comparando agachamento, afundo e elevação pélvica encontrou pico de EMG maior na elevação pélvica. Isso mede o sinal elétrico durante a tarefa, não o crescimento muscular produzido ao longo de meses.
O contraste entre os estudos de treinamento deixa o limite claro. Alta ativação aguda pode coexistir com 3,7% de aumento de espessura em um protocolo e com hipertrofia semelhante ao agachamento em outro. Amplitude, volume, esforço, técnica, experiência do praticante e método de imagem influenciam o resultado. “Esmagar” o glúteo no topo não substitui progressão de carga e séries efetivas.
Quando uma máquina realmente tem utilidade
Máquina é ferramenta, não atração de parque. A aula apresenta exemplos concretos de quando um equipamento resolve uma limitação:
- Torção cervical intensa: sem conseguir sustentar uma barra, elevar os braços ou carregar peso, o leg press permitiu treinar as pernas sem exigir a mesma sustentação do tronco.
- Dor aguda na fáscia plantar: quando nem o leg press era tolerado, a cadeira extensora permitiu trabalhar o quadríceps com carga ajustável e sem apoiar o pé da mesma maneira.
- Ênfase na cadeia posterior: levantamento terra e stiff entram como opções quando o objetivo é desenvolver posteriores sem priorizar a cadeia anterior.
- Drop set rápido: um leg press com placas selecionáveis facilita reduções de carga que seriam trabalhosas com anilhas.
Esses casos têm objetivo, restrição e razão para a escolha. “A academia tem, então vou experimentar pesado” não é critério de prescrição.
Checklist antes de usar a elevação pélvica em pé
- Identifique todos os apoios: saiba onde ficam pelve, pernas, pés e mãos antes de colocar anilhas.
- Confira o assento e a amplitude: a posição inferior não deve esmagar a articulação nem obrigar o joelho a deslizar.
- Observe a tíbia: interrompa se o rolete empurrar a perna para uma direção enquanto o apoio da pelve força o fêmur para outra.
- Teste sem carga ou com carga mínima: o primeiro contato serve para avaliar ajuste, não desempenho.
- Não persiga anilhas: a alavanca favorável permite usar números altos sem provar maior estímulo muscular.
- Pare diante de dor ou instabilidade: estalo acompanhado de dor, inchaço, falseio ou perda de movimento exige avaliação médica.
- Troque o exercício se o encaixe for ruim: agachamento, afundo, terra, stiff e leg press oferecem alternativas para treinar quadril e pernas.
Uma máquina que não se ajusta ao corpo não precisa ser “vencida” pelo praticante. A variedade de equipamentos só tem valor quando amplia as boas opções de treino.
Conclusão
A elevação pélvica em pé facilita a montagem da carga, mas introduz apoios fixos sobre a pelve e atrás das pernas. Esse desenho permite levantar uma hipótese coerente de cisalhamento no joelho e maior exigência do LCA, especialmente com carga alta e ajuste ruim. Ainda falta pesquisa direta para transformar essa hipótese em risco quantificado.
Para hipertrofia, a elevação pélvica não é inútil nem obrigatória. Um estudo favoreceu claramente o agachamento, outro encontrou crescimento glúteo semelhante e uma meta-análise concluiu que ambos podem funcionar. A decisão deve considerar objetivo, conforto, ajuste, progressão e custo articular. Se a máquina força uma trajetória ruim, existem alternativas mais simples e bem estudadas.
FAQ
O que é elevação pélvica em pé?
É uma máquina de extensão do quadril em que o praticante segura pegadores altos, apoia os pés em plataformas e move braços carregados por meio de rolos posicionados sobre a pelve ou a parte alta das coxas.
A elevação pélvica em pé rompe o LCA?
Não há estudo direto que demonstre incidência de ruptura do LCA nessa máquina. O alerta vem de uma hipótese biomecânica: o apoio pode empurrar o fêmur para trás enquanto a tíbia fica limitada, aumentando o movimento relativo que o LCA ajuda a conter.
Agachamento desenvolve mais glúteo que elevação pélvica?
Depende do protocolo. Um estudo de 12 semanas encontrou 9,4% contra 3,7% a favor do agachamento. Outro, com nove semanas e avaliação por ressonância, encontrou hipertrofia glútea semelhante.
Ativação maior do glúteo significa mais crescimento?
Não necessariamente. Eletromiografia mede atividade elétrica durante a tarefa. Hipertrofia depende da exposição repetida ao treino e precisa ser avaliada ao longo de semanas por ultrassom, ressonância ou outro método adequado.
Quais exercícios podem substituir essa máquina?
Agachamento, afundo, levantamento terra, stiff e leg press são alternativas. A melhor escolha depende do objetivo, da técnica, do equipamento disponível e de eventuais limitações individuais.
Referências
- GENTIL, Paulo. Essa máquina é um lixo. [S. l.], 1 ago. 2026. YouTube. Disponível em: https://youtu.be/e5VuASATQ_Y. Acesso em: 2 ago. 2026.
- BARBALHO, Matheus et al. Back Squat vs. Hip Thrust Resistance-training Programs in Well-trained Women. International Journal of Sports Medicine, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31975359/. Acesso em: 2 ago. 2026.
- PLOTKIN, Daniel L. et al. Hip thrust and back squat training elicit similar gluteus muscle hypertrophy and transfer similarly to the deadlift. Frontiers in Physiology, 2023. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/physiology/articles/10.3389/fphys.2023.1279170/full. Acesso em: 2 ago. 2026.
- KRAUSE NETO, Walter et al. The impact of resistance training on gluteus maximus hypertrophy: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Physiology, 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12018462/. Acesso em: 2 ago. 2026.
- BEAULIEU, Mélanie L. et al. Loading mechanisms of the anterior cruciate ligament. Sports Biomechanics, 2021. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9097243/. Acesso em: 2 ago. 2026.
- SHELBURNE, Kevin B.; PANDY, Marcus G. Determinants of cruciate-ligament loading during rehabilitation exercise. Clinical Biomechanics, 2001. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11415815/. Acesso em: 2 ago. 2026.
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