Esse é um dos tópicos mais bem conduzidos que eu já li aqui, com uma das melhores evoluções, e ele termina exatamente no ponto em que faltou a única coisa que nunca foi feita nesses cinco meses. Vou chegar lá, mas começo pelo que deu certo, porque foi muito.
A @drica123 chegou com 28 anos, 1,59 m, 62 kg, quatro anos de treino sem acompanhamento e uma abdominoplastia feita seis meses antes. Cinco meses depois, ela estava com 59,5 kg.
Dois quilos e meio.
E é aqui que está a lição mais bonita do tópico, porque quem olhar só esse número não vai entender nada do que aconteceu. As fotos comparativas mostraram quadríceps aparecendo, glúteo mais alto e desenhado, cintura mais fina e abdômen mudando, e ela relatou roupa folgando na cintura e apertando na coxa.
Isso tem nome: recomposição corporal. Ela perdeu gordura e ganhou músculo ao mesmo tempo, e por isso a balança quase não se mexeu. É o cenário que mais acontece em quem tem alguma gordura para perder e nunca treinou de forma organizada, que era exatamente o caso dela, e é a explicação para a frase que ela escreveu, a de que aumentou algumas gramas mas estava se sentindo mais seca.
Vale registrar para quem lê: se ela estivesse acompanhando apenas o peso, teria concluído que estagnou em agosto e provavelmente teria desistido. O que salvou a leitura do caso foram as fotos comparativas e a fita métrica.
Duas coisas foram feitas certas ali e merecem crédito explícito.
A primeira é a orientação de fotografar sempre no mesmo tipo de roupa e montar comparativo com a foto anterior. A segunda, e essa é ainda melhor, é a orientação de atualizar dois dias depois do fim do período menstrual, quando ela avisou que estava inchada. Retenção da fase pré menstrual distorce foto, distorce balança e faz gente boa achar que regrediu. Poucos lembram disso.
A segunda coisa que merece registro é a insistência do @Foston sobre o treino, que foi a melhor sequência técnica da página.
Ele olhou a divisão postada e perguntou onde estavam peito e ombro. Ela respondeu que fazia. Ele perguntou de novo, apontando que na tabela transcrita aqueles exercícios não existiam. E, depois de insistir, veio a resposta verdadeira: o treinador não seguia tabela, falava o exercício na hora e mudava direto.
Esse é o problema estrutural, e é o mesmo que eu encontro na maioria dos tópicos: sem tabela escrita, não existe registro de carga, e sem registro de carga não existe como saber se houve progressão. Ela obteve um resultado excelente apesar disso, e não por causa disso.
A terceira coisa é o que nunca aconteceu no tópico inteiro, e é o motivo pelo qual eu estou escrevendo esta resposta.
Ela informou, na primeira mensagem, que não tinha nenhum exame recente. Alguém chegou a comentar, no começo, que era estranho ter feito uma abdominoplastia sem exames. E, cinco meses depois, na última página, veio a proposta de passar para a fase seguinte, com substância, e ela aceitou.
Ou seja, o tópico chega ao ponto de introduzir androgênio em uma mulher de 28 anos que nunca teve um único exame de sangue mostrado ali.
Isso precisa ser dito com clareza, e sem drama: independentemente da opinião de cada um sobre usar ou não usar, exame antes não é burocracia. É o que permite saber se algo mudou depois.
O mínimo, nesse cenário, é perfil lipídico, e ele é o mais importante de todos, porque androgênios orais reduzem o colesterol bom de forma acentuada e rápida. Junto disso, transaminases para função hepática, hemograma e glicemia. Repetidos depois, eles são a única forma de enxergar o que aconteceu por dentro enquanto o espelho mostra o que aconteceu por fora.
E existe uma segunda parte, que é a lista de sinais e a regra de parada.
Colateral de androgênio em mulher se divide em dois grupos. Acne, oleosidade, alteração de libido e irregularidade menstrual costumam regredir depois da interrupção. Engrossamento de voz, aumento do clitóris e pelo em padrão masculino costumam ficar, mesmo parando.
Por isso, o combinado que protege é simples e vale mais do que qualquer dose: ao primeiro sinal de mudança na voz, para. Não se espera para ver se melhora, porque essa é justamente a que não melhora.
E aqui eu volto a uma observação que já fiz em outros tópicos: a ficha de atualização usada aqui pergunta acne e pergunta libido, que são dois marcadores corretos. Mas não pergunta menstruação. Em mulher usando androgênio, alteração do ciclo é o sinal mais barato, mais precoce e mais sensível que existe. Deveria estar na ficha, e deveria estar antes dos outros dois.
A quarta coisa é uma informação do formulário dela que ficou cinco meses sem receber uma linha: ela relatou enxaqueca.
Enxaqueca importa nesse contexto por motivos práticos. Ficar longos períodos sem comer, desidratação, privação de sono e mudanças bruscas na cafeína são gatilhos conhecidos, e todos eles aparecem quando alguém entra em dieta e treino de forma intensa. Se as crises aumentarem de frequência durante o projeto, isso é informação para levar ao médico, e não algo a apertar os dentes e seguir.
A quinta coisa é sobre a abdominoplastia, que era a queixa original dela, e sobre a qual eu daria duas informações que não apareceram.
A primeira é que a cicatriz leva cerca de um ano para amadurecer, e nesse período precisa de proteção solar. Ela fez a cirurgia em janeiro e passou o projeto inteiro caminhando de manhã, então vale a lembrança.
A segunda é que a abdominoplastia retira pele e a gordura logo abaixo dela, mas não retira a gordura que fica dentro do abdômen, em volta dos órgãos. Ou seja, aquela camada que ela chamou de capa de gordura e queria perder era justamente a parte que só sai com o que ela fez agora: dieta e treino. Ela conseguiu, e vale entender por quê.
Um ajuste que eu faria no plano: com 62 kg no início, cem gramas de proteína por dia dá cerca de 1,6 g por quilo. Está adequado, mas em quem está em déficit e treinando forte eu subiria para algo entre cento e vinte e cento e trinta gramas, especialmente agora que ela pretende passar para uma fase mais exigente. Proteína é o que mais protege músculo, e é o mais barato de ajustar.
E sobre a água, três litros e cem por dia, exatos: não existe número universal, e a cor da urina resolve melhor.
Créditos, e são muitos. Ao @Apollo Galeno pela condução, pelo ajuste de dieta a cada atualização e pelo detalhe do timing menstrual da foto. Ao Foston pela insistência sobre o treino, que era o buraco real. À @FaBHana pelos comparativos montados, que é trabalho e ninguém pediu. À @Isa, pelo relato de que quase fez uma lipo e mudou de caminho, que é o tipo de exemplo que faz diferença para quem chega. E à @vitoriamm, à @Famama, à @RenatinhaSA, à @Ruthynha, à @Helynha, à @MM_mm, à @Sussu, à @Fran, à @Lala, à @girl_33, à @ladot, à @De M, à @Mistakes, à @Bárbara, à @luhccardoso, à @Vezinha, à @Qsr, à @Keyte Luciana Cerqueira, à @Maah, à @Beca, ao @Marco Passarelli, ao @durosbrutos e ao @ursinho physique, que fizeram o tópico ser o que foi.
Se a Drica estiver lendo isto, é isto que eu diria a ela.
O resultado dela foi conquistado com dieta, treino e cinco meses de constância, com dois quilos e meio na balança e um corpo diferente no espelho. Isso é mérito e é dela.
E, justamente por isso, antes de qualquer passo adiante, valem duas providências baratas: um exame de sangue com perfil lipídico e função hepática, para ter o antes, e um combinado consigo mesma sobre voz. O resto ela já provou que sabe fazer.
Para quem quiser entender como as substâncias hormonais funcionam antes de decidir qualquer coisa, o site tem um orientador em https://fisiculturismo.com.br/ferramentas/hormonio/ , que serve como ponto de partida para conversar com quem acompanha o caso.
As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.
Por
Cláudio Chamini ·
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