A relação entre Mounjaro® e coração exige olhar além dos quilos perdidos. Uma mulher de 68 anos emagreceu 18 kg com tirzepatida, tinha exames de sangue bons e recebia elogios da família. Na consulta, porém, tentou levantar da cadeira sem apoiar as mãos e não conseguiu.
O cardiologista Roberto Yano conta esse caso em “O EFEITO DO MOUNJARO® QUE NENHUM EXAME MOSTRA.”. O alerta nasce de uma situação simples: o tratamento pode melhorar o peso e vários indicadores de saúde enquanto a pessoa perde força para tarefas básicas. Acompanhar pressão, capacidade física e alimentação ajuda a perceber esse problema durante o emagrecimento.
Mounjaro® e Ozempic® fazem a mesma coisa?
Mounjaro® contém tirzepatida. Ozempic® contém semaglutida. Depois de uma refeição, o intestino libera sinais que ajudam a controlar a glicose e avisam ao cérebro que você já comeu. A semaglutida age no receptor do hormônio GLP-1. A tirzepatida age nos receptores de GLP-1 e GIP.
As duas reduzem o apetite, mas a dose, a população e a duração do tratamento mudam o resultado. Como referência aproximada, a semaglutida em doses usadas para obesidade costuma produzir perdas na faixa de 12% a 15%. Em doses menores estudadas para diabetes, a perda pode ficar perto de 6% a 8%. Nos estudos de tirzepatida sem diabetes citados pela Anvisa, as médias foram de 15% a 20,9% após 72 semanas.
Essas faixas descrevem grupos de pesquisa. Cada produto tem suas próprias indicações aprovadas: Ozempic® é um medicamento para diabetes, enquanto a semaglutida também existe em apresentações próprias para obesidade. Novas marcas de semaglutida aprovadas no Brasil ampliam as opções, mas exigem conferir indicação e bula. Para comparar os resultados sem misturar produtos, veja quem deve usar canetas para emagrecer e quanto se perde nos estudos.
Mounjaro® protege o coração?
A tirzepatida tem benefícios cardiovasculares demonstrados em grupos específicos. A pergunta precisa incluir o diagnóstico: uma pessoa com obesidade e insuficiência cardíaca tem necessidades diferentes de alguém com diabetes e histórico de infarto. Os estudos também usam comparadores diferentes, como placebo ou outro medicamento que já protege o coração.
Os 20% de redução vieram de um estudo com semaglutida
O SELECT reuniu 17.604 adultos com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular já estabelecida e sem diabetes. A semaglutida de 2,4 mg por semana foi comparada com placebo. Em cerca de 40 meses de acompanhamento, infarto sem morte, AVC sem morte ou morte cardiovascular ocorreram em 6,5% do grupo tratado e 8,0% do grupo placebo.
Isso representa redução relativa de 20% no conjunto desses eventos. Em números absolutos, foram cerca de 15 pessoas a menos com um evento a cada mil tratadas durante aquele período. O resultado pertence à semaglutida nessa população e deve ser usado com esse recorte.
O que os estudos com tirzepatida mostraram
No SUMMIT, 731 pessoas tinham obesidade e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Nessa forma da doença, o coração mantém a porcentagem de sangue expulsa a cada batida, mas pode ter dificuldade para se encher. O conjunto de morte cardiovascular ou piora da insuficiência cardíaca ocorreu em 9,9% com tirzepatida e 15,3% com placebo. A diferença foi puxada principalmente por menos episódios de piora da doença.
O SURPASS-CVOT, publicado em 2025, analisou 13.165 pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular. Infarto, AVC ou morte cardiovascular ocorreram em 12,2% com tirzepatida e 13,1% com dulaglutida. A tirzepatida cumpriu o critério de não inferioridade: o estudo descartou uma desvantagem maior que a margem definida pelos pesquisadores. A diferença entre os grupos foi insuficiente para demonstrar superioridade nesse resultado.
A semaglutida em comprimido também reduziu eventos cardiovasculares no SOUL. Esse benefício foi demonstrado em pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular, doença renal crônica ou ambas.
Por que a artéria entra nessa história?
Pense na artéria como um cano cuja parede pode acumular uma placa de gordura. Se essa placa se rompe, pode formar um coágulo e bloquear o fluxo de sangue. Controlar obesidade, pressão, glicose e inflamação faz parte do cuidado com esse risco.
A proteção provavelmente envolve vários caminhos. O SELECT encontrou menos eventos, mas seu resultado clínico, sozinho, não permite medir quanto veio do emagrecimento e quanto veio de uma ação direta sobre a placa. Semaglutida e tirzepatida também precisam ser avaliadas pelos próprios ensaios, em vez de receberem automaticamente a mesma porcentagem de proteção.
Mounjaro® pode baixar a pressão?
Pode, e a receita antiga merece atenção enquanto o peso cai. Em outro caso clínico relatado, um homem de 62 anos usava dois remédios para pressão havia dez anos. Depois de perder 12 kg em quatro meses com semaglutida, levantou à noite, desmaiou e bateu a cabeça na pia. O episódio foi associado à queda de pressão durante o tratamento sem ajuste dos anti-hipertensivos.
Na análise do SURMOUNT-1, a tirzepatida reduziu a pressão em média 6,8 mmHg na medida sistólica, o número de cima, e 4,2 mmHg na diastólica, o de baixo, além da redução observada com placebo. A avaliação foi feita em 72 semanas. A resposta varia entre pessoas, por isso não existe uma fórmula que permita retirar remédio a cada cinco quilos perdidos.
Se você usa anti-hipertensivos, combine uma rotina de medidas com quem acompanha sua pressão. Registre os valores e leve à consulta, junto de sintomas como tontura ao levantar. Vômitos e diarreia podem causar desidratação e agravar a queda. Uma queda em uma pessoa idosa pode terminar em fratura, o que torna esse acompanhamento especialmente relevante.
Mounjaro® acelera o coração?
A bula descreve aumento médio de dois a quatro batimentos por minuto com tirzepatida nos estudos para diabetes, contra um batimento com placebo. Algumas pessoas percebem palpitações, inclusive durante os aumentos de dose. Quem tem arritmia ou insuficiência cardíaca precisa discutir os sintomas e seu diagnóstico com o médico que acompanha o tratamento.
Uma média pequena nos estudos não explica toda palpitação individual. Coração acelerado junto de dor no peito, falta de ar importante ou desmaio exige atendimento imediato. Esses sintomas merecem investigação, sem esperar a próxima aplicação para ver se passam.
O que muda no colesterol, no fígado e na apneia?
Os triglicerídeos podem cair mais que o LDL, chamado de colesterol ruim. Na bula, os resultados do SURMOUNT-1 mostram quedas aproximadas de 25% a 31% nos triglicerídeos e de 5% a 9% no LDL, conforme a dose. Quem usa estatina deve mantê-la conforme a prescrição, sem suspender por conta própria porque emagreceu.
Para o fígado, o SYNERGY-NASH estudou 190 pessoas com inflamação ligada à gordura e fibrose moderada ou grave. Após 52 semanas, a resolução da inflamação sem piora da fibrose aconteceu em 44%, 56% e 62% dos grupos de tirzepatida, conforme a dose, e em 10% com placebo. O resultado se refere a esse diagnóstico confirmado por biópsia. A conclusão sobre cada paciente depende também da fibrose, que é a cicatrização do fígado.
A apneia do sono também merece investigação em quem ronca e para de respirar à noite. Nos dois ensaios SURMOUNT-OSA, a tirzepatida reduziu as interrupções respiratórias em adultos com obesidade e apneia moderada a grave. A bula brasileira já inclui esse uso. A ferramenta de rastreio de apneia do sono ajuda a identificar sinais para levar à avaliação, enquanto o diagnóstico exige investigação própria.
Quem tem indicação de usar Mounjaro®?
Para controle crônico do peso em adultos, a indicação aprovada inclui dieta com menos calorias e aumento da atividade física. Os critérios são:
- IMC igual ou maior que 30: faixa de obesidade.
- IMC igual ou maior que 27: quando existe ao menos uma doença relacionada ao peso, como hipertensão, alteração do colesterol, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2.
O índice de massa corporal relaciona peso e altura. Você pode conferir esse número na calculadora de IMC. Ele é um critério inicial, e a avaliação clínica considera também composição corporal, doenças e os remédios em uso.
Diabetes tipo 2 tem indicação própria na bula. Obesidade após infarto ou colocação de stent, uma pequena estrutura que mantém a artéria aberta, também merece tratamento junto dos demais fatores de risco. A escolha do medicamento depende do quadro completo. Peso normal e vontade de perder quatro quilos para uma ocasião social ficam fora dos critérios de tratamento da obesidade.
Por que os exames de sangue podem estar bons e a força cair?
A mulher de 68 anos tinha um problema que a glicose e o colesterol não medem: dificuldade para levantar o próprio corpo. Subir escadas, caminhar e sair da cadeira são maneiras concretas de acompanhar a capacidade física. O músculo também ajuda a utilizar a glicose, e preservar sua função faz parte do tratamento.
Emagrecer reduz gordura e pode reduzir massa magra. No subestudo do SURMOUNT-1 com 160 pessoas avaliadas por DXA, um exame de composição corporal, cerca de 75% do peso perdido foi gordura e 25% foi massa magra. Massa magra inclui músculo e outros tecidos. Portanto, esse resultado não pode ser convertido em “um quarto do peso perdido foi músculo”.
O cuidado ganha peso depois dos 60 anos, quando a perda de força pode comprometer a autonomia. Bioimpedância estima a composição corporal. O teste de preensão mede a força da mão com um aparelho, e o teste de levantar da cadeira avalia uma tarefa do dia a dia. Juntas, essas avaliações contam uma história mais útil do que o peso sozinho. Para aprofundar esse ponto, veja como acompanhar a perda de massa magra durante o uso de Mounjaro®.
Como acompanhar o tratamento desde o primeiro dia
- Inclua treino de força: a proposta é musculação duas ou três vezes por semana, com exercícios adaptados à capacidade da pessoa. Caminhar ajuda a saúde, e o trabalho de força acrescenta o estímulo para preservar músculo.
- Coloque proteína nas refeições: carne, ovos, peixe, leite e queijo ajudam a compor essas refeições. A saciedade pode fazer a pessoa comer pouco e deixar esses alimentos de fora. A quantidade diária deve ser ajustada ao seu caso, considerando peso, idade, tolerância e doenças, como doença renal.
- Respeite os aumentos de dose: ajuste a medicação com o prescritor. Comer muito pouco ou perder peso com piora da força é motivo para reavaliar o plano.
- Registre peso, força e pressão: acompanhe também as cargas do treino, a caminhada e a facilidade para levantar da cadeira. Leve a lista dos remédios de pressão e diabetes às consultas para avaliar ajustes.
Uma orientação conjunta de quatro entidades médicas e de nutrição reforça a combinação de alimentação adequada, treino de força e avaliação funcional. Se a comida não fornecer a proteína necessária, um suplemento pode facilitar a ingestão. A matéria sobre quando o whey ajuda quem usa Mounjaro® explica esse uso.
A creatina pode entrar como apoio ao treino. Uma revisão de 2026 que reuniu 11 ensaios em adultos a partir dos 60 anos encontrou um pequeno benefício adicional na força. Os efeitos sobre massa muscular e capacidade funcional permaneceram incertos. Os participantes eram, em geral, idosos saudáveis. O achado exige cautela em pessoas frágeis ou com limitação funcional e ainda precisa ser testado especificamente durante o uso de tirzepatida.
O que acontece quando você para o Mounjaro®?
O SURMOUNT-4 ajuda a dimensionar o risco de reganho. Após 36 semanas de tirzepatida, 670 participantes que chegaram à etapa seguinte haviam perdido, em média, 20,9% do peso. Metade continuou o medicamento e metade passou a receber placebo durante mais 52 semanas.
| Depois da divisão dos grupos | Continuou tirzepatida | Passou a receber placebo |
|---|---|---|
| Variação do peso nas 52 semanas seguintes | Perdeu mais 5,5% | Ganhou 14,0% |
| Manteve pelo menos 80% da perda inicial | 89,5% das pessoas | 16,6% das pessoas |
O ganho de 14% foi calculado sobre o peso no momento da retirada. Não significa recuperar somente 14% dos quilos perdidos. Por exemplo, uma pessoa hipotética com 80 kg naquela etapa ganharia 11,2 kg se tivesse uma variação de 14%. Esse cálculo apenas traduz a porcentagem do estudo.
A proposta de reduzir a dose aos poucos pode ser discutida na consulta, mas os números dessa tabela vieram de um estudo que comparou continuação com retirada, sem testar um protocolo de desmame. Uma análise publicada em 2026 destaca a falta de ensaios robustos que demonstrem como a redução gradual, doses menores ou intervalos maiores evitariam o reganho.
Assim como acontece com a estatina, um exame que melhorou durante o tratamento pode mostrar que o tratamento está funcionando. A decisão de continuar ou suspender depende da evolução da doença. Na obesidade, planejar a manutenção inclui alimentação, treino e acompanhamento do retorno da fome, da pressão e da glicose.
Como comprar e conservar com segurança
A Anvisa determinou a apreensão de lotes falsificados de Mounjaro®. Compre em farmácia regular, com receita e nota fiscal. Ofertas em redes sociais, grupos de mensagens, academias ou por revendedores sem origem comprovada dificultam verificar autenticidade e conservação.
Na apresentação brasileira de Mounjaro® com canetas de uso único, a bula orienta guardar entre 2 °C e 8 °C e nunca congelar. Ela também permite até 21 dias fora da geladeira, abaixo de 30 °C. Confira a apresentação e suas instruções, especialmente no transporte. Essa regra deve ser conferida na bula de cada produto, inclusive quando a substância é semaglutida.
O acompanhamento médico serve para avaliar indicação, contraindicações, sintomas e ajustes dos outros medicamentos. Vômitos persistentes, dificuldade de ingerir líquidos ou dor abdominal forte precisam de avaliação. Treino de força e alimentação ajustada entram nesse cuidado desde o começo.
Conclusão
A mulher que perdeu 18 kg continuou usando tirzepatida com ajustes no tratamento, começou musculação e aumentou a proteína da alimentação. Quatro meses depois, segundo o caso clínico relatado, conseguiu levantar da cadeira sem apoiar as mãos. A melhora ocorreu com essas mudanças em conjunto, e o relato não mede a contribuição isolada de cada uma.
Mounjaro® pode melhorar o tratamento da obesidade e beneficiar o coração em situações estudadas. Para você, acompanhar o resultado significa conferir também se a pressão está adequada, se a força se mantém e se os demais remédios precisam de ajuste. Emagrecer com autonomia é um objetivo mais completo do que ver apenas o número da balança cair.
FAQ
Mounjaro® faz bem para o coração?
Pode fazer, dependendo do diagnóstico. Os ensaios com tirzepatida mostram benefício na obesidade com uma forma específica de insuficiência cardíaca e benefício cardiovascular preservado na comparação com dulaglutida em diabetes com doença cardiovascular. Os 20% de redução do SELECT pertencem à semaglutida.
Quem tem pressão alta pode tomar Mounjaro®?
Pode ter indicação, especialmente com obesidade ou sobrepeso a partir de IMC 27 e uma doença relacionada ao peso. A hipertensão entra entre essas doenças. Durante o tratamento, as medidas ajudam o médico a decidir se os anti-hipertensivos precisam de ajuste.
Mounjaro® pode causar pressão baixa?
Pode. O emagrecimento reduz a pressão em muitas pessoas, e os remédios já usados ou a desidratação podem intensificar a queda. Tontura ao levantar merece registro e avaliação, especialmente em idosos.
Mounjaro® aumenta a pressão arterial?
Em média, os estudos mostram redução da pressão. Uma medida alta durante o tratamento precisa ser avaliada no contexto dos sintomas, dos demais medicamentos e da própria hipertensão. Os batimentos podem subir mesmo quando a pressão cai.
Mounjaro® pode deixar o coração acelerado?
Pode. A tirzepatida aumentou discretamente a frequência cardíaca média nos estudos, e há pessoas que percebem palpitações. Se isso vier com dor no peito, desmaio ou falta de ar importante, procure atendimento imediato.
Quais são os efeitos colaterais do Mounjaro®?
Náusea, diarreia, vômitos e constipação estão entre os efeitos digestivos descritos na bula. Também podem ocorrer tontura, queda de pressão e desidratação. A perda de massa magra durante o emagrecimento exige acompanhar alimentação, treino e força.
Como reduzir os efeitos colaterais do Mounjaro®?
Respeite o ajuste de dose combinado com o prescritor e avise se os sintomas limitarem comida ou líquidos. Vômitos ou diarreia persistentes exigem atenção à hidratação e avaliação do tratamento. Se houver tontura ou queda de pressão, os demais remédios precisam entrar nessa revisão.
Quanto tempo duram os efeitos colaterais do Mounjaro®?
Varia. Os sintomas digestivos tendem a aparecer mais durante os aumentos de dose e diminuir com o tempo, mas podem persistir. Vômitos repetidos ou dificuldade para se hidratar exigem avaliação, independentemente de quantos dias tenham passado.
Referências
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