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PMMA é proibido? O que mudou em 2026 e os riscos do preenchimento

Desde junho de 2026, médicos não podem usar PMMA para dar volume ao corpo. Veja o que mudou, o que a Anvisa permite e os riscos de quem já tem PMMA.

O PMMA é proibido como preenchedor estético no Brasil? Para médicos, sim. Desde 2 de junho de 2026, o Conselho Federal de Medicina (CFM) não deixa o médico usar o produto para preencher a pele ou dar volume ao corpo, nem com finalidade reparadora, salvo num caso: pessoas com HIV tratadas no SUS. Em julho, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) proibiu os dentistas de usá-lo para fins só estéticos. O produto continua registrado na Anvisa, mas só para tratamentos reparadores.

Pouco mais de um ano antes, em março de 2025, o canal Treinador Kaká publicou a entrevista “TUDO SOBRE PREENCHIMENTO/ PMMA/ ÁCIDO HIALURÔNICO/ SYNTHOL”, hoje privada no YouTube, com um ortopedista que dizia ter mais de 5 mil pacientes tratados com PMMA na clínica. Ele defendia o produto para corrigir pontos fracos e assimetrias, desde que industrializado, aplicado por médico e no volume certo, e atribuía as complicações ao profissional, e não à substância. Foi justamente esse argumento que a proibição rejeitou.

O que foi proibido, e por quem

A resolução do CFM proíbe o médico de usar PMMA injetável para preencher a pele ou dar volume a partes moles, com finalidade estética ou reparadora. A exceção é a lipodistrofia de pessoas com HIV, a perda de gordura no rosto e no corpo causada por remédios antigos contra o vírus, tratada só em unidades de alta complexidade credenciadas pelo SUS. O CFO foi menos longe: proibiu o uso estético por dentistas, que já só podiam atuar na boca e na face, e manteve o reparador nas indicações registradas. Para o CFO, descumprir a regra é infração ética.

A Anvisa não proibiu o produto. Depois de reavaliar o PMMA a pedido do CFM, concluiu em julho de 2025 que a relação entre risco e benefício é aceitável dentro das indicações aprovadas, que são reparadoras: corrigir perda de volume por sequela de doenças, como a poliomielite, e a lipodistrofia por remédios contra o HIV. No glúteo, a indicação é só para essa lipodistrofia, com no máximo 60 mL de cada lado. A agência admite que os eventos adversos devem ser subnotificados, e o CFM registra que não há dados de quantos procedimentos são feitos. No Senado, um projeto de lei que prevê proibir o PMMA estético tem parecer favorável desde junho, mas ainda não foi votado. O uso do PMMA como cimento de próteses ortopédicas não entra em nenhuma dessas regras.

Como o PMMA era usado no corpo

O PMMA é um plástico usado em medicina há décadas. Na ortopedia, serve como cimento de próteses de quadril e joelho, e na coluna é injetado dentro de vértebras fraturadas. No preenchimento corporal, são microesferas suspensas num gel que o corpo absorve em semanas, deixando as esferas envoltas em colágeno. O entrevistado descrevia partículas de 40 micras, bem mais finas que um fio de cabelo, e duas marcas registradas na Anvisa, as únicas permitidas desde que a agência barrou o produto manipulado, em 2007.

Os volumes que ele relatava estavam fora do que a Anvisa aprova. No glúteo, falava em média de 300 mL, contra o limite de 60 mL de cada lado, ou 120 mL no total, e só na lipodistrofia. A panturrilha, que não tem indicação aprovada, recebia de 30 a 45 mL em mulheres e de 45 a 60 mL em homens, com cuidado para não exagerar: a região é fechada por membranas, e o inchaço pode comprimir os músculos, a chamada síndrome compartimental. Homens faziam peitoral, bíceps, tríceps, trapézio, deltoide e panturrilha, e a segunda sessão vinha 90 a 120 dias depois.

Para quem treina, o argumento mais tentador era que o PMMA ajudaria a hipertrofia: as microesferas incomodariam o músculo, como a areia na ostra, e o treino causaria mais microlesões. Nenhum estudo testou isso. O mesmo médico insistia que, sem treinar pelo menos três vezes por semana, o resultado fica ruim.

A culpa é do produto ou de quem aplica?

A defesa do PMMA se apoiava numa comparação: quando um carro atropela um ciclista, a culpa é do motorista. Para o entrevistado, os problemas vinham do PMMA manipulado de antes de 2007, de quem aplicava sem ser médico, do plano errado e do volume exagerado, além da confusão com o silicone industrial das "bombadeiras", que migra pelo corpo e é proibido. Ele dizia que o PMMA industrializado não migra.

O CFM respondeu a esse argumento com uma revisão de 42 estudos publicados de 2022 a 2025. Nenhum foi feito para medir benefício duradouro, o conjunto não mostrou benefício consistente, e os eventos graves (granulomas, que são caroços inflamatórios, necrose, infecções persistentes, cálcio alto e insuficiência renal) apareceram inclusive em aplicações feitas por médicos, com volumes dentro da bula e em áreas autorizadas. A conclusão foi que não há prova de que o risco se limite ao uso fora da bula ou ao aplicador mal preparado. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica já tinha chegado à mesma conclusão em 2024 e mandado os sócios pararem de usar o produto. Uma série mais antiga, de 2008, com 32 complicações atendidas no Hospital das Clínicas da USP, já mostrava metade dos casos feitos por cirurgiões plásticos certificados.

O entrevistado também atacava uma série de 239 complicações publicada em dezembro de 2024: disse que ela não informava de quantas aplicações vieram os casos, que os dados saíram de um formulário on-line, que 71% dos casos não tinham a marca identificada e que os autores tinham ligação com uma fabricante de preenchedores concorrentes. A crítica sobre a frequência procede, porque uma série de casos mostra que o problema existe, mas não diz quão comum ele é. Os autores, de fato, declaram atuar como palestrantes da Galderma, e o mesmo grupo assina a série de 2025 sobre rim citada abaixo. Sem registro de quantos procedimentos foram feitos no país, ninguém consegue calcular o risco.

O risco que demora a aparecer: cálcio alto e rim

O entrevistado listava cinco complicações: hematoma, seroma (acúmulo de líquido), nódulos, infecção e hipercalcemia, o excesso de cálcio no sangue, que nos casos graves pode levar a insuficiência renal. A explicação que dava para o cálcio alto está certa em parte: o corpo forma uma reação inflamatória ao redor das esferas, e as células dessa reação ativam a vitamina D, que puxa o cálcio para o sangue. Para ele, o gatilho era a moda das megadoses de vitamina D, de até 600 mil unidades por mês, contra 30 mil por mês recomendadas.

Os casos publicados mostram um quadro mais grave. Numa série de 2025, 12 mulheres com 150 a 900 mL de PMMA no glúteo (média de 415 mL, faixa que inclui os 300 mL citados na entrevista) tiveram cálcio alto no sangue ou na urina entre 40 dias e 8 anos depois. A vitamina D de reserva, a que vem do sol, da dieta e dos suplementos, estava normal em todas, e o que subiu foi a forma ativada pela reação ao PMMA. Dez das 12 ficaram com o rim comprometido, e metade teve cálculo renal. Três foram operadas para retirar o produto, e duas melhoraram os exames. Mesmo assim, a creatinina, que mede o funcionamento do rim, continuou alta em 10 delas. Num estudo brasileiro com 17 mulheres, o uso de vitamina D e de anabolizantes e a doença renal prévia apareceram ligados ao cálcio alto, mas a origem do problema é a reação ao PMMA.

Synthol: inflamação no lugar de músculo

Sobre o Synthol, o entrevistado foi duro. É um óleo injetado no músculo que causa inflamação e aumento rápido de volume. Para ele, com o tempo o músculo necrosa, o ponto fraco fica mais fraco e a pessoa precisa de doses cada vez maiores, e o conselho era parar de usar. Ele achava menos ruim o "spot", uma aplicação de pouco volume, que o corpo absorve, usada antes de competir para inchar o músculo por um tempo, mas não disse de qual substância.

Uma série de casos mostra o risco. Num grupo de 10 pessoas que injetaram óleos de aumento muscular, atendidas em média 9 anos depois, a maioria tinha nódulos duros e dolorosos nos músculos, duas tiveram infecção, uma teve cálcio alto grave e quatro precisaram de cirurgia. Um caso extremo, de braços com 73 cm de circunferência, está em braços de óleo e fibrose.

Ácido hialurônico e PRP

O ácido hialurônico é um preenchedor temporário: no relato do entrevistado, dura de 6 meses a 1 ano, sai caro em volumes grandes e precisa ser reaplicado. Temporário não quer dizer sem risco. Injetado por engano dentro de um vaso, pode entupi-lo e matar o tecido. No rosto, essa obstrução já causou perda de visão: numa revisão de 48 casos publicados de 2015 a 2018, o ácido hialurônico aparecia em 81% deles. Já o PRP, o plasma rico em plaquetas tirado do próprio sangue, não serve para dar volume: para o entrevistado, o efeito dura cerca de um mês.

E quem já tem PMMA no corpo?

A proibição vale para quem aplica, não para quem já fez. Mas o PMMA é permanente, e as complicações podem aparecer anos depois. Vale avisar todo médico que atender você, fazer exames de cálcio no sangue e de função do rim, como a creatinina, e não usar vitamina D em dose alta nem anabolizantes sem acompanhamento. Retirar o PMMA não é simples: no glúteo, a técnica indicada é a cirurgia aberta, que remove o produto junto com o tecido doente, muitas vezes em mais de uma etapa e com resultado estético limitado.

Conclusão

O PMMA virou, em 2026, um produto que o médico não pode mais usar para dar volume ao corpo, e o dentista não pode usar para estética. O argumento de que bastava aplicar direito, com produto registrado e no volume certo, perdeu para uma revisão que encontrou complicações graves também em aplicações feitas dentro da bula, por médicos. O cálcio alto e o rim lesado aparecem sobretudo nos grandes volumes, como os que eram usados no glúteo. O Synthol continua sendo a pior escolha, e o ácido hialurônico, temporário, também tem risco. Para o ponto fraco, sobra o caminho mais lento: o próprio treino.

Perguntas frequentes

O PMMA é proibido no Brasil?

Para médicos, sim: desde 2 de junho de 2026, o CFM proíbe o PMMA para preencher a pele ou dar volume ao corpo, salvo na lipodistrofia de pessoas com HIV, no SUS. Dentistas não podem usá-lo para fins só estéticos desde julho. A Anvisa mantém o registro, mas só para tratamentos reparadores.

Quando o PMMA foi proibido?

A resolução do CFM foi aprovada em 21 de maio e publicada em 2 de junho de 2026, quando passou a valer. A do CFO, para dentistas, é de 21 de julho de 2026.

O PMMA é liberado pela Anvisa?

Há dois produtos registrados, aprovados só para uso reparador: perda de volume por sequela de doenças, como a poliomielite, e lipodistrofia causada por remédios contra o HIV. No glúteo, só nessa lipodistrofia e até 60 mL por lado. Uso estético amplo não está entre as indicações.

Pode colocar PMMA no glúteo?

Não para estética. O médico está proibido desde junho de 2026, e a indicação da Anvisa no glúteo é só para lipodistrofia por HIV, até 60 mL por lado. Em grandes volumes, há casos de cálcio alto e lesão renal que aparecem anos depois, além de granulomas.

Tem como retirar o PMMA?

Em parte, por cirurgia. No glúteo, a técnica indicada é a cirurgia aberta, que tira o produto junto com o tecido afetado, muitas vezes em mais de uma etapa e com resultado estético limitado. Na série de 2025, a retirada melhorou os exames em 2 de 3 pacientes operadas.

O PMMA pode migrar?

Pode. O entrevistado dizia que não, mas o CFM cita um estudo de tecidos retirados em que o PMMA tinha migrado do local da aplicação, o que o aproxima do silicone líquido. É um estudo só, e não há registro de quantas vezes isso acontece.

O PMMA faz mal à saúde?

Pode fazer. As complicações descritas incluem granulomas, inflamação crônica, infecção, necrose e cálcio alto com lesão do rim, às vezes anos depois. Ninguém sabe quão frequentes elas são, porque não há registro de quantos procedimentos foram feitos, mas costumam ser permanentes e difíceis de tratar.

Quem tem PMMA pode tomar vitamina D?

Só com acompanhamento médico e sem megadoses. A reação ao PMMA ativa a vitamina D e pode elevar o cálcio no sangue, e o uso de vitamina D apareceu ligado ao cálcio alto num estudo com 17 mulheres. Exames de cálcio e de função do rim ajudam a acompanhar.

Quanto tempo dura o PMMA?

É permanente. O gel que carrega as microesferas é absorvido em semanas, mas as esferas ficam no corpo, envoltas em colágeno. É por isso que as complicações podem aparecer anos depois.

Qual a diferença entre PMMA e ácido hialurônico?

O PMMA é um plástico permanente, e o ácido hialurônico é temporário: segundo o entrevistado, dura de 6 meses a 1 ano. O hialurônico também tem risco: injetado num vaso, pode causar necrose e, no rosto, até perda de visão.

O que substitui o PMMA?

Para volume temporário, o ácido hialurônico, com os riscos de qualquer injetável. Na perda de gordura do rosto por HIV, revisões citadas pelo CFM apontam a gordura do próprio paciente e preenchedores aprovados como opções com melhor evidência.

Quem pode aplicar PMMA?

Pela Anvisa, só médicos e cirurgiões-dentistas habilitados, e só nas indicações reparadoras. Desde 2026, o médico não pode usá-lo para preencher ou dar volume, salvo na lipodistrofia por HIV no SUS. O dentista atua só na boca e na face e não pode usar PMMA para estética, então não faz preenchimento corporal. Biomédicos e outros profissionais não podem aplicar.

Referências

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