Qual a droga mais perigosa? No ranking de danos mais citado sobre o tema, publicado na The Lancet em 2010 com dados do Reino Unido, a resposta foi o álcool, com 72 pontos numa escala de 0 a 100, à frente da heroína (55) e do crack (54). O primeiro lugar não quer dizer que um copo de cerveja faz mais mal que uma dose de crack. O álcool ganhou porque o estudo somou o estrago no próprio usuário com o estrago em quem está em volta, e nessa segunda conta ele não tem rival.
O ranking foi o ponto de partida do psiquiatra Dartiu Xavier em "Álcool é a droga mais danosa, mas 85% de quem bebe não desenvolve dependência, explica médico", trecho do videocast Alt Tabet publicado pelo canal UOL. Ali ele passa por cada substância, do álcool ao DMT, dizendo o que faz e se vicia. Abaixo, droga por droga: quanto estrago cada uma faz, quanto vicia e o que os estudos mostram.
O ranking das drogas mais perigosas: álcool em 1º, com 72 pontos
O estudo foi feito pelo grupo de David Nutt, do Imperial College de Londres. Especialistas do Independent Scientific Committee on Drugs deram notas a 20 drogas em 16 critérios. Nove critérios medem o dano ao usuário (morte, doença, dependência, prejuízo mental, perdas pessoais) e sete medem o dano aos outros (lesões, crime, meio ambiente, família, dano internacional, custo econômico e comunidade). O número que às vezes circula para o álcool, 75, está arredondado para cima: a nota publicada é 72.
A tabela traz as 8 primeiras colocadas e as drogas de nota mais baixa. As posições do 9º ao 15º, com GHB, benzodiazepínicos, cetamina e metadona, entre outras, ficaram entre 10 e 19 pontos.
| Lugar | Droga | Pontuação total (0 a 100) |
|---|---|---|
| 1º | Álcool | 72 |
| 2º | Heroína | 55 |
| 3º | Crack | 54 |
| 4º | Metanfetamina | 33 |
| 5º | Cocaína em pó | 27 |
| 6º | Tabaco | 26 |
| 7º | Anfetamina | 23 |
| 8º | Maconha | 20 |
| 16º e 17º (empate) | Esteroides anabolizantes e ecstasy (MDMA) | 9 |
| 18º (empate com a buprenorfina) | LSD | 7 |
| 20º | Cogumelos com psilocibina | 6 |
A cocaína em pó ficou com 27 pontos, metade do crack, e a maconha com 20. LSD e cogumelos ficaram abaixo de 10. O crack é a mesma cocaína em forma de pedra, fumada, e no estudo teve o maior dano ao próprio usuário de todas as drogas.
Por que o álcool ficou acima do crack e da heroína
Separando as duas contas, o quadro muda. No dano ao próprio usuário, o crack lidera com 37 pontos, seguido da heroína (34) e da metanfetamina (32). O álcool marca 26 nesse quesito. Já no dano aos outros, o álcool tem 46 pontos, mais que o dobro da heroína (21) e quase o triplo do crack (17). Acidentes, brigas em casa, crime e custo para a saúde pública pesam muito. Na conta final, o dano aos outros valeu um pouco mais da metade da nota (54%), e o dano ao usuário valeu o resto.
Parte dessa vantagem vem de quanta gente bebe. Uma droga legal, barata e consumida por milhões espalha mais estrago do que uma droga rara, ainda que a rara seja mais tóxica por dose. É por isso que a pergunta "qual droga é mais perigosa" tem duas respostas: uma para a sociedade, outra para a pessoa que está usando.
Parte do estrago atribuído ao crack também vem da pobreza de quem usa. Quem vive na rua já enfrenta fome, violência e doença, e o crack entra nesse quadro. Isso não torna o crack seguro, porque o dano ao usuário dele é o mais alto do ranking, mas ajuda a entender por que a droga e a miséria aparecem misturadas nas estatísticas.
O resultado se repetiu na Europa e na Austrália
O mesmo método foi aplicado depois com outros especialistas. Em 2015, 40 especialistas da União Europeia chegaram a um resultado quase idêntico: álcool com 72, heroína com 55 e crack com 50. Álcool e heroína repetiram exatamente as notas britânicas. Em 2019, um painel australiano avaliou 22 drogas e também pôs o álcool como a mais danosa no total. Lá, o maior dano ao usuário foi do fentanil (50), um opioide muito mais forte que a morfina, seguido da heroína (45), e o álcool liderou de novo o dano aos outros (41).
O ranking também tem críticos. Pesquisadores de políticas de drogas argumentam que juntar tudo numa nota só esconde coisas que não se comparam, como uma morte por overdose e um prejuízo financeiro, e que o dano de uma droga muda conforme ela é legal ou proibida. O álcool, por ser legal, é muito mais consumido, e para esses críticos isso pesa na nota.
E os anabolizantes no ranking?
Para quem treina, um detalhe da tabela chama a atenção: os esteroides anabolizantes ficaram com 9 pontos, empatados com o ecstasy e bem abaixo do álcool. A nota é um placar de dano somado, com a maior parte do peso no dano aos outros, e não quer dizer que o anabolizante seja inofensivo para quem usa. As causas de morte entre fisiculturistas estão em o que mais mata no fisiculturismo. Para o efeito da bebida nos hormônios masculinos, veja se a cerveja baixa a testosterona e causa ginecomastia.
Quantos que bebem ficam dependentes: de 15 a 23 em cada 100
Dos 100 que bebem, 15 vão ter problema ou dependência, e os outros 85 conseguem beber de forma controlada. É a "notícia boa" que costuma acompanhar o álcool. O número bate com um estudo clássico: o National Comorbidity Survey, que entrevistou cerca de 8 mil americanos de 15 a 54 anos no início dos anos 1990. Entre quem já tinha bebido, 15,4% preencheram critérios de dependência em algum momento da vida.
| Droga | Dos que usaram, quantos ficaram dependentes (estudo de 1994) | Risco projetado até o fim da vida (estudo de 2011) |
|---|---|---|
| Tabaco ou nicotina | 31,9% | 67,5% |
| Heroína | 23,1% | não avaliado |
| Cocaína | 16,7% | 20,9% |
| Álcool | 15,4% | 22,7% |
| Maconha | 9,1% | 8,9% |
| Psicodélicos | 4,9% | não avaliado |
Um levantamento americano mais recente, de 2011, usou outro método: projetou o risco até o fim da vida, contando a dependência que aparece muitos anos depois do primeiro gole. Por essa conta, o álcool sobe para 22,7%, quase 1 em cada 4 bebedores, e o cigarro dispara para 67,5%. Metade dos casos de dependência de álcool apareceu até cerca de 13 anos depois do primeiro consumo. Na maconha, os dois estudos dão quase o mesmo número, perto de 9%, porque a dependência dela costuma surgir nos primeiros anos de uso.
Quem bebe sem dependência também não está livre de risco. A Organização Mundial da Saúde atribui ao álcool 2,6 milhões de mortes em 2019 e liga a bebida a mais de 200 doenças e lesões, de câncer a acidentes. A conclusão da OMS é que nenhuma forma de consumo de álcool é isenta de risco. Uma única noite basta para um acidente de trânsito ou uma queda.
No Brasil, o III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, da Fiocruz, divulgado em 2019, colocou o álcool no topo das drogas mais consumidas. Quase dois terços dos brasileiros já beberam, 46 milhões tinham bebido no mês anterior à pesquisa, e cerca de 2,3 milhões tinham sinais de dependência. O número não se compara direto com os 15%: a pesquisa mediu sinais de dependência na época da entrevista, entre toda a população, e não a chance de quem bebe ficar dependente ao longo da vida.
Maconha: dependência de 9% e risco maior na adolescência
O risco de dependência da maconha fica em torno de 9%, abaixo do álcool, mas considerável. O número bate com o estudo de 1994, que encontrou 9,1%, e um levantamento de 2011 chegou a 8,9%. Para cada usuário que ficou dependente, cerca de 10 não ficaram.
Outro número circula, e não é contradição. O CDC, órgão de saúde dos Estados Unidos, diz que cerca de 3 em cada 10 usuários de maconha têm transtorno por uso. A conta é diferente: considera só quem usou maconha nos últimos 12 meses, conta quantos tiveram algum problema com a droga nesse período e inclui casos leves, não só a dependência.
O alerta mais importante é sobre a idade. Numa coorte da Nova Zelândia que acompanhou jovens até os 26 anos, quem já usava maconha aos 15 teve cerca de 4 vezes mais chance de desenvolver um quadro parecido com esquizofrenia aos 26 (3 de 29 jovens, contra 3% do resto do grupo, um número pequeno). Começar aos 18 trouxe risco menor que começar aos 15.
Para quem tem caso de psicose na família, o conselho é não experimentar. Um estudo americano comparou usuários de maconha com e sem psicose e achou mais parentes com esquizofrenia entre os que tiveram psicose. Para os autores, a herança familiar, e não a maconha sozinha, seria a base da psicose nesses usuários. Isso não livra a droga: a coorte da Nova Zelândia mostrou risco maior em quem começa cedo, e quem já carrega essa herança tem um motivo a mais para não arriscar.
Cada pessoa reage de um jeito
Tem quem beba e vá dormir, tem quem beba e arrume briga no trânsito. A mesma variação aparece com outras drogas, e por isso a avaliação de quem perdeu o controle olha a história de cada paciente: por que começou a usar, em que momento da vida e como perdeu o controle. Uma verdade geral sobre a droga não basta para entender o caso de uma pessoa.
Cocaína: euforia e depois a queda
A cocaína é um estimulante. Na hora, a pessoa se sente poderosa, mais bonita e mais inteligente. A ressaca é o oposto: tristeza, sensação de ser um lixo, cansaço. Quando o uso para ou a farra termina, vem quase de imediato uma queda, com fissura, falta de prazer, ansiedade e irritação.
É aí que mora o ciclo. Para sair da queda, a pessoa procura mais cocaína, sobe de novo e cai de novo. Nem sempre dá para saber se a tristeza é da droga ou de uma depressão que já existia, e muitas vezes as duas coisas se misturam.
MDMA e a "terça-feira triste"
O MDMA, princípio ativo do ecstasy, também é estimulante, mas costuma ser descrito como bem menos problemático que a cocaína, por permitir um uso mais controlado. É uma droga empatogênica, que dá bem-estar e facilidade de contato com os outros.
A "terça-feira triste" é a queda de humor que aparece uns três dias depois do uso no fim de semana. Um estudo britânico de 1997 com 12 usuários de ecstasy registrou humor alto no dia do uso e bem mais baixo no meio da semana seguinte, em alguns casos na faixa da depressão. Os autores atribuíram a queda à falta temporária de serotonina. O estudo, porém, teve só 12 pessoas.
Pontuar 9 no ranking não faz do MDMA uma droga segura. O instituto americano de pesquisa sobre drogas (NIDA) alerta para a alta perigosa da temperatura do corpo, mais provável em festa quente e com muita dança, para a pressão alta e, no uso prolongado, para problemas no coração e no fígado. O comprimido vendido como ecstasy pode trazer outras drogas, como cetamina, anfetamina e catinonas sintéticas, sem que a pessoa saiba. O NIDA também diz que o MDMA pode viciar, embora isso ainda precise de mais estudo.
LSD, ayahuasca e DMT
LSD
O LSD foi sintetizado em 1938 por Albert Hofmann, no laboratório Sandoz, em Basileia, na Suíça. Os efeitos só foram percebidos em 1943. A droga provoca a "viagem psicodélica": a pessoa vê cores, formas que mudam no espaço e perde a noção do tempo.
O LSD e a psilocibina dos cogumelos normalmente não levam à dependência, e no estudo de 1994 só 4,9% de quem usou psicodélicos ficou dependente. A viagem, porém, pode ser um sonho bom ou um pesadelo, porque traz à tona conteúdos que a pessoa não controla.
O medo de "ir e não voltar" tem base, mas é raro. Em quem tem predisposição, a viagem pode desencadear um quadro psicótico que persiste. Existe também um transtorno em que imagens da viagem voltam por meses ou anos, real e incomum, mais visto depois de LSD comprado na rua do que em pesquisa. Quem já teve psicose ou tem caso na família não deve tomar nenhuma dessas substâncias.
Ayahuasca
A ayahuasca, o chá do Santo Daime e da União do Vegetal, junta o DMT de uma planta com a harmina de um cipó. No Brasil, o uso religioso segue regras de uma resolução de 2010 do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte garantiu em 2006 à União do Vegetal o direito de usar o chá nos rituais, numa decisão que vale para esse grupo, não para qualquer um. Problemas sérios com o chá são raros e aparecem sobretudo em quem já tem outro transtorno mental, o mesmo grupo que deve evitar o LSD.
O uso pelos povos da Amazônia costuma ser descrito como milenar. O indício mais antigo é uma bolsa ritual de cerca de mil anos achada numa caverna da Bolívia, com DMT e harmina, os dois ingredientes do chá. Ela mostra que as plantas eram usadas juntas, mas não prova que a bebida já era preparada. O efeito dura em torno de 4 horas, e algumas medidas do corpo só voltam ao normal entre 4 e 6 horas.
DMT, o "sapo" e a jurema
Muita gente acha que o DMT vem de um sapo. O sapo do deserto de Sonora, na fronteira entre México e Estados Unidos, solta pela pele uma secreção com outra substância, o 5-MeO-DMT, um parente químico do DMT. Essa secreção é tóxica se engolida e, por isso, quem usa fuma ou vaporiza o material seco. Lamber ou beber é perigoso, e fumar não torna seguro um alucinógeno tão potente.
O DMT propriamente dito existe em várias plantas, como a jurema-preta do Nordeste, que tem de 1,3 a 9,4 mg de DMT por grama da casca interna. Ele não precisa do sapo.
O efeito do DMT é curto. Fumado ou vaporizado, ele age por 10 a 20 minutos, segundo um ensaio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte com pacientes com depressão. Na veia, o efeito chega ao pico em cerca de 2 minutos e quase some em meia hora. A ayahuasca dura mais porque a harmina impede o corpo de destruir o DMT logo.
Quando a viagem não acaba
Nenhuma dessas drogas dura dias, a menos que a pessoa continue tomando. Há rituais de vários dias com cogumelos no México, e com ibogaína na religião Bwiti, na África, mas nesses casos a pessoa toma de novo. Se a viagem continua depois que o efeito deveria ter passado, é sinal de reação psicótica, e a pessoa precisa de atendimento médico.
Conclusão
O álcool ficou em 1º no ranking de David Nutt, com 72 pontos, porque soma dano ao usuário com um dano aos outros que nenhuma outra droga alcança. No dano à própria pessoa, crack e heroína são piores. A nota baixa de LSD, cogumelos, ecstasy ou anabolizantes não faz deles drogas seguras, e beber sem dependência, como faz a maioria dos que bebem, não é beber sem risco.
A pergunta útil é sobre a pessoa: qual droga, quanto, com que frequência, com que histórico na família e em que situação. É essa conta que mostra quanto risco cada pessoa corre, e nenhuma droga, nem o álcool, sai dela com risco zero.
Perguntas frequentes
Qual a droga mais perigosa do mundo?
Somando o dano ao usuário e o dano aos outros, o álcool, nos rankings do Reino Unido (2010), da União Europeia (2015) e da Austrália (2019). Olhando só o dano a quem usa, as piores foram o crack e a heroína no Reino Unido e o fentanil na Austrália.
Qual a droga ilícita mais perigosa?
No ranking britânico, a heroína (55 pontos) e o crack (54) foram as ilícitas com maior nota, e o crack teve o maior dano ao próprio usuário (37). No ranking australiano, o fentanil liderou o dano ao usuário, com 50 pontos.
Por que o álcool é considerado uma droga?
Porque age no cérebro e pode causar dependência. A Organização Mundial da Saúde define o etanol das bebidas como substância psicoativa e tóxica capaz de causar dependência. Ser vendido no mercado não muda isso.
O que é pior, álcool ou droga?
O álcool é uma droga, e no dano total, somando usuário e terceiros, ficou acima de todas as outras no ranking de David Nutt. Para a pessoa que usa, crack, heroína e metanfetamina causam mais estrago por conta própria.
Álcool é pior que crack?
No placar total, sim: 72 a 54. No dano ao próprio usuário, não: o crack marcou 37 e o álcool, 26. O álcool vence porque espalha mais dano aos outros, com violência, acidentes e custo para a saúde pública.
Álcool é pior que cigarro?
Depende da conta. No ranking de danos, o álcool marcou 72 e o tabaco, 26. Na dependência, o cigarro é pior: 31,9% de quem fumou ficou dependente no estudo de 1994, contra 15,4% de quem bebeu.
Qual a droga mais perigosa do Brasil?
Não há ranking de danos feito no Brasil. Os que existem são do Reino Unido, da Europa e da Austrália, e todos põem o álcool no topo. Aqui, o levantamento nacional da Fiocruz mostra o álcool como a droga mais consumida, à frente do tabaco, com cerca de 2,3 milhões de pessoas com sinais de dependência.
Qual a droga menos perigosa?
No ranking britânico, os cogumelos com psilocibina tiveram a menor nota (6), seguidos do LSD (7). Nota baixa não é segurança: viagem ruim, acidentes e crise psicótica em quem tem predisposição continuam possíveis.
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