Os riscos do fisiculturismo podem aparecer muito antes do primeiro título. Um jovem que começou a usar anabolizantes aos 17 anos e meio relata ter ouvido vozes e passado noites sem dormir. Outro diz que chegou a somar 4.700 mg de substâncias e, a 11 dias de competir, sente dor até para sair da cama.
Esses casos abrem “The Dark Reality Of Pro Bodybuilding”, de Will Tennyson. A investigação segue dos jovens que sonham com a carreira profissional até os bastidores do Olympia. O custo inclui o coração, a pele, o sono, a relação com a comida e o tempo com a família.
Quando a vontade de crescer vira uma corrida para ser profissional
Logan Dishman cresceu vendo o pai treinar e o considerava o maior homem da academia. Depois, conheceu os físicos extremos pelas redes sociais. Aos 11 ou 12 anos, decidiu que queria chegar àquele nível. Começou a treinar por volta dos 15 e a usar esteroides aos 17 anos e meio.
Na entrevista, ele pesa quase 118 kg e mede cerca de 1,78 m. Seu plano é acrescentar aproximadamente 14 a 16 kg de músculo e subir ao palco com 109 a 113 kg depois da preparação. São estimativas pessoais sobre o tamanho que acredita precisar atingir.
Quando precisa escolher entre vencer o Mr. Olympia e morrer aos 45 anos ou viver mais sem o título, ele escolhe o Olympia. Ao mesmo tempo, afirma tentar preservar a saúde para realizar o sonho e viver bastante. As duas vontades convivem: aceitar o risco e acreditar que conseguirá escapar dele.
Os efeitos que já percebeu foram importantes: vozes que ouvia, insônia e conflitos com a família e nos relacionamentos. O uso também atrapalhou suas finanças e o equilíbrio da rotina. Ele relata um resultado de exame de testosterona de 1.500, com pico anterior de 3.000. São concentrações no sangue, medidas diferentes da dose aplicada. Também cita HDL, conhecido como colesterol bom, que caiu a 9 e depois voltou a 42. Os resultados são declarações pessoais, sem laudos e unidades apresentados na fala.
4.700 mg e a sensação de estar cada vez pior
O segundo jovem chega à entrevista a 11 dias da competição. Diz sentir-se mal o tempo todo. A rotina de alimentação que mostra é dominada por creme de arroz, com chocolate amargo e pepinos para tentar conter a vontade de comer. Ele também usa vape para reduzir o apetite e consome energéticos.
Ele relata um pico de 4.700 mg: duas parcelas de 2.000 mg e outra de 700 mg. Ao explicar a última, menciona 100 mg antes do treino e um total de 700 mg. A composição completa e o período de uso permanecem incertos. Os 4.700 mg dimensionam o relato, sem permitir reconstruir um protocolo.
A escalada chegou a um limite: com cerca de 4 g, ele diz que já havia parado de crescer. Reduziu para 2.000 mg e percebeu melhora no bem-estar e nos exames. Sua própria experiência mostra o erro de dobrar a quantidade esperando que o músculo continue crescendo na mesma proporção.
A pele também sofreu. Ele associa o começo da acne à nandrolona e relata que as feridas começaram depois de iniciar um tratamento para acne. Acredita que as cicatrizes no peito serão permanentes. Esse é o relato da sequência dos acontecimentos, sem diagnóstico dermatológico que estabeleça o papel de cada medicamento.
O jovem também aceita a hipótese de morrer aos 40 anos se isso significar ser o melhor do mundo. Conta que começou numa fase em que pouco se importava com a própria vida. O relacionamento com a namorada lhe deu mais propósito e o levou a tentar ser mais cuidadoso. Essa mudança pessoal ajuda a explicar a redução do uso, sem transformar a quantidade restante em uma dose segura.
Quem vende a droga ganha mesmo quando o atleta perde
Um vendedor anônimo de Las Vegas diz faturar seis dígitos por mês e manter mais de 10 telefones. Afirma vender até para adolescentes de 14 ou 15 anos, desde que paguem. Questionado sobre testes de qualidade, evita responder. São alegações de um entrevistado anônimo, sem documentos que confirmem o faturamento ou a operação.
A comparação usada para minimizar o risco é familiar: o pai toma testosterona numa clínica, então o filho estaria apenas fazendo algo parecido. Ela apaga diferenças essenciais de indicação, idade, exposição e procedência. O vendedor recebe pelo produto e deixa para o comprador a consequência do uso.
Uma revisão de 2022 reuniu 19 estudos de análises laboratoriais e estimou 36% de produtos falsificados. Em outro conjunto de análises, encontrou 37% fora do padrão de concentração. Os percentuais vieram de amostras e métodos diferentes. Cada percentual descreve uma avaliação diferente: o que havia no produto ou em qual concentração estava.
O problema pode ser ausência do princípio ativo, troca por outra substância ou quantidade diferente da declarada. As amostras eram principalmente produtos apreendidos, com grande variação entre estudos. Esses resultados mostram incerteza sobre o mercado clandestino, sem calcular a probabilidade exata para um frasco específico. A matéria sobre esteroide falso ou subdosado aprofunda o que as análises conseguem demonstrar.
O que os anabolizantes podem fazer com o coração
Músculos maiores exigem uma avaliação que vá além do espelho. O coração pode ficar com as paredes mais espessas e perder capacidade de relaxar ou bombear sangue. Pressão alta e alterações no colesterol acrescentam problemas à circulação.
Uma revisão publicada em setembro de 2026 juntou 40 estudos com 1.906 atletas, 95% deles homens. Entre usuários de anabolizantes, encontrou maior massa do coração e pior bombeamento. Exposições mais longas estiveram associadas a algumas das alterações mais importantes. Como boa parte das comparações foi feita entre pessoas diferentes, o estudo descreve associações, sem prever a evolução de cada usuário.
Um estudo dinamarquês de 2025 acompanhou 1.189 usuários e 59.450 homens usados para comparação durante cerca de 11 anos. O uso esteve associado a aproximadamente três vezes o risco de infarto e quase nove vezes o de cardiomiopatia, doença do músculo cardíaco. É um acompanhamento observacional, sujeito a diferenças entre os grupos, mas com eventos clínicos que vão além de alterações em um exame.
Outro levantamento, com 20.286 competidores, identificou 121 mortes, das quais 46 foram classificadas como morte súbita cardíaca. Entre os profissionais ocorreram 25 dessas mortes, contra 21 entre os amadores, embora houvesse muito mais amadores na amostra. O levantamento buscou óbitos em fontes públicas e tinha poucas autópsias disponíveis. Ele aponta um problema, mas deixa sem resposta quanto da diferença veio de cada droga, do peso ou de outras condições.
Fazer cardio e tratar a pressão fazem parte do cuidado com a saúde. Ainda assim, os estudos encontram alterações cardíacas entre pessoas que treinam. A ideia de que o exercício aeróbico ou um remédio auxiliar neutraliza toda a exposição aos anabolizantes vai além do que essas pesquisas demonstram. Veja também como o risco se acumula ao longo dos anos.
Por que exame de sangue e eletrocardiograma contam histórias diferentes
O eletrocardiograma registra a atividade elétrica do coração. O ecocardiograma usa ultrassom para avaliar paredes, válvulas e bombeamento. O teste de esforço acompanha a resposta ao exercício. Cada exame responde a uma pergunta, e um resultado normal no eletrocardiograma pode coexistir com uma alteração estrutural vista no ultrassom.
O mesmo raciocínio vale para o sangue: acompanhar pressão, colesterol, hemograma e função dos órgãos ajuda a encontrar problemas, enquanto cada resultado tem limites. Os rins também precisam ser avaliados, com cuidado para interpretar a creatinina, que pode subir em quem tem muita massa muscular. Quais exames pedir e quando repeti-los depende dos sintomas e da exposição. Um exame feito há seis meses descreve aquele momento, em vez de autorizar os meses seguintes de uso.
Na preparação, água e sais também entram no risco
Na semana final, alguns atletas tentam alterar água, sal e carboidrato para melhorar a definição. Restringir líquidos e usar diuréticos pode desorganizar sódio e potássio, sais essenciais ao funcionamento dos músculos e do coração. A revisão sobre a semana da competição, publicada em 2021, descreve complicações graves e destaca a pouca evidência para várias dessas práticas.
A insulina acrescenta outro perigo quando usada sem indicação: a glicose pode cair a níveis que comprometem o cérebro e a consciência. A aparência mais seca no palco também pode coexistir com fome, sede e exaustão. Fazer poses exige contrair vários músculos e sustentar a apresentação mesmo nessas condições.
Fora do coração, os esteroides também podem causar acne, alterações no colesterol, lesão do fígado e supressão da produção natural de testosterona, com efeitos sobre função sexual e fertilidade. Em mulheres, podem ocorrer engrossamento da voz e aumento do clitóris. Alguns efeitos podem persistir após a interrupção. A substância, o tempo de uso e as combinações mudam o risco.
Duas horas de cardio, 30 mil passos e quase nenhuma energia
Um dos relatos de preparação soma duas horas de cardio em máquina a 28 mil a 30 mil passos por dia. O cansaço chega ao ponto de dificultar subir as escadas de casa. Outro inclui retenção de líquido, pressão mais alta e mudanças no rosto atribuídas ao hormônio do crescimento. A melhora percebida após interromper o uso veio acompanhada de uma dúvida: o que aconteceu com os órgãos por dentro?
Um ex-competidor relata ter passado de 136,1 kg e desenvolvido apneia grave do sono. Diz que chegava a ter apenas 40 minutos de sono reparador por noite. Acordava cansado, recorria à cafeína e logo voltava a sentir fadiga. Depois de rever o peso e as prioridades, continuou usando CPAP, o aparelho que mantém a passagem de ar aberta durante o sono.
Ronco forte, pausas na respiração, engasgos durante o sono e sonolência de dia justificam investigar apneia. A percepção de ter dormido pouco ou um dado do relógio, sozinhos, deixam o diagnóstico em aberto. A ferramenta de triagem de risco de apneia ajuda a organizar os sinais para conversar com o profissional de saúde.
A comida pode continuar dominando o dia depois da dieta
Os relatos de sofrimento com a alimentação incluem semanas sem carboidratos, mastigar biscoitos e cuspir para sentir o gosto, além de episódios de compulsão seguidos de comportamentos para compensar o que foi comido. São experiências pessoais. Transformá-las em regra para todos os atletas apagaria a diferença entre o que foi vivido e um diagnóstico.
Em outra preparação, um atleta passou o aniversário sem sentir prazer em nada. Dias depois, saiu sozinho para comer um sanduíche Reuben e contou ao treinador no dia seguinte. Ele precisava recuperar uma sensação de prazer. A rigidez da dieta tinha começado a afetar a vida para além da fome.
A obsessão também pode sobreviver ao tamanho do físico. Um relato descreve a rotina anterior de seis refeições, cerca de 5.000 kcal por dia e 117,9 kg, ainda com o abdômen definido. Depois de reduzir o tamanho e o treino, a vontade constante de comer permaneceu. O hábito de pedir duas refeições de uma vez continuou mesmo numa fase diferente da carreira.
Depois da competição, o peso pode subir de 9 a 18 kg
Wesley Vissers descreve uma mudança decisiva após sair do palco: a fome continua, enquanto a data que justificava suportá-la já passou. Durante a preparação, há uma meta próxima. Depois dela, fica mais difícil explicar a si mesmo por que continuar recusando comida. Na refeição de comemoração, ele escolhe alimentos fora do plano e ainda acrescenta claras e bacon de peru à refeição.
Ele relata ver atletas ganharem cerca de 9,1 a 18,1 kg em duas ou três semanas. Esse aumento pode reunir água, reposição das reservas de carboidrato, comida no aparelho digestivo e gordura. A balança, isoladamente, deixa sem resposta quanto veio de cada parte.
A revisão sobre a semana da competição também descreve riscos ligados à retenção de líquido e ao retorno da alimentação após práticas extremas. Edema é o acúmulo de líquido nos tecidos. Identificar todo ganho rápido de peso como edema, sem avaliação, seria simplificar demais o problema.
Recuperar parte do peso e da gordura faz parte da saída da preparação. Em 2026, um estudo acompanhou 19 atletas naturais, oito homens e 11 mulheres, até 12 semanas depois da competição. Sono, humor e hormônios da tireoide pioraram na preparação e melhoraram na recuperação. Boa parte da recuperação da composição corporal ocorreu nas primeiras seis semanas. Por ser observacional, o estudo deixa em aberto qual estratégia alimentar funciona melhor.
Planejar essa fase antes da competição dá à recuperação uma meta própria. É preciso combinar com a equipe como retomar a alimentação, acompanhar mudanças rápidas no corpo e lidar com a sensação de perder o físico de palco. Comer com pessoas próximas também pode recuperar uma parte social da vida que a preparação estreitou.
A mudança no espelho também pesa. Wesley diz que se acostumou a sair do físico de palco, mas explica que compete várias vezes por ano. A preparação seguinte costuma começar antes de ele se afastar muito daquela forma. Como já está perto do limite de peso da categoria, considera pouco útil ganhar muito peso no off-season, a fase fora da preparação.
O prêmio cobre a preparação? E quem fica ao seu lado?
Mesmo entre profissionais, há atletas com dificuldade para pagar viagens, alimentação e preparação. A avaliação de Wesley é que a premiação muitas vezes fica muito abaixo dos gastos. Conquistar o cartão profissional e conseguir viver do esporte são etapas diferentes.
O isolamento pesa tanto quanto as contas. A preparação pode transformar cansaço e irritação em afastamento de quem dava apoio. Um dos conselhos é incluir a família no processo e preservar os vínculos. Se todas as relações se desfazem no caminho, falta com quem comemorar a conquista.
Um campeão aposentado explica que a pergunta deixou de ser quantos títulos ainda poderia ganhar. Depois de formar família, mais tempo com as filhas e melhor saúde passaram a valer mais que outro Olympia. Já Nick Walker, apresentado como campeão após a final, conta que faltou a eventos familiares para manter a preparação. Para ele, a presença da família na conquista ajudou a dar sentido às renúncias.
Fisiculturismo natural também exige cuidado
Competições naturais estabelecem regras de elegibilidade e controle antidoping. Na WNBF, por exemplo, a política inclui substâncias proibidas e testes. Antes de escolher um campeonato, o atleta precisa conferir o regulamento da entidade. O orientador de categorias do fisiculturismo natural ajuda a entender as divisões da WNBF.
Retirar os anabolizantes evita essa exposição, enquanto dieta muito restritiva e dificuldade para recuperar a alimentação continuam merecendo atenção. O estudo de 2026 encontrou alterações de sono, humor e função hormonal em atletas que se declaravam naturais e competiam em federações testadas. Entre as sete mulheres sem contraceptivo hormonal, seis relataram ausência de menstruação duas semanas depois da competição.
Se você quer competir, vale definir antes quanto tempo, dinheiro e mudanças de rotina consegue sustentar. Médico, nutricionista e profissional de educação física ajudam a planejar e acompanhar a preparação. Sofrimento com a comida, alterações de comportamento e prejuízo nas relações também entram nessa avaliação. A decisão precisa considerar a vida que continuará depois do palco.
Quais sinais pedem atendimento imediato?
Dor ou pressão no peito, especialmente com falta de ar, suor frio ou tontura, pede atendimento de emergência. Esses sintomas podem começar de forma leve. Interrompa o esforço e procure ajuda imediatamente, mesmo que você tenha feito exames recentes.
Depois de usar insulina, confusão, convulsão ou perda de consciência podem indicar uma queda grave de glicose e exigem ajuda imediata. Esse quadro precisa de atendimento, sem esperar o fim do treino ou da preparação.
Conclusão
Chegar ao fisiculturismo profissional pode exigir escolhas que afetam muito mais que a aparência. Os relatos mostram jovens aceitando riscos enormes, atletas exaustos e dificuldade para voltar a comer e viver fora de uma preparação. Também mostram paixão, orgulho e uma comunidade que celebra o esforço de quem compete.
Para algumas dessas pessoas, a conquista dá sentido ao sacrifício. Para outras, parar passou a ser a melhor decisão. Antes de perseguir o próximo tamanho ou título, a pergunta útil é pessoal: o que você está disposto a abrir mão, e que sinais fariam você mudar de caminho?
Perguntas frequentes
Quais são os principais riscos do fisiculturismo?
No nível competitivo, os riscos incluem efeitos dos anabolizantes, alterações cardíacas e complicações de manipulações de água e sais. Dietas extremas, sono ruim, sofrimento com a alimentação e isolamento também podem participar do custo da preparação. A exposição varia conforme as práticas e as condições de cada atleta.
O fisiculturismo é saudável?
Treinar para ganhar músculo pode fazer parte de uma rotina de saúde. A preparação extrema para competir acrescenta situações como restrição alimentar, recuperação insuficiente e, em parte dos atletas, uso de drogas. Um corpo muito definido descreve a aparência, sem medir sozinho a saúde dos órgãos.
Quanto tempo de vida tem um fisiculturista?
Os estudos disponíveis deixam sem resposta uma expectativa de vida única para quem pratica fisiculturismo. O levantamento com 20.286 competidores identificou mortes durante o acompanhamento, mas esse desenho permite comparar eventos observados, sem calcular quantos anos cada atleta viverá. Idade, histórico de saúde e exposição diferem muito entre pessoas.
Como é o corpo de quem faz fisiculturismo?
Na competição, os critérios incluem tamanho muscular, proporções, definição e apresentação. Eles mudam conforme a categoria e a entidade. O físico de palco costuma ser preparado para uma data, e o atleta passa por mudanças de peso e aparência fora desse período.
É permitido usar anabolizantes no fisiculturismo?
Nas competições naturais da WNBF, os anabolizantes fazem parte das substâncias proibidas. A elegibilidade depende do regulamento e do histórico de uso, com controle antidoping. Para outro evento, é necessário consultar a entidade responsável, sem presumir que todas seguem as mesmas regras.
Fisiculturismo natural é saudável?
Pode ser praticado com cuidados, mas uma preparação restritiva também pode trazer problemas sem uso de anabolizantes. No estudo com 19 atletas naturais, sono, humor e hormônios se alteraram perto da competição. Por isso, a recuperação depois do campeonato também precisa entrar no planejamento.
Como funciona o fisiculturismo natural?
O atleta prepara e apresenta o físico dentro das categorias e das regras da federação. Entidades como a WNBF têm critérios de elegibilidade, lista de substâncias proibidas e testes antidoping. Quem pretende competir precisa conferir essas exigências antes de se inscrever.
Referências
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