A Lei Ganley, projeto apresentado em Minas Gerais, foi uma das respostas políticas à morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, em maio de 2026. Em julho, dois meses depois, nenhuma das promessas feitas na semana do luto tinha saído do papel. E, até o começo de novembro, o projeto continuava parado numa comissão da Assembleia mineira, sem nenhuma lei aprovada.
No dia em que a morte completou dois meses, o endocrinologista Carlos Eduardo Seraphim conferiu as promessas uma a uma em "GANLEY SE FOI HÁ 2 MESES. Ninguém cumpriu o que prometeu!". A tese é que existe uma máquina, com marcas, laboratórios, podcasts, coaches, cursos, cupons e influenciadores, que depende de jovens acreditando num jeito seguro de usar anabolizante. Uma morte não trava essa máquina. Ela transforma a morte em conteúdo, fica quieta um tempo e volta a girar.
O que já se sabia sobre a morte
Ganley foi encontrado morto por um amigo no apartamento onde morava, na Mooca, zona leste de São Paulo, em 23 de maio de 2026. O caso foi registrado como morte suspeita. Segundo o atestado de óbito, divulgado pela imprensa, a causa foi cardiomiopatia hipertrófica, o músculo do coração grosso demais. Se ela era de nascença ou foi agravada pelos anabolizantes, a investigação não disse. O contexto e as hipóteses médicas estão em caso Ganley: o ecossistema de coaches, marcas e anabolizantes e em Gabriel Ganley e a cardiomiopatia hipertrófica.
As promessas da semana do luto
Na semana seguinte à morte, o Fantástico exibiu uma gravação antiga em que o influenciador Léo Stronda aplica anabolizante no braço de Ganley diante das câmeras. Stronda publicou um pronunciamento: disse que se arrependia "profundamente" e prometeu que não iam mais ouvi-lo falar desse assunto. Renato Cariani se disse uma espécie de "presidente da comunidade", foi criticado e pediu desculpas pelo termo. O Monster Cast, maior podcast de fisiculturismo do país, fez um pronunciamento oficial.
Até julho, Stronda cumpriu a promessa de não falar mais do assunto nos próprios canais, segundo o levantamento. Para a tese da máquina, prometer silêncio é o padrão: a promessa dá audiência no dia, não custa nada depois e a internet esquece rápido.
Lei Ganley: o que é e onde está
A chamada Lei Ganley é o Projeto de Lei 5.761/2026, da deputada estadual Andréia de Jesus (PT), protocolado na Assembleia de Minas Gerais em 27 de maio. Ele cria uma política estadual de conscientização e prevenção ao uso indevido de anabolizantes. O último andamento registrado foi em 18 de agosto, quando a Comissão de Constituição e Justiça escolheu o relator. Desde então, aguarda parecer. Outros projetos surgiram no Piauí e na Câmara dos Deputados, e um projeto anterior, de 2025, voltou ao debate:
| Projeto | Onde | O que prevê | Situação conhecida |
|---|---|---|---|
| PL 5.761/2026, a "Lei Ganley" | Assembleia de Minas Gerais | Política estadual de prevenção ao uso indevido de anabolizantes | Aguardando parecer na CCJ, último andamento em 18/08/2026 |
| Dois projetos do deputado Gessivaldo Isaías | Assembleia do Piauí | Prevenção ao uso de anabolizantes e exames cardiológicos preventivos | Protocolados em 08/06/2026, sem número divulgado |
| PL 3120/26 | Câmara dos Deputados | Proíbe apresentar anabolizante como seguro e exige alerta de risco na publicidade | Noticiado em agosto de 2026, nas comissões |
| PL 21/2025 | Câmara dos Deputados | Regulamenta a profissão de treinador de fisiculturismo | Apresentado em fevereiro de 2025. Em maio de 2026, aprovado na Comissão do Esporte, aguardava a Comissão de Trabalho |
Nenhum desses projetos virou lei. A norma federal em vigor é a Lei 9.965, de 2000, que só permite vender anabolizante com retenção da receita de médico ou dentista. O mercado paralelo não passa pela farmácia: o produto é anunciado em rede social, com link, e chega na casa de quem compra.
O inquérito ficou em silêncio
A última atualização pública sobre a investigação foi de 26 de maio. O inquérito pode estar em andamento, mas nada foi divulgado. Em casos de grande repercussão, as notícias costumam andar rápido, e aqui não andaram. Nenhum grande veículo voltou a cobrar o andamento do inquérito. Até julho, segundo o levantamento, Polícia Federal, Anvisa e Ministério da Saúde não tinham anunciado nenhuma ação ligada ao caso.
Quem pisou no freio foi criticado
Três dias depois da morte, Matheus Lacerda, parceiro de treino de Ganley, anunciou que subiria no palco do Muscle Contest Brasil "para terminar o que Ganley começou". A internet reagiu com críticas: uma preparação de oito semanas, saindo de repente do off-season, era arriscada, e a melhor homenagem seria cuidar da saúde.
Em julho, ele competiu no regional e se classificou. Na reta final para o nacional, segundo o próprio atleta, o corpo quebrou: problemas de estômago, vômitos, retenção de líquido. Na véspera do campeonato, ele e o treinador anunciaram nas redes a desistência pela saúde, exatamente o que tinham cobrado dele. A resposta, de novo, foram críticas e deboche nos comentários. No código do meio, quem compete doente é culpado, e quem para pela saúde é fraco. A culpa fica com o usuário, e não com o sistema.
Podcasts: mais de 110 episódios e nenhum médico para falar de Ganley
O levantamento contou todos os episódios dos dois maiores podcasts do país nos dois meses seguintes à morte. Foram mais de 110 programas. Nenhum recebeu um cardiologista ou um endocrinologista para falar do que aconteceu com Ganley. Houve médicos convidados, mas para falar de política, apostas e até ET de Varginha.
Em outro podcast do meio, gravado em julho, um convidado repetiu a ideia de que anabolizante não mata ninguém e atribuiu a morte de Ganley a outras causas, como hipoglicemia e estimulantes, embora tenha admitido que o aumento do coração causado pelo esteroide pode ter agravado o quadro. Os números dizem outra coisa. Numa coorte dinamarquesa, usuários de anabolizantes tiveram risco de morte 2,8 vezes maior que homens da mesma idade em 11 anos. No estudo de Pádua, com mais de 20 mil fisiculturistas da IFBB, 46 morreram de morte súbita cardíaca, e as autópsias disponíveis mostraram coração aumentado. O estudo não mediu o uso de anabolizante, mas a idade média de quem morreu foi de 45 anos.
Muitos influenciadores dizem que falam de anabolizante para conscientizar. Para o levantamento, o argumento não fecha, porque o problema do meio nunca foi falta de informação: qualquer criança sabe que anabolizante faz mal, assim como sabe que cigarro faz.
A competição seguiu sem mudanças
Quatro dias antes da abertura do Muscle Contest Brasil, Maílson Araújo Santos, fisiculturista baiano inscrito no campeonato, morreu depois de passar mal após um treino. A causa não foi divulgada.
A competição aconteceu de 17 a 19 de julho, em Curitiba, e a mãe de Ganley subiu ao palco para homenagear o filho. Segundo o levantamento, não houve exame cardiológico obrigatório nem protocolo de saúde novo para os atletas.
Engrenagem não para por remorso
A última engrenagem não depende de nenhum podcast ou influenciador. É o público. O conteúdo de risco e a fofoca continuam dando mais audiência que o alerta, e quem prometeu mudar seguiu postando para essa audiência.
O placar ficou em seis a zero para "não mudou": o Estado que não aparece, o meio profissional que segue igual, o código que pune quem tenta sair, os podcasts que ensinam, a desculpa que absolve o anabolizante e a atenção do público. A informação não é o gargalo: ela sobra, de graça. O gargalo é que cada engrenagem continua dando retorno a quem participa dela. Enquanto prometer for de graça e cumprir for caro, o ciclo se repete. Os riscos de cada substância estão na ferramenta de fármacos do site.
Conclusão
Dois meses depois da morte de Gabriel Ganley, o projeto da Lei Ganley estava parado numa comissão, o inquérito não tinha novidade pública, a competição seguiu sem mudança e outro inscrito morreu dias antes do palco. Das promessas da semana do luto, a única cumprida foi a de ficar em silêncio.
O pedido final é para quem é jovem e pensa em usar hormônio para competir ou só para postar o físico: antes de ouvir o coach, o podcast ou o influenciador com cupom, passe num médico, mesmo que ele pareça chato. Ou converse com alguém que goste de você o bastante para dizer não.
Perguntas frequentes
O que é a Lei Ganley?
É o apelido do Projeto de Lei 5.761/2026, da deputada estadual Andréia de Jesus (PT), na Assembleia de Minas Gerais. Ele cria uma política estadual de conscientização e prevenção ao uso indevido de anabolizantes e foi protocolado em 27 de maio de 2026, depois da morte de Gabriel Ganley.
A Lei Ganley foi aprovada?
Não. Até a consulta de 2 de novembro de 2026, o projeto aguardava parecer na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia de Minas, com último andamento em 18 de agosto. Na Câmara dos Deputados, o projeto sobre publicidade de anabolizantes (PL 3120/26) seguia nas comissões, e o que regulamenta a profissão de treinador (PL 21/2025) aguardava a Comissão de Trabalho na última informação pública, de maio de 2026.
Qual lei trata dos anabolizantes no Brasil?
A Lei 9.965, de 2000. Ela só permite vender anabolizante com retenção da receita de médico ou dentista, e o descumprimento é infração sanitária. Para os médicos, a Resolução 2.333/2023 do CFM proíbe prescrever anabolizante para fins estéticos ou de desempenho.
O que Léo Stronda disse sobre Ganley?
Depois que o Fantástico mostrou uma gravação em que ele aplicava anabolizante em Ganley, Stronda disse que se arrependia profundamente e prometeu não falar mais do assunto. Até julho, segundo o levantamento que originou esta matéria, ele tinha cumprido a promessa de não falar mais do tema.
Quando foi o Muscle Contest Brasil 2026?
De 17 a 19 de julho de 2026, em Curitiba. Era a competição para a qual Ganley se preparava. A mãe dele fez uma homenagem no palco.
Referências
- BRASIL. Lei nº 9.965, de 27 de abril de 2000: restringe a venda de esteróides ou peptídeos anabolizantes e dá outras providências. Presidência da República. Brasília, DF, 27 abr. 2000. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9965.htm. Acesso em: 2 nov. 2026.
- BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto cria regras para publicidade de anabolizantes e exige alertas sobre riscos à saúde. Agência Câmara de Notícias. Brasília, DF, 28 ago. 2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1299853-projeto-cria-regras-para-publicidade-de-anabolizantes-e-exige-alertas-sobre-riscos-a-saude. Acesso em: 2 nov. 2026.
- CNN BRASIL. Leo Stronda desabafa sobre morte de Ganley: 'Me arrependo do que falei'. CNN Brasil. [S. l.], 1 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/pop/celebridades/leo-stronda-desabafa-sobre-morte-de-ganley-me-arrependo-do-que-falei/. Acesso em: 2 nov. 2026.
- CNN BRASIL. Musclecontest Brazil 2026 começa nesta sexta (17); veja programação. CNN Brasil. [S. l.], 15 jul. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/fisiculturismo/musclecontest-brazil-2026-comeca-nesta-sexta-17-veja-programacao/. Acesso em: 2 nov. 2026.
- CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.333, de 30 de março de 2023. CFM. Brasília, DF, 11 abr. 2023. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2023/2333_2023.pdf. Acesso em: 2 nov. 2026.
- DIAS, Luiz. 'Lei Gabriel Ganley': discussão sobre regras de treino vira debate após morte de fisiculturista. Correio. [S. l.], 28 maio 2026. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/em-alta/lei-gabriel-ganley-discussao-sobre-regras-de-treino-vira-debate-apos-morte-de-fisiculturista-0526. Acesso em: 2 nov. 2026.
- ESPORTE NEWS MUNDO. Parceiro de treino promete competir em homenagem a Gabriel Ganley. Terra. [S. l.], 26 maio 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/esportes/futebol/parceiro-de-treino-promete-competir-em-homenagem-a-gabriel-ganley,9338a4b675369008ddb33d4b572021b881rtirc6.html. Acesso em: 2 nov. 2026.
- JORNAL DE BRASÍLIA. Caso Ganley: Cariani escorrega no ego, se diz 'presidente da comunidade' e recua após críticas. Jornal de Brasília. [S. l.], 1 jun. 2026. Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br/entretenimento/katia-flavia/caso-ganley-cariani-escorrega-no-ego-se-diz-presidente-da-comunidade-e-recua-apos-criticas-termo-errado/. Acesso em: 2 nov. 2026.
- MINAS GERAIS. ASSEMBLEIA LEGISLATIVA. Projeto de Lei nº 5.761/2026: institui a Política Estadual de Conscientização e Prevenção ao Uso Indevido de Esteroides Anabolizantes e Substâncias de Ação Anabolizante. ALMG. Belo Horizonte, MG, 27 maio 2026. Disponível em: https://www.almg.gov.br/projetos-de-lei/PL/5761/2026. Acesso em: 2 nov. 2026.
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