Raiva por pouca coisa, vontade de brigar e a sensação de “perder a razão”: esses são os efeitos psicológicos da trembolona que mais aparecem no relato de quem usou. O alerta mais direto sobre eles veio de alguém que conhece a droga por dentro e pediu ao público, sem rodeio, que não a use.
No “LEO STRONDA + RENATO CARIANI - Flow #353”, do Flow Podcast, a conversa chega à trembolona pelo excesso de dose. Léo Stronda resume: quando a dose sobe demais, “você perde a razão”. E pede: “Trembolona, não tomem. Experiência própria.” Na sequência, a conversa acrescenta que a droga não foi feita para o corpo humano e que dá para ter os mesmos resultados sem ela. O empresário e preparador Renato Cariani explica o motivo que, para ele, tirou a trembolona do uso humano: ela age forte no sistema nervoso central, destrói neurônios e traz estresse, depressão, síndrome do pânico, irritabilidade extrema e pensamento suicida.
Os estudos confirmam parte desse retrato, em especial a raiva. Outra parte, como o dano aos neurônios, só foi vista em laboratório. E alguns números que circulam junto com o alerta não têm base.
Trembolona deixa a pessoa agressiva?
Para quem usou, raiva é a marca da droga. Abrir a caixa de frascos e dizer “hoje eu tô a fim de tomar uma trembo, tô a fim de ficar no veneno” era escolher o dia de pegar mais pesado. Irritado ao vivo com um jogo, a comparação que veio à cabeça foi: “parecia que eu tava na época da trembolona”.
O estudo que mais se aproxima da pergunta saiu em 2026. Pesquisadores usaram um questionário internacional respondido em 2024 por 1.146 homens que tinham usado anabolizante no último ano, 237 deles com trembolona e 909 com outros anabolizantes. Raiva e agressividade foram relatadas por 21,1% do grupo da trembolona e por 9,2% do outro grupo. Inquietação e irritabilidade, por 29,1% e 12,9%. Dificuldade nos relacionamentos, por 20,7% e 7,6%.
Pela estatística, a diferença conta, e o tamanho dela é de pequeno a médio. Mas o grupo da trembolona também usava mais anabolizantes de outro tipo: 79,7% tinham tomado algum oral no último ano, contra 38,4% do outro grupo. Parte da diferença pode vir desse uso mais pesado, e não só da trembolona. As respostas são da própria pessoa, sem diagnóstico médico.
Num levantamento australiano de 2024, com 282 usuários de anabolizantes (93 usando trembolona, 156 que já tinham usado e 33 que nunca usaram), quem tomava doses maiores de trembolona tinha mais agressividade verbal. O resultado passou por pouco no teste estatístico, e o sofrimento psicológico medido no mesmo estudo não acompanhou a dose. Em entrevistas com 16 usuários, em 2023, a trembolona foi descrita como a mais danosa dos anabolizantes, com mais agressividade, violência e dificuldade de controlar impulsos, efeitos que amigos e família também notavam.
Com testosterona em dose alta, há ensaio controlado. Num estudo de 2000, homens receberam doses que subiram até 600 mg por semana durante 6 semanas, e a agressividade medida num teste de laboratório aumentou em relação ao placebo. Uma meta-análise de 12 ensaios, com 562 homens, achou um aumento pequeno da agressividade relatada pelo próprio participante. Esse aumento não apareceu quando outras pessoas avaliaram o comportamento. Também sumiu quando a conta ficou só com doses acima de 500 mg e uso mais longo.
Fora dos ensaios, uma meta-análise de 14 estudos achou associação pequena entre o uso de anabolizantes e violência contra outras pessoas. Os autores dizem que não dá para saber o que vem primeiro: a droga ou o comportamento.
O que a trembolona faz com os neurônios no laboratório
A frase “destrói neurônio” fala de neurotoxicidade, o dano direto às células do cérebro. Num estudo de 2015, a trembolona dada a ratos se acumulou no cérebro, principalmente no hipocampo, a região da memória, e chegou também ao cérebro dos fetos de ratas prenhes. Em neurônios cultivados em laboratório, ela provocou morte celular programada (apoptose) e aumentou a beta-amiloide 42, a proteína que se acumula no cérebro de quem tem Alzheimer.
Uma equipe sueca comparou quatro anabolizantes em culturas de células do córtex de ratos. Em 2019, testosterona, nandrolona, trembolona e estanozolol prejudicaram as mitocôndrias, a usina de energia da célula, depois de doses repetidas. Em 2021, numa cultura de neurônios ainda imaturos, a trembolona foi a única das quatro que reduziu o número de neurônios vivos.
Em ratos vivos, o quadro muda. Em 2024, a mesma equipe deu decanoato de nandrolona, de testosterona ou de trembolona a ratos por 24 dias. Só a nandrolona piorou a memória, e nenhum dos três alterou o comportamento dos animais nem o hormônio do estresse. Em 2026, os anabolizantes mexeram na dopamina e na serotonina do cérebro dos ratos, e a trembolona alterou as gorduras das membranas no sentido oposto ao da nandrolona e da testosterona.
Uma revisão de 2015, anterior aos estudos suecos, já concluía que a morte celular programada explica pelo menos parte do dano dos anabolizantes ao cérebro nos experimentos. A morte de neurônios pela trembolona, porém, só foi vista em placa de cultura, com doses e prazos que não imitam um ciclo. Em pessoas, ela nunca foi medida.
O que aparece no cérebro de quem usa anabolizantes
Em gente, os dados vêm de exames de ressonância de usuários de anabolizantes em geral, a maioria feita por um grupo da Noruega. Num estudo de 2017, com 82 usuários de longa data e 68 praticantes de musculação que nunca usaram, o córtex dos usuários era mais fino em várias regiões, e o volume de massa cinzenta era menor.
Num estudo americano de 2015, com 10 usuários e 10 não usuários, a amígdala direita, ligada ao medo e à raiva, era maior nos usuários. Ela também se comunicava menos com as áreas da frente do cérebro, que ajudam a frear impulsos.
Em 2021, com 130 usuários e 99 não usuários, o cérebro de quem usava parecia mais velho do que a idade da pessoa, e a diferença era maior em quem tinha dependência e mais anos de uso. Nos testes de raciocínio e memória, a direção é a mesma: em 84 usuários, quanto mais tempo de uso, pior a memória.
Esses exames mostram que o cérebro de quem usa é diferente, mas são feitos uma vez só e não provam que a droga causou a diferença. Os participantes misturam vários compostos, e os estudos analisam os anabolizantes em conjunto, sem separar a trembolona. O sinal mais firme é o do tempo: as diferenças crescem com os anos de uso.
Depressão, ansiedade e risco de suicídio
Uma revisão sistemática de 2015 juntou o que se sabia sobre anabolizantes e saúde mental em atletas. O uso longo se associou a depressão, o uso curto a euforia exagerada (hipomania), e a depressão podia aparecer quando a pessoa parava. Sobre ansiedade, os estudos se contradiziam. Para a síndrome do pânico, não há dado específico com trembolona.
No estudo de 2026, humor deprimido apareceu em 23,6% dos usuários de trembolona e em 12,0% dos outros, e a perda de interesse pelas coisas, em 23,2% e 8,0%.
A maioria muda pouco, uma minoria muda muito
Os ensaios com testosterona em dose alta discordam. No ensaio de 2000, a pontuação de mania subiu no grupo como um todo, puxada por uma minoria: dos 50 homens que chegaram a 600 mg por semana, 84% quase não mudaram, 12% tiveram hipomania leve e 4% hipomania marcada. Em dois ensaios com a mesma dose máxima, um de 10 e outro de 20 semanas, o humor não mudou de forma significativa. Todos usaram testosterona, e a trembolona nunca foi testada assim em pessoas.
O risco cresce na saída. Num estudo de 2015 com 24 ex-usuários de longa data, 7 (29%) tiveram depressão maior durante a retirada. Uma meta-análise de 2023, com 18 estudos e 1.782 pessoas, estimou que 34,4% dos usuários desenvolvem dependência. Os sinais dessa dependência estão na matéria sobre se o anabolizante vicia, e o que acontece depois de largar, na matéria sobre parar de tomar anabolizantes.
Sobre suicídio, os dados são de séries de casos e de registros. Numa série sueca de 8 suicídios de usuários, 5 aconteceram durante o uso e 2 alguns meses depois de parar. Nos 5 casos estudados com entrevistas da família, todos tinham outros fatores de risco além da droga, e os autores concluíram que os sintomas e conflitos do uso longo podem contribuir para o suicídio em pessoas predispostas. Na Dinamarca, 1.189 homens pegos em testes antidoping de academias foram acompanhados por cerca de 11 anos. A mortalidade deles foi 2,81 vezes a de homens da mesma idade da população geral, e a de mortes não naturais, como acidente e suicídio, 3,64 vezes.
Num grupo dinamarquês de 545 usuários, o uso de antidepressivo já era alto anos antes do flagrante. Como o estudo não sabe quando cada um começou a usar anabolizante, não dá para dizer se o problema veio antes ou depois da droga.
Por que atletas usam trembolona só nas últimas semanas
Entre competidores, a trembolona costuma ser droga de reta final. O atleta experiente usa de 4 a 8 semanas, nas últimas semanas antes do palco, sabendo que é a fase em que fica antissocial. O amador usa o ano inteiro, e nessa visão o maior risco dos hormônios não está no atleta, mas no marombeiro sem plano. O raciocínio do atleta é que ele precisa ser o mesmo no ano seguinte: com 5 ou 6 g de anabolizante por semana, “daqui 3 anos já era”. Os estudos não dizem que 4 a 8 semanas sejam seguras, mas os exames de cérebro pesam contra o uso por anos.
Junto com isso circula a frase de que 90% dos atletas de fisiculturismo usam trembolona. Não há levantamento feito com competidores que confirme ou desminta esse número. Entre usuários de anabolizantes em geral, as parcelas são bem menores:
- Questionário internacional de 2026: 20,7% dos 1.146 homens tinham usado trembolona no último ano.
- Amostra de 206 usuários, com 120 mulheres: cerca de 6% usavam trembolona.
- Estudo de 2025: 6% dos usuários de curto prazo e 29% dos de longo prazo.
Uma revisão de 2024 traz outro 90% ligado à trembolona, com outro sentido: segundo ela, 90% dos usuários de anabolizantes têm algum efeito colateral.
Mais dose dá mais músculo?
A outra metade do alerta é sobre resultado. A tese de quem prepara atletas é que a dose extra é ilusória: incha, inflama e não se mantém. Quem passou pelas doses altíssimas confirma pelo próprio corpo. Houve época de 5 mL por dia, com o lema “seringa vazia jamais”, e uma noite de cerca de 20 mL de anabolizante injetável, de composição não informada, sem como saber a dose em miligramas. O resultado foram três dias quase sem dormir, suando parado no ar-condicionado e com vontade de “ir pra rua dar porrada”.
Essa fase não deu o melhor físico. O melhor veio de quase 5 meses de preparação para um clipe, com doses comuns, dieta certinha e constância, e um reforço só na última semana. A ideia por trás é que o anabolizante só acelera um processo que o treino e a dieta precisam criar.
Os ensaios só testaram doses bem menores. Num estudo de 2001, 61 homens jovens tiveram a própria testosterona desligada e receberam doses fixas por 20 semanas. A massa magra subiu 3,4 kg com 125 mg por semana, 5,2 kg com 300 mg e 7,9 kg com 600 mg, e o HDL, o colesterol bom, caiu mais quanto maior a dose. Até 600 mg, mais dose deu mais músculo durante o uso. As doses de grama dos relatos e o que sobra do ganho depois de parar não foram testados.
O anabolizante também age sem treino, ao contrário do que a imagem do acelerador sugere. Num ensaio de 1996, homens que receberam 600 mg de testosterona por semana durante 10 semanas, sem treinar, ganharam mais músculo e força que os que receberam placebo. Quem juntou testosterona e treino ganhou ainda mais: 6,1 kg de massa magra.
A frase de que dá para ter os mesmos resultados sem a trembolona é a avaliação de quem usou, sem estudo em pessoas que compare ciclos com e sem ela. Os riscos da droga para o corpo, como pressão e sono, são o tema da matéria sobre o custo da trembolona para corpo, mente e coração.
Testosterona alta, estradiol e libido
O conselho de não subir demais a dose começa pela testosterona, antes da trembolona. Em dose alta, parte da testosterona vira estradiol, um tipo de estrogênio, pela ação da enzima aromatase. A saída comum é tomar um inibidor de aromatase, como o anastrozol ou o letrozol, que pode zerar o estradiol e derrubar a libido.
Um ensaio de 2013 com cerca de 400 homens mostra o efeito do estrogênio: com as mesmas doses de testosterona, o desejo sexual caiu mais no grupo que tomou anastrozol para bloquear o estrogênio do que no grupo que não tomou.
Por que a trembolona é chamada de droga de gado
Quem treinava há 15 anos lembra da loja de produtos veterinários. Sem informação para humanos, ia-se atrás do que fazia o animal crescer, e ninguém fazia a conta do peso: o cavalo, de 1.000 kg, tomava 4 mL de um broncodilatador, e quem treinava, com menos de 100 kg, tomava 2 mL.
A trembolona também é produto de pecuária. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou o acetato de trembolona como implante para engordar bois e novilhas, e o Finaplix® é um desses produtos. A regra americana manda colocar o implante só embaixo da pele da orelha e proíbe o uso em animais de reprodução e em vacas leiteiras.
A versão para gente saiu de circulação há anos. Hoje, a base de remédios humanos da FDA e a base francesa de medicamentos não têm trembolona, e os dados abertos da Anvisa, atualizados em outubro de 2026, não trazem nenhum registro dela, nem ativo nem antigo. Toda trembolona em circulação é de uso animal ou de fabricação clandestina.
No Brasil, nem o boi pode receber. Desde 2011, uma instrução normativa do Ministério da Agricultura proíbe importar, produzir, vender e usar substâncias com ação anabolizante hormonal para fazer o gado de abate crescer e ganhar peso. O uso só é permitido em situações veterinárias específicas, como tratamento, reprodução e pesquisa. O frasco vendido nas academias vem de contrabando ou de laboratório clandestino, sem garantia do conteúdo, como mostrou o teste químico da trembolona RedShark, que não bateu com o rótulo.
A fama de droga forte tem base química. A trembolona se liga ao receptor de andrógeno, a peça da célula onde os anabolizantes agem, com cerca de três vezes a afinidade da testosterona. A comparação de potência é o tema da matéria sobre a trembolona e a testosterona, e a ficha da droga está no orientador de fármacos.
Conclusão
O alerta de quem usou é “não tomem”, e os estudos confirmam o principal dele. Quem usa trembolona relata cerca do dobro de raiva, irritação e humor deprimido em relação a quem usa outros anabolizantes. Em laboratório, a droga mata neurônios cultivados, e em ratos ela chega ao cérebro e altera a química dele. Quem usa anabolizantes por anos mostra um cérebro diferente nos exames, ainda sem prova de que a droga causou isso.
Dois números do alerta precisam de ajuste. Os 90% de atletas que usariam a droga não têm levantamento que os sustente. E, até 600 mg de testosterona por semana, a dose maior deu mais músculo nos ensaios, com mais efeito no colesterol. Se você usa e percebe raiva, insônia ou tristeza fora do normal, procure um médico. Parar de uma vez também tem risco, porque a depressão pode aparecer na retirada.
Perguntas frequentes
Trembolona faz mal?
Faz. Quem usa trembolona relata mais raiva, irritação e humor deprimido do que quem usa outros anabolizantes, e em laboratório ela mata neurônios cultivados. No estudo de 2026, o grupo da trembolona também relatou mais problemas de coração (54,4% contra 31,2%) e de fígado (42,2% contra 22,4%), mas esse grupo usava mais anabolizantes orais. Por vir de mercado clandestino, ainda há o risco de o frasco não ter o que diz o rótulo.
Quais são os efeitos colaterais da trembolona?
Os mais relatados são psicológicos: raiva, irritabilidade, oscilação de humor, humor deprimido e perda de interesse. Entre os físicos, no estudo de 2026, aparecem coração, fígado, queda de cabelo (42,6%), aumento das mamas (32,5%) e piora da função sexual (25,3%), todos mais frequentes do que entre usuários de outros anabolizantes. Como o grupo da trembolona também usava mais drogas de outros tipos, parte disso pode vir da combinação.
A trembolona é para bovinos?
Sim. Nos Estados Unidos ela é aprovada só como implante na orelha de bois e novilhas, para ganho de peso. No Brasil, uma instrução normativa de 2011 proíbe até esse uso no gado de abate. Não há trembolona aprovada para uso humano nos Estados Unidos, na França nem no Brasil.
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