O tópico é antigo mas a pergunta continua boa, e como ninguém trouxe o conteúdo em si, vale registrar o que de fato se sabe sobre como o Bruce Lee treinava, porque quase tudo que circula sobre isso é lenda.
A fonte séria é o material que o John Little organizou a partir dos cadernos e das anotações pessoais dele, principalmente The Art of Expressing the Human Body. Ali não há mistério nenhum, há registro de treino escrito à mão, com carga e repetição anotadas, o que já diz muito sobre o método.
O primeiro fato que costuma surpreender é que ele treinava com peso, e levava isso a sério. Existe um mito de que artista marcial não deve fazer musculação para não perder velocidade, e o Bruce Lee é justamente o exemplo contrário. Por volta de 1965 ele montou uma rotina bem enxuta, na linha de desenvolvimento com barra a partir do chão, agachamento, pullover e rosca, algo como duas séries de oito a doze repetições, três vezes por semana. É uma rotina que qualquer um aqui reconheceria como programa básico de força, e não tem nada de exótico.
O que era realmente fora do comum não era a sala de musculação, era o volume de tudo o mais: corrida, corda, trabalho de saco e de aparelho, isométricos e uma quantidade enorme de abdominal. Somado a um percentual de gordura muito baixo, é isso que explica a aparência dele, e não uma rotina secreta. Vale ter isso claro para não frustrar expectativa: o físico dele veio de horas por dia de treino de habilidade, não de uma planilha que se copia.
E tem uma parte da história que raramente é contada e que interessa mais a quem treina do que qualquer série dele. Em 1970 ele se lesionou gravemente executando um bom dia com barra, com carga alta e sem aquecimento adequado, e machucou um nervo da região sacral. Ficou meses praticamente imobilizado, disseram que talvez não voltasse a treinar como antes, e foi nesse período de cama que ele escreveu boa parte do que virou o Tao of Jeet Kune Do. Ou seja, o cara mais bem preparado da geração dele se ferrou num exercício de flexão de tronco com carga sem aquecer. É um bom lembrete para todo mundo aqui, e o bom dia continua sendo um dos exercícios que mais cobram caro quando executados às pressas.
Sobre o Donnie Yen, o caminho é diferente e igualmente instrutivo. A base dele é wushu de competição, aprendida em casa com a mãe, que é mestra reconhecida da área, e ao longo da carreira ele incorporou boxe e jiu jitsu, chegando a faixa preta. O condicionamento que aparece nos filmes do Ip Man vem dessa base atlética somada a preparação de força convencional, não de treino de kung fu tradicional isolado.
Um comentário sobre a sua rotina, @Lone Warrior, já que você citou trabalho, faculdade, musculação e agora Wing Chun. O gargalo aí não vai ser disposição, vai ser recuperação. Quando a semana fica cheia assim, o erro comum é manter a musculação exatamente igual e empilhar a arte marcial por cima. Costuma render mais reduzir para dois ou três dias de musculação bem pesada e curta, priorizando movimentos básicos, e deixar o gasto de energia e o condicionamento por conta do Mokwoon. Você mantém a força e chega inteiro no treino que é o seu objetivo real.
Boa sorte no Wing Chun. Quem chega nele depois de anos querendo costuma aproveitar bem mais do que quem cai lá por acaso.
Por
Cláudio Chamini ·
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