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Esse tópico tem uma divergência técnica interessante entre 2003 e 2018, e ela tem resolução. Vou começar por ela, porque é o ponto central.

A disputa sobre a carnitina

@Pharmabio alertou em 2003 para a DL-carnitina e para risco de miastenia. O @Cenna, em 2018, respondeu que o produto contém L-carnitina e que não haveria motivo de preocupação.

Quem está certo depende do rótulo do lote, mas a farmacologia por trás merece ser explicada, porque o alerta do Pharmabio não era exagero.

A carnitina existe em duas formas espelhadas, L e D. Só a L é biologicamente ativa e é a que transporta ácidos graxos para dentro da mitocôndria.

O problema é que a forma D não é apenas inerte. Ela compete com a L pelos mesmos transportadores e pelas mesmas enzimas, e pode deslocar a L dos tecidos. O resultado é uma deficiência funcional de carnitina mesmo com carnitina total aparentemente adequada.

Isso foi observado clinicamente em pacientes em diálise que receberam a mistura racêmica, com fraqueza muscular como manifestação. É exatamente o quadro que o Pharmabio descreveu como déficit contrátil da fibra.

Ou seja: se o produto contiver a forma racêmica DL, a preocupação dele é legítima e bem fundamentada. Se contiver apenas L-carnitina, não se aplica.

A conduta prática, então, é simples: olhe o rótulo e veja qual forma está declarada. E vale reparar que o próprio Cenna reconhece que o produto tem outro aminoácido em forma racêmica, o que mostra que a questão existe na formulação.

O ponto mais importante do tópico foi feito em 2003

Pharmabio escreveu que quem não crescia e passou a crescer com o produto estava, na verdade, com déficit de proteína, e que o suplemento apenas removeu esse fator limitante.

Essa é a explicação correta e ela vale para a categoria inteira. Quem come proteína suficiente não tem nada a ganhar acrescentando aminoácidos livres, porque não havia escassez a corrigir.

E ele completou com o essencial: pegando um suplemento de aminoácidos de uso humano, com perfil semelhante e em dose maior, os resultados seriam os mesmos, sem a incerteza de composição.

Três correções no post de 2018

@Cenna, o seu post é cuidadoso e dá para ver que você pesquisou. Só que três premissas não se sustentam, e elas sustentam a sua conclusão.

Creatina não é um aminoácido. Ela é um composto sintetizado a partir de três: glicina, arginina e metionina. Detalhe pequeno, mas você citou como se fosse.

Sobre aminoácidos elevarem o GH sérico e daí resultar alto efeito anabólico: essa cadeia tem dois elos frágeis. A arginina realmente eleva GH, mas aplicada na veia, em dose alta, no contexto de um teste diagnóstico. Por via oral ela é largamente degradada pela enzima arginase no intestino e no fígado, antes de chegar à circulação. E, mesmo quando há alguma elevação de GH, ela é pequena e transitória, e picos agudos de GH não se correlacionam com hipertrofia nos estudos.

Sobre a arginina como precursora de óxido nítrico e vasodilatação: mesmo problema de primeira passagem. Foi justamente por isso que a indústria de pré-treino migrou da arginina para a citrulina, que escapa dessa degradação.

E sobre a L-carnitina e lipólise: a carnitina oral não eleva de forma relevante o estoque muscular. Os protocolos que conseguiram isso usaram cerca de 2 gramas de carnitina junto com aproximadamente 80 gramas de carboidrato, duas vezes ao dia, por 12 a 24 semanas, porque o transporte para dentro do músculo depende de pico de insulina. Uma colher de um tônico veterinário não chega perto disso.

Sobre ser produto veterinário

Vale o mesmo que vale para qualquer produto dessa categoria: a dosagem é calculada para animais de centenas de quilos, o controle de qualidade segue padrão veterinário e não humano, e a formulação foi desenhada para as necessidades nutricionais de outra espécie.

Não significa que faça mal automaticamente. Significa que você não tem como saber a dose que está tomando nem confirmar o que há no frasco.

Sobre o relato do @Adriano Rufatto

Sinto pela dificuldade de conseguir atendimento, e espero que já esteja resolvido.

Sendo honesto sobre a atribuição: sintomas que começaram cerca de um mês depois de parar o produto tornam a relação causal pouco provável, porque aminoácidos e carnitina são eliminados em dias, não em semanas.

Isso não quer dizer que você não tenha nada. Quer dizer que a causa provavelmente é outra, e que vale investigar por conta própria, sem partir do pressuposto de que já se sabe a origem. Sintoma digestivo persistente merece endoscopia ou avaliação gastroenterológica, e insistir por esse caminho tende a render mais que a emergência.

Respondendo, por fim, à pergunta original de 2003: não, não é anabolizante, não causa os efeitos colaterais de um anabolizante, não causa dependência, e a dose tolerável é a mesma de qualquer suplemento de aminoácidos. O que ele tem de diferente dos produtos humanos é justamente aquilo que ninguém consegue verificar.

As informações apresentadas não substituem orientação médica específica e são meramente opinativas. Nunca se deve confiar numa única fonte isolada. Use apenas para início de suas pesquisas.

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