A tirzepatida do Paraguai virou rota para quem não consegue pagar o Mounjaro® no Brasil, e a dúvida de quase todo mundo é se dá para trazer com receita. A resposta mudou ao longo de 2026. A T36, que circulava como a marca "liberada", foi proibida pela Anvisa em 16 de setembro, e com ela já são pelo menos dez marcas de tirzepatida sem registro proibidas, a maioria de laboratórios paraguaios.
Em julho de 2026, Dani Keiko contou a viagem no canal Dicas da Keiko, em "Fui ao Paraguai comprar tirzepatida! Valeu a pena? Minha experiência completa". O relato mostra como a compra é feita na prática, com receita, carro e farmácia em Ciudad del Este, mas várias regras que ela segue já não valem ou nunca valeram.
A viagem: 1.000 km, receita e três caixas
Ela usa tirzepatida desde dezembro de 2025, com acompanhamento médico. Quando disse à médica que não teria como pagar o Mounjaro® no Brasil e que iria ao Paraguai, a médica não se opôs e manteve o acompanhamento. Estava em 7,5 mg por semana e ia descer para 5 mg por estar chegando ao peso que queria. Em toda ida, levou receita.
O motivo é o preço. No Brasil, o teto oficial do Mounjaro® é de R$ 3.854,43 pela caixa com 4 canetas, em qualquer dose, e cada caixa dura 4 semanas. O Mounjaro® tem registro no Brasil desde setembro de 2023 e é a única tirzepatida aprovada aqui.
A viagem foi de carro, do interior de São Paulo, pouco mais de 1.000 km, em 11 horas, com a irmã, que também usa e também tinha receita. As duas dividiram cerca de R$ 2.000 de combustível, pedágio, hospedagem e comida. Ela trouxe três caixas de T36 de 15 mg e contou que, com elas, quase não sobrava cota para outras compras. De ônibus, calcula, seriam uns R$ 900 só de passagens, sem contar comida e hospedagem.
Na farmácia, ela evitou uma loja que estava sem energia, porque o remédio não estaria refrigerado. Também recomenda fugir de loja de cosmético que "do nada" vende tirzepatida e de fornecedor que traz o produto de qualquer jeito, porque há pontos que vendem falsificado. Esses cuidados reduzem o risco de golpe, mas farmácia conhecida no Paraguai não torna regular, no Brasil, uma marca proibida pela Anvisa.
A T36 também foi proibida
Ela comprava o que chamava de brecha: se a marca ainda não tinha proibição, comprava. Na viagem anterior, trouxe Tirzedral®, que depois foi proibido. Desta vez, trouxe a T36, que ela atribui ao mesmo laboratório paraguaio, a Catedral. Na explicação dela, quando a Anvisa proíbe uma marca, o laboratório lança outra com o mesmo princípio ativo. As apresentações que a Catedral publica para as duas marcas, porém, não são idênticas, e nenhuma análise mostrou que os produtos sejam iguais. Essa estratégia falhou duas vezes seguidas. Veja quando cada marca foi proibida (algumas aparecem mais de uma vez porque a Anvisa proibiu versões e lotes diferentes em datas diferentes):
| Quando | Marcas proibidas |
|---|---|
| Até novembro de 2025 | T.G.® 5, Lipoless, Lipoless Eticos, Tirzazep e T.G.® Indufar |
| Janeiro de 2026 | Synedica e T.G.® |
| Fevereiro de 2026 | Lipoless, Tirzec®, Lipoland® e T.G.® |
| Abril de 2026 | Gluconex® e Tirzedral® |
| Maio de 2026 | Slimex e Slimex MD |
| Setembro de 2026 | T36, todos os lotes |
A resolução da T36 proíbe armazenar, vender, importar, transportar e usar o produto, e vale para pessoa física. Como no caso de Tirzedral® e Gluconex®, a Anvisa registrou o fabricante como "não identificado", embora o site da Catedral exiba a T36 e o Tirzedral®. Para quem compra, isso quer dizer que nem a origem do produto foi confirmada. Nenhuma tirzepatida paraguaia tem registro no Brasil. Uma marca que ainda não aparece em resolução da Anvisa também não está liberada: ela só pode cair na exceção para remédio sem registro, sujeita à fiscalização, e pode ser proibida a qualquer momento.
Também não vale a ideia de que, na alfândega, "se não está proibido, está liberado". Medicamento sem registro no Brasil só entra de forma excepcional, para uso pessoal e com receita. E, quando há proibição específica, a Anvisa diz que a importação "por qualquer modalidade" fica suspensa. A receita do médico, no seu nome, não libera marca proibida. A história do Tirzedral® está na matéria sobre os frascos e o QR code do Tirzedral®.
O que a lei diz para quem atravessa a fronteira
Pela Anvisa, quem traz medicamento para uso próprio não precisa de autorização prévia, mas passa pela fiscalização, que pode pedir a receita. A quantidade tem de ser de uso individual, sem revenda. Pela Receita Federal, medicamento está entre os bens restritos e depende da Anvisa em qualquer valor e quantidade. Caber na cota não libera remédio.
A cota de isenção por terra é de US$ 500 por pessoa a cada 30 dias, e não de US$ 1.000, que vale só para avião ou navio. Ela não se soma entre familiares. Na via terrestre, bens acima de US$ 5 têm limite de três unidades iguais, o que explica o "só três caixinhas" que ela repete. Essa é regra de imposto: três caixas dentro da cota não tornam regular um produto proibido.
Quem é pego pode ter o produto apreendido, pagar multa e responder a processo. O Código Penal pune quem importa ou vende produto terapêutico sem registro. Para pequena quantidade de uso próprio com receita, nenhuma norma ou decisão diz com clareza como fica a parte criminal. Fora dela, pacientes têm pedido à Justiça autorização para importar, com respostas nos dois sentidos: em Alagoas, uma paciente teve o pedido negado, e um levantamento do g1 achou 12 processos, 5 deles com decisão provisória (liminar) a favor do paciente, com recurso da Anvisa. Em agosto de 2026, a Anvisa assinou um acordo de fiscalização com a agência sanitária do Paraguai, a Dinavisa.
Ter tirzepatida no frasco não prova qualidade
Para mostrar que o produto funciona, ela cita uma análise da Unicamp que achou tirzepatida nas canetas paraguaias. Foi um teste do CIATox feito a pedido da Folha de S.Paulo em cinco marcas compradas pela internet: Tirzedral®, T.G.®, Lipoless, Tirzec® e Gluconex®. Todas tinham tirzepatida e nenhuma tinha semaglutida misturada. Uma ficou cerca de 60% acima da dose esperada. A T36 não foi testada.
Para confiar no produto, ela se apoia na Catedral, laboratório que existe desde 1905 e que, segundo ela, tem registro na Dinavisa, a agência sanitária do Paraguai. Diz também que nunca teve problema com as marcas que trouxe e que os exames melhoraram desde dezembro de 2025. Registro paraguaio não vale no Brasil: aqui, quem decide o que entra é a Anvisa.
O teste não mediu impurezas, esterilidade nem contaminação, e a Anvisa disse que ele não demonstra equivalência ao Mounjaro®. Num remédio injetado, a esterilidade é parte da segurança. Nenhum estudo testou a esterilidade das marcas paraguaias. Num estudo de 2024 com três frascos de semaglutida vendidos sem receita pela internet, a pureza ficou entre 7,7% e 14,4%, quando o rótulo prometia 99%, e todos tinham endotoxina, um resíduo de bactéria. Com a semaglutida comprada sem receita, já houve produtos falsos que continham insulina e levaram a coma. Ninguém testou se isso acontece com as marcas paraguaias de tirzepatida.
Ela diz ainda que a semaglutida "só tinha dois hormônios" e a tirzepatida "três". A semaglutida age num receptor, o do GLP-1. A tirzepatida age em dois, GIP e GLP-1. O remédio que age em três ainda não está aprovado. Num estudo de 72 semanas, quem usou a tirzepatida da Lilly perdeu 20,2% do peso, contra 13,7% com a semaglutida. O resultado vale para o remédio testado, e não automaticamente para uma marca sem registro.
A conta da caixa não fecha
Pela conta dela, a caixa de 15 mg dura um mês para quem usa 15 mg por semana, dois meses para 7,5 mg e seis meses para 2,5 mg. A T36 15 MD, apresentação que o laboratório divulgava na época da viagem, é um frasco multidose de 2,4 mL com quatro doses de 15 mg, 60 mg no total. O prospecto manda guardar o frasco aberto na geladeira por no máximo 30 dias.
Fazer a caixa durar 2 ou 6 meses exige dividir cada dose e usar o mesmo frasco aberto por 8 a 24 semanas, fora do que o próprio fabricante autoriza. A conta de 2,5 mg dá 24 semanas, cerca de 5,5 meses. No Mounjaro®, a bula manda começar com 2,5 mg, subir 2,5 mg a cada 4 semanas ou mais até no máximo 15 mg, e cada caneta é de uso único. Na outra apresentação da T36, de quatro frascos de dose única, dividir a dose seria ainda menos aceitável.
Geladeira e transporte
A tirzepatida precisa de geladeira, entre 2 e 8 °C, e não pode congelar, tanto no Mounjaro® quanto no prospecto da T36. Pela bula brasileira, a caneta de Mounjaro® aguenta até 21 dias fora da geladeira abaixo de 30 °C. O prospecto da T36 não dá prazo fora da geladeira, então esses 21 dias não valem para ela. Gelo encostado direto no frasco pode congelar o produto, o que a bula do Mounjaro® e o prospecto da T36 proíbem.
Efeitos colaterais e o "desmame"
Ela tentou subir para 10 mg e voltou para 7,5 mg por enjoo forte, sem conseguir comer. É o efeito mais comum: com a tirzepatida, 25% a 29% das pessoas tiveram náusea, contra 8% com placebo, e 56% tiveram algum efeito gastrointestinal, contra 30%. Os efeitos aparecem mais quando a dose sobe. No estudo principal, a perda de peso chegou a 20,9% com 15 mg.
Quem treina precisa olhar também a massa magra. Num subestudo, ela caiu 10,9%, cerca de um quarto do peso perdido, proporção parecida com a do grupo placebo. Massa magra inclui músculo, mas também água e órgãos. A dose mais baixa para "desmamar" não está em bula, e parar tem custo: quem trocou a tirzepatida por placebo recuperou 14% do peso em um ano. Os detalhes estão na matéria sobre os efeitos colaterais do Mounjaro® no músculo, no cabelo e na pele. Para quem busca um custo menor dentro da lei, há a comparação sobre trocar Mounjaro® por Ozivy®.
Conclusão
A economia explica a viagem, já que o Mounjaro® custa até R$ 3.854,43 por caixa de quatro semanas no Brasil. Mas a brecha acabou: a T36 foi proibida dois meses depois, nenhuma tirzepatida paraguaia está liberada, e fazer a caixa render meses depende de usar um frasco aberto muito além do prazo.
Ter a molécula no frasco não diz nada sobre esterilidade, contaminação ou dose certa. Quem já usa uma dessas canetas deve contar ao médico qual marca usa e de onde ela veio, e não aumentar nem dividir doses por conta própria.
Perguntas frequentes
Pode trazer tirzepatida do Paraguai com receita?
Não, se a marca for proibida. Até 2 de novembro de 2026, a Anvisa tinha proibido T.G.®, Synedica, Lipoless, Tirzazep, Tirzec®, Lipoland®, Gluconex®, Tirzedral®, Slimex e T36. Com proibição específica, a importação por qualquer modalidade fica suspensa, com ou sem receita. Remédio sem registro só entra em caráter excepcional, para uso pessoal, e sujeito a fiscalização.
Qual tirzepatida do Paraguai está liberada?
Nenhuma. A única tirzepatida com registro no Brasil é o Mounjaro®. Não existe lista de marcas paraguaias liberadas, e a falta de proibição publicada não é autorização. A T36, que circulava como liberada, foi proibida em setembro de 2026.
Quanto pode trazer de tirzepatida do Paraguai?
Para a Receita, a cota por terra é de US$ 500 por pessoa a cada 30 dias, com até três unidades iguais. Para a Anvisa, a quantidade tem de ser de uso individual. Nenhuma dessas regras vale para marca proibida, que não pode entrar em quantidade nenhuma.
O que acontece se for pego com tirzepatida do Paraguai?
O produto pode ser apreendido, com multa e risco de processo. A lei penal prevê punição para quem importa remédio sem registro. O caso de pequena quantidade para uso próprio com receita não tem resposta clara em norma nem em decisão judicial.
A tirzepatida do Paraguai funciona?
Não há garantia. Num teste de cinco marcas compradas pela internet, todas tinham tirzepatida, e uma ficou cerca de 60% acima da dose esperada. O teste não mediu pureza, esterilidade nem contaminação, e a T36 não foi testada.
Vale a pena comprar tirzepatida no Paraguai?
Hoje, a conta não fecha. Nenhuma tirzepatida paraguaia está liberada, e a T36, que circulava como liberada, foi proibida em setembro de 2026. O produto pode ser apreendido na fronteira ou na estrada, e a qualidade não é garantida.
Referências
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