Uma aplicação de stanozolol no glúteo levou o fisiculturista Ivair Carlomagno, de 22 anos, a 12 dias de hospital. O stanozolol, ou estanozolol, é o anabolizante conhecido pela marca Winstrol®. O local infeccionou, juntou 120 mL de pus, as bactérias chegaram ao sangue e causaram sepse, e ele precisou de cirurgia. Ia estrear numa competição em 23 de novembro de 2024 e foi internado a dois dias da prova.
Ele contou o caso no próprio canal, do quarto do hospital, no dia da alta, em “EU BATI NA PORTA DA VIDA MAIS UMA VEZ - 12 DIAS INTERNADO”. O relato não diz de onde veio o produto nem se houve febre.
Da aplicação ao hospital
A aplicação foi numa sexta-feira. No domingo, dia 17, ele começou a sentir o glúteo esquerdo inchado. Quando olhou no banheiro, o local estava vermelho, quente e muito dolorido. Ivair achou que melhoraria sozinho e esperou. Na segunda, a dor tinha piorado, e ele foi ao hospital.
No primeiro atendimento, o ultrassom ainda não mostrava pus. Ele saiu com antibiótico e a orientação de voltar em 48 a 72 horas. Nesse intervalo, a dor ficou tão forte que ele só conseguia sentar de lado, o que lhe rendeu quase duas semanas de dor nas costas. Para quem já tinha fraturado o braço e até a cabeça, foi a maior dor da vida.
120 mL de pus e sepse
Na volta, 72 horas depois, os exames mostraram 120 mL de pus no glúteo, quase dois terços de um copo americano. Os exames acharam duas bactérias, uma delas típica da pele. Elas já tinham passado para o sangue e causado sepse, que, nas palavras dele, "é uma coisa seríssima" e pode matar. Ele foi operado para drenar o pus.
Sepse é quando a reação do corpo a uma infecção sai do controle e começa a lesar órgãos. Quando a infecção já afeta algum órgão, mais de 1 em cada 10 pacientes morre no hospital. No choque séptico, a forma mais grave, são mais de 4 em cada 10.
O tratamento de um abscesso, a bolsa de pus, é abrir e drenar. O antibiótico entra junto quando há sinais de que a infecção se espalhou, como febre. Só o antibiótico costuma não resolver se o pus continua lá dentro. Foi o que aconteceu no caso dele.
O que pode ter causado a infecção
Pela explicação do atleta, o estanozolol injetável, diferente dos hormônios em óleo, é à base de água e pode cristalizar. Ele puxou o líquido para a seringa, não percebeu que tinha cristalizado e aplicou assim mesmo, sem lembrar se doeu na hora. Para ele, isso abriu uma porta de entrada para duas bactérias.
O estanozolol injetável é de fato uma suspensão: pó fino do hormônio espalhado no líquido. A versão registrada nos Estados Unidos, de uso veterinário, tem 50 mg por mL. Mas cristais não trazem bactéria. A bactéria entra quando algo que não está estéril chega ao músculo: a pele mal limpa, a agulha, o frasco ou o próprio produto. Num relato de abscesso em usuário de anabolizante, a causa foi técnica sem esterilidade e frasco dividido com dois colegas.
O produto clandestino também conta. Num estudo holandês com anabolizantes do mercado ilegal, havia bactérias em 2 de 22 frascos já usados e em 1 de 41 frascos e ampolas ainda fechados. E o problema é comum: entre 366 homens que injetavam anabolizantes na Inglaterra e no País de Gales, 42% já tinham tido vermelhidão, inchaço e dor no local, e 6,8% já tinham tido abscesso ou ferida aberta.
Quedas, glicemia de 480 e pressão alta
Um dia depois da cirurgia, Ivair desabou no chão ao levantar da maca para ir ao banheiro, bateu as costas na mesa e derrubou o prato. À noite, no banheiro, o joelho dobrou e ele caiu sentado. Mais de dez pessoas da equipe se juntaram em volta, e vieram mais exames.
A glicose no sangue chegou a 480 mg/dL, e ele precisou de insulina no hospital. A suspeita inicial era diabetes, mas a conclusão foi de que o pico veio do estresse da infecção, o que ele chamou de "diabetes psicológica". O nome médico é hiperglicemia de estresse: a glicose sobe durante uma doença aguda e volta ao normal quando ela passa.
O valor normal citado no relato, "até 110", não é o usado hoje: em jejum, a glicose normal fica abaixo de 100 mg/dL.
Ivair também é hipertenso aos 22 anos, e por isso os médicos examinaram o coração e chegaram a suspeitar de uma doença genética. Por causa das quedas, também investigaram um AVC. O relato não diz o resultado dessas investigações. Pressão alta é comum entre usuários de anabolizantes: num estudo dinamarquês, 51% dos usuários atuais tinham hipertensão sistólica, contra 17% de quem treinava sem usar. O que se sabe dos anabolizantes e do coração está em anabolizante faz mal ao coração?.
Sinais que pedem pronto atendimento
Inchaço, vermelhidão e calor que aumentam a cada dia, dor que piora em vez de passar, febre ou mal-estar depois de uma aplicação pedem avaliação médica no mesmo dia, contando o que foi aplicado. A higiene reduz o risco: álcool na pele antes da aplicação, agulha e seringa novas a cada vez e frasco que não é dividido com ninguém.
Na dúvida entre um caroço comum e um abscesso, vale ler Caroço após aplicação de testosterona: óleo ou abscesso?.
O glúteo tem outro risco além da infecção. Na aplicação na parte de trás do glúteo, a agulha pode atingir o nervo ciático. O sinal típico é o pé caído, sem força para levantar a ponta, que quase sempre aparece logo depois da aplicação. Por isso, em adultos, os locais preferidos são a lateral do quadril (ventroglúteo) e o ombro. A técnica completa está em como aplicar testosterona sozinho.
A volta aos palcos
Ivair saiu do hospital dizendo que vai voltar "três vezes melhor", mas sem nada que afete a saúde, "porque já tá bom de afetar". Depois de dois anos e meio de preparação para a estreia, vai tirar dezembro de férias e, possivelmente, fazer um período de ganho de massa (off-season) para competir no ano seguinte. A estratégia vai ser definida numa reunião com Pinduca.
Sobre o físico depois de 12 dias de cama e duas semanas sem depilar, brincou que estava "gordo e peludo".
Conclusão
O caso andou rápido: um dia esperando em casa, um ultrassom ainda sem pus e, três dias depois, um abscesso que o antibiótico sozinho não resolveu. Cristais na seringa não levam bactéria ao músculo. O que leva é a falta de esterilidade, e o produto clandestino pode já vir contaminado. Dor, calor e inchaço que pioram depois de uma aplicação pedem médico no mesmo dia, e o retorno marcado vale mesmo com ultrassom normal. Ivair resumiu que bateu "na porta da vida mais uma vez" e saiu do hospital pensando em voltar aos palcos sem pôr a saúde em risco.
Perguntas frequentes
O que aconteceu com Ivair Carlomagno?
Em novembro de 2024, uma aplicação de estanozolol no glúteo infeccionou. Ele teve 120 mL de pus, sepse e cirurgia, ficou 12 dias internado e perdeu a estreia numa competição marcada para 23 de novembro.
O que é abscesso na aplicação?
É uma bolsa de pus que se forma no local da injeção quando bactérias chegam ao músculo. Não é raro: 6,8% dos homens que injetavam anabolizantes numa pesquisa inglesa já tinham tido abscesso ou ferida aberta.
O que causa abscesso no glúteo?
Depois de uma injeção, a causa é a entrada de bactéria: pele mal limpa, agulha ou frasco contaminados, frasco dividido com outras pessoas ou produto que já vem contaminado do mercado ilegal.
Quais são os sintomas de abscesso no glúteo?
Inchaço, vermelhidão, calor e dor que pioram a cada dia, às vezes com febre. No começo, o ultrassom pode ainda não mostrar pus, como no caso do Ivair, por isso a reavaliação no prazo combinado é importante.
Como tratar abscesso no glúteo?
Com drenagem feita pelo médico, e antibiótico quando há sinais de infecção espalhada, como febre. Abscesso não se drena em casa. No caso do Ivair, o antibiótico sozinho não bastou, e o pus foi retirado em cirurgia.
Caroço depois da aplicação de stanozolol é abscesso?
Nem sempre, mas caroço que esquenta, fica vermelho, cresce e dói mais a cada dia, ou que vem com febre, precisa de avaliação médica no mesmo dia. Estar duro não descarta abscesso.
Aplicação de stanozolol dói?
Pode doer, e a dor que piora é sinal de alerta. Vermelhidão, inchaço e dor no local podem indicar infecção. Dor que aumenta a cada dia, a ponto de impedir de sentar, como no caso do Ivair, pede avaliação médica no mesmo dia.
Quais são os riscos da injeção no glúteo?
Os principais são infecção com abscesso e lesão do nervo ciático. A maioria das lesões do ciático vem da aplicação na parte de trás do glúteo.
Qual o local mais seguro para injeção intramuscular?
Em adultos, a lateral do quadril (ventroglúteo) e o ombro (deltoide). Se for aplicar na nádega, divida-a em quatro partes e use a de cima, do lado de fora, uns 5 a 7,5 cm abaixo do osso que se sente na cintura.
Estanozolol injetável é mais seguro que o comprimido?
Não há base para dizer que poupa o fígado: numa série com 18 casos de lesão do fígado por estanozolol, 12 deles no Brasil, todos tinham usado a forma injetável. E a injeção soma o risco de abscesso e de infecção no local. Os detalhes estão em estanozolol injetável e o fígado.
Pode aplicar injeção no glúteo sozinho?
Muita gente aplica, mas no glúteo de trás é difícil ver e acertar o ponto, e é ali que acontece a maioria das lesões do nervo ciático. Limpeza da pele, material estéril e de uso único e o local certo estão em como aplicar testosterona sozinho.
Referências
- AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE. 2. Diagnosis and classification of diabetes: Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, [S. l.], v. 48, n. Suppl 1, p. S27-S49, jan. 2025. DOI: 10.2337/dc25-S002. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39651986/. Acesso em: 31 out. 2026.
- CARLOMAGNO, Ivair. 3 weeks out!. Instagram. [S. l.], 9 nov. 2024. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DCK4S6TPZ3K/. Acesso em: 31 out. 2026.
- CARLOMAGNO, Ivair. EU BATI NA PORTA DA VIDA MAIS UMA VEZ - 12 DIAS INTERNADO. [S. l.], 7 dez. 2024. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_Y77BCOGWOQ. Acesso em: 31 out. 2026.
- DUNGAN, K. M.; BRAITHWAITE, S. S.; PREISER, J. C. Stress hyperglycaemia. The Lancet, [S. l.], v. 373, n. 9677, p. 1798-1807, maio 2009. DOI: 10.1016/S0140-6736(09)60553-5. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19465235/. Acesso em: 31 out. 2026.
- HOPE, V. D. et al. Injection site infections and injuries in men who inject image- and performance-enhancing drugs: prevalence, risks factors, and healthcare seeking. Epidemiology and Infection, [S. l.], v. 143, n. 1, p. 132-140, jan. 2015. DOI: 10.1017/S0950268814000727. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24713416/. Acesso em: 31 out. 2026.
- MUNAKOMI, S.; GILLESPIE, E. Intramuscular Injection. StatPearls, NCBI Bookshelf. Treasure Island, 13 set. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK556121/. Acesso em: 31 out. 2026.
- NUNES, V. et al. Stanozolol-induced liver injury: a distinctive cholestatic clinical and biochemical phenotype at presentation. Journal of Clinical and Experimental Hepatology, [S. l.], v. 15, n. 3, p. 102506, maio 2025. DOI: 10.1016/j.jceh.2025.102506. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40040852/. Acesso em: 31 out. 2026.
- RASMUSSEN, J. J. et al. Increased blood pressure and aortic stiffness among abusers of anabolic androgenic steroids: potential effect of suppressed natriuretic peptides in plasma?. Journal of Hypertension, [S. l.], v. 36, n. 2, p. 277-285, fev. 2018. DOI: 10.1097/HJH.0000000000001546. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28863033/. Acesso em: 31 out. 2026.
- RICH, J. D. et al. Abscess related to anabolic-androgenic steroid injection. Medicine & Science in Sports & Exercise, [S. l.], v. 31, n. 2, p. 207-209, fev. 1999. DOI: 10.1097/00005768-199902000-00001. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10063807/. Acesso em: 31 out. 2026.
- SINGER, M. et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, [S. l.], v. 315, n. 8, p. 801-810, fev. 2016. DOI: 10.1001/jama.2016.0287. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26903338/. Acesso em: 31 out. 2026.
- STEVENS, D. L. et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, [S. l.], v. 59, n. 2, p. e10-e52, jul. 2014. DOI: 10.1093/cid/ciu444. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24973422/. Acesso em: 31 out. 2026.
- UNITED STATES. 21 CFR 522.2150: Stanozolol sterile suspension. Office of the Federal Register. Washington, 1 abr. 2010. Disponível em: https://www.govinfo.gov/content/pkg/CFR-2010-title21-vol6/pdf/CFR-2010-title21-vol6-sec522-2200.pdf. Acesso em: 31 out. 2026.
- VERDEGAAL, T. J. et al. Microbiological contamination in androgens from the black market. Harm Reduction Journal, [S. l.], v. 23, n. 1, art. 6, 2026. DOI: 10.1186/s12954-025-01359-w. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41350877/. Acesso em: 31 out. 2026.
Comentários Recomendados
Crie uma conta ou entre para comentar