Dois cc não são uma dose. São 2 mL de líquido. Para descobrir quantos miligramas foram aplicados, é indispensável conhecer a concentração do frasco. Essa distinção muda toda a leitura do ciclo que Lee Priest afirma ter usado nos anos 90.
Em "Reacting To Lee Priest's Steroid Cycle In The 90's", o canal More Plates More Dates comenta uma entrevista antiga de Tom Platz com Lee Priest. O relato é concreto: idade de início, semanas de uso, volumes, miligramas, intervalos sem anabolizantes e uma preparação pré-contest dividida em etapas. Ao mesmo tempo, existem lacunas, contradições e lembranças que não podem ser verificadas décadas depois.
A reconstrução exige separar três níveis de certeza: o que Lee declarou, o que Derek estimou e o que os documentos farmacêuticos permitem confirmar. Todas as medidas foram convertidas para o padrão brasileiro.
As quantidades abaixo são registro histórico e análise crítica. Não são prescrição, sugestão de ciclo ou garantia de segurança.
O primeiro ciclo relatado: 6 semanas e ganho de 9,1 kg
Lee afirma que começou a usar esteroides aos 19 anos, depois de aproximadamente cinco ou seis anos de treinamento e de já ter vencido competições sem anabolizantes.
O primeiro ciclo teria sido:
- substância: Deca, nome associado à nandrolona decanoato
- duração: 6 semanas
- volume declarado: 2 mL por semana
- ganho de peso relatado: aproximadamente 9,1 kg, equivalentes às 20 libras citadas na entrevista
- ressalva do próprio Lee: parte do aumento provavelmente era retenção de água
Esse é um relato retrospectivo, não um prontuário. Não há embalagem, receita, exame ou análise laboratorial do produto. O ganho de 9,1 kg também não pode ser tratado como 9,1 kg de músculo.
Afinal, quanto valiam os 2 cc de Deca?
Um centímetro cúbico, abreviado como cc, corresponde exatamente a 1 mL. Portanto, 2 cc são 2 mL. Volume e dose, porém, são grandezas diferentes.
A conta correta seria:
dose em mg = volume em mL × concentração em mg/mL
O problema é que Lee não identifica o fabricante nem a concentração do primeiro frasco. A pesquisa histórica encontrou três pistas:
- A apresentação australiana oficial Deca-Durabolin Orgaject foi registrada em 30 de agosto de 1991 com 50 mg/mL. Se esse tivesse sido o produto, 2 mL corresponderiam a 100 mg por semana.
- Formulações de nandrolona decanoato também existiram em 100 mg/mL. Nesse cenário, 2 mL corresponderiam a 200 mg por semana.
- Derek trabalha com uma faixa hipotética de 100 a 300 mg/mL e calcula 200 a 600 mg por semana, mas reconhece que não conhece o frasco. Isso é uma estimativa editorial, não uma dose confirmada.
Há ainda uma pista interna. Mais adiante, Lee diz usar 200 mg de Deca por semana e também descreve esse volume como 2 mL. Essa equivalência sugere 100 mg/mL naquele bloco específico, mas não prova que o primeiro ciclo usou o mesmo produto.
O resultado honesto da apuração é este: 2 cc significam 2 mL, mas a dose do primeiro ciclo continua indeterminada. Publicar 400 mg como certeza seria inventar precisão.
O bloco de offseason foi descrito com duração e pausas
No período fora de competição, Lee afirma que priorizava comida e treino pesado. O bloco relatado foi:
- Deca: 2 mL por semana
- Primobolan: 2 mL por semana
- duração: 8 semanas
- pausa posterior: aproximadamente 3 meses antes de outro uso
- intervalo antes de iniciar um novo bloco de offseason: em alguns períodos, cerca de 5 meses
Depois, ele traduz o próprio esquema como 200 mg de Deca e 200 mg de Primobolan por semana, totalizando 400 mg semanais de anabolizantes segundo sua declaração.
Essa conversão é coerente com Primobolan Depot de 100 mg/mL, concentração documentada para a apresentação farmacêutica. Também seria coerente com uma Deca de 100 mg/mL. Não é coerente com a apresentação australiana de 50 mg/mL, o que reforça que o produto exato permanece desconhecido.
Em outra temporada, Lee diz ter passado 7 meses praticamente sem usar anabolizantes após agrupar suas competições. A exceção teria sido duas aplicações de Deca por dor nos cotovelos. O relato não informa dose, intervalo ou avaliação médica dessas duas aplicações.
A preparação pré-contest começava 12 semanas antes
O cronograma declarado para competir não era uma lista solta. As substâncias entravam em momentos diferentes:
- 12 semanas antes: início da dieta e do stanozolol injetável
- stanozolol: 2 mL a cada 3 dias, às vezes com intervalo ampliado para 4 ou 5 dias por cansaço das aplicações
- 8 semanas antes: entrada de Anadrol 50, uma unidade por dia, correspondendo ao relato de 50 mg diários de oximetolona
- 6 semanas antes: 2 UI de hormônio do crescimento por dia
- Nolvadex: citado sem quantidade, frequência ou data precisa de entrada
- 1 a 2 semanas antes do palco: interrupção completa declarada
Lee também diz que acrescentava as substâncias progressivamente e reduzia conforme a competição se aproximava. Portanto, nem tudo teria sido usado durante as mesmas 12 semanas.
O stanozolol continua com uma lacuna. Derek encerra sua análise reconstruindo aproximadamente 200 mg por semana, mas a entrevista só confirma 2 mL por aplicação. Se o produto tivesse 50 mg/mL, seriam 100 mg por aplicação. Sem rótulo e procedência, a conversão final não pode ser tratada como fato.
Anadrol e GH não têm a mesma ambiguidade na fala: aparecem como 50 mg por dia e 2 UI por dia. Isso não torna as quantidades seguras. Apenas torna o relato mais preciso.
O que Lee sentia durante o uso
A interrupção 1 ou 2 semanas antes não foi apresentada como estratégia farmacológica sofisticada. Lee diz que ficava cansado das agulhas, sentia o estômago ruim e às vezes não conseguia dormir.
Esses sintomas são importantes porque desmontam a ideia de um protocolo sem custo. Mesmo o uso descrito como conservador produzia desconforto suficiente para fazê-lo querer parar o quanto antes.
Ele também afirma que não gostava de testosterona. Em uma tentativa com cipionato, relata queda de força durante o uso e recuperação depois da interrupção. Derek propõe que a dose aplicada poderia ter sido inferior à produção natural que acabou suprimida. Essa explicação é apenas uma hipótese. Não existem dose, exames hormonais ou cronologia suficientes para demonstrá-la.
“Dose baixa” em comparação com o quê?
Lee apresenta 200 mg de Deca mais 200 mg de Primobolan por semana como alternativa a quantidades que via entre amadores. Ele cita, de maneira anedótica, amadores usando 1.500 mg por semana e imaginando que profissionais utilizariam 3.000 mg.
Não há levantamento, prontuário ou amostra que sustente a generalização de que amadores usam o dobro dos profissionais. O valor dessa passagem está em mostrar a comparação mental usada por Lee, não em estabelecer uma média do fisiculturismo.
A ciência confirma que aumentar a exposição pode aumentar resultados e efeitos colaterais, mas não valida a ideia de que todos responderão como Lee:
- Em 1996, 43 homens participaram de um ensaio com placebo ou 600 mg semanais de enantato de testosterona por 10 semanas. No grupo que combinou testosterona e musculação, a massa livre de gordura aumentou em média 6,1 kg, a força no supino subiu 22 kg e a capacidade no agachamento aumentou 38 kg.
- Em 2001, 61 homens receberam supressão hormonal e 25, 50, 125, 300 ou 600 mg semanais de enantato por 20 semanas. A massa livre de gordura aumentou 3,4 kg, 5,2 kg e 7,9 kg nos grupos de 125, 300 e 600 mg. Hemoglobina e IGF-1 aumentaram com a exposição, enquanto gordura corporal e HDL diminuíram.
Esses ensaios estudaram testosterona em ambiente controlado. Eles não testaram a combinação atribuída a Lee, não mediram décadas de uso competitivo e não demonstram que copiar uma quantidade produzirá o mesmo resultado.
Genética extraordinária não pode ser medida pela lista de drogas
Aos 19 anos, Lee já tinha treinado por vários anos e competido com sucesso. Derek o trata como um hiper-respondedor, mas não existe teste apresentado que quantifique essa resposta.
Altura, estrutura óssea, inserções musculares, histórico de treino, dieta, resposta aos andrógenos e capacidade de manter massa durante a preparação podem ter contribuído. A expressão “genética de elite” resume esse conjunto, mas não transforma a genética em explicação mensurável para cada quilo conquistado.
O relato também pode estar correto, incompleto ou subestimado. O próprio comentarista repete que não sabe se Lee está dizendo toda a verdade. A análise não precisa escolher entre idolatria e acusação. A incerteza deve permanecer visível.
O risco hepático não desaparece aos 50 mg por dia
Anadrol é o nome comercial associado à oximetolona. Winstrol corresponde ao stanozolol. Ambos pertencem ao grupo dos esteroides 17-alfa-alquilados ligados a lesão hepática colestática.
O LiverTox informa que a colestase costuma surgir entre 1 e 4 meses após o início, embora possa aparecer entre 6 e 24 meses. A frequência é estimada em aproximadamente 1% dos pacientes tratados com alguns agentes dessa classe, incluindo stanozolol e oximetolona. Essa estimativa vem de uso médico e não pode ser transferida diretamente para fisiculturismo clandestino.
Tumores hepáticos são descritos principalmente após 5 a 15 anos de exposição. Outro detalhe concreto é que bilirrubina e sintomas podem estar muito alterados enquanto ALT e fosfatase alcalina permanecem apenas moderadamente elevadas.
O mercado clandestino já causou uma emergência no relato
Lee conta que comprou um produto contaminado, teve o que descreve como “envenenamento do sangue”, ficou aproximadamente uma semana de cama e precisou de antibióticos e injeções. Em outro momento, afirma ter lesionado um nervo ao aplicar na panturrilha.
Esses episódios combinam risco químico, infeccioso e mecânico. A revisão sistemática de Magnolini analisou 5.413 amostras em 19 estudos. A estimativa média foi de 36% de produtos falsificados e outros 37% abaixo do padrão de qualidade. Havia produtos sem princípio ativo, com substância diferente, subdosados ou superdosados.
O próprio relato menciona pessoas aplicando 10 mL em um único local, com formação de cisto ou abscesso e necessidade de remoção cirúrgica. Isso é descrição de dano, não parâmetro aceitável de aplicação.
Lee também relata ter experimentado Esiclene uma única vez no offseason. Segundo ele, a aplicação provocou dor, calor, vermelhidão e um inchaço muscular temporário que atrapalhou o treino e desapareceu poucos dias depois. Ele diz que abandonou a substância porque o pequeno efeito visual não compensava a inflamação nem a perda de definição.
Diurético foi o ponto de maior risco agudo
Lee diz que Lasix, nome comercial associado à furosemida, fez com que se sentisse perto da morte. Também cita Aldactone ou Aldactazide. A formulação da entrevista registra metade de um comprimido aproximadamente dois dias antes e um comprimido na noite anterior, com menção a 20 mg. A frase não permite determinar com segurança se os 20 mg eram a metade ou o comprimido inteiro.
Essa ambiguidade impede transformar a passagem em protocolo. O dado editorialmente útil é o efeito relatado e a estreita margem de segurança.
Derek acrescenta o caso de um amigo que teria sofrido infarto e quase insuficiência renal aos 25 anos após uso inadequado de diuréticos. É um relato pessoal sem prontuário disponível.
A literatura documenta o mecanismo com casos clínicos verificáveis. Um fisiculturista consumiu 12 L de água por dia durante 7 dias, usou 100 mg diários de espironolactona e restringiu sal. Chegou à emergência com hipercalemia, hiponatremia, intoxicação hídrica e rabdomiólise. Outro atleta tomou duas doses de 80 mg de furosemida nas 48 horas anteriores à competição, perdeu entre 5 e 6 kg e apresentou hipocalemia grave e alterações cardíacas.
Esses casos não ensinam como manipular água. Eles mostram por que água, sódio, potássio e diurético não podem ser organizados por tentativa e erro.
GH não foi tratado como droga mágica e insulina ficou fora
O hormônio do crescimento teria sido usado por apenas dois anos até aquela entrevista. Lee diz ter gasto aproximadamente US$ 2 mil na preparação mais recente por causa do GH. Antes dele, afirma gastar menos de US$ 600.
Ele relata entrar em competições cerca de 4,5 kg mais pesado a cada ano, mas admite que não conseguia atribuir isso ao GH porque nunca o usou isoladamente.
Insulina teria sido recusada. Lee cita risco de diabetes, coma, erro de produto e morte. O material também relata um caso não documentado em que GH falsificado seria, na verdade, insulina. Sem identificação da vítima ou registro médico, esse episódio deve permanecer classificado como alerta narrado, não caso comprovado.
O que o ciclo realmente permite concluir
Os números permitem reconstruir partes do uso, mas não produzem uma receita confiável:
- há um primeiro ciclo de 6 semanas cujo volume é conhecido e a dose em mg permanece incerta
- há um offseason de 8 semanas declarado posteriormente como 200 mg de Deca mais 200 mg de Primobolan por semana
- há uma preparação escalonada de 12 semanas com stanozolol, oximetolona, GH e Nolvadex
- existem intervalos declarados de 3, 5 e 7 meses sem ciclos regulares
- faltam exames, concentrações de alguns frascos, procedência e confirmação independente
Chamar tudo de “dose baixa” sem apresentar esses números não informa. Tratar cada número como verdade comprovada também seria um erro. O registro mais fiel é um protocolo autobiográfico incompleto, analisado décadas depois e acompanhado de riscos concretos.
Conclusão
O ciclo atribuído a Lee Priest não era apenas “Deca e Primo em pouca quantidade”. O relato contém 6 semanas no primeiro uso, 8 semanas no offseason, 12 semanas de preparação, 50 mg diários de Anadrol, 2 UI diárias de GH e interrupção 1 ou 2 semanas antes do palco.
Também contém o que não sabemos. Dois mililitros não revelam miligramas sem concentração. O produto australiano de 1991 aponta para uma possibilidade de 100 mg semanais no primeiro ciclo, enquanto a declaração posterior de Lee aponta para 200 mg em outro bloco. Nenhuma dessas pistas autoriza escolher uma dose e chamá-la de fato.
A principal lição não é copiar um campeão. É aprender a distinguir volume de dose, relato de evidência, resposta genética de média populacional e aparência de segurança de risco real.
FAQ
Um cc é igual a quantos mililitros?
Um cc é exatamente 1 mL. A abreviação representa centímetro cúbico. Ela mede volume, não quantidade de princípio ativo.
Dois mL de Deca equivalem a quantos miligramas?
Depende da concentração. Em 50 mg/mL, 2 mL contêm 100 mg. Em 100 mg/mL, contêm 200 mg. Como Lee não identificou o primeiro frasco, a dose exata daquele ciclo não pode ser determinada.
Qual foi o ciclo de offseason declarado?
Lee descreveu 8 semanas com 2 mL de Deca e 2 mL de Primobolan por semana. Mais adiante, traduziu esse bloco como 200 mg semanais de cada composto.
Qual foi a preparação pré-contest relatada?
Ela começava 12 semanas antes com stanozolol. Anadrol 50 mg entrava aproximadamente 8 semanas antes, GH 2 UI por dia nas últimas 6 semanas e tudo seria interrompido 1 ou 2 semanas antes. Nolvadex foi citado sem dose.
O protocolo pode ser considerado comprovado?
Não. É um relato retrospectivo sem prontuários, exames, embalagens ou confirmação independente. O próprio comentarista reconhece que Lee poderia estar omitindo ou subestimando informações.
“Dose baixa” significa uso seguro?
Não. Supressão hormonal, alterações cardiovasculares e metabólicas, lesão hepática, produto falsificado, infecção e complicações com diuréticos continuam possíveis. Comparação com doses maiores não transforma uso estético em tratamento seguro.
Referências
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