Uma aplicação no quadríceps deixou Mike Israetel praticamente sem conseguir dobrar a perna por cerca de uma semana e meia. Anos depois, outra reação terminou no hospital, com abertura do local, drenagem de grande volume de líquido e uma cicatriz que permanece. Na primeira experiência com trembolona, 75 mg foram seguidos por uma sensação avassaladora de morte iminente.
Esses são os dados concretos de "My Darkest Steroid Experiences", publicado pelo Renaissance Periodization. O relato não entrega apenas o aviso genérico de que esteroides têm colaterais. Ele informa locais de aplicação, duração dos sintomas, doses, frequência, mudanças de dose e consequências no treino e no relacionamento.
Os números relatados não formam um protocolo. Trembolona não tem indicação aprovada para uso humano, produtos clandestinos podem não conter a concentração declarada e uma experiência individual não define uma dose segura. As doses servem para dimensionar a exposição e entender a reação, não para orientar o uso.
A primeira aplicação: um dia depois, a perna começou a travar
A primeira injeção intramuscular foi feita no quadríceps. Mike conta que, no momento, não houve sangramento importante nem reação imediata. A mudança apareceu no dia seguinte. Ao sair do carro, sentiu como se ainda houvesse um objeto grande cravado no músculo.
A dor se espalhou pelo quadríceps e chegou ao joelho. A coxa ficou visivelmente inchada e o ponto da aplicação, avermelhado. Durante aproximadamente uma semana e meia, ele diz que não conseguia dobrar a perna mais do que alguns graus sem dor intensa. Precisou retirar o treino de pernas daquela semana.
O inchaço também desceu em direção ao joelho. Segundo o relato, era possível perceber líquido na região e caminhar ficou estranho. Não houve a progressão em linhas avermelhadas pela pele que ele temia, nem foi confirmada infecção bacteriana naquele episódio. Quando aplicou no outro quadríceps posteriormente, a reação foi parecida.
Não foi apenas uma dor passageira no ponto da injeção. Houve início no dia seguinte, irradiação até o joelho, limitação funcional por cerca de dez dias, perda do treino de pernas e repetição do quadro no outro lado.
O problema continuou em quadríceps, ombros e glúteos
As reações não ficaram restritas à estreia. Mike afirma que aplicou em quadríceps, ombros e glúteos e que os locais inchavam repetidamente. Ao longo de quase uma década, a cada poucas aplicações surgia ocasionalmente uma inflamação intensa, com aumento de volume e vermelhidão.
Ele associa a melhora posterior a duas mudanças: seringas de insulina, com agulhas menores, e a troca para um fornecedor que considerava produzir material de maior qualidade. Isso é observação pessoal, não comparação controlada. Não há laudo do produto, registro da técnica ou diagnóstico que permita concluir qual mudança fez diferença. Também não é orientação para aplicação clandestina.
Em uma das reações no quadríceps, o atendimento hospitalar abriu o local e drenou, nas palavras dele, uma grande quantidade de líquido. Os testes teriam classificado o quadro como abscesso estéril. Ele ainda tem a cicatriz.
Abscesso estéril não é a mesma coisa que infecção
Um abscesso estéril é um acúmulo inflamatório sem crescimento bacteriano identificado. Pode ocorrer como resposta a óleo, excipientes, partículas ou trauma tecidual. Um abscesso infeccioso envolve microrganismos e pode exigir drenagem, antibiótico e atendimento urgente. Dor, calor, vermelhidão, inchaço e febre podem aparecer nos dois cenários. A aparência sozinha não fecha o diagnóstico.
O caso clínico publicado por Rich e colaboradores ajuda a mostrar a diferença. O artigo descreve um homem de 26 anos com abscesso infeccioso na coxa após injetar anabolizantes sem técnica estéril e compartilhar frascos multidose com dois colegas. Os autores relacionam esse tipo de prática a infecções por Staphylococcus, Streptococcus, Pseudomonas e Mycobacterium, além de vírus transmitidos pelo sangue.
Esse caso não prova que a reação de Mike era infecciosa. O próprio relato diz o contrário. Ele mostra por que não se deve assumir em casa que toda coxa vermelha e inchada é apenas reação ao óleo. Dor incapacitante, vermelhidão em expansão, calor local, secreção, febre, calafrios, listras avermelhadas ou piora geral exigem avaliação médica.
"Test flu" e "tren flu" não são diagnósticos
Mike descreve episódios chamados informalmente de "test flu" ou "tren flu". Os sintomas citados são febre, mal-estar, dor de cabeça, fraqueza, dores articulares, queda acentuada do rendimento e perda temporária da função do músculo aplicado. Uma batida acidental no local podia provocar dor extrema.
Esses nomes circulam entre usuários, mas não definem uma doença reconhecida nem permitem excluir contaminação. A reação pode envolver inflamação ao veículo, trauma local, produto adulterado ou infecção. Rotular febre e piora sistêmica como "gripe da testosterona" pode atrasar o atendimento justamente quando é necessário examinar, coletar material ou drenar.
A sequência exata com trembolona
A sequência completa relatada foi esta:
- Primeira exposição: 75 mg em uma aplicação, dentro de uma orientação informal de repetir em dias alternados.
- Reação no dia seguinte: ansiedade intensa e sensação emocional de que a morte ocorreria em segundos ou minutos, apesar de ele perceber frequência cardíaca normal e não identificar um motivo lógico.
- Primeiro ajuste: 18,75 mg em dias alternados durante aproximadamente uma semana e meia. Isso correspondia a um quarto da dose inicial.
- Segundo ajuste: 37,5 mg em dias alternados durante mais uma semana e meia.
- Duração total da experiência inicial: cerca de três semanas, depois das quais ele interrompeu a trembolona ao final de uma fase de perda de gordura.
Em média matemática, 75 mg em dias alternados equivalem a 262,5 mg por semana. A etapa de 18,75 mg equivale a aproximadamente 65,6 mg por semana e a de 37,5 mg, a 131,3 mg por semana. Essas equivalências apenas tornam a exposição comparável. Elas não validam a concentração do produto clandestino nem criam recomendação de uso.
Mike afirma que se sentiu muito melhor com 18,75 mg e que a composição corporal começou a mudar. Depois elevou para 37,5 mg e diz que a droga alterou seu físico de forma marcante nas três semanas. Em experiências posteriores, começar mais baixo teria reduzido a intensidade da reação, embora ele continue descrevendo a trembolona como desagradável.
O episódio demonstra sensibilidade individual, não uma faixa segura. A primeira dose produziu sofrimento agudo. A redução coincidiu com melhora, mas não houve placebo, avaliação psiquiátrica, confirmação laboratorial do conteúdo do frasco ou controle de outras substâncias.
O que a ciência permite dizer sobre ansiedade e agressividade
A literatura humana específica sobre trembolona é muito limitada. A FDA lista acetato de trembolona em implantes aprovados para crescimento de bovinos. Isso não é aprovação, dose nem evidência de segurança para seres humanos.
Para esteroides anabolizantes como classe, há sinais concretos, mas heterogêneos. Um estudo brasileiro avaliou 103 fisiculturistas, 75 homens e 28 mulheres, com uso recente confirmado por perfil esteroidal, metabólitos urinários e hormônios. Nos três meses anteriores:
- 61,2% apresentaram agitação, insônia, aumento de agressividade ou depressão
- cerca de um terço marcou ansiedade moderada a grave na escala HAM-A
- 12,6% tiveram agressividade de moderada a alta na escala BPQ
- não houve associação significativa entre os sintomas e a dose semanal estimada
A ausência de relação com a dose estimada não prova que dose seja irrelevante. Produtos clandestinos, combinações diferentes, erro de memória e vulnerabilidade individual dificultam a medição. O resultado sustenta exatamente o ponto mais útil da experiência: a quantidade que parece tolerável para outra pessoa pode não prever a resposta de quem está usando.
Em outro estudo controlado, 88 usuários foram comparados com 68 atletas sem uso. Entre os usuários, 23% relataram síndrome importante de humor associada ao esteroide, incluindo mania, hipomania ou depressão maior.
Também existe evidência que impede exageros. Em um ensaio duplo-cego com 43 homens saudáveis, 600 mg semanais de enantato de testosterona por dez semanas não aumentaram as medidas de raiva em comparação com placebo. Parceiros e familiares também não detectaram mudança significativa. Portanto, esteroide não transforma automaticamente todo usuário em uma pessoa agressiva. Composto, combinação, dose, duração, personalidade e contexto importam.
Em 2024, o problema apareceu dentro do casamento
A terceira experiência ocorreu durante a preparação competitiva de 2024. Mike fala em doses altas e compostos fortes, mas não informa quantidades, concentração, ciclo completo ou exames. Qualquer tentativa de preencher esses números seria invenção.
Durante discussões com a esposa, pensamentos hostis surgiam como respostas automáticas. Entre eles estavam mandar a parceira embora, negar tudo, imaginar que poderia mentir e manipular, abandonar o relacionamento ou pedir divórcio. Ele afirma que não dizia essas frases. Em algumas conversas, permanecia em silêncio por aproximadamente dois minutos até conseguir formular uma resposta compatível com aquilo que racionalmente acreditava.
O dado importante não é apenas "irritabilidade". É a distância entre pensamento impulsivo e intenção refletida, com pausas de cerca de 120 segundos para evitar dano ao relacionamento. A estratégia ajudou naquele momento, mas não substitui redução da exposição, avaliação médica ou cuidado em saúde mental.
Ele também afirma que seus exames de sangue durante o uso eram excelentes enquanto os efeitos psicológicos eram um pesadelo. Sem os resultados, essa afirmação não pode ser auditada. Ainda assim, ela ilustra uma limitação real: hemograma, lipídios e enzimas não medem ansiedade, hostilidade, julgamento ou segurança doméstica.
A própria pessoa pode não perceber a mudança
O relato diferencia quatro situações. Há usuários sem sintomas perceptíveis, pessoas que reconhecem sofrimento e diminuem ou interrompem o uso, pessoas que sofrem mas escondem o problema e pessoas que realmente não percebem a própria alteração.
Isso torna a observação de terceiros valiosa. Parceiro, familiar, treinador ou colega pode notar insônia, hostilidade, medo constante, impulsividade e grandiosidade antes que o usuário aceite a mudança. A resposta adequada não é discutir durante uma explosão. É documentar a alteração em relação ao comportamento habitual e buscar avaliação.
Ideias de autoagressão, ameaça a outra pessoa, paranoia, alucinações, perda de contato com a realidade ou agitação incontrolável são emergência. A pessoa não deve ficar sozinha nem dirigir. No Brasil, o SAMU atende pelo 192. O CVV oferece apoio emocional pelo 188, mas não substitui pronto atendimento em risco imediato.
A promessa sobre miostatina precisa ser corrigida
Ao final, Mike prevê que trevogrumabe, inibidor de miostatina, e garetosmabe, inibidor de activina A, produziriam crescimento muscular comparável ou superior aos esteroides, com quase nenhum efeito adverso, e chegariam ao mercado até 2028. Os dados disponíveis não sustentam essa certeza.
O ensaio COURAGE, NCT06299098, estudou adultos com obesidade, não fisiculturistas em busca de hipertrofia. Na fase de 26 semanas, 599 participantes foram distribuídos entre semaglutida 2,4 mg isolada e três combinações:
- semaglutida com trevogrumabe 200 mg
- semaglutida com trevogrumabe 400 mg
- semaglutida com trevogrumabe 400 mg e garetosmabe 10 mg/kg
Segundo resultados divulgados pela própria Regeneron em setembro de 2025, a massa magra caiu 3,3 kg com semaglutida isolada, 1,5 kg com trevogrumabe 200 mg, 1,9 kg com trevogrumabe 400 mg e 0,9 kg com a combinação tripla. O estudo mostrou preservação parcial de massa magra durante emagrecimento. Não mostrou ganho radical de músculo nem superioridade sobre esteroides.
A combinação tripla teve taxa substancialmente maior de interrupção por tolerabilidade e outros eventos adversos. Houve duas mortes nesse grupo, uma por causa indeterminada em participante com múltiplos fatores cardiovasculares e outra por parada cardíaca em pessoa com doença cardiovascular prévia. A empresa declarou não ter identificado relação causal com o tratamento.
Os números vêm de comunicado do patrocinador e apresentação em congresso, não de artigo completo revisado por pares. A própria Regeneron informa que segurança e eficácia dos dois anticorpos não foram avaliadas por autoridade regulatória. Não há base para prometer ausência de colaterais, aprovação até 2028 ou substituição dos anabolizantes.
O que os dados mostram na prática
- A reação inicial não foi apenas dor: houve inchaço, vermelhidão, líquido no joelho, limitação para flexionar a perna por cerca de dez dias e perda do treino de pernas.
- O abscesso foi descrito como estéril: isso não permite tratar toda reação semelhante como não infecciosa.
- A exposição à trembolona foi quantificada: 75 mg uma vez, depois 18,75 mg e 37,5 mg em dias alternados por cerca de três semanas no total.
- A preparação de 2024 não tem dose revelada: o dado concreto é comportamental, com pausas de cerca de dois minutos para conter respostas hostis.
- Exames bons não excluem dano mental: marcadores laboratoriais não medem ansiedade, impulsividade ou risco no relacionamento.
- Os anticorpos experimentais preservaram massa magra: eles não produziram o crescimento muscular quase sem colaterais prometido no relato.
Conclusão
A experiência ganha valor quando os detalhes são preservados. A primeira aplicação comprometeu a perna por aproximadamente uma semana e meia. Reações recorrentes atingiram três regiões musculares. Uma delas exigiu drenagem e deixou cicatriz. A primeira dose de 75 mg de trembolona precipitou ansiedade extrema, e a exposição foi reduzida para 18,75 mg e depois 37,5 mg em dias alternados.
Nenhum desses números vira recomendação. Eles mostram por que "dose conservadora" de academia não é categoria médica, por que reação pós-aplicação precisa de diagnóstico e por que um exame laboratorial aceitável não absolve mudança de comportamento. Também mostram o papel da checagem científica: a promessa de uma droga muscular quase sem colaterais virou, nos dados reais, preservação parcial de massa magra acompanhada de problemas de tolerabilidade ainda em investigação.
FAQ
Qual foi a primeira dose de trembolona relatada?
Foram 75 mg em uma aplicação, dentro de uma orientação informal de uso em dias alternados. No dia seguinte, surgiu ansiedade intensa com sensação de morte iminente.
Como a dose foi alterada depois da reação?
Ele relata 18,75 mg em dias alternados por cerca de uma semana e meia e depois 37,5 mg em dias alternados por mais uma semana e meia. A experiência inicial durou aproximadamente três semanas.
Essa sequência pode ser usada como protocolo?
Não. Trata-se de um relato pessoal com produto clandestino, sem confirmação de concentração e sem ensaio clínico. Trembolona não tem indicação aprovada para uso humano.
O abscesso relatado tinha bactéria?
Segundo Mike, os testes hospitalares classificaram o episódio como abscesso estéril. Não temos acesso ao prontuário. Outros abscessos ligados a injeções de anabolizantes podem ser infecciosos e exigir drenagem e antibiótico.
Quanto tempo durou a pior reação na perna?
A limitação intensa para dobrar a perna durou aproximadamente uma semana e meia. Houve dor irradiada, inchaço, vermelhidão e acúmulo de líquido na região do joelho.
Os inibidores de miostatina já substituem esteroides?
Não. No COURAGE, as combinações reduziram a perda de massa magra durante emagrecimento com semaglutida. Não demonstraram hipertrofia radical, ausência de colaterais nem segurança aprovada para fisiculturismo.
Referências
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