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Mortes ligadas a anabolizantes: o que explica e o que se sabe

Redes sociais, mercado ilegal e o corpo da moda puxam o uso. Veja o que os estudos mostram sobre o coração e por que essas mortes quase não são contadas.

Mortes súbitas de fisiculturistas jovens passaram a aparecer com frequência no noticiário brasileiro, e com elas a suspeita de mortes ligadas a anabolizantes. O fisiculturista Gabriel Ganley morreu aos 22 anos, em maio de 2026. O atestado aponta morte súbita por cardiomiopatia hipertrófica, e o laudo final ainda não foi divulgado. O anabolizante dá resultado rápido: a pessoa cresce mais depressa, fica mais seca e pode comer mais. O custo aparece depois, no coração, e quase nunca entra nas estatísticas.

A BBC News Brasil tratou do assunto na reportagem "Por que fisiculturistas estão morrendo de forma súbita", publicada antes como "O que explica explosão de mortes ligadas a anabolizantes". O personagem central é o nutricionista Rodrigo Góes, amigo de Ganley. Atleta natural por anos, ele começou a usar aos 30, secou e ganhou massa, mas teve estresse, queda de cabelo, insônia e suor intenso à noite. Diz que se sentia fazendo algo errado e que parou antes de problemas mais graves por sorte. Hoje afirma que não existe forma segura de usar esteroides anabolizantes.

Os casos que puxaram a discussão

Ganley era conhecido por defender o fisiculturismo natural. Em agosto de 2025, nove meses antes de morrer, anunciou que passaria a usar hormônios para competir. A cardiomiopatia hipertrófica, apontada no atestado, é uma doença em que a parede do coração fica grossa e rígida. Ela pode ter origem genética, mas também pode estar associada ao uso de anabolizantes. O atestado não diz qual foi o caso dele. A polícia abriu inquérito, e até o começo de novembro de 2026 nenhum laudo final ou exame toxicológico tinha sido divulgado. O que o atestado responde e o que deixa em aberto está em Gabriel Ganley: a causa da morte e o que o laudo ainda não diz.

O caso não é isolado. Em 10 de maio de 2025, Wanderson da Silva Moreira, de 30 anos, teve uma parada cardiorrespiratória durante o Pantanal Contest, em Campo Grande, e morreu depois de mais de uma hora de tentativas de reanimação. A causa oficial não foi divulgada. Em comum, as duas mortes foram súbitas e de atletas jovens.

Por que o uso de anabolizantes cresceu

O que se chama de anabolizante são versões sintéticas ou modificadas da testosterona, hormônio que o corpo produz em maior quantidade nos homens. A testosterona foi sintetizada em laboratório em 1935, mas a promessa é mais antiga: em 1889, um fisiologista de 72 anos injetou em si mesmo extrato de testículo animal e disse ter rejuvenescido, num efeito que era placebo.

Hoje, quase um século depois da síntese, a testosterona é vendida como resposta para cansaço, libido baixa, desempenho no treino e na cama, hipertrofia e envelhecimento. Há cardiologista que atribui o impulso ao mercado. Influenciadores com milhões de seguidores incentivam o uso abertamente e não falam dos riscos, e os esteroides anabolizantes saíram do fisiculturismo de competição para a cultura fitness das redes. Uma revisão de 2019 descreve o mesmo quadro: a maioria dos usuários são homens jovens que não competem e querem parecer secos e musculosos.

No Brasil, a Resolução 2.333 do Conselho Federal de Medicina proíbe desde 2023 a prescrição de anabolizantes para estética, ganho de massa e desempenho esportivo. A regra fechou a porta do consultório, e o mercado seguiu crescendo pelo canal ilegal.

Fala-se que o uso chegou a níveis recordes, mas a palavra não tem uma conta por trás. Nenhuma pesquisa brasileira mede o uso ano a ano. A revisão de 2019 fala em aumento entre homens jovens. Nos Estados Unidos, a pesquisa anual com estudantes mostrou queda do uso entre adolescentes até 2024. Os números sustentam a escala do uso e do mercado, e não um pico medido.

Mercado ilegal: fundo de quintal e influenciador

Quem compra fora da farmácia não sabe onde o produto foi feito. O anabolizante vendido ilegalmente não passa pelo controle da Anvisa e muitas vezes sai de laboratório clandestino. Num levantamento brasileiro, 31,7% de 2.818 produtos apreendidos eram falsificados, e uma revisão de 18 estudos de vários países estimou 36% de falsificação. O usuário pode estar tomando outra substância, outra dose ou um produto contaminado.

Parte desse mercado usa influenciadores para divulgar marcas clandestinas. Em 5 de agosto de 2025, a Polícia Civil de São Paulo cumpriu 85 mandados de busca e 35 de prisão em São Paulo e em outros 12 estados contra um grupo que falsificava anabolizantes e emagrecedores. Segundo a investigação, o grupo movimentou R$ 25 milhões em cinco anos, e um influenciador fitness de Campo Grande estava entre os alvos.

O que o anabolizante faz com o coração

O anabolizante imita a testosterona do corpo e acelera o ganho de músculo. O coração também é um músculo e cresce com a substância. Há cardiologista que resume assim: pelo tamanho do bíceps dá para imaginar o tamanho do coração, porque os dois crescem juntos. É uma imagem do mecanismo, e não um exame. Em homens que morreram usando anabolizante, o coração pesava mais que o de não usuários, mesmo descontando peso corporal e treino de força. O treino pesado também engrossa o coração, e os dois efeitos se somam.

Estresse e queda de cabelo a pessoa percebe. As mudanças no coração e no sangue, em geral, não dão sintoma:

  • Colesterol: o HDL, o bom, cai, e o LDL sobe. Em 19 atletas de força, o HDL caiu para menos da metade em 8 a 14 semanas de uso.
  • Pressão: 51% dos usuários tinham pressão sistólica alta na medida de 24 horas, contra 17% dos homens sem uso.
  • Sangue: aumentam as hemácias e o sangue fica mais grosso e mais fácil de coagular, o que favorece trombose e embolia.
  • Ritmo: a substância favorece arritmias.
  • Força do coração: o músculo engrossado pode dilatar e perder força de contração, o caminho para a insuficiência cardíaca.

Num estudo com 140 homens que treinavam musculação, a fração de ejeção, a parcela do sangue que o coração bombeia a cada batida, foi de 52% nos usuários e de 63% nos que nunca usaram. Os usuários tinham também mais placa nas artérias do coração. Nenhum estudo mostrou uso estético livre de risco, e o estrago cresce com a dose e o tempo. Os exames que flagram esse dano estão em anabolizante faz mal ao coração? O que dizem autópsias e estudos.

O que os estudos mostram sobre a morte súbita de fisiculturistas

O maior estudo sobre o tema, da Universidade de Pádua, na Itália, seguiu 20.286 fisiculturistas homens que competiram entre 2005 e 2020 em eventos da IFBB, a federação internacional do esporte. Foram 121 mortes. Dessas, 46 foram súbitas e de origem cardíaca, a causa mais comum. Nas autópsias disponíveis, o padrão se repetiu: coração aumentado e parede do ventrículo engrossada. O ventrículo é a câmara que bombeia o sangue.

O risco sobe com o nível. Os profissionais tiveram cinco vezes mais morte súbita cardíaca que os amadores. Na categoria principal do Mr. Olympia, morreram 7 de cada 100 atletas no período.

As vítimas eram jovens. A morte súbita cardíaca chegou, em média, aos 36 anos no Mr. Olympia e aos 34,7 anos entre os que ainda competiam. O estudo achou as mortes por busca na internet e não mediu o uso de drogas de cada atleta. Ele mostra o risco do esporte de elite, e não o efeito isolado do anabolizante.

Os maiores estudos que comparam usuários com a população vêm da Dinamarca. Ali, 1.189 homens flagrados no antidoping de academias foram acompanhados por cerca de 11 anos, ao lado de 59.450 homens da população. Os usuários morreram quase três vezes mais.

Também tiveram 3 vezes mais infarto e 3,6 vezes mais insuficiência cardíaca. Há quem diga que trombose e insuficiência ficam oito vezes mais comuns, mas o oito vale para a cardiomiopatia, a doença do músculo do coração. A trombose venosa subiu 2,4 vezes. São dados de acompanhamento, sem sorteio dos grupos, e os usuários podem ter outros hábitos de risco.

As autópsias contam a mesma história. Uma análise de seis laudos públicos de fisiculturistas americanos mortos antes dos 50 anos encontrou coração de 575 g em média, 73,7% acima dos 332 g do homem de referência. Nos três laudos que mediram a parede do ventrículo esquerdo, ela tinha 16,3 mm, 125% acima do normal.

Um caso conhecido é o do americano Dallas McCarver, que morreu em 2017, aos 26 anos. O laudo descreveu ventrículo esquerdo aumentado e placas nas artérias do coração, e o exame toxicológico encontrou restos de trembolona. Desidratação, diuréticos e outras causas que pesam nessas mortes estão em por que fisiculturista morre cedo.

Por que essas mortes quase não entram na conta

No Brasil, não há dados sobre o número de mortes ligadas a anabolizantes. Parte do problema é técnica. O exame toxicológico procura substâncias que não deveriam estar no corpo, e a testosterona o próprio corpo produz. Por isso, flagrar o uso dela depois da morte é difícil. Anabolizantes sintéticos, como a trembolona, aparecem no exame com mais facilidade.

A outra parte é a zona cinzenta. O coração engrossado por uma doença genética e o engrossado por anabolizante se parecem, e os dois podem se somar: uma tendência genética que a substância faz avançar mais rápido. O atestado registra a causa imediata, uma parada cardíaca ou uma cardiomiopatia, e o vínculo com a substância se perde. É por isso que várias mortes de fisiculturistas chegam ao público com esse diagnóstico e sem a palavra anabolizante.

O risco para quem começa jovem

No mundo, cerca de 6,4% dos homens já usaram anabolizante alguma vez, segundo uma meta-análise de 187 estudos. Costuma-se dizer que o uso começa, em média, aos 14 anos. Os dados não confirmam: nos estudos americanos sobre idade de início, só 22% dos usuários começaram antes dos 20.

A preocupação com o adolescente que segue perfis fitness continua: ele compra de quem divulga e sem saber de onde vem o produto. Quem é bem jovem costuma demorar a sentir efeito colateral, se sente imortal e só percebe o dano quando ele já está instalado. Outros têm problema logo no começo. Não dá para saber de antemão em qual grupo a pessoa está, e por isso o uso funciona como uma roleta russa. O caminho dos homens jovens até o primeiro ciclo está em por que homens jovens usam esteroides.

O dano no coração tem volta?

Em parte. No coração de quem treina pesado sem anabolizante, a parede engrossada volta ao normal com a pausa. Em seis remadores e canoístas olímpicos, o septo, a parede entre os ventrículos, caiu de 13,8 para 10,5 mm depois de 13 semanas, em média, de treino reduzido. O dano causado pelo anabolizante é mais difícil de reverter.

Parar ajuda. No estudo com 140 homens, quem ainda usava tinha fração de ejeção de 49%, e quem tinha parado, de 58%. Mas parte do dano fica. Ex-usuários avaliados cerca de 30 meses depois de parar ainda tinham contração pior que a de quem nunca usou. Um estudo de 2024 encontrou a circulação dos pequenos vasos do coração alterada em 25,8% dos ex-usuários, contra 3,7% dos homens sem uso, e quanto mais tempo de uso somado, maior o risco.

Na prática clínica, o quadro pego no início costuma reverter. Quem já chega com insuficiência cardíaca avançada tem reversão bem mais difícil.

Conclusão

O uso de anabolizantes cresceu com as redes, o mercado ilegal e o corpo musculoso como padrão, e as mortes súbitas de fisiculturistas jovens se repetem. Os estudos mostram coração maior, mais infarto, mais insuficiência e morte súbita cardíaca como causa mais comum entre competidores. Nem todo usuário adoece ou morre, e não dá para saber quem vai adoecer. Quantas dessas mortes acontecem no Brasil ninguém sabe, porque o vínculo com a substância se perde no atestado.

O músculo aparece em semanas, e a conta no coração costuma chegar depois. Para quem usa ou pensa em usar, o acompanhamento médico mostra o dano cedo, quando a chance de reverter é maior.

Perguntas frequentes

Anabolizante faz mal?

Faz, e o risco cresce com a dose e o tempo de uso. Os efeitos mais graves são no coração: infarto, insuficiência cardíaca e morte súbita. Parte das alterações melhora quando a pessoa para.

Anabolizante pode causar cardiomiopatia hipertrófica?

Pode engrossar o coração de um jeito muito parecido. A forma clássica da doença é genética, mas o anabolizante faz a parede do coração crescer e pode acelerar um problema que já existia. Nos laudos, as duas causas são difíceis de separar.

Anabolizante aumenta o colesterol?

Piora. O HDL, o colesterol bom, cai, o LDL sobe, e a queda do HDL ainda aparecia seis semanas depois de parar.

Como o anabolizante funciona no corpo?

Imita a testosterona e acelera o ganho de músculo, inclusive no coração.

Quando surgiram os anabolizantes?

A testosterona foi sintetizada em 1935 e passou a ser usada como remédio para homens com falta do hormônio. As versões modificadas vieram depois.

Por que os anabolizantes são proibidos?

No Brasil, desde 2023, a Resolução 2.333 do CFM proíbe o médico de receitar anabolizante para estética, ganho de massa e desempenho esportivo, por causa dos riscos. A reposição para quem tem deficiência comprovada continua permitida.

Referências

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