Por que fisiculturista morre cedo? Por fora, o atleta parece indestrutível: músculo enorme, pouca gordura, cara de saúde extrema. Por dentro, um estudo com mais de 20 mil competidores mostrou que o ponto fraco é o coração. Entre eles, a causa isolada mais comum de morte foi a morte súbita cardíaca, e os profissionais morreram muito mais que os amadores.
O assunto voltou à tona em maio de 2026, com a morte do influenciador e atleta Gabriel Ganley, aos 22 anos, que o atestado de óbito atribuiu a uma doença do coração. O urologista e andrologista Claudio Guimarães, que também atua em medicina esportiva, usou o caso em "ESTAS SÃO AS PRINCIPAIS CAUSAS DE MORTE NO FISICULTURISMO!", no canal que leva o nome dele, para separar o que mata no esporte: anabolizantes, desidratação, estimulantes, insulina e doenças genéticas do coração.
O estudo de 20 mil fisiculturistas: o coração vem primeiro
O estudo saiu em 2025 no European Heart Journal. Os pesquisadores acompanharam 20.286 homens que competiram em eventos da federação internacional IFBB entre 2005 e 2020, por cerca de 8 anos em média. Nesse período, 121 morreram, com idade média de 45 anos. Foram 73 mortes súbitas: 18 por trauma, como acidentes, e 46 com causa cardíaca. A morte súbita cardíaca respondeu sozinha por 38% de todas as mortes.
O risco subiu com o nível de competição. Entre os profissionais, 2,8% morreram no período, contra 0,4% dos amadores. Na conta do estudo, que considera o tempo que cada um foi acompanhado, o risco de morrer por qualquer causa foi cerca de 5 vezes maior. Na morte súbita cardíaca, a diferença passou de 14 vezes. Só havia autópsia de 5 profissionais, e 4 deles tinham o coração aumentado, com a parede do ventrículo esquerdo espessada. Três dos 5 exames toxicológicos acharam anabolizantes. Os próprios autores avisam que tão poucas autópsias não permitem conclusões fortes.
Fora do palco, o coração também aparece como alvo. Um registro dinamarquês comparou quase 1.200 usuários de anabolizantes, flagrados no antidoping de academias, com quase 60 mil homens da população geral e acompanhou os dois grupos por 11 anos. Entre os usuários, o risco de infarto foi 3 vezes maior, o de arritmia, 2,3 vezes, e o de cardiomiopatia, a doença do músculo do coração, quase 9 vezes.
Exame de sangue não basta
É comum quem usa anabolizante acompanhar a saúde só com exame de sangue. Ele mostra hormônios, colesterol e fígado, mas não mostra o coração, e as doenças do coração são justamente a principal causa de morte. Os exames que avaliam o coração, como o eletrocardiograma e o ecocardiograma, costumam ficar de fora.
A diretriz brasileira de cardiologia do esporte sugere eletrocardiograma na avaliação de atletas profissionais e inclui o uso de anabolizantes no questionário médico. Mesmo o exame do coração deixa passar casos. Num rastreio com 11 mil jovens jogadores de futebol na Inglaterra, 6 das 8 mortes súbitas aconteceram em quem tinha exames normais. E no fisiculturismo ainda não há estudo que mostre quanto o rastreio reduz as mortes.
O que o anabolizante faz com o coração
O uso prolongado de anabolizante engrossa a parede do coração para dentro, a chamada hipertrofia concêntrica. A cavidade, onde fica o sangue, não cresce junto, e o ventrículo esquerdo perde a capacidade de relaxar e encher direito. Num estudo americano com 140 levantadores de peso, os usuários de longo prazo bombeavam menos sangue a cada batida: a fração de ejeção, a porcentagem de sangue que o coração empurra em cada contração, foi de 52%, contra 63% em quem não usava. Eles também tinham mais placa nas artérias do coração, e quanto maior a dose acumulada, maior a placa.
Em autópsias de usuários de anabolizantes, aparece fibrose, um tecido cicatricial no músculo do coração que o deixa mais rígido. Em usuários vivos, a ressonância pode não mostrar nada: num estudo dinamarquês com usuários e ex-usuários, ela não achou fibrose em nenhum deles. Pode haver fibrose, mas ela não aparece em todo mundo.
A pressão também sobe, e o anabolizante piora o funcionamento dos vasos, que perdem parte da elasticidade. Num estudo norueguês com 101 usuários de longo prazo, a pressão sistólica média foi de 141 mmHg, contra 133 em quem não usava, e cerca de 1 em cada 10 tinha a fração de ejeção em 40% ou menos, sinal de coração fraco, inclusive entre ex-usuários. O coração grande e alterado também tem mais risco de arritmia, um ritmo descompassado que pode ser fatal.
Parte do estrago volta ao parar. No acompanhamento do mesmo grupo norueguês, quem continuou usando manteve o coração grande e fraco, e a capacidade de relaxar piorou. Quem parou teve o músculo do coração diminuindo e a força de bombeamento subindo, até ficar perto de quem nunca usou.
Colesterol: o maior efeito é do próprio esteroide
A dieta de fisiculturista, com muita proteína animal e pouco carboidrato, pode levar bastante gordura saturada, que sobe o colesterol ruim (LDL). O efeito maior no colesterol de quem usa anabolizante, porém, vem da droga. Num estudo holandês, 8 a 14 semanas de ciclo derrubaram o HDL, o colesterol bom, em cerca de 60%, de 42 para 17 mg/dL, e subiram a Apo-B, que mede as partículas que entopem a artéria. O colesterol total nem mudou. Quem olha só o total no exame de sangue não vê o problema.
Coração de atleta não é coração doente
O coração é um músculo, e o treino também o faz crescer. Só que existe uma diferença grande entre o coração de atleta e a hipertrofia doente. O coração de atleta é uma adaptação: cresce por igual, a cavidade aumenta junto, o relaxamento continua normal e o tamanho diminui quando o treino para. A hipertrofia causada por droga ou por doença deixa o coração rígido e o adoece.
O GH também entra nessa conta. Na acromegalia, doença em que o corpo produz GH demais por anos, o coração aumenta e a cardiomiopatia é a principal causa de doença e morte. Nenhum estudo mediu esse efeito isolado no fisiculturista que usa GH junto com anabolizante. A suspeita vem do mesmo excesso de hormônio, mas a dose e o tempo de uso são diferentes dos da doença.
Desidratação na semana do campeonato
Na semana do campeonato, alguns atletas tentam secar a pele com estratégias agressivas: diuréticos, corte extremo de água e manipulação do sódio. Uma revisão sobre essa fase, a chamada peak week, concluiu que mexer com água, sódio e carboidrato tem pouco respaldo científico para melhorar a aparência no palco.
O maior risco é o potássio sair da faixa normal. Num relato de caso publicado em 2020 na Áustria, um fisiculturista de 22 anos que tomou diurético e restringiu líquido antes de competir chegou ao hospital com o potássio em 1,8 mmol/L, quando o mínimo normal é 3,4. Ele tinha o eletrocardiograma alterado e paralisia dos braços e das pernas, e se recuperou em 2 dias com reposição de potássio. O potássio também pode subir: um profissional que combinou diurético com suplemento de potássio teve uma alta perigosa, com alteração no coração. Os dois extremos podem causar arritmia fatal.
Os rins também sofrem. O profissional do potássio alto também teve o rim prejudicado pela falta de líquido. Há ainda relatos de lesão renal aguda, em que os rins param de filtrar direito de repente, ligada a anabolizantes e suplementos, e o estudo de 20 mil atletas registrou mortes por falência dos rins ou de vários órgãos.
Estimulantes e termogênicos
Muitos protocolos de definição incluem clembuterol, efedrina, cafeína em dose alta e hormônio da tireoide. Todos aceleram o coração. Uma revisão de casos de atletas que usaram clembuterol registrou taquicardia, fibrilação atrial, infarto, miocardite, cardiomiopatia e morte, e as complicações do coração foram as mais comuns. Nos Estados Unidos, os suplementos com efedra foram ligados a 10 mortes e 13 casos de incapacidade permanente em notificações à FDA, a agência americana de saúde.
O hormônio da tireoide e o clembuterol também derrubam o potássio. Um fisiculturista de 32 anos que usou tiroxina e clembuterol para competir chegou ao hospital três dias depois do campeonato com o potássio em 1,9 mmol/L e fraqueza muscular. O perigo é maior num coração que já está grosso e rígido por causa do anabolizante.
Cardiomiopatia hipertrófica: a doença genética que mata atleta jovem
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética em que a parede do coração engrossa de forma irregular, com as fibras do músculo desorganizadas. Ela atinge cerca de 1 em cada 500 pessoas, e muita gente não sabe que tem. A causa é genética: o anabolizante não cria a doença. O atleta parece saudável e treina pesado. No esforço intenso, o coração pode entrar em fibrilação ventricular, um tremor que para o bombeamento. Num registro americano de 1980 a 2006, a doença foi a principal causa de morte súbita cardiovascular em atletas jovens competitivos, com 36% dos casos. Nesse registro, 82% de todas as mortes cardiovasculares aconteceram durante treino ou competição.
No futebol, a morte de jogadores em campo costuma ser associada a essa doença. Num rastreio da federação inglesa de futebol, 7 das 8 mortes súbitas foram por cardiomiopatias, as doenças do músculo do coração em geral, e não só a hipertrófica.
No caso de Gabriel Ganley, o atestado de óbito registrou morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica, segundo o SBT News. A morte foi registrada como suspeita e investigada pela polícia, e não há laudo público sobre a origem da doença nem sobre a participação de qualquer substância. As histórias do atleta e do mercado em volta dele estão em caso Ganley: o ecossistema de coaches, marcas e anabolizantes e em Lei Ganley e o que mudou dois meses depois.
O fisiculturismo pode piorar a doença?
Provavelmente, embora ninguém tenha medido isso. Um coração com a doença genética pode sofrer mais com anabolizante, sobretudo quando se somam pressão alta, muito peso corporal, retenção de líquido, estimulantes e treino extenuante.
As duas coisas também se confundem no exame. Um estudo francês comparou levantadores que usavam anabolizante com atletas que tinham a doença genética: os dois grupos tinham o septo, a parede entre os ventrículos, espesso, mas com padrões diferentes de alteração no músculo. Por isso, só a investigação de cada caso separa uma da outra.
| Coração de atleta | Hipertrofia por anabolizante | Cardiomiopatia hipertrófica | |
|---|---|---|---|
| O que é | Adaptação ao treino | Efeito da droga | Doença genética |
| Como a parede cresce | Por igual, com a cavidade maior | Para dentro, com a cavidade igual ou menor | De forma irregular, com fibras desorganizadas |
| Relaxamento do coração | Normal | Pior | Pior |
| Ao parar o treino ou a droga | Diminui | Melhora em parte | Continua, porque é genética |
| Risco elétrico | Baixo | Aumentado | Maior, com risco de fibrilação ventricular |
Insulina: o risco da hipoglicemia
A insulina é usada por parte dos fisiculturistas para ganhar massa, e o risco imediato é a hipoglicemia, o açúcar no sangue cair demais. Numa série de 41 usuários de insulina sem diabetes, 56,8% relataram hipoglicemia, um perdeu a consciência, e quase todos usavam anabolizante junto. Há relato de fisiculturista que entrou em coma e demorou a acordar mesmo recebendo glicose. A hipoglicemia grave pode matar.
Quem usa costuma comer ou tomar dextrose logo depois da aplicação para evitar a queda. É uma tentativa de reduzir o dano, não uma garantia: fora do tratamento do diabetes, não existe dose segura de insulina.
Conclusão
O fisiculturismo é impressionante, mas é um dos esportes que mais forçam o limite do corpo. O que mais mata são as doenças do coração: a morte súbita cardíaca foi a causa isolada mais comum no estudo de 20 mil atletas, e os profissionais morreram muito mais. O risco cresce quando se somam anabolizante, estimulantes, desidratação, insulina e um treino extremo, e pode haver uma doença genética escondida por trás.
Para quem compete ou usa hormônio, o recado prático é olhar o coração, e não só o sangue: medir a pressão, fazer eletrocardiograma e ecocardiograma com um cardiologista e não esconder do médico o que usa. Desmaio, dor no peito, falta de ar fora do normal, palpitação e caso de morte súbita na família são motivos para procurar o cardiologista antes do próximo treino pesado. Para comparar o risco das drogas entre si, os anabolizantes também aparecem no ranking das drogas mais perigosas.
Perguntas frequentes
Por que fisiculturista morre cedo?
Principalmente pelo coração. Num estudo com 20.286 fisiculturistas, a morte súbita cardíaca foi a causa isolada mais comum, com 38% das mortes, e a idade média ao morrer foi de 45 anos. Anabolizantes, estimulantes, diuréticos e insulina aumentam o risco.
Do que morreu o fisiculturista Gabriel Ganley?
Segundo o atestado de óbito, citado pelo SBT News, de morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica. A morte foi registrada como suspeita e investigada pela polícia, e não há laudo público sobre a origem da doença nem sobre a participação de alguma substância.
Quanto tempo de vida tem um fisiculturista?
Não existe um número de expectativa de vida para fisiculturistas. No estudo com 20 mil competidores, quem morreu tinha em média 45 anos, o que é a idade de quem morreu, e não a expectativa de vida de todos, e os profissionais tiveram risco de morrer cerca de 5 vezes maior que os amadores no período estudado.
Qual é a principal causa de morte súbita em atletas?
Em atletas jovens, as doenças do músculo do coração. Num registro americano de 1980 a 2006, a cardiomiopatia hipertrófica respondeu por 36% das mortes súbitas cardiovasculares de atletas competitivos, e a maioria dessas mortes aconteceu durante treino ou competição. No fisiculturismo, pesam também o coração aumentado pelo anabolizante e os estimulantes.
O que é cardiomiopatia hipertrófica?
É uma doença genética em que a parede do coração engrossa de forma irregular. Atinge cerca de 1 em cada 500 pessoas, muitas sem saber, e pode causar arritmia fatal no esforço.
Qual exame detecta cardiomiopatia hipertrófica?
O eletrocardiograma pode levantar a suspeita, e o ecocardiograma mostra a parede engrossada. Em atleta, o desafio é separar a doença do coração de atleta, e às vezes é preciso fazer outros exames, como a ressonância do coração, com acompanhamento do cardiologista.
Como fisiculturista morre de hipoglicemia?
Pela insulina usada para ganhar massa. Ela derruba o açúcar no sangue, e a hipoglicemia grave pode levar ao coma e matar. Numa série de 41 usuários sem diabetes, mais da metade teve hipoglicemia e um perdeu a consciência.
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